domingo, 10 de julho de 2016

Estação ferroviária, Halmstad, Suécia
Imprevistos e improvisos



Terminada a FENS em Copenhagen, fui pedalar. Para o norte, ao longo da costa leste da (velha) Zeländia. Até a Helsingor dinamarquesa, e de lá por balsa até a sua imagem no espelho, a Helsingborg sueca, nos arredores da qual fica a fazenda em que me hospedaria (couchsurfing!).

Fui na FENS pela manhã. A saída de Copenhagen foi no começo da tarde, atrasado pela mesma chuva insistente que não deu trégua durante toda a semana. Parti finalmente sob chuvisco; mas antes de sair da cidade um vento norte forte, que iria continuar durante todo o dia, limpou as nuvens. Isto tornou o passeio ao mesmo mais agradável (mais seco e fotogênico) e mais penoso (pedalar contra o vento é como subir um morro pouco íngreme, mas que nunca acaba).

O cascalho deve ser só neste trecho

A parte dinamarquesa do caminho inicialmente segue pelo litoral, ao longo de uma auto-estrada, até se separar em uma via dedicada, passando por florestas e vilas pitorescas com telhados de sapé. Após uma breve viagem de balsa (e um novo amigo de facebook e um sanduiche de salmão defumado depois), e cheguei em Helsingborg, uma cidade de aparência agradável, mas que vi só de passagem. Uma dúzia de quilômetros em estradas rurais depois, cheguei na fazenda da simpática família que iria me hospedar: Andreas, Julia e seu filho Alexander de 7 meses. Uma janta, algumas horas de conversa agradável e uma noite bem dormida em cama macia depois, era hora de continuar viagem. Acompanhado pela Júlia pelos primeiros quilômetros (alguns meses de ser mãe em tempo integral em uma zona rural, 
O cascalho deve recomeçar logo após estas pedras...
qualquer desculpa para sair de casa é bem-vinda), o plano do dia era seguir através de uma península até o farol de Kullen, a porta de entrada do mar Báltico, que tem existido de uma forma ou de outra desde o século XIII (anteriormente, e ocasionalmente posteriormente, os locais se sustentavam saqueando naufrágios). O gps me mandava seguir pela estrada que subia suavemente pela espinha central da península. Mas havia uma alternativa possivelmente mais agradável, segundo o mapa: Uma pequena trilha de dois quilômetros beirando a praia, que se liga a estrada principal através de uma conexão perpendicular já bem mais próximo do farol. Era só pegar um desvio em direção ao mar por alguns quilômetros.

Começando em um balneário local, a trilha começa como uma estreita faixa de asfalto a poucos metros do mar. Paisagem de fato agradável... Mas em breve o asfalto deu lugar ao cascalho. Que foi ficando mais grosso e irregular. Só mais um quilômetro, pensei. Não pode ser tão ruim...
Esta trilha não foi feita com bicicletas em mente...



O cascalho acabou em uma picada de pedras irregulares; as rodas da bicicleta escorregavam e era preciso descer e empurrar. Mas com certeza eu retornaria ao cascalho em breve... Certamente não havia como piorar.


As pedras iam se tornando mais irregulares, e a tal trilha neste ponto era mais uma sugestão otimista do que uma via trafegável. Eu me atinha a crença de que encontraria algo mais pedalável após cada curva e pedra. Foi neste estado de espirito em que cheguei na primeira escada escavada na rocha.

Passei os próximos 30 minutos com a bicicleta e toda a minha bagagem nos ombros, subindo laboriosamente cada degrau e tentando manter sob controle a decida de cada barranco, sob o olhar curioso dos ocasionais transeuntes que faziam o percurso sensatamente a pé.

Após enriquecer o vocabulário em português destes últimos com alguns comentários, digamos, contundentes sobre a sua geografia local, finalmente cheguei até um café a beira de praia. Uma praia com uma história um tanto escandalosa, descobri, tendo sido o primeiro lugar na Europa em que homens e mulheres podiam se banhar (vestidos!) juntos. A infâmia era tanta que aparentemente alguns dos visitantes seguiam pela minha trilha até a vila seguinte para que suas cartas não tivessem o carimbo dos correios de tão notório antro de corrupção carnal.

%$¨%#$!

