Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Palais de l'Unesco, Paris
Eles são especiais

Uma conversa em franglês, na exibição do exército francês nos jardins do Invalides em comemoração ao 14 de julho:

EU: Porque o seu fuzil é diferente do fuzil dos outros soldados (ele tinha um HK416, os outros, o FAMAS tradicional)
Soldado Francês: Estamos em transição para o fuzil novo
Eu: O exército inteiro?
SF (fazendo pose): Não, só as forças especias
Eu: Então vc é das forças especiais... Você já esteve no Afeganistão?
SF: (se esforçando para parecer perigoso e misterioso) Eu não sei...
Em geral, quanto mais 'especial' um soldado afirma ser, menos especial ele realmente é. A maior parte das autonomeadas 'forças ['de operações', na terminologia americana] especiais' no mundo são na verdade formações de infantaria ligeira bem treinadas. Por outro lado, se um cara trocudo não dá muito papo e afirma ser o cozinheiro, ou o faxineiro da base, provavelmente faz parte de alguma unidade ultra-secreta e é extremamente perigoso.

O equivalente gálico do SAS ou da Força Delta é o 1er RPIMa, e eles de fato usam o HK416; mas não são a unica unidade francesa a fazer isto. As forças de ação direta nos EUA ou no Reino Unido tomam bastante cuidado em proteger a identidade de seus membros, e não são conhecidas por ficarem fazendo pose para turistas acidentais. Por outro lado, o 1er RPIMa tem uma banda (!), então talvez as coisas funcionem de forma diferente na França.

Continue lendo...>>

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Apessoinha Bed & Breakfast, Paris
Adieu London, hello Paris

Os dias foram movimentados em Londres, e continuei com o meu novo hobby de caminhadas noturnas. Na 5a me encontrei com a Rima, e fizemos um tour a pé pela parte chique (posh) da cidade: Sloane Square, Chelsea, Kensington, etc. Sob muitos aspectos, caminhadas são uma maneira muito mais interessante de reencontrar amigos do que refeições em restaurantes. A experiencia é muito mais memorável, não ficamos presos ao ritmo imposto pelo serviço do restaurante (pedido/comida/sobremesa/conta), e é possível haver pausas na conversasão sem desconforto (e, reciprocamente, não existe a nescessidade de preencher cada minuto de silêncio com palavras); pausas não-desconfortáveis são um sinal de entendimento real entre duas pessoas (só em relações superficiais a conversa nunca para), mas é preciso algum tempo até achar o ritmo certo se estas não se vêem a muito tempo. Depois da extremamente agradável caminhada, me despedi da Rima e fui andando ao longo do Tâmisa a partir da ponte Chelsea, passando por uma usina termoelétrica fora de funcionamento (muito feia, mas por alguma razão tombada), e por uma monstruosidade em forma de pirâmide asteca, em frente à ponte de Vauxhall. Passei pelo parlamento e adjacências (habilmente iluminados, o que produziu em mim certos impulsos homicidas em relação a carregadores de bagagem holandeses), e finalmente peguei o metro em Embankment (ligando a trajetória do passeio com a da noite anterior)

Sexta fui em um jantar Iraniano, cozinhada pela simpática irmã do Reza (o meu colaborador em Londres, professor no QMUL). Discutir a situação no Irã com pessoas que nasceram e viveram lá é bem diferente do que debater o assunto com outros nerds de plantão na internet. É mais informativo também.

Sábado almocei com o João Guilherme e a Dani, primos meus que estão na Inglaterra (os Mota são uma especie adaptável). No caminho para o restaurante (estritamente falando, no caminho oposto ao caminho para o metro, porque confundi a direção devido a insistencia do sol neste hemisfério de andar do lado errado do ceu), passei por uma pequena mas animada manifestação contra a Igreja da Cientologia, uma picaretagem inventada por um escritor de ficção científica mediocre. Simpáticos os manifestantes. Alias, qualquer grupoque consiga combinar o meu desprezo pela Cientologia com o meu apreço pelos quadrinhos do Alan Moore merece aplausos (pessoas com mascaras de Guy Fawkes em Londres! Da próxima vez que estiver em Nova York vou procurar pelo doutor Manhattan).

