segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Hotel Boa Esperança, Florestal
Que Mundo Maravilhoso!

Estou aqui em um hotel fazenda com a família da Ceci, para o Ano Novo. O lugar é muito agradável, a comida é boa e os funcionários são extremamente simpáticos. Mas cuidar do Gabriel full time em um lugar desses cansa pacas, e tivemos poucas oportunidades de fazer coisas mais fazendíssicas.

O lugar tem o seu charme. Existe um lago logo em frente aos nossos quarto, habitado por gansos, patos e capivaras (e formigas!). O Gabriel gosta de passear pelo gramado em frente, e se diverte perseguindo as pobres aves até as margens da água.

Como eu disse, a comida é boa, e extremamente mineira. Durante o jantar dois violeiros bastante competentes se apresentam com um repertório um tanto eclético. O mais velho não só se parece com o Louis Armstrong, como também consegue imitar brilhantemente a sua voz ao cantar 'What a Wonderful World'. Infelizmente suas habilidades linguísticas ficam bem aquém de seus dotes musicais. Imagine uma voz com o timbre do LA, acompanhada de um elegante dedilhado de violão, cantando:

"Aize feuds af grreem
redouses tuuu
Aize embroom
fo miniou
anadink tuu mizell
what a wonderfl wrld...
aidinj tuu mizell
what a wonderfl wrld...

[...]

Aize freends xique rnds
seing rawdgdu
zeirily seing ailuvu
anadink tuu mizell
what a wonderfl wrld..."

Oh yeah... O problema é que o cara é bom demais para estragar a música ou transformá-la em pura comédia. Talvez a melhor maneira de apreciá-la seja imaginar que esta é uma versão de 'What a Wonderful World' em um antigo dialeto frísio ou algo assim. Hoje consegui concatenar uma sesta pós-almoço do Gabriel com uma caminhada. Para os meus padrÕes, foi um passeio sem grandes percalços. Simplesmente segui por uma estrada de terra, e me embrenhei em um mato na primeira picada até chegar em um canavial. Encontrei então dois matutos com um sotaque absolutamente impenetrável (e digo isto como mineiro!), que me informaram de uma outra trilha mateira do outro lado
do canavial (a informação foi acompanhada de um aviso 'maicê oiabem quitem cobra. Numvaipisá nusmato seim vê naum, oia lá!'. Eu realmente devo estar na antiga Frisia). Segui a trilha, encontrando de forma um tanto inusitada um concha de molusco e uma frigideira de ferro batido, que preservo para a posteridade. Passei ainda por diversos cupinzeiros destruídos (provavelmente pelos matutos; destruir cupinzeiros deve ter um profundo significado ritual para o frigios), até encontrar outra estrada de terra. Seguindo pela mesma, passei por uma casa geminada com um curral, e encontrei novamente a estrada entre dois lagos que leva ao Hotel Fazenda. Após intimidar uma pobre capivara pelo caminho, retornei ao meu ponto de partida, para tomar uma merecida coca cola.

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sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Dia da independência

Hoje, muito ironicamente, é o dia da independencia do Líbano. É irônico porque o país nunca conseguiu escapar da sina de ser joguete e campo de batalha por procuração de seus vizinhos e quase-vizinhos. Hoje ele se encontra em uma encruzilhada, que pode leva-lo de volta ao, ou livrá-lo de vez do, sufocante abraço da Siria.

O bicho está pegando por lá. Essencialmente, os dois lados em que o pais se dividiu, conhecidos como 14 de Março (apoiados pelos EUA, França e Arabia Saudita) e 8 de Março (apoiado pelo Irã e pela Siria) não se entendem sobre a eleição do presidente do pais. O atual, Emille Lahoud, é um pau mandado sírio, e foi a extensão do seu mandato passando por cima da constituição local, que levou o ex-premiê Hafik Hariri a romper com Damasco. Os sirios controlavam o pais então, e não gostaram muito da ideia. Rafik Hariri foi vaporizado em uma enorme explosão no centro de Beirute poucos meses depois. Credito extra para quem adivinhar por quem.

O atentado galvanizou o pais. Uma mobilização popular sem precendentes (com alguma ajuda dos amigos*) pegou os sírios de surpresa, e os forçou a retirar suas tropas de ocupação. Desde então, para encurtar (e simplificar quase ao ponto de fábula) a história, o pais se dividiu entre anti-sirios e pró-sirios. Esta divisão, e todas as ramificações bizantinas dela decorrentes, é a mola mestra da historia recente do Líbano. A guerra do Hizbollah contra Israel, por exemplo, faz muito mais sentido neste contexto do que puramente no contexto do conflito arabe-israelense (c.f. meus posts anteriores sobre o assunto).

Algum dia Amanhã eu termino este post.
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* Em particular os americanos, cuja presença no vizinho Iraque, armados até os dentes e liderados por um presidente com fama de psicopata, provavelmente fez os baathistas em Damasco meditarem sobre o destino dos baathistas em Bagdá. Os sauditas, principais aliados dos Hariris, também não ficaram muito felizes, e ninguem gosta de irritar os sauditas.

PS: Caralho! Mataram a Benazir Bhutto!

RAWALPINDI, Pakistan (CNN) -- Former Pakistan Prime Minister Benazir Bhutto was assassinated Thursday outside a large gathering of her supporters where a suicide bomber also killed at least 14 of her supporters, doctors and a spokesman for her party said.

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terça-feira, 23 de outubro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Enfim, doutor

defesa_tese3-1Defendi...

Agora sou doutor. Vou dizer para o Gabriel me chamar de Dr. Papai.

É difícil descrever o que estou sentindo. Acho que ainda não assimilei tudo, é como se descobrir um dia 20 quilos mais leve.

A defesa correu muito bem. Falei bem como a muito tempo não falava, e a banca (acho) gostou muito da tese; não só por terem elogiado, mas por ficarem efetivamente entusiasmados com alguns dos resultados que eu mostrei.

UPDATE: A tese, online
UPDATE2: Agora com repercursão internacional ;-)

Vale a pena neste momento levantar minha genealogia acadêmica [1,2]. Sou

Bruno Mota (2007),
aluno de
Marcelo José Rebouças (1981),
aluno de
Mario Novello (1972),
aluno de
Josef Maria Jauch (1940),
aluno de

Edward Hill (1928),
aluno de

John Hasbrouck Van Vleck (1922 e prêmio Nobel em 1977),
aluno de
Edwin Crawford Kemble (1917),
aluno de
Percy Williams Bridgman (1908, e prêmio Nobel em 1946),
aluno de
Wallace Clement Sabine (1888),
aluno de
John Trowbridge (1873)

A historia termina (ou começa) com John Trowbridge, um cara que revolucionou o ensino de física em Harvard, e aparentemente não teve orientador. O seu aluno, Wallace Clement Sabine, fundou o campo de acústica arquitetonica (!) e, embora extremamente popular, nunca recebeu um doutorado formal.

Percy Williams Bridgman foi meu primeiro antepassado a receber um doutorado (em Harvard), e o primeiro prêmio Nobel. Ele estudou os efeitos da alta pressão em materiais e a sua respectiva termodnâmica. Se suicidou com um tiro quando sofria de uma doença terminal, e sua nota de suicídio, dizendo "It isn't decent for society to make a man do this thing himself. Probably this is the last day I will be able to do it myself.", passou a ser citada tanto por oponentes quando defensores da eutanásia.

Edwin Crawford Kemble começou a trabalhar com a física dita moderna (e teórica), em uma época em que as universidades americanas de ponta estavam em um processo de transição entre um enfoque quase exclusivo em física experimental, para um enfoque mais teórico.

John Hasbrouck Van Vleck foi o segundo laureado com o Nobel, por suas contribuições à teoria do eletromagnetismo. Saiu de Harvard para ensinar na universidade de Minnesota em Minneapolis, que formou todos os meus antepassados não-brasileiros desde então.

Em tempos mais modernos, Edward Lee Hill trabalhou sem aparente distinção em física quântica. Joseph Maria Jauch ficou famoso por seus estudos dos fundamentos filosóficos e axiomáticos da teoria quântica. A cosmologia só surgiu na minha arvore genealógica com o Mario Novello, um dos grandes cosmólogos do país, que orientou o Marcelo, meu orientador, que foi um dos pioneiros da topologia cósmica por aqui. E eu sou eu. Saber de onde viemos é importante para decidir para onde vamos. Neste sentido, é impressionante a variedade de tópicos pesquisados por meus antepassados nestes últimos 134 anos.

Eu, meu orientador e a banca


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sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Defesa

Doutorado

Detecção e detectabilidade em topologia cósmica

Local: CBPF - Auditório do 6º andar - 15 horas
Início: 22/10/2007
Fim: 22/10/2007

Candidato:
Bruno Coelho César Mota

Banca examinadora:
Prof. Marcelo José Rebouças - Presidente/Orientador - CBPF
Prof. Carlos Augusto Romero Filho - UFPB
Prof. Ioav Waga - UFRJ
Prof. Antonio Fernandes da Fonseca Teixeira - CBPF
Prof. Nelson Pinto Neto - CBPF
Prof. Sérgio José Barbosa Duarte - Suplente - CBPF

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domingo, 14 de outubro de 2007

Casa do cunhado, Barueri
Groundhog night

Estou em Barueri, onde mora o irmão da Ceci (Alexandre) com a esposa (Flávia) e filho (João, que está fazendo dois anos, e é a razão principal da visita). Eles moram em um agradável porém ridiculamente pacato condomínio fechado, então não posso dizer que estou convivendo com culturas exóticas e situações extremas. Tentando na medida do possível remediar tamanha paz, resolvi ontem sair para passear (a pé) por volta das 3 da madrugada. No Rio, onde é tranquilo de noite não é seguro, e onde é seguro de noite não é tranquilo; então posso dizer que estou aproveitando uma oportunidade única de ter tranquilidade e segurança em um passeio insone. Talvez felizmente, isto soa melhor em um blog do que em uma brochura turística.

De qualquer maneira, o passeio ontem foi agradável. Uma das facetas da placidez local é que todas as ruas tem nomes de pássaros e são praticamente indistinguíveis. Assim, obviamente, após vagar por cerca de meia hora, eu estava vagamente perdido. Por sorte, atraí as suspeitas de um segurança de carro, que após passar por mim várias vezes em baixíssima velocidade, finalmente parou e me interpolou.

