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sábado, 17 de agosto de 2013

Chez Mari et Sylvain, Paris
Remendos

O primeiro furo da viagem, em Edimburgo
Estou em Paris por dois dias. Vim para discutir redes neuronais com um cientista local que conheci em New Orleans. Consegui remarcar a reunião para o dia que cheguei (5a, um feriado por aqui), para ter o dia seguinte livre para sair com a Mari. Mas a chegada foi tensa. Eu havia tido um pneu furado a caminho de um café da manhã pré-vôo, em Londres. Consertei o furo em Heathrow com meu último remendo e despachei a bicicleta, mas aparentemente havia um segundo furo, de vazão mais lenta, e o pneu chegou murcho em Paris. Após chegar no centro do cidade (de ônibus), me encontrei com o cara no Quartier Latin. Após algumas horas de boa discussão, me despedi e fui pedalando até o Chez Sylvain et Mari. Periodicamente precisava parar para reinflar o tal pneu. Cada 'carga' durava uns dois quilômetros, mas a câmara de ar resistiu heroicamente até dois quarteirões de distância do meu destino.

No dia seguinte, fomos para Provins, uma simpática cidade medieval nos arredores. Mas eu iria precisar da minha bicicleta funcionando no dia seguinte, porque pretendia atravessar Paris para pegar o ônibus para o aeroporto de Orly em Denfert-Rochereau (é mais rápido e barato que as alternativas, complicadas e múltiplas baldeações de metrô e RER). Tentativas de improvisar um remendo novo por partogênese do remendo antigo se mostraram mal-sucedidas, mas sendo agosto após um feriado, não parecia haver nenhum estabelecimento comercial que poderia plausivelmente me vender o que eu precisava. Pois bem, fomos a Provins. De trem.

Provins combina arquitetura medieval com a placidez de uma cidade pequena. Assistimos um interessante show de aves de rapina, comemos excelentes crepes bretões e passeamos por ruas estreitas onde a vergadura secular das vigas expostas de madeira dão a cada casa um personalidade distinta e sem ângulos retos. Já no caminho de volta para a estação de trem, notei um casal mais velho, em bicicletas de viagem e com caras de que sabiam o que faziam. Corri atrás da mulher, que já se afastava, e disse em um frenglish esbaforido que eu precisava de ajuda, mas que seria necessário esperar pela recém-francesa Mariana, a minha tradutora, para maiores explicações. Mais curiosos que assustados, os dois pararam. Enquanto a Mariana tentava explicar que eu precisava de remendos para câmara de ar, sem saber os termos para ambos em francês, eu fazia uma mímica na qual eu enxia um pneu, que estourava e era então consertado com um remendo imaginário. Pode-se dizer que aprendi francês com o Michael Marceu... Mas eles afinal entenderam, e simpaticamente me deram dois remendos adesivados, e ensinaram a Mari a dizer 'remendo' em francês*. Saímos os dois no lucro.

Chegamos pouco antes do anoitecer. Fiz um jantar para os meus amigos, remendei a câmara de ar, fiz a mala, escrevi este post e vou dormir agora. Amanhã acordo bem cedo, e começo a voltar ao Brasil.

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* 'Rustine', como me informa a Mari nos comentários, abaixo.

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Casa, Rio de Janeiro
Perdido na tradução

Enquanto continuo enrolando para escrever algo mais substancioso sobre as eleições no Iraque, me lembrei de uma série de fotos que tirei na Europa ano passado de algumas logomarcas, palavras de ordem, lemas e correlatos, que por alguma razão eram incongruentes ou simplesmente interessantes; ou que, digamos, tivessem pseudo-traduções um tanto embaraçosas em português.