Comprei ainda uma nova câmera (uhu!), e cheguei no aeroporto com uma antecedencia incomum. Minha bagagem foi revistada em detalhes, e eu não pude não explicar para o guarda o funcionamento do sextante de navegação que comprei em uma feirinha de antiguidades em uma igreja (st. James) em Piccadilly.

Cheguei em Paris, vim para a casa da Mariana e do Sylvain, dormi, e tive um domingo relativamente light; me registrei no congresso, participei inadvertidamente de uma missa maronita, e comprei o meu almoço em uma mercearia grega, onde discuti brevemente Tucídides com o vendedor (originario da Tessália) em franglês (o assunto surgiu quando ele me perguntou se eu conhecia a Grécia, e eu respondi que sim, mas só através de livros, e mencionei o dito cujo como exemplo). Não entendi direito se ele me disse que na época da guerra do Paloponeso a Tessália era uma terra bárbara, ou se ele reclamou que o Tucídides fazia parecer injustamente que era este o caso. Em ambos os casos, uma conversa interessante. Passei também mais de duas horas na Sainte-Chapelle, que ainda considero uma das coisas mais bonitas criadas pelo ser humano (os vitrais...). Se tiver tempo, escrevo um post dedicado a respeito; mas as fotos já estão no flickr.

Hoje fiz minha apresentação (que foi muito bem), e cozinhei um jantar para a Mariana, o Sylvain e o André: Salada de pepino, tomate, azeitonas e queijo fetá, com molho de iogurte; endívias recheadas de alho poró e cogumelo, e risoto de presunto espanhol, pera e cogumelos (inventei hoje, ficou gostoso). Falei com o Gabriel e a Ceci por Skype, li alguns emails, visitei alguns blogs, bloguei, etc. Por algum estranho efeito relativístico são agora 4:40 da manhã. Talvez eu devesse ir dormir...

Continue lendo...>>

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

France House - QMUL, Londres
Holandando

Paris é monumental, construida para impressionar com suas grandes panorâmicas, mas transparecendo um certo artificialismo. Tudo é muito grande, muito espetacular. É preciso resistir a tentação de correr em estado de frenesí fotográfico de um monumento até o outro, ou de uma ala de seus cavernosos museus para outra, em uma tentativa fútil de 'ver tudo'. Mesmo sendo mais auto-referente e menos aberta que Londres ou Nova York, Paris é mais capáz de inspirar nos visitantes a sensação de reverência ressentida que o provincial estereotipicamente sente em relação à metrópole. O efeito provavelmente é intencional; Londres, Nova York se tornaram com o tempo cidades imperiais; a Paris atual foi projetada como tal.

Amsterdam é uma cidade em escala humana, construida compacta e sensatamente em volta de três canais. Não tem obras monumentais, mas impressiona pelo conjunto. Amsterdam é conhecível em um dia. Foi o que eu fiz com a Ana Júlia. Uma passeio agradável e sem pressa com paradas não programadas quando necessário para comida, bebida, cafeina ou descanso. Passeio este que fomos esticando gradualmente, de uma voltinha durante a tarde até uma caminhada pela madrugada.

A nossa primeira parada exemplifica bem o que eu quero dizer. O museu dedicado ao Van Gogh é pequeno, agradável e direto ao ponto. Seguimos a evolução de seu estilo desde seus primóridios através de pinturas colocadas em ordem cronológica, bem contextualizadas na vida artística e familiar do pintor, e acompanhadas de alguns objetos de interesse e salpicadas de obras de contemporâneos e colegas. Não há um destaque em particular para as obras mais famosas, que chegam meio sorrateiras e são muito mais marcantes por isto (talvez devido a seu uso da textura, Van Gogh no final da vida é muito impressionante ao vivo). Uma ou duas horas depois de entrar, já estavamos na rua, satisfeitos, a procura de um lugar para um almoço tardio (indiano, no caso).

O mais interessante da cidade são os detalhes, arquitetonicos e de outros tipos. Não há muito espaço livre, e cada pedaço foi usado e reutilizado diversas vezes: Das casas estreitas tombadas em angulos insólitos até o baluarte das muralhas da cidade que já foi casa de lastro, prisão, centro de dissecção e hoje é um café. Os canais são parte fundamental da rede de transporte local, e também são moradia para um número considerável de habitantes de barcos.