´Não, eu não sou morador.´
´Sou hospede, mas não sei exatamente onde.´
´É uma rua com nome de pássaro (duh!). Colibrí ou algo assim.´

Eu tenho um certo talento para fazer coisas absolutamente inocentes em circunstâncias que levantariam suspeitas em qualquer pessoa com alguma imaginação ou acesso à televisão (´passeio noturno´? ´folha de bananeira´? Espera até o Capitão Nacimento ouvir isto). Obviamente o guarda foi descobrir quem diabos era este tal ´Alexandre´ (eu sei o sobrenome, pelo menos). Imaginei o dito cujo sendo acordado pelo telefone as 3:30 da matina com perguntas sobre um certo Bruno, o Andarilho. Imaginei também a sua concomitante e potencialmente irresistível tentação de dizer - ´Bruno? Nunca ouví falar...´

Felizmente o guarda só confirmou a existência do Alexandre, o Morador, e da alameda correta (Curió, não Colibri), e ainda me ofereceu uma carona (daí a tal sorte, já que de outra maneira eu provavelmente andaria por um bom tempo até achar a casa certa).

Hoje resolví repetir a dose; mas desta vez de forma ainda mais característica. Peguei uma bicicleta emprestada, e sai pedalando. O condominio é cortado por uma série de suaves vales arborizados, e as descidas eram tão agradáveis quanto eram penosas as subidas. Fui longe desta vez, passando por diversas casas de explendor e gosto variáveis (mas nada parecido com certos horrores que povoam o Mangabeiras e o Belvedere, em Belo Horizonte). Não estava atrás de uma vista ou local específico (embora tenha apreciado, do topo de uma colina, uma visão previlegiada de Baruerí; não é exatamente Paris, mas dá para entreter), queria só aproveitar a noite. Na volta, após uma subida mais brava, parei para descansar um pouco. Eis que me aparece, poucos momentos depois, o meu amigo segurança! Sem suspeitas aparentes desta vez, ele me reconheceu de imediato, e me informou jovialmente que a rua Curió estava longe e não era, de todo modo, fácil de achar. Me despedi da figura, e continuei pedalando. Obviamente não achei a &¨#*&¨# da Alameda Curió, mas cruzei novamente com meu amigo diversas vezes. A cada encontro, ele me fornecia complicadas orientações para chegar na Curió (1a esquerda, 5a direita, 1a direita de novo, 2a esquerda, vira depois do quebra mola, etc.). Após seguir tais instruções, eu invariavelmente chegava em uma alameda com o nome de algum outro pássaro (que eu então imediatamente imaginava assando em um espeto como forma de terapia). Quando cheguei em uma tal de Alameda Quetzal, apelei. Ví um carro saindo de uma garagem, e parti em perseguição. A senhora no carro, única ocupante, não só não me respondeu com um taser ou spray de pimenta, como se ofereceu para me levar até a maldita Curió. E lá foi ela, alegremente por subidas e decidas, enquanto eu pedalava furiosamente atrás. A primeira alameda em que me levou, por engano, era Canário (ou Avestruz, ou Tucano, ou Siriema; eu estava entretido demais com meus pensamentos de holocausto ornitológico para me importar). Combinamos então que ela iria fazer um reconhecimento avançado, achar a ave maldita, e voltar para me pegar. Eu temia que ela fosse tragada pela mesma anomalia espaço-temporal que sugara a Alameda Curió (ou aproveitasse a deixa para alertar a segurança). Porém, fiel a sua palavra, ela voltou, e me conduziu finalmente, toleravelmente são e completamente salvo, até a Alameda Curió.

Não me arrependo do passeio. Foi certamente a coisa mais inusitada que eu poderia viver aqui em Baruerí.

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sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Hotel Hardman, João Pessoa
Vida de Hobbit


Estou a três dias aqui em João Pessoa, onde ocorre o 3o IWARA, em um hotel com o improvável nome de 'Hardman'. Em todos os aspectos, esta está sendo um congresso melhor que o Partículas e Campos. Academicamente, um encontro menor permite uma maior interação com os demais participantes, a comida é melhor e mais diferente, e, finalmente, ao contrário da pasmaceira de Aguas de Lindoia, estou aqui a poucos passos da praia, e a alguns quarteirões de barraquinhas de camarão e outros petiscos. Finalmente, apesar de comer muito (em volume e frequência), não tive até agora nenhum problema, afora o ocasional campo escalar gastrointestinal. A pizza em AdL é por enquanto somente uma triste e distante memória.

Os seminários foram em geral muito bons, com alguns excelentes. Porém, assim como no IWARA anterior, certos tópicos são apresentados de forma excessivamente remota ou insular, e alguns seminaristas são preguiçosos demais para valerem a pena. Nesta última categoria, incluo alguns com um inglês macarrônico demais ('nau ui uíu prêsenti aur rêsultis uitchi xôu the iuniverse iz noti ax-selerátim in the Ruble diagram'), ou cuja apresentação só pode ser entendida por quem lê mentes ('No problema do confinamento de quarks/energia escura/relatório do mensalão usamos o formalismo TKGU para derivar a equação de Tchulambisky segundo o método de Crapoviski & Chuchubilinski. Introduzindo uma parametrização HFM, ajustamos os 15 parâmetros livres aos 4 pontos experimentais, para mostrar que a equação de estado/curva de luz/careca do Marcos Valério é crescente/decrescente/continua a mesma').

Fora a parte científica, estamos vivendo uma vida de Hobbit. No dia em que chegamos (dia livre!), após a praia, fomos andar um pouco. João Pessoa é uma cidade pequena, mas bem cuidada. O primeiro jantar da noite consistiu de camarão frito, carangueijo (aberto a marteladas), e uma sopa de ovas de peixe com leite de coco. O segundo jantar foi no hotel, e um tanto decepcionante. Saimos novamente para andar, e terminamos a noite com um leve terceiro jantar de feijões verdes e carne seca. Na noite seguinte, fomos na versão local do Xapuri, um self service com dezenas de pratos de comida local. No caso, incluindo diversas permutações de feijão verde, carne de sol/seca/charque, bode, macaxeira, queijo coalho e manteiga, abóbora, etc.

Passamos assim (eu, a Mariana e o Sandro, e as vezes o Marcelo) um bom tempo com o Glenn Starkman, que se revelou não só ótima companhia como também um rematado pé de valsa. Além dele, também conheci várias outras pessoas divertidas e interessantes; acho que o ambiente aqui favorece a interação, em grande parte devido à praia. Não há nada comparável a sair de um seminário direto para a o mar, ou ler um paper (ou livro, ou jornal, ou embalagem de oleo vegetal) deitado em uma canga embaixo de um coqueiro.

Hoje é o meu último dia, e pego um vôo na madrugada de volta para o Rio. Fizemos um passeio pela parte histórica da cidade (a praia é aparentemente ahistórica ou anti-histórica). O mosteiro de São Francisco é surpreendente, com uma arquitetura barroca que talvez não apresente grandes novidades para quem já foi várias vezes à Ouro Preto, mas também com uma vista espetacular do rio, e uma coleção de arte popular genuinamente interessante. O meu único arrependimento é não ter visitado a praia fluvial de Jacaré (da foto (puramente ilustrativa), que não é minha), onde o rio e o mar se encontram. Dizem que um saxofonista toca o bolero de Ravel todo dia ao por do sol...

Agora estou esperando o povo ligar para irmos comer o primeiro jantar (no hotel), em preparação para o segundo (em uma barraca de frutos do mar a beira idem). Vida dura...

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"Bayeux é cidade de corno. Dizem que se você jogar umas argolas para cima lá, não cai uma no chão"

João Carlos, autor da frase acima e motorista do taxi que nos levou para o passeio no centro da cidade, também me trouxe no aeroporto, que fica na pequena cidade de Bayeux (homônima de uma cidadezinha na Normandia, palco do Dia D, e onde foi tecida a famosa tapeçaria de Bayeux). Ele mora a 30 anos em JP, e conhece bem a cidade e sua história. Em particular, ele adora falar sobre a morte de João Pessoa, presidente da Parayba (equivalente a governador hoje), assassinado por razões politico-amorosas por seu rival, João Dantas. A inevitável 'mulher no meio' era (segundo ele) amante de JP, mas se debandou para o lado de JD, cortando o cabelo como homem para passar desapercebida (e dando origem aos versos 'paraiba masculina mulher macho sim senhor'). Em retaliação, JP fez publicar na imprensa alguns podres de JD. Este último, ofendidíssimo, jurou matar JP na primeira oportunidade. Tempos depois, em Recife, JP saia pela porta dos fundos de um café (possivelmente para evitar assassinos entocaiados), quando coincidentalmente JD entrava, também pelos fundos (dando origem a algumas dissertações de mestrado historico-freudianas, suponho). Este sacou mais rápido, e aquele caiu morto. Pelo menos é o que o motorista de taxi me disse. Não sei o quanto disso é verdade, mas é uma historia interessante.

PS: Publiquei também um post que havia escrito em Águas de Lindoia, na rodoviária onde não havia internet, e fiz um update no post escrito na rodoviária de São Paulo. Estou me sentindo a versão rodoviária do Paul Theroux
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No caminho para o restaurante de peixe ('Olho de Lula'), parei para comer um acarajé, e acabei conversando com um simpático senhor que fazia o mesmo. Ele tem um site devotado ao estudo e discussão sobre o estado da Paraiba, que pode ser encontrado aqui.

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sábado, 29 de setembro de 2007

Ônibus, BH
Programa de milhas rodoviárias

Estou no ônibus para o aeroporto, de onde pego um voo para o Rio. Estou aproveitando um wi-fi aberto dando sopa na vizinhança; mas fico também muito feliz de este ser o último ônibus que vou pegar por um bom tempo. Mais ainda, acho que o estado de São Paulo devia criar um programa de milhagem rodoviária. De terça até ontem, fiz de ônibus Rio-Campinas-[várias cidades do interior paulista]-Lindoia-Aguas de Lindoia-[outras cidades do interior paulista]-São Paulo-BH. Acho que vale um trecho grátis Jundiaí-Piracicaba.

UPDATE: Fiz um mapa com as paradas. A ida em azul, e a volta em vermelho.

