sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Chez Rafa, Genebra
Gestos nobres

Eu sou um Lorde. Não no sentido de ser super educado e atencioso, mas de ser, de fato, um Lorde. Um aristocrata. Um par do reino. Eleito pelos céus para reger a vida alheia. Destinado a uma vida de luxo e conforto por razões de berço. Um barão assinalado que da ocidental praia Copacabana, sobre mares a muito navegados passou ainda além de Heathrow.

 Pelo menos é o que diz a British Airways. Lord Bruno Mota.

Porém, mesmo defronte a prova irrefutável da minha alta estirpe, os funcionários não me ofereceram um assento na primeira classe, massagem para os pés ou serviçais emprestados. Um acinte.

Apesar da minha altivez ferida pela mesquinharia plebeia, permaneço em meu propósito de, passando por Genebra, ir até Strasburgo na França, terra de meus parentes os Duques de Lorena, e sagrada cidade imperial pelos meus chapas, os Hohenstaufen da Swábia. Lá participarei do MAPS2015, um congresso particularmente interessante por reunir sob o mesmo teto biólogos, físicos, matemáticos e cientistas da computação em convivência amigável.

Passarei então por Zurique para um palestra, e volto por Genebra.






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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

McCormick convention center, Chicago
Pegando aviões


Estou em Chicago para mais um SfN. Vim assistir alguns seminarios, apresentar mais um, encontrar pessoas e andar de bicicleta. Mas, para variar, quase não venho.

A historia começa em Miami, 3 anos atrás. Eu estava em uma conexão longa a caminho de Barcelona. Aproveitando a presença na cidade de um amigo que me facultou o uso de seu quarto de hotel, resolvi ir (de bicicleta, obviamente) até uma praia no extremo sul da cidade e, após algumas horas relaxantes, era hora de voltar. Foi quando notei que havia trazido a chave errada, e que não tinha meios de abrir o cadeado que prendia a bicicleta em um poste local. É uma história enrolada, que já contei em outro post. No computo final, consegui, com alguma ajuda de um transeunte, cortar a corrente e afanar a minha própria bicicleta sem ser preso, e continuei minha viagem sem maiores transtornos (usando aqui uma definição um tanto elástica de como se qualifica a magnitude de um transtorno).

A única consequência de longo prazo do contratempo foi que fiquei um tanto paranóico a respeito das chaves do cadeado de minha bicicleta em viagens.

Motivado pela supracitada paranoia, e com um vôo que saia ao meio dia, resolvi aproveitar a manhã para 1) Fazer cópias da única chave do cadeado que consegui localizar; e 2) cortar o cabelo e barba para não ser barrado na alfândega. Deixei portanto o meu molho de chaves no chaveiro, e me dirigi ao barbeiro. Após a intervenção civilizatória deste último, eu obviamente me esqueci completamente das chaves e peguei o ònibus para o fundão (onde prentendia trabalhar um pouco e onde guardo minha bicicleta dobrável). Foi só ao chegar em frente a porta da minha sala que me lembrei das chaves.

Acabei perdendo bastante tempo e dinheiro em um circuito triangular para pegar as chaves, a bicicleta, e o vôo, nesta ordem. Cheguei no aeroporto faltando 4 minutos para o encerramento do checkin. Mas embarquei.

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sábado, 18 de julho de 2015

Casa do Reza, Londres
Na lama em Londres

Pausa para cachimbo
Cheguei em Londres ontem de tarde, depois de uma breve mas produtiva visita aos meus colegas na universidade de Reading. Hoje foi o meu último dia completo por aqui antes de voltar para o Rio amanhã. Obviamente, resolvi fazer algo memoravel e tipicamente Londrino. Chafurdar na lama do tio Tâmisa a procura do lixo produzido pela cidade ao longo das eras se encaixa perfeitamente nesta descrição,  então aceitei o convite do Alastair para uma manhã de mudlarking.

Londres foi fundada pelos romanos pouco antes da era cristã, e o Tâmisa foi sempre a sua principal artéria de transporte, fonte de enguias comestíveis e esgoto. Ao longo dos milênios,  romanos, celtas, saxões, normandos, e finalmente ingleses sob dinastias várias, viveram e morreram ao longo de suas margens. E, sempre que precisavam se livrar de algo, o rio estava convenientemente logo ao lado.