O lendário distrito da luz vermelha, por outro lado, é uma decepção. Em qualquer outro lugar do mundo, passear na zona depois de meia noite assume ares de uma atividade um tanto sórdida, e possivelmente arriscada. Em Amsterdam, isto significa desviar de musicos de rua jamaicanos e evitar as massas compactas de velhinhos em excursão. Qualquer ilusão de interagir com o lado B da cidade de alguma forma significativa, ou de trocar palavras amigaveis com alguma prostituta em pausa para cafezinho é destroçada pela Disneylandia sexual com que nos deparamos, organizada com a habitual eficiência tranquila dos holandeses. As prostitutas ficam segregadas em suas vitrines profissionalmente iluminadas falando ao telefone e demonstrando a mesma combinação de atenção profissional e desinteresse pessoal em relação a seus clientes em potencial que uma caixa de supermecado tem em relação a suas compras

Devido à geografia de seu pais, os Holandeses se tornaram um povo comercial (assim como, por exemplo, os fenícios), voltado para fora; prático, apto a adotar costumes estrangeiros, e (dentro do razoável), bastante tolerante. Não se incomodam em absoluto em falar inglês (e falam muito bem, condutores de bonde inclusos). Não encontrei nenhuma manifestação daquele narcisismo das pequenas diferenças que parece caracterizar seus vizinhos maiores; porém também senti falta de alguma idiosicrasia nacional que os caracterizasse como holandeses, e não como cidadãos do mundo que residem na holanda. Tenho certeza que tais coisas existem, e se tornariam obvias para um viajante que passasse mais do que um dia na cidade. Mas eu não tinha tempo.

Fisicamente, tanto Amsterdam em particular quanto a Holanda como um todo são lugares inventados. A cidade começou com uma barragem no rio Amstel (Amstel-dam!), onde hoje é a praça Dam e o centro mais velho da cidade; o pais foi em grande parte reconquistado do mar através de extensas obras de bombeamento e drenagem. De fato, há muito pouca natureza 'selvagem' em evidência por onde andei. Os agradáveis parques, por exemplo, ficam em polderes nas redondezas da cidade. Os Holandeses vivem onde e como escolheram viver, e não simplesmente onde o destino os colocou. Talvez por isto se ressintam tanto de imposições externas que os obriguem a alterar este modo de vida. Seja a invasão nazista em 1940, ou o prospecto da mudança climática, ou o radicalismo islâmico.

Eu sei porém que moraria em Amsterdam sem problemas. É uma cidade acolhedora, pequena mas não provinciana. Onde todos andam de bicicleta. Ou barco. Eu certamente gostaria de voltar lá, para um passeio mais extenso. Não ví o museu dos grandes mestres, nem interagi com holandeses de forma significativa. Por outro lado, posso dizer que andei por toda a cidade. Antes de pegar o bonde de volta para casa, nos alojamos em puffs macios em um parque da cidade para descansar um pouco e rever as fotografias que eu tirei (impulsos homicidas tomam conta de mim quando escrevo estas palavras; imagino carregadores de bagagem holandeses sendo torturados boschianamente). Dentro do curto tempo que tinha, conheci bem a cidade fisicamente. Mas nem cheguei perto de assimilar a textura histórica associada aos pequenos detalhes, dos quais gostei muito mas entendi muito pouco.

São Miguel Arcanjo (?)...

E um dragão/demonio...

e um elefante?

Eu definitivamente preciso voltar em Amsterdam para entender esta cidade direito.

Continue lendo...>>

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

France House - QMUL, Londres
Vida noturna


Estou aqui em Londres já a dois dias, habitando um excelente alojamento dentro do Queen Mary College enquanto colaboro com o Reza (professor aqui) e o Marcelo em um paper. A minha camera foi roubada da mala que despachei em Amsterdam, então não tenho fotos daqui por enquanto. Eu tive um dia extraordinário em Amsterdam, com e graças a Ana Júlia, que me hospedou e serviu de guia.

Amsterdam merece um post separado, que não vou escrever agora porque são 5:43 da manhã e ainda não fui dormir. Não fui dormir porque só cheguei no alojamento meia hora atrás. Cheguei tão tarde (ou cedo) porque ontem saí daqui as 9:30 da noite e fui andando pela cidade. Segui pela Mile End Road, White Chapel, Brick Lane, e inúmeras ruelas e becos do East End com nomes inusitados. Passei pela estação ferroviaria de Liverpool Street (que em sua incarnação moderna data dos anos 60, mas que eu acho extremamente charmosa), a ponte do milenium, a ponte Blackfriars e o simpático pub arte deco com o mesmo nome logo em frente, Chancery Lane, Holborn e Oxford Street. Já era mais de 11 da noite, o sol tinha acabado de se por, e eu estava com fome. Continuei portanto até Leicester square, o único lugar onde achava que poderia encontrar algum restaurante aberto.