Rio - Aguas de Lindóia
Rio de Janeiro
Campinas
Jaguariuna
Pedreira
Amparo
Serra Negra
Lindóia
Aguas de Lindóia

Águas de Lindóia - Belo Horizonte
Águas de Lindóia
Lindoia
Serra Negra
Amparo
Morungaba
Itatiba
Jundiai
São Paulo
Belo Horizonte

(e hoje, BH->Confins->Galeão->casa)

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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Rodoviaria, São Paulo
O roteiro das rodoviárias

Cheguei finalmente aqui em SP, em conexão para BH. Haviam me dito que a viagem de Águas de Lindoia até aqui demorava 2 horas. Suponho que demore, se o ónibus não fizer um tour pelo circuito das cidades ordinárias com nomes indígenas. Passei quatro horas me extasiando com a arquitetura das rodoviárias de cidades notáveis pela sua falta de característica notáveis, e dobrando o meu vocabulário em Tupí-Guaraní. Finalmente em Sampa as 10:30, tentei falar com o Fernando, com quem havia combinado de sair ´por volta das oito´. Argh... É o último congresso que vou em Águas de Lindoia. Vc perde um dia inteiro para ir para, e outro para voltar de, um nada no meio do nada.

No trecho final, entre Jundiaí e Sampa, até que rolou um papo legal com uma fonoaudióloga e uma pedagoga. Existem mais pessoas com quem valha a pena conviver do que físicos de partículas e campos radicados no interior de São Paulo.

Aqui na rodoviária, entabulei um papo com uma velha mendiga. Muito interessante a conversa, sobre uma faceta da vida urbana com a qual temos muito pouco contato. Me lembrou muito a segunda parte do ´Down and out in Paris and London´, do George Orwell, quando ele volta para Londres e passa a viver em Albergues com horas esdruxulas e comer cozidos de *.* em sopões municipais. Uma pessoa assim tem tão pouco controle sobre a própria vida que deve ser difícil distinguir realidade da paranóia. É difícil saber o quê exatamente aconteceu quando ela diz:

'É os bandidos meu fio. São os bandido. Eles vem de moto. Eu fui para
Jundiai, depois para Franco da Rocha, depois para Itatitiba e depois
Bragança e eles vem atrás'

Assim como nos tempos do Orwell, mendigos viajam bastante. Além das
cidades acima, a minha amiga já havia estado em BH e no Rio (um lugar,
segundo ela, muito mais seguro que São Paulo e com uma população mais amigável e solidária). Fundamental na sua avaliação de cada
município era a qualidade do(s) abrigo(s) e albergues. É meio
deprimente constatar que, apesar da proximidade física intrínseca à
vida urbana, eu e a minha amiga vivemos quase que em universos
paralelos.

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Rodoviaria, Aguas de Lindoia
Pé na estrada

No post anterior eu disse onde estava, mas não por quê. Estive aqui
para o XXVIII Encontro Nacional de Física de Partículas e Campos.
Cheguei aqui na terça de manhã, após ir (de onibus) do Rio para Campinas, de Campinas para Lindoia, e de Lindoia para Aguas de Lindoia. Estava, obviamente, destruido (na noite seguinte, dormi quase 12 horas seguidas). Não ví nenhum seminário particularmente interessante no primeiro dia (mas é difícil saber o quanto isto se deve ao meu estado morto-vivo), mas encontrei algumas pessoas que valem a
pena.

A quarta foi o dia mais interessante, academicamente falando. As duas plenárias 1,2 foram não só estimulantes e didáticas, mas também complementares. Ambas começaram do mesmo ponto: a dualidade na eletrodinâmica entre as descrições de Faraday, com linhas de campo, e de Maxwell, com equações diferencias parciais locais. Mas enquanto o
primeiro usou isto para motivar a(s) teoria(s) de cordas, o segundo abriu caminho na direção da Loop Quantum Gravity. Foi uma congruencia curiosa, já que existe um conflito meio bairrista entre o pessoal de cordas e de LQG, o mais perto de um FlaFlu que a física elementar tem. Assisti também uma das paralelas 3, sobre plasma de quarks e gluons. É impressionante como uma palestra bem dada, mesmo sobre um
assunto que eu não entendo bem, pode ser interessante. De forma análoga, uma palestra sobre um assunto que eu entendo muito mais, a supernova 1987A, quase induzia ao suicídio de tão chata.

Na quarta a noite saí com um bando de físicos para tomar cerveja/coca cola. Mais do que vazia, AdL parecia então quase assombrada. Uma matilha nos seguia por ruas desertas e lojas fechadas (e isto as 9 da noite!), até acharmos um bar aberto. Os cachorros então se deitaram no meio da rua em formação defensiva, e se alternavam na perseguição de eventuais motoqueiros temerários o suficiente para passar perto. Eu,
de forma totamente típica, decidi comer uma pizza de calabresa (já havia jantado, mas pizza é pizza). Voltei então para o hotel para terminar minha apresentação.

AS 4 da manhã, terminei de preparar a apresentação, e meu estomago já fazia protestos ruidosos. Passei a noite em luta encarniçada com a pizza, e saí do quarto, ainda um tanto trêmulo, diretamente para a minha sessão. Acho que me saí bem; a comunicação foi bem aceita, dentro do tempo, e com uma série bem estruturada de slides. Talvez
menos compreensível para a plateia, alheia a meus tremores peristálticos e turbilhões gástricos, foram os ocasionais grunhidos, e a minha maneira meio Clint Eastwood de falar por trás de dentes cerrados.

O resto do encontro transcorreu sem maiores transtornos ou sobressaltos; a pizza passou gradualmente desta para a melhor, e eu voltei a passar mais tempo fora do banheiro do que dentro dele. Escrevo agora sentado na pituresca rodoviária da cidade (sem wi-fi, ao contrário de Campinas), onde espero um ônibus que me levará até São
Paulo, onde pretendo me encontrar com o Fernando e o Kosta. Irei em seguida para BH. Chego lá na sexta de manhã, e volto para o Rio de avião no Sábado.

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1 Rajesh Gopakumar (Harish-Chandra Research Institute – India) - From
Fields to Strings
2 Lee Smolin (Perimeter Institute, Canada) - Emergence of chiral
matter from quantum gravity
3 J. Takahashi (UNICAMP) - Quark-Gluon Plasma, a perfect liquid from RHIC to LHC

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terça-feira, 25 de setembro de 2007

Hotel Majestic, Aguas de Lindoia
De bicicleta para a fama

Domingo passado fiz um almoço para o Bernardo, Carla e Júlia, que voltaram recentemente de Londres, para a Naira, e que contou com uma participação especial da Suzana, Carlos, Luquinha e Lulu. Fiz quase o mesmo menu do jantar na casa da Mari, exceto pela falta do risoto e acréscimo do crepe de nutela com calda de laranja (havia feito crepes no sábado tb).

Após acordar, tomar café e reassumir a minha condição de ser humano, saí de bicicleta com o Gabriel para dar uma volta na Lagoa e comprar os ingredientes. Era uma dia tranquilo, e fiquei só ligeiramente surpreso quando vi um jogo de baseball em curso perto do corte do Cantagalo. Fiquei um pouco mais surpreso com dois hoplitas, muito bem paramentados com couraças, elmos crinados, escudos estampados com górgonas e lanças, treinando na grama ao lado da ciclovia. Inevitavelmente, parei para perguntar o que diabos era aquilo, meio esperando ser chutado lagoa adentro por um dos hoplitas aos gritos de 'This is Espaaartaaaaaa!!!!'.

Quebrando um pouco o clima, aquele que parecia ser o líder dos myrmidons ersatz me disse amavelmente que eles eram um grupo de recriação histórica (como e.g. a SCA), que treinavam todo sábado, e ainda que eu seria muito bem vindo. Tenho que admitir que fiquei bastante tentado. Adoro a ideia de atingir os amigos com instrumentos pontiagudos e ainda chamar isto de esporte.

Andando mais um pouco, vi um casal em animada conversação em um pier, enquanto eram filmados por uma equipe completa. Imaginei que fosse alguma cena de novela; mas a conversa rendia e rendia, sem nenhuma acrimônia aparente, o que me parecia bem pouco típico para o padrão Globo (ou Record, ou Televisa) de melodrama. Meus devaneios foram interrompidos, porém, pela cesta da bicicleta, que sem dar explicações resolveu se soltar e bater de forma barulhenta no chão. Consegui com algum esforço retirar o Gabriel da bicicleta e levá-la até a grama. Com a simpática ajuda de uma moça que fazia parte da equipe de filmagens e o auxílio material de funcionários do quiosque próximo, improvisei um conserto McGuyveriano com um pouco de arame e meu canivete. Enquanto agradecia pela ajuda, inevitavelmente ('é minha natureza', como diria o escorpião na fábula) perguntei à moça o que eles filmavam. Era um programa piloto dedicado a bicicletas, ela me disse. Obviamente, achei a ideia interessante, e mencionei de passagem que eu não só gostava muito de bicicletas, como as usava para ir trabalhar. Foi a vez dela de ficar animada. 'Será que você poderia' - ela perguntou - 'nos dar uma entrevista?' Respondi que sim, imaginando uma ou duas perguntas rápidas. Mas a ideia dela, um tanto mais elaborada, era me filmar saindo de casa, e chegando no trabalho, e depois me fazer algumas perguntas. Tudo bem. A equipe iria lá em casa na segunda feira, e (imaginei) em 15 ou 20 minutos teriam as imagens e respostas que precisavam.

Eles chegaram, como combinado, as 9 da manhã. A minha condição humana ainda era um tanto precária quando fui recebe-los.

"Então você coloca o capacete e filmamos você enquanto se prepara"

"Err... Eu não costumo usar capacete na ciclovia, e a minha preparação consiste de pegar a bicicleta e sair pedalando"

"Mas onde você leva as roupas de trabalho?"

"hmmmmm, quando está muito quente eu levo uma camiseta extra, mas eu trabalho assim mesmo [de bermuda e chinelo]"

Não sei se eles ficaram decepcionados por não conseguirem imagens a lá Rambo de um atleta-filósofo colocando capacete, sapatilhas, camiseta de microporos, medidor cardíaco, GPS, faca, M-60, granadas (talvez não esperassem estas últimas). Mas eu precisava de um capacete, para dar o exemplo (no que alias eles têm toda a razão), e um capacete foi providenciado.

A entrevista foi bastante simples. Acho que a ideia é que eu fale em off (tipo no final original de Blade Runner!), então só minha voz foi gravada, enquanto eu discorria sobre as diversas vantagens da bicicleta e tentava não dizer nada de muito bizarro.

