sábado, 24 de janeiro de 2015

Casa Solcor, San Pedro de Atacama
No ar rarefeito

Salar Tara (147) A região no entorno do Salar de Tara fica a mais de 4000 m de altitude, próximo a fronteira tríplice entre Chile, Argentina e Bolívia. É uma região de centenas de quilometros de cobertos de areia, pedras e uma muito esparsa e heróica vegetação. Não há habitantes, estradas, banheiros, wi-fi ou sinal de celular, e a precipitação anual traria lágrimas aos olhos do Geraldo Alckmin.

Foi portanto um tanto alarmate quando um dos meus colegas de excursão subitamente caiu desfalecido (mas de olhos abertos) nos braços da namorada, quando estávamos a caminho de lá.

Continue lendo...>>

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Casa, Rio de Janeiro
Mort de rire

Em 1970 dois homens a paisana, armados de fuzis e granadas, invadiram a sede do periódico satírico 'O Pasquim'. O corpo editorial foi surprendido em reunião, e colocado contra a parede. Calmamente, os atacantes anunciavam o nome de cada membro da equipe e, sem esperar resposta,  cravejavam a vítima de balas de grosso calibre. Tombaram na ocasião os cartunistas Ziraldo, Pedro Américo e Jaguar, a senhora do cafezinho, e um segurança. Estes sangrentos eventos foram relatados pelo comentárista Paulo Francis, que, embora gravemente ferido, foi o único sobrevivente devido a sua cabeça excessivamente dura.

Segundo populares próximos ao local, ao sair da cena do crime em direção a um fusca azul estacionado em fila dupla, os assassinos gritavam: 'Independência ou morte!'  'Vingamos a nossa bandeira!'

O governo militar negou qualquer participação no ato e prometeu uma investigação célere e rigorosa. Porém, segundo o porta-voz da presidencia, o Capitão-de-Corveta Zenóbio Frobenius,

'O crime foi uma lastimável mas previsível reação contra as insultosas charges publicadas pelo Pasquim, em particular aquelas nas quais figuram Dom Pedro I durante o grito da independênia. Dom Pedro é um heroi para 80 milhões de brasileiros, e o dia da independência é o nosso feriado mais sagrado! Não surprende, portanto, que alguns indivíduos tenham se sentido tão insultados a ponto de fazer justiça com as próprias mãos'

No debate que se seguiu, muitos comentaristas se manifestaram contrários a publicação de material que atentasse contras as crenças profundas e os sentimentos mais arraigados de um grande número de pessoas. Liberdade de expressão não é liberdade para ofender, afirmou-se. Para impedir novos ataques, o governo militar resolveu instituir a censura prévia, uma medida que, ainda segundo o capitão de corveta Frobenius, 'protejerá jornalistas da violência, impedindo que eles inadvertidamente insultem alguma pessoa ou grupo'.
__________

Obviamente, os fatos aqui relatados não ocorreram em 1970. Bom, exceto pela censura prévia instituida em resposta 'a charge acima. Isto aconteceu.




Continue lendo...>>

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Casa, Belo Horizonte
Educação artística

Eu comecei a dar aulas de física na UFRJ pela grana...

Uma semi-carreira como professor substituto não é, suponho, o que se costuma imaginar como o caminho para a fama e riqueza. Mas, precisando do dinheiro e sabendo que poderia acumular o cargo com minha bolsa de pos-doc se fossem ambos na mesma universidade, me candidatei a uma vaga. Em 2010.

Mesmo sem qualquer experiência didática digna de nota, fui aprovado. Sinceramente, não esperava gostar de dar aulas; seria apenas uma obrigação, a ser cumprida diligentemente mas sem particular entusiasmo.

Literalmente o primeiro tópico que abordei foram as leis de Kepler. Acho que o primeiro comentário que ouvi dos meus primeiros alunos foi um pedido para falar mais devagar. Alguns deles devem estar até hoje se perguntando o que aquele maluco achava de tão interessante em elipses e hipérboles.