Todo ano, os resíduos destas eras passadas se desgarram de aterros ou são arrastados pela correnteza, e depositados nas margens do rio. Moedas, cerâmica,  balas de mosquete,  ossos de animais domésticos (e o ocasional humano), e os indefectíveis cachimbos de barro. E na maré baixa, um grupo de excêntricos de todos os naipes procura e cataloga avidamente tais relíquias,  o descarte inconsequente das eras passadas. Estas pessoas são conhecidas como 'mudlarks'. O meu amigo Alastair, arqueólogo e quinteseencialmente inglês, é um deles.

A partir do extremo sul da ponte de Londres, rapidamente encontramos uma escada lodosa decendo até a margem. A maré baixa havia exposto um aluvião de cascalho e lodo, irregular e coberto de forma exparsa por lixo mais moderno e de, digamos, menor interesse arqueológico  (e.g. rodas de bicicleta, garrafas de cerveja e uma barbie decapitada). Os objetos realmente antigos não são particularmente notáveis neste contexto, mas o Alastair demonstrou habilidade incomum ao se abaixar repetidamente para pegar algo que aparentava ser um cascalho ordinário, mas era na verdade um cachimbo do século XVII ou um caco de porcelana Tudor.
Mudlarking é um passatempo, mas isto não significa que não seja bem organizado. Existem licenças a serem obtidas, para níveis sucessivos de complexidade e experiência. Iniciantes podem simplesmente pagar algumas libras ao Museu de Londres e obter uma carteirinha e o direito de retirar objetos encontrados sobre a superfície. Cavucar, cavar e usar detectores de metal demandam níveis mais elevados de habilidade demonstrada, e carteirinhas específicas.

Continuamos a nossa procura, inicialmente pela margem sul, e em seguida pela margem norte (onde a cidade foi fundada, e onde formalmente ainda existe exclusivamente, a chamada City of London). O resultado é o que mostra a foto abaixo. Cacos de ceramica de épocas várias,  e diversos cachimbos (vendidos após 1600 já cheios de tabaco, e muitas vezes descartados após um único uso); uma bala de mosquete, dentes de cavalo, um prego e um pedaço de tijolo com um buraco para fixacao. Nada que seja particularmente excitante para um mudlark experiente; mas como foi a minha primeira busca, e algumas destas coisas são quase mais antigas do que o meu país, elas vão comigo para o Brasil.

Depois que maré subiu, nos encontramos com a Sarah, uma amiga portuguesa radicada em Londres, e fomos para um pub em Fleet Street chamado ye Olde Cheshire Cheese, quase tão antigo quanto os tais cachimbos, e aparentemente frequentado pelo Samuel Johnson em eras passadas. Após uma boa refeição, fomos de bicicleta (e metrô,  no caso do Alastair) até Greenwich,  admirar o Cutty Sark e o museu naval. Me despedi de meus amigos e voltei para o norte de Londres, onde estou hospedado. Fiz um stir fry vegetariano para meus anfitriões, e sob o sol poente fizemos um tour a pé da região, por matas ancestrais (algumas das mais antigas destas ilhas) e colinas esculpidas por geleiras paleolíticas. Termino o dia agora, um dia estimulante e talvez excessivamente cheio de atividades; e uma analogia perfeita para esta minha estada na Inglaterra que agora termina.

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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Saint John's College, Cambridge
Colisões aleatórias

Há algum tempo concluí que a minha vida é bem descrita como uma série de colisóes aleatórias com pessoas interessantes. Foi assim que conheci a Suzana, com quem comecei a trabalhar em neurociència; foi assim que conheci a Yujiang, que interessada neste trabalho, me convidou para visitar o seu grupo na universidade de Newcastle. E foi assim que conheci o Kristian Franze, quando ele foi dar uma palestra em Newcastle na semana em que eu estava lá. Após a palestra, alguém fez uma pergunta sobre o formato do cortex, e ele disse algo do tipo - "Pois é, saiu um paper interessante sobre o assunto na Science na semana passada". Ao que o meu anfitrião respondeu: "Sim, e foi aquele cara ali que escreveu!".

Para resumir uma conversa longa, ele me convidou para dar um seminário. Hoje. Como até ontem eu estava pedalando nos cafundós da Inglaterra sententrional, isto implicou em uma certa costura ferroviária, de Ravenglass a Lancaster, Lancaster a Londres-Euston, Euston a Londres-Finsbury Park, e Finsbury Park a Cambridge. Entre uma conexão e outra, notei um email do Philipe, um estudante brasileiro de doutorado por lá, gentilmente se oferecendo para me mostrar a cidade.