A primeira cena, na qual eu fazia o papel de "Bruno Mota, um físico que vai de bicicleta para o trabalho", consistia em colocar o capacete, retirar a corrente, e sair pedalando da garagem. Me enrolei com a corrente na primeira tomada, sai muito rápido na segunda, mas acertei na terceira. Em seguida, uma tomada na qual nosso intrépido herói segue pela Bartolomeu Mitre e atravessa a Ataufo de Paiva. Depois, combinamos de nos encontrar em frente ao posto 9, para que me registrassem pedalando pela ciclovia em Ipanema. Finalmente, nos encontramos no CBPF, onde os confusos seguranças me viram entrar e sair pela portaria principal três vezes seguidas. Pendurei então a bicicleta no bicicletário (duas vezes), e nos despedimos.

No final, a coisa toda demorou muito mais do que eu esperava. Na minha inocência, achei que um segmento de alguns poucos minutos demoraria outros tantos para ser filmado. A equipe toda foi extremamente simpática, e um programa sobre bicicletas certamente é uma ótima ideia. Eles ficaram de me mandar uma cópia quando a edição ficar pronta, mas não há ainda uma data ou emissora para anunciar. Vamos ver como me saí.

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sábado, 1 de setembro de 2007

Gerador de escudo, Lua florestal de Endor
Star Wars Simpsons

Fantástico! Agradecimentos ao Luiz Pimenta


(Rich Cando)

UPDATE: Segundo o youtube, This video is no longer available due to a copyright claim by Twentieth Century Fox. Que coisa estúpida! Em primeiro lugar, isto não é verdade (paródias são explicitamente permitidas pela doutrina de fair use; ninguem pensa em proibir o Spaceballs, e os Simpsons certamente usam e abusam do gênero). Além disso, um video destes é um comercial pro-bono de alta qualidade para dois franchises da Fox! Não é a toa que a industria de 'entretenimento' está enfrentando problemas, pois ela é claramente liderada por imbecis.

UPDATE2: Achei um link que ainda funciona. Vamos ver quanto tempo dura.

UPDATE3: O plantão do ml42 informa: O Pavarotti morreu. Não fui eu, tenho um álibi!

UPDATE4: Minesweeper the Movie
Brilhante!

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sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Casa, BH
Gone, but not forgotten

Eu já estudei ou visitei alguns departamentos acadêmicos excelentes. Encontrei pesquisa de qualidade, bons professores, equipamentos de ponta, localizações paradisíacas. Mas em termos de pura classe, nenhum supera a física da UFMG. Sexta passada fui ver um seminário (pré-defesa) da Mariana Malard. E foi com grata surpresa que me deparei não só com uma palestra sobre os modelos de Heisenberg e sigma não-linear, mas também com um verdadeiro convescote ocorrendo em paralelo dentro da sala de seminários. Entre um gole e outro de cerveja, os presentes faziam comentários pertinentes, enquanto circulavam biscoitos e salgadinhos.

Qualidade acadêmica pode ser atingida com alguns esforço. Mas classe é algo inato.

Depois do seminário, fomos para a casa da Mari, e eu e o Pará fizemos um jantar discente decente (porque não só de Elma Chips vive o ser humano). Quando as receber postarei as fotos.

UPDATE: Graças ao Pará (nos comentários), clique abaixo para as fotos

Depois da comida, uma pausa para a digestão
Mortos e feridos II
O famoso monte Mauna Homer. No momento da foto, já se ouviam os ruídos do fluxo piroclástico
Não tiramos fotos da comida, mas a cozinha parecia Nova Orleans pós-Katrina
Enquanto meditávamos na sala, a Mari deu um jeito na cozinha

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terça-feira, 14 de agosto de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Mais comida


Hoje resolvi fazer um jantar para comemorar o fim iminente da tese. Meu plano original era chamar a comunidade mineira expatriada (CME), mais a Naira (de SP, que se mudou para cá após ser contratada pela Petrobrás), e Vital & Vanilson, que estão hospedados por aqui. A CME, porém, está quase toda viajando (expatriados em segunda ordem?), e só o Thiago pode comparecer.

De qualquer maneira, acabei fazendo mais pratos que o de costume, e a comida saiu tarde (+-11:20), mas acho que ficou bom. O filé com molho e gnocchi de abóbora, em particular, é uma combinação que pretendo repetir. Finalmente, tanto no risoto quanto no gnocchi, troquei o queijo parmesão por pecorino (de ovelha).


O Menu:

- Tomate recheado com alho poró e shitake

- Gnocchi de abóbora (peguei a receita aqui)

A receita é ótima, mas a minha execução quase acabou em disastre. Acho que não escorri a agua da abóbora direito, e a massa ficou com pouca liga. Consegui com alguma dificuldade separar em pedaços discretos cobertos de farinha para jogar na agua fervente. Mas depois de cozidos os gnnochis (ceribroformes!) preservaram sua indivualidade, e ficaram uma delicia (ainda mais quando regados com o molho da carne).

- Filé marinado, assado, etc.

Mais fácil descrever do que nomear. Deixei um filé marinando em vinho branco + limão + alho moido + pimenta rosa + pimenta do reino + alecrim + tomilho + sal grosso. Coloquei para assar de mansinho (170 graus), regando o filé o tempo todo com o caldo. Após uns 30-40 minutos passei o filé em em uma panela grande com um pouco de azeite e ramos de alecrim. O restante do caldo (já então enriquecido com o caldo da carne), usei para fazer o molho*. Retornei o filé ao forno alto por mais 5 minutos, juntando rodelas de batatas e cenouras cozidas no vapor e temperadas com cominho e um pouco de manteiga.

_______________
* O molho: Frite um pouco de alho, junte vinho tinto e uma concha do caldo do risoto (ou agua), e cozinhe até sumir o cheiro de alcool. Adicione o caldo da carne (obtido tanto da forma em que ela foi assada quanto da panela em que foi passada no azeite). Adicione salsa bem picada, folhas de tomilho e alguns ramos de alecrim. Finalize com um colher de manteiga batida com um pouco de farinha de trigo (para engrossar).


- Risoto de cogumelos portobello e aipo.

Não tem muito segredo para fazer o risoto, só seguir este template e mudar os ingredientes. Este eu fiz pela primeira vez mês passado em Itaipava, na casa do Pedro (colega da Ceci). Mas sempre vale a pena fazer um caldo mais gostoso que um cubo maggi dissolvido, reaproveitando os restos dos demais pratos. No caso, peguei uns pedaços de frango que encontrei abandonados na geladeira, cenoura e aipo picados, e os talos dos cogumelos, e fritei em fogo muito baixo no azeite, até caramelizar (que é muito perto de, mas muito melhor que, queimar). Limpei o fundo da panela com vinho, e coloquei a sopa resultante para ferver com agua e um cubo maggi (não há nada de errado com eles, são só caldo de frango).

No final das contas, tudo acabou dando certo (no caso da carne e do molho, muito certo; o filé ficou naquela situação ideal em que o exterior é bem passado, e o interior mal passado e suculento). O Vital tirou fotos, que colocarei aqui assim que possível.

O 3o post sobre a tese vai ter que aguardar a minha digestão ;^).

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terça-feira, 7 de agosto de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Introdução II

Clique aqui para ler a parte I

Eis a segunda parte da introdução. Fernando e Anon, me digam se ainda fica a impressão que manifestaram. Note que estou agora focalizando o problema da topologia cósmica, mas só disse em linhas gerais quais serão os tópicos abordados na tese. Só na parte III (amanhã?) eu apresento as questões que vamos de fato investigar.




Atualmente, existem fortes razões para acreditar que o universo é, em grandes escalas, aproximadamente igual em todos os pontos, e em todas as direções, e bem descrito pela teoria da relatividade geral de Einstein. Neste contexto, a geometria das seções espaciais do espaço-tempo admite diversas topologias diferentes. É muito comum pressupor que esta topologia é sempre a mais simples possível (onde por exemplo toda curva fechada pode ser sempre contraída em um ponto). Mas não há nenhum imperativo observacional ou teórico para tal hipótese. Sabemos que a relatividade, apesar de todos os seus triunfos, também tem limitações. Em particular, como uma teoria geométrica local, ela não fixa como o espaço se conecta globalmente, o que é uma maneira coloquial de dizer que a relatividade determina localmente a geometria, mas não a topologia. Mais do que uma limitação, este fato indica que a topologia cósmica é, possivelmente, a janela para alguma teoria mais fundamental capaz de fixá-la. Em termos observacionais quantitativos, a presença de uma topologia não-trivial para o universo não seria particularmente importante. Mas a sua existência, e natureza exata, seriam as primeiras evidências diretas de uma física transelativística. A questão que se impõe é portanto: o que sabemos, ou podemos descobrir por observações, sobre a topologia cósmica? É uma questão que deve levar em consideração uma característica do estudo do universo como um todo.

A cosmologia é, assim como a história, uma area do conhecimento humano que tem a distinção de ter como objeto de estudos a evolução temporal um único elemento, por definição irreproduzível, dentro do qual os próprios investigadores estão inseridos. E, assim como a história, a cosmologia consiste em bem mais do que mera tabulação seqüencial de eventos importantes. Almejamos explicar por que o universo é exatamente como o observamos, e não de outra forma, usando um conjunto de leis universais aplicáveis em todos os lugares e em todas as épocas. Mas nossa capacidade de observação é limitada por nossa posição no espaço e no tempo. Nada garante que podemos, ou jamais poderemos, ver todo o universo. Assim, o conhecimento do cosmos, embora baseado em observações, deve ser sempre temperado pelo entendimento das limitações do que é possível conhecer.

Um questão fundamental ainda em aberto na cosmologia é saber se o universo é finito ou infinito. De forma mais geral, podemos nos perguntar: qual é a forma do universo? Como não existe, por definição, um observador externo a observá-lo, esta questão demanda uma certa sutileza para ser bem posta. Um bom começo é reformular ligeiramente a pergunta: de quantas maneiras diferentes dois pontos podem ser ligados? Em uma folha de papel extendida sobre uma mesa, dois pontos podem ser ligados por todo tipo de curvas complicadas; mas estas podem ser sempre deformadas suavemente no segmento de reta que representa a menor separação entre os pontos. Mas a mesma folha, quando enrolada sobre si mesma, forma um cilindro. Dois pontos em um cilindro podem ser ligados por curvas que dão zero, uma ou mais voltas em torno de seu perímetro; e para cada curva este número de voltas não pode ser alterado por qualquer deformação suave. Em linhas gerais, é este tipo de estrutura que determina o que chamamos de forma do universo. A topologia cósmica consiste exatamente do estudo de tais propriedades de conectividade globais do espaço. Mas note que, no exemplo acima, para diferenciar entre uma folha infinita de papel e um cilindro, é preciso ser capaz de observar pelo menos uma volta completa deste último. Da mesma maneira, em princípio existe uma diferença entre a forma do universo, e os seus elementos que somos capazes de deduzir a partir de observações, que chamamos de forma local. É importante portanto saber se, e sob quais condições, observações astrofísicas serão capazes de decidir esta questão.