Do café uma estrada asfaltada seguia até a crista da península, subindo em algumas centenas de metros tudo que a estrada principal sobe em alguns quilômetros. Mas pelo menos era a bicicleta a me carregar, e não o contrário.


A chegada ao farol foi, comparativamente, de uma tranquilidade parnasiana. O céu azul e o mar escuro sob o penhasco combinavam agradavelmente. Andei pelas pedras e cavernas, subi no farol, tomei sorvete e me preparei para partir de novo. A parte difícil estava para trás; com o vento nas costas e seguindo um caminho que mais descia que subia, fui pedalando na direção de Angelholm.

O sol brilhava, a brisa soprava e os pássaros cantavam quando, a 27 km da cidade, o aro traseiro da minha bicicleta decidiu se desintegrar. Desgastado por uma pastilha de freio já avançada em idade, cuja borracha havia adquirido a consistência de chiclete após uma semana de operação quase aquática na chuvosa Copenhagen, o aro se partiu em dois ao longo de sua linha média lateral. Eu viajo preparado para consertar quase tudo que pode dar errado em uma bicicleta; mas soldar alumínio ou carregar um disco de 40 cm de diâmetro como sobressalente é além do que sou capaz.

É uma ribanceira, mas pelo menos é asfaltada...

Consegui pelo menos tornar a bicicleta empurrável (mulo de carga nunca mais!), e fui seguindo a estrada até encontrar pessoas. Mediante pedido, uma senhora (bibliotecária aposentada, e nova amiga de Facebook) que passeava com o cachorro me deu uma carona até a loja de bicicleta de Hoganas, onde morava. A loja não tinha um aro do tamanho que eu precisava (podia encomendá-lo em uma semana!); mas em Angelholm era mais provável que eu tivesse sorte.

Fui de ônibus até lá. Já era tarde, e fui direto para a casa da minha host de couchsurfing, uma simpática hiponga da região. Na manhã seguinte, fui até a loja de bicicletas local. Eles tinham o aro, e o conserto ficaria pronto no final da tarde seguinte.
Fui para a cidade seguinte, Halmstad, de trem (as cidades são todas muito próximas, ainda mais pelo caminho direto dos trilhos, se comparado com o costeiro da ciclovia). Conheci a cidade e fui relaxar na praia, antes de me encontrar com o meu host local, um professor de artes márcias e movimento, antes de voltar para Angelholm para recuperar minha bicicleta. Mas me confundi quanto ao horário de fechamento da loja. Já não havia vivalma por lá. Era 6ª, e ela só reabriria na 2ª.
A praia escandalosa!


Fui salvo pela minha host, que fez um crowdsourcing no FB até encontrar o número do celular do dono da loja. Não entendi a conversa que se seguiu entre os dois, em sueco, exceto pelas ocasionais menções a ‘brasiliansk’ e ‘Londonisk’, ou algo assim. Mas o resultado final é que o mecânico da loja, um simpático kosovar chamado Benny, foi abrir a loja as 8 da noite, para que eu pudesse seguir viagem.







Preciso me lembrar de levar equipamento
para solda em alumínio na próxima viagem...
Na manhã seguinte pedalei definitivamente até um pouco além de Halmstadt, passando por Bastad, onde comprei e comi um piquenique pantagruelesco. O meu host me ensinou a preparar panquecas de banana, e conversamos sobre neurociência e artes marciais. Com todo o drama com a bicicleta, acabei perdendo um dia de ciclismo, mas não reclamo. Este tipo de contratempo faz parte deste tipo de viagem, e apesar de tudo as experiências resultantes foram interessantes, mesmo que inesperadas. Quando se viaja sozinho para um pais novo, e propelido pelas próprias pernas, é preciso estar pronto para o inesperado, e para se virar para resolver eventuais problemas que surjam pelo caminho. E, de qualquer forma, eu estava na Suécia, não no vale de Korenghal. O pior que poderia ter acontecido teria sido ser obrigado a chamar um Uber.




PS: No dia seguinte peguei um trem de volta a Copenhagen, de onde voei para Londres, e de lá para Newcastle, onde estou agora. Sem nenhum contratempo. Fico por aqui por 11 dias, trabalhando em uma colaboração científica. 
