Uma agencia de viagens. Acho. Espero... [Paris, Julho 2009]


Você deixaria o seu dinheiro neste cofrinho? [Amsterdam, Julho 2009]


Você navegaria neste barco? [Paris, Julho 2009]


A caminho do dêmanchè [Giverny, Julho 2009]


Não sei se existe o conceito de contrabando ilegal na Holanda. Al Capone ficaria desempregado [Amsterdam, Julho 2009]


A vingança de Montezuma na maré vazante [Mont Saint-Michel, Julho 2009]


Porque Alan Moore é melhor que L. Ron Hubbard [Londres, Julho 2009]


Prioridades nacionais [Paris, Julho 2009]

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domingo, 19 de julho de 2009

Gare Saint-Lazaire, Paris
A Bastilha cai todo ano


Além do Chuck Norris gaulês, tive um dia da Bastilha interessante aqui em Paris. Me encontrei com o Catão, Mariana, Sandro e Stella para um piquenique nos jardins do Museu Rodin. Como de costume, compramos quantidades monstruosas de comida, em volume e variedade. Enquanto os demais grupos se contentavam com o conteudo de uma ou duas tupperwares e uma baguete, iamos nos resfastelando com o piquenique do juizo final, com diversos tipos de queijos, embutidos, patês, pães, frutas e bebidas. Metade da comida depois, e após uma digestão prolongada deitados na grama, fomos ver as esculturas espalhadas pelo jardim (incluindo O 'Pensador' e o 'Portão do Inferno'); gostei em particular de 'Os burgueses de Calais', quatro figuras expressando ao mesmo tempo tristeza, resignação, desespero e raiva, enquanto caminham em direção ao acampamento dos consquistadores ingleses para entregar-lhes as chaves da cidade.

Segui então para a Ille de la Cité, onde me encontrei com a Jacqueline e o Catão para assistir um concerto de música de câmara dentro da Sainte-Chapelle: Vivaldi, com um pouco de Pachebel e (acho) Paganini, tocados por um violinista francês renomado e competente orquestra. Eu não canso de falar aqui no blog sobre o quanto eu gosto da Sainte-Chapelle (embora suspeite que meus leitores se cansem de ouvir a respeito). Assistir um concerto deste calibre lá dentro enquanto o sol se põe é indescritível.

Findo o concerto, fomos andando calmamente ao longo do Sena, em direção à Torre Eiffel. Uma breve pausa para um café, e para reencontrar o resto do povo, e seguimos para o Champs de Mars, para assistir o show de fogos, em comemoração a queda da bastilha e ao aniversário da torre. Não foi o show mais grandioso que já vi, mas provavelmente foi o que melhor integrou os fogos, a iluminação (que fazia a torre dançar) e a trilha sonora. De forma um tanto bizarra, esta última incluiu a abertura de 1812. É verdade que a obra incorpora trechos da Marselleise, e que os franceses não têm exatamente uma enormidade de opções no quesito vitórias militares nos
últimos séculos dentre as quais escolher; mas mesmo assim acho estranho ouvir uma música que comemora uma derrota militar da França em uma comemoração de sua data nacional.

Terminamos a noite com um piquenique noturno com as sobras do anterior, sobre uma toalha que achamos abandonada no gramado, e algumas coca-colas compradas a preços só ligeiramente extorsivos. Ao contrário da maior parte das centenas de milhares dos meus co-celebrantes, evitei o metrô estilo últimos dias de Pompeia, e voltei de Velib para a casa da Mariana.

Os dias seguintes foram menos turísticos, já que eu passava a maior parte do tempo assistindo a palestras, ou pedalando de um lado ao outro da cidade em direção a um dos inúmeros institutos, escolas e auditórios onde ocorriam as sessões paralelas. Devo dizer que, mesmo descontando a dispersão geográfica, o MG12 foi meio decepcionante: sem foco, e com plenárias chocas e paralelas só ocasionalmente interessantes. Mesmo assim, cozinhei para a Mari, Sylvain e André*, e consegui ir em alguns museus, igrejas e no cemitério de Montparnasse. Fiquei ainda orgulhoso do meu francês tosco quando o sistema Velib não computou a devolução de uma das bicicletas, e tive que navegar o menu telefônico e explicar a situação para um atendente monoglota (cuja noção de explicar melhor uma frase não compreendida era repeti-la mais alto). Tenho certeza que o nosso diálogo vai algum dia ser encontrado no Youtube em alguma compilação das piores barbaridades já cometidas contra a lingua de Racine (a lá 'As Árvores somos nozes'), mas consegui desbloquear a minha conta e extornar a cobrança ndevida.