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Casa, Rio de Janeiro
Introdução I

Johannes Kepler, quando descobriu as leis do movimento elíptico dos planetas que hoje levam o seu nome, provavelmente já sabia da sua natureza revolucionária. A primeira vista, trocar órbitas circulares por órbitas elípticas pouco excêntricas poderia parecer um ligeiro aprimoramento nos detalhes de uma teoria bem-sucedida. Mas isto representava uma quebra fundamental do paradigma que afirmava ser o movimento dos corpos celestes perfeito (i.e., circular) e imutável, e intrinsecamente diferente dos imperfeitos e transientes movimentos na Terra. Mesmo após a sua contestação por Copérnico, o modelo Ptolomaico, com suas inúmeras categorias de movimentos circulares sobrepostos, era geralmente visto com entusiasmo, como a mais perfeita e precisa descrição do cosmos.

Os cálculos feitos por Kepler com base nas observações de Tycho Brahe certamente excluíam um modelo geocêntrico com órbitas circulares, mas isso já era sabido a partir de observações muito mais imprecisas disponíveis já no período Helenístico. Muito mais importante foi a exclusão definitiva do modelo Ptolomaico. Mas isto não seria suficiente para excluir completamente qualquer modelo geocêntrico. Quaisquer que fossem as observações, seria sempre possível acrescentar mais epicíclos no modelo de Ptolomeu, até que este se encaixasse novamente nas observações, dentro da precisão observacional da época. De fato, foi exatamente desta forma que este modelo se desenvolvera.

Mas Kepler foi além. Seus cálculos permitiam excluir não só o modelo de Ptolomeu, mas também o modelo misto de Brahe (onde os planetas orbitam o Sol, que orbita a Terra), e até o modelo helicentrico com órbitas circulares de Copérnico. Depois de muita hesitação e dúvida, Kepler descobriu que um modelo heliocêntrico com órbitas elípticas se encaixava muito bem às observações.

A esta altura, como ele poderia determinar qual a melhor teoria? As observações eram compatíveis com dois modelos distintos: Um
modelo heliocêntrico com órbitas elípticas, e um modelo geocêntrico com epicíclos adicionais. Qual deles era o `melhor'? Se partíssemos da hipótese segundo a qual os movimentos celestes devem ser sempre composições de movimentos circulares, aceita quase axiomaticamente pelos estudiosos desde a época helenística, então teríamos que concluir que Kepler e Brahe, longe de provar o heliocentrismo, o refutaram, pelo menos na sua forma mais simples (lembrando que a simplicidade era um dos grandes atrativos da teoria de Copérnico).

Kepler, porém, ao se ater à hipótese heliocêntrica, encontrou mais do que simplesmente órbitas elípticas. Existiam duas outras leis, relacionando o tamanho, velocidade e período das órbitas, que se aplicavam ao movimento de todos os planetas. Os raios e períodos dos vários ciclos e epicíclos ptolomaicos eram essencialmente arbitrários, escolhidos a posteriori para se ajustarem às observações. O novo modelo de Kepler tinha a vantagem de
unificar um grande conjunto de observações por meio de algumas poucas leis fenomenológicas simples e elegantes. Uma explicação
mais fundamental para estas leis de não tardou a vir. Inspirado diretamente por Kepler (e Galileu), Isaac Newton lançou os alicerces da física moderna com sua teoria da gravidade universal, que se aplicava igualmente ao céu e à Terra. As esferas de cristal e os epicíclos subitamente se tornaram tão anacrônicos como descrição do universo quanto os proverbiais elefantes nas costas de uma tartaruga. Nada mal para a conseqüência de um ligeiro aprimoramento nos detalhes de uma teoria bem-sucedida.

A digressão acima ilustra um ponto recorrente na história da cosmologia. Em quase todas as épocas desde os primórdios das ciências naturais na Grécia antiga, os estudiosos dispunham de um modelo que explicava adequadamente quase todas as observações disponíveis. Acreditavam portanto dispor de uma descrição razoavelmente precisa e completa para o universo. Pequenas discrepâncias não eram (ou são) ignoradas de todo, mas em vista do sucesso da teoria geralmente aceita, era razoável supor que aquelas desapareceriam após ligeiras correções. As grandes revoluções no entendimento do cosmo neste período tiveram origem em tentativas de explicar tais discrepâncias por meio da ruptura com um ou mais fundamentos do paradigma aceito (muitas vezes de forma implícita) até então. Foi assim quando Kepler prescindiu de órbitas círculares, ou quando Newton formulou explicitamente leis de aplicação universal acima e abaixo da 'esfera lunar', ou também quando Einstein modificou a extraordinariamente bem-sucedida dinâmica newtoniana com base em um novo conjunto de postulados, e ainda quando Hubble mostrou que o universo não era estático.

Nas últimas décadas, a cosmologia baseada na hipótese de um Big Bang quente com sua dinâmica dada pela teoria da relatividade geral tem sido extremamente bem-sucedida em explicar precisamente uma grande quantidade de observações, que vão desde a abundância relativa de elementos leves até a estrutura em grandes escalas do universo atual, passando pela natureza térmica e as anisotropias da radiação cósmica de fundo. O recente surgimento da chamada cosmologia de precisão só fez confirmar os fundamentos deste modelo, com uma acuidade sem precedentes. Mas ainda há alguns pontos desconhecidos, e ligeiras discrepâncias entre teoria e observações. Por exemplo, aparentemente existem pequenos desvios na gaussianidade e anisotropia estatística da radiação cósmica de fundo. E não sabemos exatamente do que consistem as chamadas matéria e energia escuras, ou a origem do campo escalar que supostamente gerou a inflação. Ou qual é exatamente a topologia do universo. Talvez estes problemas tenham soluções relativamente simples dentro do paradigma vigente. Mas é também possível que sejam indícios de uma nova física, e/ou de um entendimento qualitativamente mais profundo do cosmo.

PS: Agradecimentos especiais ao Bernardo.
PS2: Veja a parte II aqui

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domingo, 5 de agosto de 2007

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Casa, Hogsmeade
Harry Potter and the Deathly Hallows

Acabo de ler o último Harry Potter. É de longe o mais sombrio dos livros, e o único que escapa da fórmula 'ano escolar em Hogwarts'. 'Deathly Hallows' chega algumas vezes quase a transcender as limitações do gênero, mas no final ainda é um livro de HP, com tudo que isto implica de bom e de ruim. Como nos outros livros, seu ponto mais forte são os personagens, por quem a Rowling consegue induzir uma empatia as vezes quase patológica. E o personagem mais interessante, como convém à um livro de mistério, é um morto: Albus Dumbledore vai se revelando muito mais complexo do que o Merlin cover sub-Gandalfiano dos primeiros livros; O Snape, por outro lado, não aparece muito por cerca de 600 páginas, mas justifica a ausencia com um capítulo (de revisão?) que é um dos pontos altos do livro.

O ponto mais fraco do DH, novamente de forma típica, são as tentativas deliberadas de construir uma mitologia, que são em geral forçadas e necessitam de blocos enormes de texto expositivo (e de muito magicbabble) para serem explicadas. A mitologia acidental e incidental, por outro lado, continua deliciosa. A trama consiste essencialmente de Harry, Ron e Hermione fugindo das forças Valdemortianas, enquanto procuram por MacGuffins diversos (e não, embora o terceiro filme tenha sido dirigido pelo Alfonso Cuarón, eles não pegam um carro e viajam ao longo da costa mexicana). O clímax é uma batalha final em e por Hogwarts, na qual a contagem de corpos e de páginas dedicadas à infodumps expositivos é considerável.

No todo, gostei bastante (com algumas ressalvas), embora seja ainda cedo para dizer se será o meu favorito entre os sete. É, porém, sem dúvida um fim apropriado para uma série em que personagens, leitores e autora cresceram juntos.

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quarta-feira, 18 de julho de 2007

Casa, BH
Nada para fazer

Hoje, agora, pela primeira vez em quase seis anos, não há nada que eu devia estar fazendo. Necas.

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sexta-feira, 22 de junho de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Crimes contra a humanidade

Inspirado por este comentário, me lembrei da abominação abaixo. Eu gosto muito de Star Trek, mas coisas deste gênero provavelmente são proibidas pela convenção de Genebra.




Neste outro clip, por outro lado, a auto-paródia é voluntária.

Finalmente, uma receita que alegrou minha madrugada:

Abra uma lata de ervilhas e outra de milho verde, que vc achou no fundo do armário da dispensa. Despeje metades iguais na única vazilha não suja disponível. Adicione os seguintes codimentos, convenientemente localizados na bancada da cozinha: Sal, pimenta do reino, oregano, cominho e tomilho. Regue com azeite. Deixe descansando, enquanto coloca uma cabeça de alho em forno baixo. Assista um episódio de Law & Order: Special Victims Unit. Assim que o policial durão-mas-de-coração-mole alcançar a redençao ao resgatar o bebê do laboratório de extasy, retire o alho do forno, e esprema sobre a entidade culinária descrita acima. Coma de frente para a TV, a tempo de ver a avó chorosa receber o neto das mãos do policial que fora incapaz de salvar sua filha. Enxugue uma lágrima, se for o caso, e volte para o computador para postar no blo^R^R^R trabalhar na tese.

Obviamente, comentaristas gastronômicos poderiam comentar "hmm, um pouco de rúcula cairia bem", ou "croutons dariam uma textura adicional interessante". Ao que eu responderia: EU NÃO TENHO RÜCULA, CROUTONS OU UM REDUÇÃO DEMI_GLACÊ AQUI EM CASA, E AS DUAS DA MANHÃ NÃO TENHO SACO DE FAZER ALGO QUE PRECISE DE MAIS DE 2 MINUTOS OU 5 NEURÔNIOS!. De qualquer maneira, ficou bom.