Após comer uma pizza mediana, o metro já havia encerrado as operações. Desci então até Trafalgar Square (Charing Cross no mapa), onde algum artista maluco organizou um maratona de 100 dias de ocupação initerrupta do quarto pedestal da praça, o único no momento desprovido de estátua. Milhares de voluntários estão se alternando, passando cada um 1 hora no topo fazendo o que lhe vier a cabeça. Sem metrô, e sem um onibus noturno direto, resolvi descansar um pouco e esperar o sol nascer de novo. Periodicamente os voluntários iam se sucedendo (por meio de uma plataforma extensível) no pedestal. Um deles leu um livro, outro cortou o próprio cabelo, e outro ainda protestou contra o fechamento de algum curso de línguas no King's College. Mas o mais interessante foi um prefessor de educação artística de segundo grau, que engravatado e com presença de espírito e de palco, deu uma aula de arte aos gritos, com ajuda de uma série de cópias de pinturas distribuidas por sua assistente. 'O que voces vêem' - ele perguntava. A aula terminou com uma discussão informal (ele ficou feliz em saber a respeito do Brughel que vi hoje na Sotehrby's (outra estória...)). Passei mais uma ou duas horas lendo na praça (muito apropriadamente para um caminhante solitário, um livro novo do Paul Theroux onde ele repete, 30 anos depois, sua viagem solitária de trem através da Europa e Asia), sendo periodicamente interrompido por um bêbado um tanto paranóico chamado Cameron, que inicialmente presumiu que eu fosse um muçulmano lendo o Corão (a barba...), e depois queria saber o que um grupo de barulhentos Italianos estava cantando ao lado.

Em hora nenhuma a praça ficou vazia; inicialmente bandos de turistas passavam apressados, como bandos de aves migratórias, tirando fotos e rindo alto (italianos e brasileiros eram sempre ouvidos antes de serem vistos). Aos poucos, grupos de mendigos foram se formando educadamente nos bancos da praça, preparando-se para dormir. Todos tinham seu equipamento mendigal customizado, e tratavam todo o processo com uma naturalidade desconcertante. Por último, vieram os jovens, pinguços e farreiros a procura de transporte para casa, vindos de incontaveis casas noturnas e festas particulares nas redondezas. Garotas de minissaia e maquiagem borrada, totalmente bebadas, chapinhavam nas fontes e gritavam palavrões. Seus companheiros masculinos urravam selvagemente e encarnavam o papel dos romanos no rapto das sabinas, carregando-as de um lado para o outro nos ombros. Alheios a tudo isso, os amadores no pedestal e suas inevitáveis claques de família e amigos prosseguiam na sua performace.

Com o ceu azul-escuro, peguei finalmente um onibus noturno até Liverpool Street. O McDonalds ao lado da estação dava a impressão de ser o único estabelecimento comercial aberto na cidade, e naquele momento me parecia um lugar extremamente acolhedor, com a perspectiva de um chocolate quente. Um chocolate e mais um ônibus depois, e após uma curta caminhada ao longo do canal, finalmente voltei, saudoso e com 7 horas de atraso, para a minha cama macia e meu chuveiro quente.

Update: O post, agora em português!

Continue lendo...>>

Domingo, 5 de Julho de 2009

Varanda da casa da Ana Júlia, Amsterdam
Conversas aleatórias II


Eu quase perdi o onibus para Amsterdam. Normal. Tive um viagem um tanto surreal também. Igualmente normal. Mas acho que exagerei um pouco, no dois casos.