Ontem de noite fui com a Jacqueline em um restaurante Tibetano ao lado do Panteão. Provei chá com manteiga (de vaca, não iaque, infelizmente) e sal, a bebida nacional da terra do Dalai Lama. É bebivel, acho que com o hábito posso até gostar. Aprendi também que 'obrigado' é, ou soa como, 'Tû-tch-Tchê' em tibetano (e 'Mêsh-kér' em basco, como descobri alguns dias antes). Voltamos para casa a pé, em outra caminhada noturna.

Hoje fomos mais cedo a L'Orangeria (que tem este nome porque durante o 2o império era uxada para guardar laranjeiras durante o inverno). As ninféias do Monet são indescritíveis (e, francamente, infotografáveis, o que não impede a maior parte dos visitantes de tentar; se o propósito todo da visita é ver as pinturas ao vivo, para que tirar fotos?). Dois pintores que não conhecia, mas achei particularmente notáveis: Didier Paquinon, contemporâneo em exposição temporária, e Chaim Soutine.

Passamos em seguida pela igreja de Saint Madalleine, que tem um certo charme neoclássico apesar da forma um tanto pesada. Assistimos uma orquestra de jovens (ingleses, pelo sotaque), no que parecia mais uma aula do que um concerto. O maestro passava o som com as várias alas, enquanto reclamava e corrigia a postura, volume e sincronia de seus pupilos. Primeiro artes plásticas, depois música: Creio que a divina providência, por meio do sistema educacional britânico, quer elevar a minha cultura artística...

Estou agora na estação de Saint Lazare, último ponto do dia, onde vou pegar um trem para Caen. Pretendo visitar as praias do Dia-D e e Bayeoux de bicicleta, e ir amanhã depois do almoço para o Mont Saint-Michel. Volto para Paris na 3a, e de lá para o Brasil no mesmo dia.

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* Salada de pepino, tomate, fetá e azeitona com molho de iogurte; endívias recheadas de alho poró e cogumelos, e risoto de pera, presunto espanhol e cogumelo portobello.

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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Palais de l'Unesco, Paris
Eles são especiais

Uma conversa em franglês, na exibição do exército francês nos jardins do Invalides em comemoração ao 14 de julho:

EU: Porque o seu fuzil é diferente do fuzil dos outros soldados (ele tinha um HK416, os outros, o FAMAS tradicional)
Soldado Francês: Estamos em transição para o fuzil novo
Eu: O exército inteiro?
SF (fazendo pose): Não, só as forças especias
Eu: Então vc é das forças especiais... Você já esteve no Afeganistão?
SF: (se esforçando para parecer perigoso e misterioso) Eu não sei...
Em geral, quanto mais 'especial' um soldado afirma ser, menos especial ele realmente é. A maior parte das autonomeadas 'forças ['de operações', na terminologia americana] especiais' no mundo são na verdade formações de infantaria ligeira bem treinadas. Por outro lado, se um cara troncudo não dá muito papo e afirma ser o cozinheiro, ou o faxineiro da base, provavelmente faz parte de alguma unidade ultra-secreta e é extremamente perigoso.

O equivalente gálico do SAS ou da Força Delta é o 1er RPIMa, e eles de fato usam o HK416; mas não são a unica unidade francesa a fazer isto. As forças de ação direta nos EUA ou no Reino Unido tomam bastante cuidado em proteger a identidade de seus membros, e não são conhecidas por ficarem fazendo pose para turistas acidentais. Por outro lado, o 1er RPIMa tem uma banda (!), então talvez as coisas funcionem de forma diferente na França.