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quinta-feira, 14 de junho de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Suicídio nacional

O único conflito no Oriente Médio no qual uma vitória completa é absolutamente necessária é o do meio contra os extremos. É um conflito que existe dentro de Israel, da Palestina, do Iraque e do Líbano. Em Israel e no Líbano, o ‘meio’ ainda tem alguma chance, mas na Palestina e no Iraque os extremos estão levando todas. No final das contas, ficar discutindo de quem é a culpa em um detalhismo barroco é o menos importante. Uma condição necessária para o surgimento de uma Palestina independente é a existência um projeto nacional, com uma liderança capaz de resolver diferenças internas por meios outros que não a tiros, e com a capacidade de governar um país. Ao invés disso temos uma guerra entre gangsters do Fatah e psicopatas do Hamas, foguetinhos e imbecis autodetonantes usados como um meio de obter apoio interno (terror populista?), a ausencia de qualquer liderança plausível capaz de agir com os interesses nacionais palestinos em mente, e a erosão, contínua e provavelmente intencional, de todas as instituições que poderiam servir de arcabouço para construir uma Palestina independente.

Condições necessárias e suficientes para uma Palestina independente são i) projeto nacional, ii) paz com Israel e o iii) fim da ocupação. O item i), se já existiu, agora é uma piada de mal gosto. O item ii) é uma perspectiva cada vez mais distante, ao qual o Hamas se opõe sob quaisquer circunstâncias razoáveis, o que torna iii) uma causa perdida. Podemos ficar discutindo qual parcela de culpa cabe a Israel, aos EUA, a Siria ou aos Klingons, mas só os palestinos podem cometer suicídio nacional, e é aparentemente o que eles estão fazendo com grande entusiasmo.





PS: O post acima é uma adaptação de um comentário que escrevi no blog do Pedro Doria. Estou sem tempo para blogar decentemente. Mas para confirmar que desgraça gosta de companhia, pelo menos no Oriente Médio, noto de passagem que islamistas (provavelmente controlados ou estimulados pela Siria) em um campo de refugiados palestinos no norte do Líbano estão lutando faz 3 semanas contra o exército libanês; enquanto isso um outro parlamentar anti-síria foi assassinado (junto com outras 9 pessoas) ontem em Beirute. No Iraque, alguém (provavelmente Al Qaeda) explodiu os minaretes da mesquita em Samarra (onde estão enterrados dois dos imãs xiitas), cuja destruição parcial ano passado iniciou a pior onda de violência sectária no Iraque desde a invasão americana. Uma guerra entre Siria e Israel parece provável neste verão, e a Turquia ameaça invadir o norte do Iraque depois do recrudescimento dos ataques terroristas do PKK. Irã e EUA continuam se encarando no golfo pérsico.

PS: Eis um blog de um jornalista que está em Gaza [não o Alan Johntson ;-) ]
PS2: Why there is no Palestine
PS3: A análise da situação por meu amigo palestino no Canadá.
PS4: Uma reporter israelense em Ramallah (na Cisjordânia)

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quarta-feira, 30 de maio de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Civilidade urbana é...



Uma campanha pelo xingamento solidário em Copacabana.

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quarta-feira, 2 de maio de 2007

Casa, BH
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A indústria de entretenimento (para usar o termo americano) me lembra um pouco aqueles povos primitivos que tentavam espantar eclipses solares com chocalhos. Da mesma maneira, tentar sustentar na base do litígio um modelo de negócios falido baseado em conteúdo digital em um mundo onde informação é disseminada quase instantaneamente pela Internet é tão patético que quase dá dó.

Um hacker conseguiu descobrir a chave (supostamente inviolável) do sistema de DRM (=digital rights management, um eufemismo para proteção contra cópias e outros usos, legítimos ou não) usado no HD-DVD e Blu-Ray, os sucessores do DVD. A chave de 128 bits acima obviamente já corre pela rede (em vários formatos), mas o consorcio da HD-DVD agita seus chocalhos legais, e por meio da uma carta de 'cease & desist' (i.e., pare ou eu processo!), tentou impedir o Digg de menciona-la. Este tipo de estupidez pode funcionar razoavelmente quando o alvo é um jornal de papel, mas na Internet o tiro saiu *muito* pela culatra.

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sábado, 31 de março de 2007

Casa, Rio
Elemento suspeito portando uma folha de bananeira

. foto Arbyreed

O ar húmido e quente cobre a cidade como uma manta gasta. Uma noite tropical carioca como tantas outras, na qual os desavisados costumam confundir placidez com segurança. Seus habitantes vem e vão, furtivos, rápido demais para deixar mais do que um leve e acre cheiro de medo no ar. Se são bons ou ruins, feios ou bonitos, não importa. A única distinção relevante é entre aqueles que aprendem rápido, e aqueles que contraem uma dor de cabeça de 9 mm e não acordam mais. O nome é Bruno. Bruno Mota, físico e cozinheiro.

O plano era simples. Eles sempre são. Fazer um jantar tailandês para alguns amigos. Arroz aromático, um curry de carne (mais indiano do que propriamente tailandês), e um peixe com leite de coco e erva cidreira, embrulhado em folha de bananeira. O único problema era arranjar uma folha de bananeira.

Já era noite quando saí para comprar os ingredientes, e como sempre estava atrasado. Eu pensava inicialmente em achar alguma bananeira nas margens do canal, mas não só não vi nenhuma como o cheiro da água era um desestimulo sério a qualquer aventura culinária com a flora ciliar local. Sem mais tempo ou ideias, perguntei aos guardas de um condomínio semi-fechado ao lado se eles conheciam alguma bananeira por perto. Depois de verificarem que eu não estava usando um eufemismo obscuro para algum tipo de atentado ao pudor, eles foram até bastante solícitos. A possibilidade de uma poda freelance de uma das várias bananeiras que adornam os jardins das mansões próximas foi rapidamente aventada, e ainda mais rapidamente descartada. Um deles então se lembrou de uma bananeira solitária, em um matinho intersticial próximo a entrada para o tunel Zuzu Angel. Agradecido, subi na minha bicicleta e pus-me a caminho.

O local era de fato um tanto ermo e mal iluminado, ao lado de uma escada de acesso a uma escola municipal, obviamente fechada durante a noite. Era um pequeno triângulo irregular com algumas arvores desmilinguidas. No centro, qual um Ent adormecido, havia um glorioso bananal! Podei duas das folhas menos rasgadas, e comecei a alegremente cortar fora a parte carnuda com meu canivete. Só notei o carro da polícia parando na calçada em frente quando soou o 'WAAAAM' da sirene.

Um policial que vê um indivíduo cortando com uma faca alguma coisa não identificada em um mato ermo tem direito a nutrir alguma desconfiança. Os dois presentes na viatura não pretendiam correr riscos. Sairam do carro com os olhos fixos em mim e mãos firmes nos coldres. Um deles, careca e barrigudo, levava uma lanterna na mão esquerda, mas por algum motivo preferiu não usa-la. Mas foi o seu companheiro mais jovem, com o porte de um lenhador, que falou primeiro:

"O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ?"

Eles provavelmente não se surpreenderiam, e saberiam o que fazer, se eu dissesse 'retalhando a minha esposa', ou 'separando a maconha'. Mas quando eu disse "Cortando uma folha de bananeira", ao mesmo tempo em que deixava o canivete no chão e levantava uma folha, a minha versão tropical do ramo de oliveira, houve uma pequena pausa enquanto eles lidavam com a dissonância cognitiva. O lenhador chegou mais perto e perguntou, ainda agressivo mas com um traço de curiosidade na voz.

"Para quê você quer uma folha de bananeira?"

"Para cozinhar. Vou fazer um jantar hoje"

"Você come a folha?!" -- perguntou o careca, horrorizado, a única coisa que disse durante todo o encontro.

"Não! Eu uso para embrulhar o peixe... E o vapor bla bla bla leite de coco bla bla bla culinária tailandesa, que é bastante distinta da indiana, e bla bla bla" -- fui ficando entusiasmado enquanto descrevia o prato, e o resto do menu, e por pouco não emendo uma análise da situação política na Birmânia e um comentário sobre observação de cometas. Em algum momento do meu monólogo, o careca decidiu que eu era maluco e entediante, mas inofensivo. O lenhador por outro lado foi ficando mais interessado.

"Que comida diferente! E você come com arroz?"

"É! Se você conseguir achar, fica melhor com arroz de jasmim"

"Hmmm... Acho que vou pedir para minha mulher cozinhar isso um dia"

"Excelente ideia! Aqui, leve a receita para ela, que em casa eu imprimo outra"

Ele hesitou por alguns instantes, como se indeciso entre pedir a receita do curry ou me convidar para o jantar; mas talvez lembrando-se das circunstâncias do nosso diálogo, simplesmente se despediu amigavelmente. Ele voltou então para o carro, para o alívio do seu colega, que provavelmente agradecia aos céus por minha idoneidade aparente, que o desobrigava de ir até a delegacia mais próxima ouvido a respeito dos méritos das especiarias ou sobre as várias maneiras de se cozinhar um peixe. Eles desapareceram na noite, tocando a sirene para avançar no transito ainda arrastado.

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terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Enquanto isso, na Terra Média

"Alguem tem uma poção de cura?"


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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Casa, BH
Post reciclado

Parafraseando William Shatner. Tenho que... Ir DORMIR. agooora.

Então me limito a reciclar dois comentários que fiz no blog do Pedro Dória, sobre Islã, Islamismo e suicídios pessoais e nacionais.

Semana passada um mané se explodiu em uma padaria em Eilat, Israel, matando três pessoas que estavam no local. Israel desta vez preferiu não reagir (já que no momento os grupos terroristas palestinos parecem perfeitamente capazes de se matar mutuamente sem ajuda externa). Na internet porém o pau (como sempre) comeu solto, com os argumentos de sempre. Alguns destes argumentos eu já lí, em várias variações e permutações, inúmeras vezes, e sempre me incomodaram; não só porque acho que estão errados, mas porque se baseiam em premissas que eu considero um tanto repelentes.

Sempre me irrito quando alguem afirma (ou parece afirmar) que bombardeios suicidas são uma consequência lógica da opressão ou ocupação do povo do suicida pelo povo das vítimas. O problema aí não é necessariamente que a opressão/ocupação não exista, mas sim que não há um raciocínio lógico ou imperativo estratégico que comece com 'estou sendo oprimido' e termine com 'logo, vou matar algumas pessoas randômicas'.