Cheguei no meio da tarde, com o tempo corrido, mas suficiente para um rápido tour pelos colleges oferecido pelo Kristian, que é um Fellow no Saint John´s. É uma existência um tanto Hogwartiana, com casa, comida e roupa lavada em magníficos prédios medievais, famosos por seus pátios internos, capelas, porteiros carrancudos e lautos jantares togados regados a vinho*. Como muitas coisas neste pais, esta universdade não foi exatamente projetada; ela cresceu organicamente partir de sua gênese medieval, e é atualmente um confuso palimpseto de previlégios, regras e tradições (reais ou inventadas), que demandam um impenetrável vocabulário próprio. É uma universidade pública composta de colleges privados com recursos próprios que podem variar por várias ordens de magnitude entre o opulento (e.g. Trinity College) e o esforçado, e de um sistema paralelo de departamentos onde a pesquisa e a maior parte do ensino são de fato efetuados. É muito para absorver em um dia só.

Voltamos ao departamente e, ressussitado pelo poder da cafeina, proferí minha palestra para uma estimulante plateia que incluia físicos, neurocientístas, engenheiros e outras criaturas menos definíveis. Visitei alguns laboratórios e fomos, como era inevitável, para um pub ('the Eagle'). Passamos algumas horas agradáveis bebendo (coca cola, no meu caso), discutindo ciência e desenhando diagramas e equações nas costas de uma cardápio. Após me despedir do Kristian, fui levado pelo meu segundo tour pela cidade, agora da perspectiva de um aluno.
O menu
O verso do menu

O Philipe se mostrou extremamente simpático, e bem versado nas minúcias locais, e acabamos discutindo teorias sobre o curso futuro de Game of Thrones (livros e série), em um nível de detalhamente que talvez seja um pouco além do que é saudável. Nos despedimos já de noite, e vim para o meu alojamento, onde escrevo este post ao invés de fazer o que devia, que era dormir mais cedo.

O meu tempo aqui é curto. Amanhã tomo café e parto para a estação ferroviaría para mais um périplo. Tenho que estar na universidade de Reading para mais uma palestra... A última desta temporada, pelo menos.

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* Os fellows se sentam na high table; 10 cm a mais e doses cavalares de pompa e deferência são suficientes para distinguí-los de reles alunos.

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sábado, 11 de julho de 2015

Sandman Signature Hotel, Newcastle
Na sombra do colosso

Da sela de sua montaria, ele avista ao longe o seu objetivo. E agradece sem palavras o mágico intrumento preso a sua cintura, que o guiara até lá sem erro. Mas tal auxílio já não era mais necessário; qualquer um em todo o vale não precisaria de mais do que seus próprios olhos para saber onde encontrar o Colosso.

Ao longe o Colosso se erge, maior que o mais alto dos mortais. Maior que uma casa, maior do que uma árvore. Mas só aos poucos o seu verdadeiro tamanho se revela. Um monte de terra se mostra uma colina,

Não, isto não é fan fiction do clássico jogo Shadow of the Colossus. O protagonista sou eu em Newcastle (onde cheguei ontem a noite), indo visitar uma inusitada escultura situada a alguns quilômetros ao sul da cidade. O chamado Angel of the North saúda os motoristas vindos do sul, e se tornou o cartão-postal extra-oficial da cidade. Normalmente, esculturas antromórficas monumentais se situam entre o intimidador e o ridículo (ou, na Coreia do Norte, simultaneamente nos dois extremos). Mas alguns casos, como o Anjo, ou o Cristo no Rio, no equilíbrio enre abstração e representação, conseguem ser efetivamente reconfortantes.



Passei uma hora agradável lendo sob sua sombra, e voltei para a cidade. Encontrei inesperadamente pelo caminho a estrada de ferro de Tanfield, a mais antiga em existência no mundo (1725!). Seguindo o seu curso, voltei para a cidade, e para o trabalho.

Estou aqui em Newcastle para uma semana um tanto intensa de colaboração científica com a equipe do Marcus Keiser. Vou dar alguns seminários, e vamos discutir maneiras de tornar locais as leis de escala que obtivemos para a girificação dos cérebros de mamíferos. Depois parto de bicicleta para o oeste, seguindo a linha da muralha de Adriano até Ravenglass.