Estavamos no churrasco na casa dos pais do Sylvain, a 40km de Paris. O menu consistia em macarrão de pepino com molho curry (bom!), tabule, bolinhos de Gruyere e churrasco de peito de pato (muito bom!!). Mas começava a ficar tarde, e o meu onibus sairia de Paris as 11 da noite. O Sylvain, para seu eterno crédito cármico, decidiu então me levar para a estação de onde sairia o ônibus. Chegamos na Porte de Bagnolet as 10:52, sem saber onde exatamente era a garagem. A passagem especificava um check-in com 30min de antecedencia, com passagem impressa em mãos. Eu estava na vizinhança genérica do ônibus com 8 minutos de antecedencia e a passagem em um .pdf aberto na tela do meu laptop. Depois de alguma perguntas freneticas em frenglish aos locais, consegui finalmente descobrir onde era a tal Eurolines (dentro da estação de metro Gallieni), e fui correndo até o guichê. Cheguei as 10:58, e o guichê de 'Amsterdam' estava vazio. Pedi ajuda ao atendente no guichê ao lado, mas ele, sem levantar os olhos, me disse simplesmente para esperar alguem aparecer. Finalmente, um bigodudo apareceu e tranquilamente verificou minha passagem (na tela) e passaporte, e me indicou a direção do onibus. Cheguei lá esbaforido, junto com uma igualmente esbaforida moça com um sotaque que se revelou sul-africano. A Fathima trabalha de au pair em Rotherdam, e está no momento tentando evitar que sua mãe lhe encontre um jovem de boa família e índole para casar ('Você conhece o Xulambis Beltramis? . Os Beltramis são uma família respeitável. O Xulambis é boa pinta. Advogado. Ganha bem. Ele vem almoçar aqui com a gente hoje a noite....'.

A viagem foi tranquila, e enquanto perocorriamos os velhos campos de batalha da 1a guerra mundial eu ia praticando o kabuki de me entalar em uma posição diferente a cada 15 minutos para conseguir 5 de sono. O ônibus não tinha o elan e o senso de aventura de uma viagem da Cometa em estradas brasileiras, mas consegui não morrer de tédio. Já dentro da Holanda, fomos parados pela policia para controle de passaporte. Entreguei o meu, e este me foi devolvido após breve verificação. Mas o meu vizinho de banco, um sueco, estava sem passaporte. E sem documentos. E quase sem dinheiro. Ele havia sido roubado em Barcelona - disse aos policiais - enquanto dormia na praia. Havia colocado documentos, dinheiro e computador no fundo de seu saco de dormir. Acordou sem eles, com o fundo do saco e os bolsos abertos a faca. Ele havia prestado queixa na policia? Não! Estava tentando voltar para a Suecia de ônibus, sem se preocupar com tais tecnicalidaes. Os policiais não acreditaram muito na história, e o levaram para fora do ônibus para averiguação. Milagrosamente, 20 minutos depois, ele voltou (onde metade dos acordados parecia considerá-lo um meliante perigoso, a julgar pelos olhares); havia convencido os policiais de que a sua história era pelo menos plausível, e que a maneira mais eficiente de resolver a situação seria deixa-lo voltar para seu pais.

Depois disso, começamos a conversar. Contei da vez em que quase fui preso em Bruxelas ao cuidar de uma mala (dentro da qual havia uma caixa de metal impermeavel à raio-x), pertecente à uma esquecida velhinha argentina que simplesmente saiu do aeroporto e foi para casa. O Sebastian (o nome do elemento suspeito sueco, foto ao lado) vive de hip-hop e de fazer mágicas de baralho (ele é bom!). Ficamos conversando com a Fathima (que já levou um tiro de raspão e foi esfaqueada, trabalhando no sistema de justiça sul-africano), até ela descer em Rotherdam e nos em Amsterdam. Sebastian e eu pegamos o metrô em direção à estação central. Metro este em que todos os passageiros, a excessão de nos dois, estavam vestidos de branco. Obviamente existe uma explicação racional para isto (uma festa, aparentemente), mas por um momento pairou aquele clima de Além da Imaginação que seria o cliffhanger ideal se minha vida fosse uma série de televisão.

Chegando na estação central, me despedi do Sebastain (a procura de um café onde esperar o seu ônibus para Copenhagen), e fui procurar alguma informação sobre o bonde para a casa da Ana Júlia. Mal andei dois passos, e comecei a ouvir uma animada conversa em português. Um dos participantes, o Vanderly, prontamente se ofereceu para me levar até o ponto. Ele é de Belo Horizonte também, fez eletrônica no Cefet e passou o pão que o diabo amassou em Portugal antes de se arrumar em Amsterdam, onde é DJ e mora com um grupo de maranhenses.