[Deletar se nao usado]

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domingo, 3 de julho de 2016

Tagholm, Copenhagen
Navegar é preciso



Bolhas se formando na capital financeira da Europa


Um destes instrumentos de navegação não precisa de baterias
Estou em Copenhagen para a FENS 2016. Mas também estou a caminho de pedalar pela Suécia e trabalhar em colaborações na terra do Brexit. Cheguei aqui ontem, mais morto do que vivo, 26 horas após ter partido do Rio. O que não foi de todo ruim...

O meu roteiro de avião tem a forma de um Y. O ponto central fica em Londres, a perna maior começa no Rio e passa por Lisboa, e as duas outras pernas acabam respectivamente em Newcastle e Copenhagen. Fiz portanto uma conexão sem contratempos em Lisboa, e pousei em Londres. O plano original era me encontrar com a Sarah, mas o vôo, o pouso e a alfândega atrasaram, e tive afinal só algumas poucas horas para matar. Fui para a cidade mesmo assim, andar um pouco pela margem sul do Tâmisa, comer algo e fazer um pouco de mudlarking extemporâneo. Voltei com cacos demais e tempo de menos, mas com um pouco de sorte e correria embarquei para a Dinamarca (EU: 'Excuse me, where is the SAS [Counter]?' POLICIAL PIADISTA (!):' You don't want to find the SAS').

Cheguei aqui por volta da meia noite. O meu host de AirBnB estava no aeroporto, preparando-se para embarcar para Creta, e me deu a chave. O apartamento fica a uns 10km pedalados do aeroporto. Mas meu telefone tinha 2% de bateria, e os gentis bagagistas pelo caminho haviam amassado a coroa de modo que a corrente ficava saltando.

Eu me lembro da época em que estar em uma cidade estranha de madrugada, sem navegação eletrônica e sem um meio de transporte funcional, me deixaria bastante estressado. Porém, sem sentimentalismos pelos velhos tempos, simplesmente inverti a bicicleta e usei o meu alicate desempenante, de modo que o que devia mover se movesse, e o que devia ficar parado parasse. Pendurei então a minha bússula no pescoço e prendi o esboço do meu trajeto no guidom. Com a ajuda de transeuntes ocasionais, cheguei a tempo de tomar banho e dormir.


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domingo, 17 de abril de 2016

Casa, Rio de Janeiro
A república das bolhas

Grupo resolveu jogar volei no muro instalado para separar manifestantes pró e contra o impeachment na esplanada dos ministérios, em Brasilia.

Quando Lula saiu da presidência, em 2010, tinha uns 85% de aprovação. Atualmente, Dilma tem perto de 85% de reprovação. Ambos os índices me parecem amplamente merecidos. Porém, tenho a impressão que o debate político hoje é, se não conduzido, pelo menos pautado pela briga de foice entre os 15% que desaprovavam Lula em 2010 contra os 15% que aprovam a Dilma em 2016.

Esta polarização, cujas causas incluem a mediocridade das lideranças políticas e a dinâmica emergente das redes sociais que promove a formação de bolhas ideológicas, é ruim para o debate e ruim para a democracia. Mas isto não significa que o potencial de distribuir o debate oferecido pela internet seja de todo desperdiçado. Para quem está disposto a abrir mão do barato dopaminérgico resultante da certeza moral no combate contra as forças da escuridão, ainda é possível encontrar discussões civilizadas e pontos de vista originais. Deste debate, acho, estão surgindo alguns consensos e quase consensos, insuspeitos por aqueles que passam o dia a encaminhar memes simplistas no Facebook e a denunciar inimigos da pátria no Twitter.


Pouca gente seriamente discorda que o Eduardo Cunha é um picareta que merece estar no Papuda e não no parlamento; que a corrupção é generalizada e não limitada a um partido ou matiz ideológico; que o Governo Dilma foi desastroso mas que a oposição oscilou entre o patético e o obstrucionismo tacanho, e que o PMDB seria oportunisticamente situacionista com qualquer governo viável no espectro político entre Pol Pot e Pinochet. A crise é vista como o resultado da falência generalizada da classe política; mesmo os ideólogos não se dão ao trabalho de defender o seu lado, se limitando a afirmar que o outro é pior. Ninguém parece ser pro-Temer ou por-Dilma, mas as defesas do menos pior se multiplicam.