Isto me lembra um episodio do South Park. Ume pedófilo é preso pela polícia e começa a falar de todas as supostas virtudes do amor entre homens e meninos, e porque ele não devia ir preso, que seus sentimentos eram puros, etc. E o Kyle responde ´Vcs fazem sexo com crianças!´. O cara continua a falar da pureza dos seus sentimentos, que ele sofreu abuso quando era criança, etc. E o Kyle retruca: ´Vcs. Fazem. Sexo. Com. Crianças.´

Semana passada um cara entrou em uma padaria e se explodiu, matando três pessoas aleatórias. É só isso. Alguns anos atrás um tal de Baruch Goldstein entrou em uma mesquita em Hebron e metralhou duzias de palestinos enquanto rezavam. Tenho certeza que em algum lugar da internet existem longas justificativas, desculpas e tengiversações sobre o ato, que mencionam o Holocausto, o massacre de 1929 e o terrorismo palestino. E daí? As atrocidades cometidas pelos dois montes de estrume supracitados não são a conseqüência inescapável do seu suposto sofrimento, mas sim o resultado de escolhas concientes, inspiradas por ideologias doentias que tem tanto a ver com o Islã ou o Judaismo quanto queimar bruxas ou cometer genocidio industrial são característica intrinsecamente cristãs ou alemãs.

No caso palestino, a ocupação certamente torna o ambiente mais propício para atos violentos, mas por sí só isto não é explicação nem suficiente nem estritamente necessária para os bombardeiros suicidas. Os palestinos viveram por 30 anos sob ocupação e sem suicidas explosivos. De fato, a maior parte dos povos que vivem sob ocupação ou são oprimidos nunca fez uso desta tática. Só quando entra em cena o islamismo radical (ou seus equivalentes) é que maximizar vítimas civis do outro lado se torna ao mesmo tempo tática e objetivo. Viver sobre ocupação certamente torna tais ideologias mais atraentes, mas não era este o caso dos ataques no metrô de Londres (no ano passado), ou em uma mesquita Xiita no Paquistão (na semana passada), ou até mesmo, estritamente falando, deste ultimo ataque palestino.

Cometer atrocidades é sempre uma escolha, que pode até parecer mais tentadora, mas não ser explicada (ou pior, justificada) pelos atos dos outros. Ataques suicidas contra civis são escolhas conscientes baseados em ideologias doentias. Afinal de contas, qual ocupação explica o que o Baruch Goldstein fez?


Também me incomodam generalizações histéricas sobre uma suposta propensão ao terrorismo do Islã em geral. Não só porque as acho incorretas, mas também porque são injustas para com todos os muçulmanos que eu já conheci pessoalmente, que são gente boa ou ruim, chata ou interessante, na mesma proporção que qualquer outro grupo de seres humanos, e não merecem ser tratados como potenciais psicopatas devido a religião que praticam.

Os assassinos, uma seita bizarra que vivia nas montanhas da Síria na época das cruzadas, costumam ser apontados como uma inspiração para os terroristas islâmicos atuais. Mas os Hashishin eram a dissidência da dissidência (ismaelita) da dissidência (xiita). Os seus ataques suicidas foram um fenómeno isolado na historia islâmica, até recentemente, e eram vistos com horror pelos muçulmanos da época. O islã tem sim uma longa tradição de celebrar o martírio (e.g. o festival da Ashura que está rolando entre os xiitas hoje), mas que é entendido como morrer lutando em nome da fé. Suicídio e vingança indiscriminada são adições posteriores.

O fundamentalismo atual, apesar do nome, é uma invenção moderna, assim como o é o concomitante culto da morte (a morte como sacramento) que dá origem aos homens-bomba. A Al Qaeda é uma combinação do atavismo Wahabi (e dobandi, ambos datando do século XVIII) com a militância anti-ocidental do Qutb e do Banna (respectivamente inspirador e fundador da Irmandade Muçulmana) surgida no inicio do Sec. XX. O fundamentalismo xiita se baseia no governo por jurisprudência criado pelo Khomeini, e no messianismo que espera o retorno do Mahdi a qualquer momento. Ambos os movimentos importaram do ocidente o conceito de governo totalitário e o anti semitismo do estilo Protocolos dos Sábios de Sião.

Obviamente a maior parte dos muçulmanos tem mais o que fazer. Os fundamentalistas tem conseguido avanços importantes nos anos recentes entre os muçulmanos, mas é errado tratar uma patologia ideológica de origem relativamente recente (e comparável à patologias semelhantes em outras religiões ou culturas) como algo intrínsico ao Islã.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Józej Maria Hoene-Wroński, vida e obra


Eu já escrevi sobre a maravilhosa capacidade da internet de conectar pessoas que fisicamente estão nos mais diversos cantos do mundo, mas tem interesses em comum. Obviamente o fenômeno em sí não é novo, só a sua amplitude geográfica. Não é incomum, afinal de contas, ficar amigo dos frequentadores habituais de nossos sebos ou bares favoritos. Mas a internet também tem o equivalente ao esbarrão acidental que gera um pedido de desculpas que acaba virando um papo agradável.

O prenome do meu email é wronski. Não sou descendente de poloneses, ou obcecado por Anna Karenina. Simplesmente decidi criar uma conta de webmail grátis, vários anos atrás, e descobri que meu nome, sobrenomes e apelidos, em todas as permutações razoáveis, já tinham dono. Em desespero, e sem querer me tornar o bmota74, me lembrei das aulas de Calculo II (eu havia acabado de terminar o segundo periodo), e de um objeto matemático chamado Wronskiano*, descoberto no século XIX por Józej Maria Hoene-Wroński, um obscuro matemático polonês. No auge do meu solipicismo lusófono, pensei: 'brunos existem vários, mas wronski não deve ter nenhum'. E de fato não havia. Hoje, nove anos e dois provedores depois, continuo wronski (a alternativa, que considerei por um breve instante, era frobenius).

Um efeito colateral da minha alcunha peculiar é que ocasionalmente recebo emails em polonês por engano. Não é o mesmo que ter o numero de telefone a um digito de distância da telepizza, mas é quase. Já passaram pela minha inbox um orçamento de conserto de carro, mensagens natalinas, e o que parecia ser uma destas correntes irritantes ('envie para 10 dos seus amigos para que Deus/Buda/Cthulhu/Flying Spagetti Monster lhe dê saúde e dinheiro'). Estou supondo obviamente, baseado na formatação, já que o conteúdo é para mim indistinguível da lista de compras do Lech Wallesa.

Na semana passada recebi um destes emails, remetido por uma pessoa chamada 'Abi'. Como sempre faço, respondi com uma curta mensagem em inglês sugerindo que o destinatário não era eu. Recebi de volta um email efusivo, que pedia mil desculpas, e obviamente perguntava de onde diabos vinha o meu nome polonês. Eu então contei a historinha acima, e começamos a conversar. A Agnieszka fez mestrado em direito, mora em Varsóvia, e está programando uma viagem de esqui nos alpes italianos. E eu descobri que físicos são considerados criaturas exóticas até mesmo na Polônia, e que o Józej Maria Hoene também desenvolveu uma doutrina filosófica bastante popular no século XIX, e ainda hoje é razoavelmente famoso no pais natal. Wronski é um pseudônimo que ele assumiu após a morte da mãe, para tentar fugir da influencia do pai.

Não vou dizer que o papo mudou a minha vida, mas eu gostei de conhecer uma pessoa gente fina de forma tão randômica a partir de um mero esbarrão. Não há nada de excepcional nisto, exceto que os esbarrantes estão a 10.000 Km um do outro.

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Continuando no tema 'amizades improváveis mediadas por TCP/IP', o Doug, um capitão americano em Kabul com quem costumo discutir séries de animação japonesa, está pedindo votos para o seu blog ('Afghanistan Without a Clue') em um concurso pela internet. O cara é gente fina**, e o blog dele é interessante, então se alguém aqui gostar deste tipo de coisa, eu sugiro que vote nele.

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* Um determinante gerado a partir das soluções de uma equação diferencial ordinária e suas derivadas, usado para verificar a sua (in)dependência linear.
** Ele é da força aérea, mas o trabalho atual dele é ensinar as tropas de logística afegãs a descarregar a carga de aviões e transporta-la em comboios para o resto do país. E ele *gostou* de Ghost in the Shell.

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sábado, 6 de janeiro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
A nova guerra fria

A expressão 'crise no Oriente Médio' parece quase um pleonasmo, mas é na verdade inexata na maior parte das vezes em que é empregada. Uma região de grande importância estratégica e significado histórico, encruzilhada de religiões, civilizações e etnias, o Oriente Médio está em conflito semi-permanente desde (escolha a data) a) 1917; b) 1947 ou c) 3000 A.C. E alguns dos seus conflitos se incluem entre os mais badalados, renitentes e fascinantes da história recente.

Mas uma crise é um desvio agudo da normalidade, com o potencial de uma ruptura permanente. Sob certas circunstancias, a violência (efetiva ou como ameaça) pode se tornar o status quo, e não necessariamente implica em uma crise.

Com o preâmbulo acima em mente, eu digo agora que o Oriente Médio está em crise. Não porque bombas explodem e ameaças são feitas, mas porque está em curso um realinhamento estratégico que pode dividir a região em dois grupos mutuamente hostis de países, encabeçados pelo Irã de uma lado, e a Arábia Saudita de outro, e porque a própria coesão nacional da maior parte destes países está ameaçada.

O Irã está em ascensão. Os seus inimigos tradicionais foram destruídos, no caso da União Soviética e de Saddam Hussein, ou fragilizados, no caso dos americanos (devido ao atoleiro no Iraque e a impopularidade dos EUA entre os Árabes). Embalado pelos altos preços do petróleo, e com sua influencia ressurgente na Asia Central, no Líbano, no Afeganistão e principalmente no Iraque (com agradecimentos ao colapso soviético pelo primeiro e aos americanos pelos dois últimos), os mulahs acreditam que a hora deles é agora para tornar o Irã a potência dominante no Oriente Médio.

Mas por baixo de toda esta força aparente, o Irã esconde suas fragilidades. A sua população é jovem, mas a rápida queda da natalidade nas últimas duas décadas vai em outras tantas torna-lo um pais de velhos. Embora seja solidamente xiita, a população iraniana consiste de uma estreia maioria dominante persa, e uma série de minorias cujo tratamento varia entre o racismo negligente (azeris), repressão violenta (baluchis) e perseguição religiosa (bahais).