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Apessoinha Bed & Breakfast, Paris
Adieu London, hello Paris

Os dias foram movimentados em Londres, e continuei com o meu novo hobby de caminhadas noturnas. Na 5a me encontrei com a Rima, e fizemos um tour a pé pela parte chique (posh) da cidade: Sloane Square, Chelsea, Kensington, etc. Sob muitos aspectos, caminhadas são uma maneira muito mais interessante de reencontrar amigos do que refeições em restaurantes. A experiencia é muito mais memorável, não ficamos presos ao ritmo imposto pelo serviço do restaurante (pedido/comida/sobremesa/conta), e é possível haver pausas na conversasão sem desconforto (e, reciprocamente, não existe a nescessidade de preencher cada minuto de silêncio com palavras); pausas não-desconfortáveis são um sinal de entendimento real entre duas pessoas (só em relações superficiais a conversa nunca para), mas é preciso algum tempo até achar o ritmo certo se estas não se vêem há muito tempo. Depois da extremamente agradável caminhada, me despedi da Rima e fui andando ao longo do Tâmisa a partir da ponte Chelsea, passando por uma usina termoelétrica fora de funcionamento (muito feia, mas por alguma razão tombada), e por uma monstruosidade em forma de pirâmide asteca, em frente à ponte de Vauxhall. Passei pelo parlamento e adjacências (habilmente iluminados, o que produziu em mim certos impulsos homicidas em relação a carregadores de bagagem holandeses), e finalmente peguei o metro em Embankment (ligando a trajetória do passeio com a da noite anterior)

Sexta fui em um jantar Iraniano, cozinhada pela simpática irmã do Reza (o meu colaborador em Londres, professor no QMUL). Discutir a situação no Irã com pessoas que nasceram e viveram lá é bem diferente do que debater o assunto com outros nerds de plantão na internet. É mais informativo também.

Sábado almocei com o João Guilherme e a Dani, primos meus que estão na Inglaterra (os Mota são uma especie adaptável). No caminho para o restaurante (estritamente falando, no caminho oposto ao caminho para o metro, porque confundi a direção devido a insistencia do sol neste hemisfério de andar do lado errado do ceu), passei por uma pequena mas animada manifestação contra a Igreja da Cientologia, uma picaretagem inventada por um escritor de ficção científica mediocre. Simpáticos os manifestantes. Alias, qualquer grupoque consiga combinar o meu desprezo pela Cientologia com o meu apreço pelos quadrinhos do Alan Moore merece aplausos (pessoas com mascaras de Guy Fawkes em Londres! Da próxima vez que estiver em Nova York vou procurar pelo doutor Manhattan).

Comprei ainda uma nova câmera (uhu!), e cheguei no aeroporto com uma antecedencia incomum. Minha bagagem foi revistada em detalhes, e eu não pude não explicar para o guarda o funcionamento do sextante de navegação que comprei em uma feirinha de antiguidades em uma igreja (st. James) em Piccadilly.

Cheguei em Paris, vim para a casa da Mariana e do Sylvain, dormi, e tive um domingo relativamente light; me registrei no congresso, participei inadvertidamente de uma missa maronita, e comprei o meu almoço em uma mercearia grega, onde discuti brevemente Tucídides com o vendedor (originario da Tessália) em franglês (o assunto surgiu quando ele me perguntou se eu conhecia a Grécia, e eu respondi que sim, mas só através de livros, e mencionei o dito cujo como exemplo). Não entendi direito se ele me disse que na época da guerra do Paloponeso a Tessália era uma terra bárbara, ou se ele reclamou que o Tucídides fazia parecer injustamente que era este o caso. Em ambos os casos, uma conversa interessante. Passei também mais de duas horas na Sainte-Chapelle, que ainda considero uma das coisas mais bonitas criadas pelo ser humano (os vitrais...). Se tiver tempo, escrevo um post dedicado a respeito; mas as fotos já estão no flickr.

Hoje fiz minha apresentação (que foi muito bem), e cozinhei um jantar para a Mariana, o Sylvain e o André: Salada de pepino, tomate, azeitonas e queijo fetá, com molho de iogurte; endívias recheadas de alho poró e cogumelo, e risoto de presunto espanhol, pera e cogumelos (inventei hoje, ficou gostoso). Falei com o Gabriel e a Ceci por Skype, li alguns emails, visitei alguns blogs, bloguei, etc. Por algum estranho efeito relativístico são agora 4:40 da manhã. Talvez eu devesse ir dormir...

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domingo, 5 de julho de 2009

Varanda da casa da Ana Júlia, Amsterdam
Conversas aleatórias II


Eu quase perdi o onibus para Amsterdam. Normal. Tive um viagem um tanto surreal também. Igualmente normal. Mas acho que exagerei um pouco, no dois casos.