Me parece ainda que uma maioria substancial mas não avassaladora achou indigesta a nomeação do Lula para o ministério, mas concorda que a liberação das escutas pelo Juiz Moro foi uma ato político que extrapolou suas atribuições; que a justificava do pedido de impeachment baseado em pedaladas em 2015 é fraca, mas que o governo Dilma na prática acabou. Que a compra de deputados no varejão de cargos e verbas é uma pratica corrupta mesmo se não estritamente ilegal, mas que um processo de impeachment conduzido por um bandido como o Eduardo Cunha tem uma séria falta de credibilidade.

Apesar disso, o que vimos hoje na maratona de logorreia no plenário do congresso, e veremos amanhã (hoje) nas ruas é só a polarização mais obtusa. Mas na segunda (ou quando o senado acatar o pedido de abertura, se for o caso), o pais continuara sendo governado por um partido envolvido em corrupção em uma escala épica. A Dilma não se tornará competente, nem Temer terá legitimidade eleitoral. O PT não vai aprender autocrítica e o PMDB não vai deixar de ser fisiológico. E o Cunha vai continuar esquentando cadeira na presidência da câmara e não na cadeia.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Chez Rafa, Genebra
Gestos nobres

Eu sou um Lorde. Não no sentido de ser super educado e atencioso, mas de ser, de fato, um Lorde. Um aristocrata. Um par do reino. Eleito pelos céus para reger a vida alheia. Destinado a uma vida de luxo e conforto por razões de berço. Um barão assinalado que da ocidental praia Copacabana, sobre mares a muito navegados passou ainda além de Heathrow.

 Pelo menos é o que diz a British Airways. Lord Bruno Mota.

Porém, mesmo defronte a prova irrefutável da minha alta estirpe, os funcionários não me ofereceram um assento na primeira classe, massagem para os pés ou serviçais emprestados. Um acinte.

Apesar da minha altivez ferida pela mesquinharia plebeia, permaneço em meu propósito de, passando por Genebra, ir até Strasburgo na França, terra de meus parentes os Duques de Lorena, e sagrada cidade imperial pelos meus chapas, os Hohenstaufen da Swábia. Lá participarei do MAPS2015, um congresso particularmente interessante por reunir sob o mesmo teto biólogos, físicos, matemáticos e cientistas da computação em convivência amigável.

Passarei então por Zurique para um palestra, e volto por Genebra.






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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

McCormick convention center, Chicago
Pegando aviões


Estou em Chicago para mais um SfN. Vim assistir alguns seminarios, apresentar mais um, encontrar pessoas e andar de bicicleta. Mas, para variar, quase não venho.

A historia começa em Miami, 3 anos atrás. Eu estava em uma conexão longa a caminho de Barcelona. Aproveitando a presença na cidade de um amigo que me facultou o uso de seu quarto de hotel, resolvi ir (de bicicleta, obviamente) até uma praia no extremo sul da cidade e, após algumas horas relaxantes, era hora de voltar. Foi quando notei que havia trazido a chave errada, e que não tinha meios de abrir o cadeado que prendia a bicicleta em um poste local. É uma história enrolada, que já contei em outro post. No computo final, consegui, com alguma ajuda de um transeunte, cortar a corrente e afanar a minha própria bicicleta sem ser preso, e continuei minha viagem sem maiores transtornos (usando aqui uma definição um tanto elástica de como se qualifica a magnitude de um transtorno).

A única consequência de longo prazo do contratempo foi que fiquei um tanto paranóico a respeito das chaves do cadeado de minha bicicleta em viagens.

Motivado pela supracitada paranoia, e com um vôo que saia ao meio dia, resolvi aproveitar a manhã para 1) Fazer cópias da única chave do cadeado que consegui localizar; e 2) cortar o cabelo e barba para não ser barrado na alfândega. Deixei portanto o meu molho de chaves no chaveiro, e me dirigi ao barbeiro. Após a intervenção civilizatória deste último, eu obviamente me esqueci completamente das chaves e peguei o ònibus para o fundão (onde prentendia trabalhar um pouco e onde guardo minha bicicleta dobrável). Foi só ao chegar em frente a porta da minha sala que me lembrei das chaves.

Acabei perdendo bastante tempo e dinheiro em um circuito triangular para pegar as chaves, a bicicleta, e o vôo, nesta ordem. Cheguei no aeroporto faltando 4 minutos para o encerramento do checkin. Mas embarquei.