Eu descobri que lecionar era não só agradável, mas entusiasmante. Preparar uma aula é, notei, uma excelente e fecunda maneira de reencontrar a física básica com uma perspectiva ortogonal a de um estudante que encara a matéria pela primeira vez. O que me parecia contingente, arbitrário ou irrelevante agora *faz todo sentido*! As conexões que se apresentam com outros tópicos e áreas são tão numerosas e interessantes, que a preparação acaba se tornando em grande parte uma questão de poda temática. A aula em si é uma ocasião para tentar transmitir parte deste entusiasmo para os alunos.

Fui contratado em carater efetivo em 2013, e continuei lecionando. A dois semestres ensino Física Moderna, um curso introdutório de mecânica quântica.

Obviamente, entusiasmo é uma faca de dois gumes. Meus alunos correm menos o risco de cair no sono, mas eu me arrisco a sair por tangentes aleatórias ou a, em arroubos de excesivo entusiasmo, transformar a sala de aula em uma versão científica de um culto evangélico (´E a quantização de Planck tocou a estatísitca de Maxwell-Boltzmann, e o demônio da catástrofe ultravioleta foi banida para todo o sempre! Aleluia!'). Mas tento me controlar.

Uma outra dificuldade é saber o quanto do que foi dito foi efetivamente entendido. O que é óbvio e ululante para o professor pode ser um exoterismo quase opaco para os alunos. E extrair um 'Não entendi!' destes últimos, mesmo daqueles com olhos arregalados e expressóes de terror após alguns passes matemáticos mais ousados, pode ser mais difícil que espremer leite de pedra.

É por isso que procuro sempre (nem sempre com sucesso) me enxergar da perspectiva deles. E é por isso que achei tão fenomenal que uma talentosa aluna de biofísica que frequentou meu curso este semestre, a Eduarda Morsch, tenha me desenhado enquanto eu ensinava a Teoria da Relatividade restrita. Alguns puristas podem levantar objeções ao modelito bermuda-e-havaianas, mas acho que o desenho também captura um pouco da intensidade maníaca nos meus olhos quando falo sobre quadrivetores e invariantes de Lorentz...

Mais bem vestidos estão os três cavaleiros abaixo. Schrodinger, com seu gato meio vivo-meio morto, Einsten e seus trens e relógios em uma dança quadridimensional, e Planck e o espectro da radiação de corpo negro que a sua incipiente teoria quântica conseguiu explicar. Um resumo de metade do meu curso melhor do que qualquer apostila que eu conseguiria produzir.


Ensinar é uma via de mão dupla.


Continue lendo...>>

sábado, 15 de novembro de 2014

Mount Vernon Convention Center, Washington DC

 Estou de volta em Washington com a minha indefectível bicicleta, para mais uma edição da reunião anual da Society for Neuroscience e o JB Johnston Club.

Eu me lembro quando cheguei em Washington, 6 anos atrás, para o meu primeiro SfN. Era a minha primeira visita aos EUA em mais de uma década, e a SfN era de longe a maior conferência científica de que já havia participado. A profusão de palestras, posteres, palestras e temas, para não falar da sopa de letrinhas bioquímica, eram positivamente intimidadores. Eu estava começando a trabalhar em neurociência, e não entendia muito do que ouvia dos biologos, nem conseguia me fazer entender muito bem por eles.

Atualmente é só um pouco de exagero dizer que pego o vôo até os EUA com a mesma naturalidade (e grau de desconforto) que pego o 485. Já não me perco com muito frquência no cavernoso centro de convenções local, e preciso me policiar para não falar em um jargão tão impenetrável quanto qualquer biólogo. Já tenho restaurantes favoritos em chinatown e galerias favoritas nos smitonianos em DC. É certamente um privilégio poder considerar tudo isso normal,  mas eu sinto falta do meu antigo senso de estranheza, e de percorrer brownianamente a cidade, semi-perdido, tirando fotos com bonecos de papelão do Obama e filando wifi em lobbies de hoteis. Talvez se eu mudasse de área mais uma vez, e fosse estudar literatura medieval em Kuala Lumpur...