Já no ponto, estavamos determinando o meu itenerário e conversando quando uma velhinha holandesa, sentada no banco, se oferece em excelente inglês para me ajudar. Ela me indicou a estação, bonde e horario corretos, e (obviamente) começamos a conversar. A Anka conheceu o marido inglês em um festival de Jazz em Amsterdam, e viveu em Londres por vários anos, só recentemente (com a morte do dito cujo) retornando à Holanda. Ela pegou o mesmo bonde que eu, e fui fazendo uma city tour guiado por ela até eu chegar no meu destino.

Os Holandeses são muito simpáticos, e falam excelente inglês. Mas pelo menos onde a Ana Júlia mora, eles usam uma noção generalisada do conceito de rua um tanto confusa, que inclui ramos laterais quase fractais e numeração semi-sequencial (um pouco como o departamente do física da UFMG). Mas depois de andar um pouco, consegui percolar até aqui, para dormir um pouco porque toda esta interação com pessoas randômicas é exaustiva. Hoje vou conhecer o que puder de Amsterdam, antes de embarcar amanhã de manhã para Londres. Vamos ver quem eu vou encontrar desta vez.

Continue lendo...>>

Sábado, 4 de Julho de 2009

Chateaux Carrel, Magny-Les-Hameaux
Conversas Aleatórias

Estou em Magny-Les-Hameaux, a uns 40 km de Paris, na casa dos pais do Sylvain, o marido da Mari. No momento a carne está na churrasqueira e nos preparamos para comer um churrasco a francesa. Hoje alugamos um carro e fomos em Giverny, a cidade onde o a casa e o jardim onde Monet pintou algumas de suas principais obras. A casa é interessante, rechada de arte japonesa (da qual o Monet foi um dos primeiros apreciadores na Europa), com uma agradabilíssimo estúdio onde ele trabalhava. Mas sao os jardins que realmente impressionam. Não tenho nem tempo nem o temperamento de ficar tecendo alguma prosa púrpura descrevendo o perfume das azaleias ou a inefável paleta de cores das flores, ou alguma xaropadao do gênero. O lugar tem que ser visitado para ser apreciado, já que a experiência é olfativa tanto quanto visual. Mas as fotos ainda valem a pena... (no final do post)

Fechado o museu, viemos para a casa dos (extremeamento simpáticos!) pais do Sylvain, onde tive uma inesperada mas fascinante aula de 'Systema', um tipo de arte marcial russa que o irmão do Sylvain, Dominique estuda. Depois descrevo os detalhes que a comida está saindo...





Continue lendo...>>

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Calçada em frente ao Gare Montparnase, Paris
Internet de guerrilha

Estou no momento sentado na calçada, na frente da Gare Montparnasse, filando um wifi. São 11:53 da noite... Hoje é aniversário da Ceci, mas eu não consigo falar com ela, o que me leva a apelar para este tipo de internet de guerrilha, já que na casa da Jacqueline não há wifi. De qualquer maneira, uma foto para não perder a viagem.

Continue lendo...>>

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Palais de l'Unesco, Paris
Passeando em Paris, voltando no tempo e viajando na maionese

O sol se põe tarde no verão aqui em Paris, e se põe lentamente. Eram 8:30 da noite de segunda feira quando nos sentamos para comer na margem do rio Sena, e o sol se punha. Ele continuava se pondo quando terminamos, duas horas depois. Foi um agradavel piquenique, na companhia de um grupo de físicos (e uma matemática) brasileiros, ao longo de um entardecer de duas horas.


Após me despedir de todos, fui fazer pelo segundo dia consecutivo um passeio tardinoturno ao longo do Sena. É a hora em que Paris é mais bonita, e mais fotogênica. É também um horário em que não há nada aberto nesta roça além de restaurantes e casas noturnas, então passear acaba sendo não só o melhor, mas também o único programa.


As vezes o tempo passa devagar, e as vezes na recontagem ele passa ao contrário. Fomos para o convescote depois de sair do primeiro dia de palestras do 'Universo Invisivel'. O encontro está acontecendo no Palacio da Unesco, que é um tanto mais principesco que os locais típicos onde físicos se reunem (embora não seja nem de longe tão charmoso quanto o Observatorio de Paris). O prédio em si é uma obra em estilo modernista perfeitamente ordinaria que se parece como uma paródia de um prédio típico projetado em estilo modernista. Não sei se é overdose de Oscar Niemayer, e que me perdoem os fãs, mas poucas obras arquitetonicas me provocaram tanta indiferença quanto esta.