Estavamos no churrasco na casa dos pais do Sylvain, a 40km de Paris. O menu consistia em macarrão de pepino com molho curry (bom!), tabule, bolinhos de Gruyere e churrasco de peito de pato (muito bom!!). Mas começava a ficar tarde, e o meu onibus sairia de Paris as 11 da noite. O Sylvain, para seu eterno crédito cármico, decidiu então me levar para a estação de onde sairia o ônibus. Chegamos na Porte de Bagnolet as 10:52, sem saber onde exatamente era a garagem. A passagem especificava um check-in com 30min de antecedencia, com passagem impressa em mãos. Eu estava na vizinhança genérica do ônibus com 8 minutos de antecedencia e a passagem em um .pdf aberto na tela do meu laptop. Depois de alguma perguntas freneticas em frenglish aos locais, consegui finalmente descobrir onde era a tal Eurolines (dentro da estação de metro Gallieni), e fui correndo até o guichê. Cheguei as 10:58, e o guichê de 'Amsterdam' estava vazio. Pedi ajuda ao atendente no guichê ao lado, mas ele, sem levantar os olhos, me disse simplesmente para esperar alguem aparecer. Finalmente, um bigodudo apareceu e tranquilamente verificou minha passagem (na tela) e passaporte, e me indicou a direção do onibus. Cheguei lá esbaforido, junto com uma igualmente esbaforida moça com um sotaque que se revelou sul-africano. A Fathima trabalha de au pair em Rotherdam, e está no momento tentando evitar que sua mãe lhe encontre um jovem de boa família e índole para casar ('Você conhece o Xulambis Beltramis? . Os Beltramis são uma família respeitável. O Xulambis é boa pinta. Advogado. Ganha bem. Ele vem almoçar aqui com a gente hoje a noite....'.

A viagem foi tranquila, e enquanto perocorriamos os velhos campos de batalha da 1a guerra mundial eu ia praticando o kabuki de me entalar em uma posição diferente a cada 15 minutos para conseguir 5 de sono. O ônibus não tinha o elan e o senso de aventura de uma viagem da Cometa em estradas brasileiras, mas consegui não morrer de tédio. Já dentro da Holanda, fomos parados pela policia para controle de passaporte. Entreguei o meu, e este me foi devolvido após breve verificação. Mas o meu vizinho de banco, um sueco, estava sem passaporte. E sem documentos. E quase sem dinheiro. Ele havia sido roubado em Barcelona - disse aos policiais - enquanto dormia na praia. Havia colocado documentos, dinheiro e computador no fundo de seu saco de dormir. Acordou sem eles, com o fundo do saco e os bolsos abertos a faca. Ele havia prestado queixa na policia? Não! Estava tentando voltar para a Suecia de ônibus, sem se preocupar com tais tecnicalidaes. Os policiais não acreditaram muito na história, e o levaram para fora do ônibus para averiguação. Milagrosamente, 20 minutos depois, ele voltou (onde metade dos acordados parecia considerá-lo um meliante perigoso, a julgar pelos olhares); havia convencido os policiais de que a sua história era pelo menos plausível, e que a maneira mais eficiente de resolver a situação seria deixa-lo voltar para seu pais.

Depois disso, começamos a conversar. Contei da vez em que quase fui preso em Bruxelas ao cuidar de uma mala (dentro da qual havia uma caixa de metal impermeavel à raio-x), pertecente à uma esquecida velhinha argentina que simplesmente saiu do aeroporto e foi para casa. O Sebastian (o nome do elemento suspeito sueco, foto ao lado) vive de hip-hop e de fazer mágicas de baralho (ele é bom!). Ficamos conversando com a Fathima (que já levou um tiro de raspão e foi esfaqueada, trabalhando no sistema de justiça sul-africano), até ela descer em Rotherdam e nos em Amsterdam. Sebastian e eu pegamos o metrô em direção à estação central. Metro este em que todos os passageiros, a excessão de nos dois, estavam vestidos de branco. Obviamente existe uma explicação racional para isto (uma festa, aparentemente), mas por um momento pairou aquele clima de Além da Imaginação que seria o cliffhanger ideal se minha vida fosse uma série de televisão.