Produz-se menos petróleo (a base da economia) hoje do que em 1979, e com a demanda interna crescendo rapidamente, alguns analistas estimam que o Irã poderá deixar de ser um pais exportador em alguns anos. Além disso, vinte anos de revolução islâmica deixaram o espírito revolucionário dos Iranianos um tanto embotado (principalmente nos grandes centros urbanos). A tal vitória divina do Hizbollah foi recebida com júbilo nas ruas de Cairo e Damasco, mas com indiferença em Teerã (cujos habitantes sabem muito bem quem vai pagar a conta). E embora gritar 'morte à América' e 'morte à Israel' ainda seja parte do currículo escolar, até hoje eu não encontrei nenhum iraniano que tivesse qualquer entusiasmo pela ideia.

A crescente influencia iraniana (persa e xiita!) é vista com alarme pelas ditaduras dominadas por sunitas. Muitas possuem minorias (ou, no caso de Bahrein, maioria) xiitas que são tratadas de forma tipicamente atroz, e partilham de um medo (infundado ou não, mas centenário) de dominação persa. Mas nenhum pais tem mais a perder com a ascendência iraniana que a Arábia Saudita.

O reino saudita é o melhor exemplo do que alguém denominou 'uma tribo com uma bandeira'. Após a primeira guerra mundial, um clã liderado por um certo Ibn Saud, inspirado por um tipo de puritanismo revisionista islâmico criado por um tal de Wahab, conseguiu aos poucos conquistar a maior parte da península arábica, e expulsar os Hashemitas das cidades santas de Meca e Medina. Nadando nas maiores reservas petrolíferas do mundo, e ainda hoje controlada de forma absoluta pelos milhares de príncipes descendentes do fecundo Ibn Saud, a Arábia Saudita se considera não só guardiã das cidades santas, mas da própria ortodoxia islâmica.

Infelizmente para a Arábia Saudita, assim como o Irã a sua posição é frágil por baixo de toda a riqueza ostentada. A sociedade ainda é profundamente tribal, e, mais do que frágeis, as instituições modernas são praticamente não-existentes. A maior parte do trabalho é feita por estrangeiros, da prospecção de poços ao trabalho doméstico, e os Sauditas dependem totalmente da renda (enorme!) do petróleo. A maior parte do petróleo saudita porém se situa no leste do pais, habitado por xiitas, que o Wahabismo considera (e trata) como hereges da pior espécie.

Assim, ao mesmo tempo que são impelidos para o conflito pelo que consideram seus respectivos destinos manifestos, Irã e Arábia Saudita encaram um ao outro, devido às suas próprias fraquezas internas, como uma ameaça grave.

O que porém transformou hostilidade em guerra fria, e forçou os demais países árabes a tomar partido, foi a invasão americana do Iraque. George W. Bush criou de fato um novo Oriente Médio, embora provavelmente não o que ele tinha em mente. A invasão liberou (mas não criou) tensões entre xiitas e sunitas, e é este conflito, mais do que a luta entre americanos e insurgentes, que cada vez mais vai destruindo o Iraque. Todos os países vizinhos vêem tensões semelhantes dentro de suas próprias fronteiras. Se o lado 'errado' ganhar no Iraque, alguns deles temem que seus conterrâneos que compartilham etnia ou religião com os vitoriosos também se levantem.

Os países e grupos sunitas vêem os temidos persas se tornando o poder mais influente no que era até a pouco o grande bastião sunita contra a revolução islâmica iraniana, reforçando a sua aliança com a Síria, e extendendo sua influencia no Líbano e em Gaza. Temem uma conspiração para impor a hegemonia iraniana na região. Assim, Arábia Saudita, Jordânia, os sunitas Libaneses (liderados pelo Saed Hariri, filho do ex-premiê morto pelos Sírios, aliados dos iranianos...), e o Fatah de Mahmod Abbas na Palestina, se aliam para enfrenta-los.

Todos os conflitos recentes na região são ou tem o potencial de se tornarem guerras por procuração entre os dois lados. No Líbano, Israel recebeu inicialmente o surpreendente apoio velado dos demais paises sunitas contra o Hizbollah, que no pós guerra devolve o favor e luta para derrubar o premiê sunita apoiado por Hariri e, por extensão, pelos sauditas. Os palestinos estão a beira de uma guerra civil entre o Hamas, financiado com dinheiro Iraniano e com a liderança em Damasco, e o Fatah, que recebe o apoio Jordaniano e Egipcio.

No Iraque a situação é mais complicada, devido a presença dos americanos. Temendo serem o próximo alvo de uma mudança de regime, os Sírios apoiam qualquer um que torne a vida dos americanos difícil (ou mais curta), coerente com a sua política de apoiar no exterior grupos que são reprimidos ferozmente em casa, sejam eles fundamentalistas sunitas em geral, a Irmandade Muçulmana ou separatistas curdos. Os iranianos
por outro lado claramente procuram (com considerável sucesso) criar um governo iraquiano que possam controlar ou pelo menos influenciar. Mas os Sauditas já enviaram o recado: Eles não permitirão que os sunitas iraquianos sejam marginalizados. A retirada americana é uma questão de tempo; o que virá em seguida é difícil de prever, mas algum tipo de guerra por procuração parece provável.

Além de assumir o controle no Iraque, a estratégia iraniana para se tornar a potência regional dominante parece ter duas vertentes. A primeira é o programa nuclear, que eles insistem tem fins puramente pacificos. Só digo que, se o objetivo é realmente este, o entusiasmo de Amahdinejah pela energia nuclear é contagiante, porque Egito, Arábia Saudita e um consorcio de países do Golfo (além de Marrocos) manifestaram recentemente um súbito interesse em construir reatores nucleares, para fins igualmente pacíficos. Uma bomba atômica é um seguro anti-marines aparentemente eficiente, e historicamente tem sido o símbolo de status que distingue os grandes dos pequenos na ONU.

A segunda vertente é consequência do fato de os xiitas serem uma minoria em quase todos os países da região. Os iranianos precisam portanto de algo que atraia pelo menos alguns sunitas para o seu lado, algo que por exemplo atraia um ódio tão profundo que transcenda divisões confessionais ou étnicas. Não foi preciso ir longe para achar um objeto de repulsa apropriado. A cola que mantinha unidas as várias versões do pan-arabismo, a desculpa para todos os fracassos e a suposta fonte de todos os problemas do Oriente Médio: Israel.

Todas as conferências e concursos de cartoons sobre o Holocausto e os discursos inflamandos sobre varrer Israel das páginas da história podem ser um reflexo da imbecilidade do presidente Iraniano, mas também servem a um propósito estratégico. O Irã está se posicionando como *o* centro de resistência anti-sionista, uma posição que atrai amplas simpatias no mundo árabe. Assim, o Irã e a Síria financiam e apoiam todos os grupos que continuam na luta armada contra Israel e rejeitam o princípio de trocar terra por paz, sejam eles sunitas ou xiitas. Durante a última guerra no Líbano, a tal vitória divina tornou o Nasrallah provavelmente o líder árabe mais popular atualmente, para xiitas e sunitas (exceto obviamente entre os sunitas libaneses). Ao separar as massas árabes de seus líderes (nenhum dos quais é eleito democraticamente), o Irã restringe a margem de manobra de seus adversários. No limite, esta situação pode até mesmo causar a queda de alguns dos déspotas pró-americanos dispostos a uma acomodação com Israel, para serem substituídos, suponho, por déspotas pró-iranianos dispostos a uma guerra interminável com Israel. Egito e Jordânia em particular podem sucumbir a pressão, o que inverteria totalmente o balanço de forças.

Os sunitas obviamente não estão parados. A Arábia Saudita é o único grande produtor de petróleo capaz de aumentar significativamente sua produção a médio prazo. A baixa resultante nos preços seria danosa aos sauditas, mas um calamidade para os iranianos. Veremos nas próximas reuniões da OPEP se os sauditas aceitam cortar a produção ou se vão permitir que os preços continuem baixando. Juntos com a Jordânia e o Egito, os sauditas também redobraram os esforços para conseguir algum tipo de solução pacífica para o conflito entre palestinos e israelenses. Embora louváveis (mesmo que a motivação não seja o desejo de paz na terra e harmonia entre os homens), tais iniciativas infelizmente não tem sucesso garantido. Uma aposta mais líquida e certa, por outro lado, é a crescente demonização dos 'persas' na mídia árabe, onde eles são cada vez mais alvo da paranóia xenofóbica que tradicionalmente sempre foi reservada aos judeus. É quase uma corrida para ver quem é mais odiado, se os persas ou os judeus.

Obviamente fomentar conflitos sectários não costuma ser uma política sensata, e a longo prazo as consequências tendem a ser ruins para todos os lados envolvidos, quando o ódio toma vida própria e se auto-perpetua muito além da sua utilidade momentânea. Quase todos os países da região escondem sob a superfície tensões semelhantes às do Iraque (em parte devido às fronteiras artificiais impostas por britânicos e franceses quando os estados nacionais modernos foram criados por lá, mas é difícil imaginar fronteiras que eliminassem tais tensões completamente). Sem identidades nacionais totalmente consolidadas, os povos da região se dividem em um palimpseto de identidades
étnicas, religiosas e tribais muitas vezes contraditórias, que se tornam mais importantes em tempos de instabilidade. Se pressões externas criarem um conflito entre as várias identidades sobrepostas, quase todos estes paises tem o potencial de se desintegrar violentamente.

Mas o Oriente Médio não está chegou à situação atual por ter um excesso de lideranças sensatas...

Precedentes históricos certamente existem. A guerra Irã-Iraque, a mais mortal da história recente do Oriente Médio, também foi um conflito entre xiitas e sunitas, e árabes e persas. Mas foi um conflito que permaneceu limitado aos países beligerantes. A possibilidade agora existe de uma conflagração em toda a região. Na história europeia, a Ia Guerra Mundial, e (talvez mais apropriadamente) a Guerra dos 30 Anos vem a mente.

Obviamente um conflito generalizado, embora cada vez mais provável, permanece somente uma possibilidade. Talvez a carnificina no Iraque convença os dois lados a iniciar algum tipo de détente, ou talvez um acordo de paz na Terra Santa, ou um colapso nos preços do petróleo, ou um aumento do QI da liderança americana, adie as pretensões iranianas ou acalme a paranóia sunita. Sinceramente, é difícil saber pelo que torcer, quanto mais o que esperar, mas os próximos anos no Oriente Médio certamente serão interessantes.

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