O interior do prédio, alcançado após passar pelo raio-x e negociar com o segurança em frenglish a custódia do meu canivete, é agradável e misericordialmente fresco (o clima por aqui está muito quente e sem vento). Me pareceu, porém, um tanto vazio; não há muita atividade aparente na sede mundial da Unesco, pelo menos nesta época do ano. As plenárias acontecem em um salão grandioso aparentemente dedicado a conferencias entre representantes dos paises-membros, com um mural celebrando a amizade entre os povos e outros sentimentos igualmente nobres, microfones para apartes dos diplomatas, assentos retraidos para assessores, e cabines vidradas para tradução simultânea (em inglês, francês, espanhol, russo, árabe e chinês, segundo as legendas). Fiquei tentado a rejeitar veementemente a moção apresentado pelo honorável representante da Tchecoslováquia, ou algo assim, mas me contive. As palestras têm sido na maior parte interessantes (em particular a do Padmanaban sobre relatividade geral vista do ponto de vista da termodinâmica); além disso, para mim é bom reestabelecer um contato mais próximo com a cosmologia de tempos em tempos, dado o meu corrente idílio neurocientífico.

Eu tive alguma dificuldade em acordar na segunda, porém, e perdi as palavras de abertura onde os organizadores se agradecem mutualmente pelo trabalho realizado, tecem loas aos patrocinadores do evento, e discorrem sobre como a nossa (uso o pronome no sentido mais lato) presença lhes causa um extase indescritivel. Ou algo assim. A razão do sono foi o meu passeio (mencionado acima) tardinoturno no domingo. Após pegar minhas credenciais no Observatório, e filar internet no meu ponto tradicional atrás da Notre Dame, fui pedalando ao longo da margem sul do Sena, passando pelo Louvre, pelo Invalides, dando um pulinho no Petit Palais para mais um pouco de WiFi, e uma esticada até a torre Eiffel, antes de tomar o rumo de casa por volta de meia noite.





O próprio domingo já havia começado um pouco tarde, graças ao passeio noturno de sábado, este a pé, que fiz o a Jacqueline (cf. o post anterior). Desta vez saimos de casa por volta de 11 da manhã, e fomos (de metrô) ao Museu do quai Branly, para ver (no último dia) uma retrospectiva sobre a história do Jazz, de 1917 até os dias de hoje. Uma exposição interessante, onde a música (emitida por pequenas caixas de som embutidas nas paredes) e alguns filmes estavam totalmente integrados aos items pictóricos. O museu em si também vale a pena: A coleção permanente é dedicada à arte da asia, africa e américas (i.e., a não-europa), e o prédio consegue combinar harmoniosamente formas geométricas flutuantes, telas vegetais e cercas vivas, e a vista da Torre Eiffel ao fundo.






Na prática, além de todo o seu mérito acadêmico, o 'Universo Invisível' também serve uma função fisiológica: Desde que cheguei aqui, passei a maior parte do meu tempo pedalando ou andando. É bom poder sentar e descansar as pernas por algumas horas de vez em quando.

Continue lendo...>>

Sábado, 27 de Junho de 2009

Sq. Jean XXIII, Paris
Getting Medieval

Uma discussão interessante entre membros de uma família espanhola (ou que pelo menos se comunica nesta língua), que estão passando por mim agora:

Menino de uns 6 anos: "Não, não não! Picasso não pintou 'As Meninas'! Foi o Velasques"
Menina de uns 4 anos: "Pintou sim!"
ItalicMenino: "Foi o Velasquez! Velasquez!"
Mão conciliadora: "O Velasquez pintou primeiro sim, mas o Picasso também pintou, anos depois."
Crianças em coro: "A, bom!"
Esta é a vantagem de blogar de uma praça. Ou da calçada do lado de fora da praça, já que esta aqui já fechou por hoje. As coisas fecham cedo em Paris, e o sol se põe tarde nesta época, então estou sempre chegando em lugares fechados ou em processo de fechamento.

Ontem acordei relativamente cedo e voltei ao museu da idade média. Desta vez fiz questão de ver cada relicario, tapeçaria e báculo em exposição. O museu fica nos antigos alojamenots do abades de Cluny (o coração cultural da França, e portanto, da Europa, medieval), que foi por sua vez construido sobre as ruinas de uma casa de banhos galo-romana. Uma sobreposição interessante.