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PS: Para quem o primeiro parágrafo deste post é totalmente incomprensível, eis do que eu falo:


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sexta-feira, 3 de julho de 2015

chez Chantal, St. Mary Cray, perto de Londres
Dobras, fissuras e tectônica de provas


Infinita diversidade, mas só em algumas combinações
Estamos, eu e minha bicicleta, novamente a caminho de Londres e arredores para colaborações científicas várias. Estamos também, porém, no final do semestre, com a concomitante pilha de provas e relatórios para corrigir. Ao longo da semana, a medida em que as turmas iam fazendo suas provas a pilha aumentava; a minha caneta vermelha só lentamente erodindo o monte que se formava.

Era soterrado pela correção de provas que eu me encontrava em minha sala, correndo contra o relógio no dia em que iria embarcar. E a caneta riscava e cortava, enquanto eu grunhia em reprovação aos erros desnecessários e tentava decifrar caligrafias hieroglíficas, quando meu celular e meu computador começaram a apitar em unissono. A atividade no meu Facebook, por alguma razão, estava pululando com pedidos de amizade de completos desconhecidos, menções a meu nome e avisos de postagem. Demorei um pouco para entender que isto tudo era a consequência do interesse gerado por um paper que escrevi com a Suzana, e que havia há pouco minutos sido publicado online na Science.

A pouco mais de uma ano, eu e a Suzana estamos trabalhando em um projeto para tentar entender como o cortex cerebral dos mamíferos se dobram. É cada um do seu jeito? Existem padrões comuns entre diferentes grupos? Ou há um padrão universal? Questões de óbvio interesse biológico, certamente, mas porque isto seria de interesse para um físico? Acontece que regularidades, mesmo aproximada, entre objetos que a princípio deviam ser díspares (tal como o espectro da radiação emitida por corpos diversos quando aquecido) muitas vezes são consequencia de algum principio fundamental ainda não explicitado.  Física nova, na acepção mais ampla do termo. A tal radiação térmica era evidência da natureza fundamentalmente quântica da matéria e energia em pequenas escalas. Quais novos princípios físicos um entendimento teórico da neurociência poderiam inspirar? Eu não sei, mas gostaria muito de descobrir...

Cada ponto é uma espécie diferente. Se você é um
mamífero, está em algum lugar desta reta
Bom, de volta ao cortex. O que conseguimos mostrar foi que, se levarmos em conta somente a maneira como a expansão do cortex alonga os axônios, e que a superfície cortical não pode se auto-interceptar (seria preciso rasgar o cortex para isso), é possível encontrar uma relação entre a área total do cortex, sua área exposta e espessura, que vale (como verificamos) para todos os mamíferos. É como se os axônios tentassem enrugar o cortex mais e mais e o contato entre pedaços diferentes da superfície tivesse o efeito contrário. A configuração real dos cortices é exatamente aquela em que estas duas tendências estão em equilíbrio. Não importa se o seu cérebro é liso, como em um camundongo, ou dobrado, como o nosso. A regra é a mesma, a física é a mesma.


Além disso, a forma exata da relação implica em que a única escala de tamanho que define se e o quanto o córtex será dobrado é a sua espessura. Isto significa que, se usarmos a espessura como nossa régua, então existe uma área crítica (medida em múltiplos da espessura ao quadrado); abaixo dela o cortex não se dobra. Acima, ele se dobra.

Existe outro sistema físico que pode ser entendido como uma superfície de espessura finita auto-evitante sob compressão, e cuja escala de tamanho característica é dada pela espessura. Um sistema físico amplamente disponível nos quais experimentos são muito mais simples do que no cérebro. Bolinhas de papel...



Papel, de fato, era o que eu tinha em mente naquele dia. Uma pilha interminável de papeis, cobertos pelos alunos com fórmulas, números e gráficos. Na minha usual afobação para chegar a tempo do vôo sem esquecer nada de essencial, tive que levar um maço de provas para corrigir no avião. Assim que terminar, envio a pilha por correio de volta ao Brasil. Me desejem sorte. E aos meu alunos também...

PS: Alguns artigos de divulgação interessantes sobre o artigo aqui, aqui e aqui



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