Chegando na estação central, me despedi do Sebastain (a procura de um café onde esperar o seu ônibus para Copenhagen), e fui procurar alguma informação sobre o bonde para a casa da Ana Júlia. Mal andei dois passos, e comecei a ouvir uma animada conversa em português. Um dos participantes, o Vanderly, prontamente se ofereceu para me levar até o ponto. Ele é de Belo Horizonte também, fez eletrônica no Cefet e passou o pão que o diabo amassou em Portugal antes de se arrumar em Amsterdam, onde é DJ e mora com um grupo de maranhenses.

Já no ponto, estavamos determinando o meu itenerário e conversando quando uma velhinha holandesa, sentada no banco, se oferece em excelente inglês para me ajudar. Ela me indicou a estação, bonde e horario corretos, e (obviamente) começamos a conversar. A Anka conheceu o marido inglês em um festival de Jazz em Amsterdam, e viveu em Londres por vários anos, só recentemente (com a morte do dito cujo) retornando à Holanda. Ela pegou o mesmo bonde que eu, e fui fazendo uma city tour guiado por ela até eu chegar no meu destino.

Os Holandeses são muito simpáticos, e falam excelente inglês. Mas pelo menos onde a Ana Júlia mora, eles usam uma noção generalisada do conceito de rua um tanto confusa, que inclui ramos laterais quase fractais e numeração semi-sequencial (um pouco como o departamente do física da UFMG). Mas depois de andar um pouco, consegui percolar até aqui, para dormir um pouco porque toda esta interação com pessoas randômicas é exaustiva. Hoje vou conhecer o que puder de Amsterdam, antes de embarcar amanhã de manhã para Londres. Vamos ver quem eu vou encontrar desta vez.

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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Calçada em frente ao Gare Montparnase, Paris
Internet de guerrilha

Estou no momento sentado na calçada, na frente da Gare Montparnasse, filando um wifi. São 11:53 da noite... Hoje é aniversário da Ceci, mas eu não consigo falar com ela, o que me leva a apelar para este tipo de internet de guerrilha, já que na casa da Jacqueline não há wifi. De qualquer maneira, uma foto para não perder a viagem.

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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Palais de l'Unesco, Paris
Passeando em Paris, voltando no tempo e viajando na maionese

O sol se põe tarde no verão aqui em Paris, e se põe lentamente. Eram 8:30 da noite de segunda feira quando nos sentamos para comer na margem do rio Sena, e o sol se punha. Ele continuava se pondo quando terminamos, duas horas depois. Foi um agradavel piquenique, na companhia de um grupo de físicos (e uma matemática) brasileiros, ao longo de um entardecer de duas horas.


Após me despedir de todos, fui fazer pelo segundo dia consecutivo um passeio tardinoturno ao longo do Sena. É a hora em que Paris é mais bonita, e mais fotogênica. É também um horário em que não há nada aberto nesta roça além de restaurantes e casas noturnas, então passear acaba sendo não só o melhor, mas também o único programa.


As vezes o tempo passa devagar, e as vezes na recontagem ele passa ao contrário. Fomos para o convescote depois de sair do primeiro dia de palestras do 'Universo Invisivel'. O encontro está acontecendo no Palacio da Unesco, que é um tanto mais principesco que os locais típicos onde físicos se reunem (embora não seja nem de longe tão charmoso quanto o Observatorio de Paris). O prédio em si é uma obra em estilo modernista perfeitamente ordinaria que se parece como uma paródia de um prédio típico projetado em estilo modernista. Não sei se é overdose de Oscar Niemayer, e que me perdoem os fãs, mas poucas obras arquitetonicas me provocaram tanta indiferença quanto esta.