Talvez os objetos mais curiosos do museu (ou pelo menos os mais acessiveis) são as tapeçarias. As mais famosas formam um conjunto de seis peças alegóricas conhecidas coletivamente como 'A Dama e o Unicornio' (o que é bastante injusto com o leão, que tem tanta proeminência quanto o cavalo cornado nas imagens). Outra série interessante narra a história de Santo Estevão, com toda a pregação, martírio e milagres que esperamos de uma superprodução da igreja católica (aparentemente com números de canto e dança estilo West Side Story, a crer no detalhe acima).

Outro tipo de arte de que sempre gostei são vitrais e vidros tingidos medievais, e a coleção do museu é respeitável. Coincidentemente, enquanto eu examinava alguns exemplos, uma americana ao lado começou a discorrer longamente sobre as técnicas de fabricação elaboradas e a qualidade artistica impecável da peça em questão (uma crucificação, veja detalhe ao lado). Puxando um pouco de papo, fiquei sabendo que ela era também uma artista especializada em vidraçaria (vidraçeira? Deve haver um nome mais adequado...). Seus colegas medievais tampouco brincavam em serviço. Segundo minha amiga, a tal crucificação teria ido para o forno pelo menos umas sete vezes, com detalhes sendo acrecidos gradativamente a cada iteração. Cada cor (correspondente à um oxido metálico diferente) era colocada separadamente; e as folhas metálicas de cobre eram aplicadas a nano-marteladas e cobertas de esmalte dos dois lados de modo que as tensões mecânicas no vidro se equilibrassem. Não é preciso ser especialista para apreciar algum tipo de arte, obviamente; mas saber mais sobre como ela foi feita (ou conhecer alguem que saiba) torna a experiencia muito mais interessante.


Mas o que mais me fascinou nesta visita, de forma um tanto ideosicrática, foram os assentos de igreja esculpidos em madeira, dos quais o museu dispões de cerca de 40. Sob a prancha escamoteavel de cada assento existe uma pequena escultura ilustrando algum aspecto da vida mediaval (fazer manteiga, amolar facas, matar porcos, chacinar camponeses, etc), ou alguma criatura fantástico, ou o que quer que os artistas medievais tivessem vontade de representar na época. Assim como com as gárgulas de Notre Dame, não parecia haver um controle eclesiastico muito sistemático sobre os escultores, então estes podiam abusar do humor e profanidade (veja o final deste post para alguns exemplos).


Depois da overdose de idade média, e de um pulinho na pracinha para um pouco de internet, começei o meu caminho de volta para a casa da Jacqueline. Uma tradição que estou aparentemente criando aqui em Paris é ser emboscado pela parada Gay local. Quando passei por aqui a caminha da Córsega, anos atrás, eu emergi do Metro (na época eu ainda andava nisso) na praça onde supostamente pegaria meu onibus para o aeroporto, e me vi no meio do que parecia ser o ponto de concetração da parada, com drag queens ajustando os enchimento peitorais e grupos afinando os últimos detalhes da coreografia. Desta vez, estava a ponto de atravessar o Blv. St. Germain quando vi o meu caminho interrompido por um rio de gente, celebrando festivamente a diversidade sexual e os shorts apertados de couro perante turistas e curiosos locais.


Consegui com dificuldade atravessar a corrente sem ser arrastado por ela; cortado ao meio, o transito na cidade toda estava obviamente arrastado, até para bicicletas. Finalmente chegando na casa da Jacqueline, encontrei-a de de saida, para um show de chorinho (!) em Montparnasse. Depois de um banho e um lanche, me juntei a ela. Foi um show interessante, tanto pelo conteudo quanto pela situação. Fomos então andando até a rua Racine para jantar em um simpático restaurante em arte noveau. Eu já disse que a Jacqueline é animada? Saimos do restaurante e continuamos andando, para observar a arquitetura parisiense a noite. Passamos pela Ponte Nova (a ponte, não a cidade; apesar do nome é a ponte mais velha de Paris), Les Halles, a usina George Pompidou e diversos hôtels particuliers cujo nome não vou me lembrar agora. Voltamos para casa no penultimo metrô, quase duas da manhã.


Continue lendo...>>