De qualquer forma, passei o dia inteiro ontem esquentando os ouvidos com neuroantomia comparada, no JB Johnston. Hoje a manhã foi livre, e resolvi aproveitar o belo dia outonal para pedalar um pouco. Visitei o Jardim Botânico local, comprei um novo capacete e vim para o SfN 2014, aberto pela palestra de um chef de cozinha, que discutia a relação entre os sentidos e a memória enquanto preparava uma refeição de quatro pratos para um grupo de eméritos e sortudos neurocientistas sentados em uma mesa sobre o palco.

Acabo de voltar do almoço em um restaurante chinês por aqui perto. Sopa de macarrão fresco com pato, e chá. Eu passo lá sempre que estou por aqui.


Continue lendo...>>

sábado, 19 de julho de 2014

Universidade de Reading, Inglaterra>
The frugal airport shuttle



Pousei na Inglaterra depois de 10 horas de vôo e 2 horas de atraso. O piloto passou o tempo falando mal do controle de trafico aéreo brasileiro ('Eles não dizem nada, só mandam esperar!'). Cheguei, tirei a bicicleta da sacola, joguei fora o plástico bolha,  dobrei a sacola, coloquei a bolsa (que vai de bagagem de mão) no bagageiro, e sai pedalando. Seguindo pelo vale do Tâmisa, passei por Windsor e outras cidades nesta próspera região da Inglaterra. Já havia gravado meu trajeto no celular, feito no Google Maps especificamente para bicicleta. A saída do aeroporto foi um pouco mais tensa (embora não excessivamente; muitos funcionários pedalam para o trabalho, e existe até uma loja de bicicletas escondida em seu cavernoso interior), mas depois entrei no padrão usual de estrada regional -> estrada rural -> trilha de cascalho -> picada no mato. Devo admitir que a última iteração me surpreendeu um pouco. Mais uma e eu precisaria de um facão. Mas eventualmente eu avistava uma trilha a frente, e o padrão se revertia. Exceto por uma ocasião em que entrei em um haras por engano e fui perseguido sem muito entusiasmo por um par de cães, e uma para outra para necessidades fisiológicas várias, fiz um caminho bastante direto.

Cheguei em Reading já de noite, fui jantar com o Rodrigo (que trabalhou comigo na UFRJ e faz doutorado aqui) e o Slawomir Nasuto. Agora vou dormir. Depois de amanhã apresento meu seminário aqui.



Continue lendo...>>

domingo, 13 de julho de 2014

Aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro
Siga aquele ônibus

Dia de final da copa, e eu estou na sala de embarque, esperando para voar para Londres. O plano é passar uma semana em uma colaboração na Universidade de Reading, e depois ir para a Escocia. Vou atravessar as ilhas Hebridas Externas (é esse o nome em português?) de bicicleta, com algumas paradas para subir uns morros e comer uns haggis. Dependendo do clima, talvez até dê praia.

Vou depois para Edinburgo, para um congresso sobre redes neuronais.

Cheguei muito perto de não ir, ontem. Minutos após descer do ônibus (o notório 495)  notei que havia perdido minha carteira, que imaginei havia caído no assento. Imediatamente, pulei sem nenhum tostão no bolso  em um taxi, e proferi uma das frases que sempre quis dizer, 'Siga aquele ônibus'. Fomos em perseguição até a rua da passagem quando, em um ponto, o taxista consegui interceptar o dito cujo. Pulei e fui falar esbaforido com o motorista, que me deixou entrar pela porta traseira para procurar o que era meu. Encontrei a carteira nas mãos de um passageiro idoso ('isto aqui é seu:'), que se organizava com alguns outros para me encontrar por nome no Facebook. Como sei que existe um comediante igualmente belo-horizontino bastante mais famoso com o meu nome, imagino que ele receberia uma mensagem um tanto misteriosa.

Estão chamando meu vôo. Eis o mapa


Outra coisa. Me pediram para escrever um post sobre a copa para um blog britanico para o qual eu contrinui alguns posts no passado. Inicialmente pretendia recusar, mas após o massacre alemão, acabei escrevendo alguma coisa.

Continue lendo...>>