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sábado, 18 de julho de 2015

Casa do Reza, Londres
Na lama em Londres

Pausa para cachimbo
Cheguei em Londres ontem de tarde, depois de uma breve mas produtiva visita aos meus colegas na universidade de Reading. Hoje foi o meu último dia completo por aqui antes de voltar para o Rio amanhã. Obviamente, resolvi fazer algo memoravel e tipicamente Londrino. Chafurdar na lama do tio Tâmisa a procura do lixo produzido pela cidade ao longo das eras se encaixa perfeitamente nesta descrição,  então aceitei o convite do Alastair para uma manhã de mudlarking.

Londres foi fundada pelos romanos pouco antes da era cristã, e o Tâmisa foi sempre a sua principal artéria de transporte, fonte de enguias comestíveis e esgoto. Ao longo dos milênios,  romanos, celtas, saxões, normandos, e finalmente ingleses sob dinastias várias, viveram e morreram ao longo de suas margens. E, sempre que precisavam se livrar de algo, o rio estava convenientemente logo ao lado.

Todo ano, os resíduos destas eras passadas se desgarram de aterros ou são arrastados pela correnteza, e depositados nas margens do rio. Moedas, cerâmica,  balas de mosquete,  ossos de animais domésticos (e o ocasional humano), e os indefectíveis cachimbos de barro. E na maré baixa, um grupo de excêntricos de todos os naipes procura e cataloga avidamente tais relíquias,  o descarte inconsequente das eras passadas. Estas pessoas são conhecidas como 'mudlarks'. O meu amigo Alastair, arqueólogo e quinteseencialmente inglês, é um deles.

A partir do extremo sul da ponte de Londres, rapidamente encontramos uma escada lodosa decendo até a margem. A maré baixa havia exposto um aluvião de cascalho e lodo, irregular e coberto de forma exparsa por lixo mais moderno e de, digamos, menor interesse arqueológico  (e.g. rodas de bicicleta, garrafas de cerveja e uma barbie decapitada). Os objetos realmente antigos não são particularmente notáveis neste contexto, mas o Alastair demonstrou habilidade incomum ao se abaixar repetidamente para pegar algo que aparentava ser um cascalho ordinário, mas era na verdade um cachimbo do século XVII ou um caco de porcelana Tudor.
Mudlarking é um passatempo, mas isto não significa que não seja bem organizado. Existem licenças a serem obtidas, para níveis sucessivos de complexidade e experiência. Iniciantes podem simplesmente pagar algumas libras ao Museu de Londres e obter uma carteirinha e o direito de retirar objetos encontrados sobre a superfície. Cavucar, cavar e usar detectores de metal demandam níveis mais elevados de habilidade demonstrada, e carteirinhas específicas.

Continuamos a nossa procura, inicialmente pela margem sul, e em seguida pela margem norte (onde a cidade foi fundada, e onde formalmente ainda existe exclusivamente, a chamada City of London). O resultado é o que mostra a foto abaixo. Cacos de ceramica de épocas várias,  e diversos cachimbos (vendidos após 1600 já cheios de tabaco, e muitas vezes descartados após um único uso); uma bala de mosquete, dentes de cavalo, um prego e um pedaço de tijolo com um buraco para fixacao. Nada que seja particularmente excitante para um mudlark experiente; mas como foi a minha primeira busca, e algumas destas coisas são quase mais antigas do que o meu país, elas vão comigo para o Brasil.

Depois que maré subiu, nos encontramos com a Sarah, uma amiga portuguesa radicada em Londres, e fomos para um pub em Fleet Street chamado ye Olde Cheshire Cheese, quase tão antigo quanto os tais cachimbos, e aparentemente frequentado pelo Samuel Johnson em eras passadas. Após uma boa refeição, fomos de bicicleta (e metrô,  no caso do Alastair) até Greenwich,  admirar o Cutty Sark e o museu naval. Me despedi de meus amigos e voltei para o norte de Londres, onde estou hospedado. Fiz um stir fry vegetariano para meus anfitriões, e sob o sol poente fizemos um tour a pé da região, por matas ancestrais (algumas das mais antigas destas ilhas) e colinas esculpidas por geleiras paleolíticas. Termino o dia agora, um dia estimulante e talvez excessivamente cheio de atividades; e uma analogia perfeita para esta minha estada na Inglaterra que agora termina.

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