O interior do prédio, alcançado após passar pelo raio-x e negociar com o segurança em frenglish a custódia do meu canivete, é agradável e misericordialmente fresco (o clima por aqui está muito quente e sem vento). Me pareceu, porém, um tanto vazio; não há muita atividade aparente na sede mundial da Unesco, pelo menos nesta época do ano. As plenárias acontecem em um salão grandioso aparentemente dedicado a conferencias entre representantes dos paises-membros, com um mural celebrando a amizade entre os povos e outros sentimentos igualmente nobres, microfones para apartes dos diplomatas, assentos retraidos para assessores, e cabines vidradas para tradução simultânea (em inglês, francês, espanhol, russo, árabe e chinês, segundo as legendas). Fiquei tentado a rejeitar veementemente a moção apresentado pelo honorável representante da Tchecoslováquia, ou algo assim, mas me contive. As palestras têm sido na maior parte interessantes (em particular a do Padmanaban sobre relatividade geral vista do ponto de vista da termodinâmica); além disso, para mim é bom reestabelecer um contato mais próximo com a cosmologia de tempos em tempos, dado o meu corrente idílio neurocientífico.

Eu tive alguma dificuldade em acordar na segunda, porém, e perdi as palavras de abertura onde os organizadores se agradecem mutualmente pelo trabalho realizado, tecem loas aos patrocinadores do evento, e discorrem sobre como a nossa (uso o pronome no sentido mais lato) presença lhes causa um extase indescritivel. Ou algo assim. A razão do sono foi o meu passeio (mencionado acima) tardinoturno no domingo. Após pegar minhas credenciais no Observatório, e filar internet no meu ponto tradicional atrás da Notre Dame, fui pedalando ao longo da margem sul do Sena, passando pelo Louvre, pelo Invalides, dando um pulinho no Petit Palais para mais um pouco de WiFi, e uma esticada até a torre Eiffel, antes de tomar o rumo de casa por volta de meia noite.





O próprio domingo já havia começado um pouco tarde, graças ao passeio noturno de sábado, este a pé, que fiz o a Jacqueline (cf. o post anterior). Desta vez saimos de casa por volta de 11 da manhã, e fomos (de metrô) ao Museu do quai Branly, para ver (no último dia) uma retrospectiva sobre a história do Jazz, de 1917 até os dias de hoje. Uma exposição interessante, onde a música (emitida por pequenas caixas de som embutidas nas paredes) e alguns filmes estavam totalmente integrados aos items pictóricos. O museu em si também vale a pena: A coleção permanente é dedicada à arte da asia, africa e américas (i.e., a não-europa), e o prédio consegue combinar harmoniosamente formas geométricas flutuantes, telas vegetais e cercas vivas, e a vista da Torre Eiffel ao fundo.






Na prática, além de todo o seu mérito acadêmico, o 'Universo Invisível' também serve uma função fisiológica: Desde que cheguei aqui, passei a maior parte do meu tempo pedalando ou andando. É bom poder sentar e descansar as pernas por algumas horas de vez em quando.

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sábado, 27 de junho de 2009

Sq. Jean XXIII, Paris
Getting Medieval

Uma discussão interessante entre membros de uma família espanhola (ou que pelo menos se comunica nesta língua), que estão passando por mim agora:
Menino de uns 6 anos: "Não, não não! Picasso não pintou 'As Meninas'! Foi o Velazquez"
Menina de uns 4 anos: "Pintou sim!"
ItalicMenino: "Foi o Velazquez! Velazquez!"
Mão conciliadora: "O Velazquez pintou primeiro sim, mas o Picasso também pintou, anos depois."
Crianças em coro: "A, bom!"
Esta é a vantagem de blogar de uma praça. Ou da calçada do lado de fora da praça, já que esta aqui já fechou por hoje. As coisas fecham cedo em Paris, e o sol se põe tarde nesta época, então estou sempre chegando em lugares fechados ou em processo de fechamento.

Ontem acordei relativamente cedo e voltei ao museu da idade média. Desta vez fiz questão de ver cada relicario, tapeçaria e báculo em exposição. O museu fica nos antigos alojamenots do abades de Cluny (o coração cultural da França, e portanto da Europa, medieval), que foi por sua vez construido sobre as ruinas de uma casa de banhos galo-romana. Uma sobreposição interessante.

Talvez os objetos mais curiosos do museu (ou pelo menos os mais acessiveis) são as tapeçarias. As mais famosas formam um conjunto de seis peças alegóricas conhecidas coletivamente como 'A Dama e o Unicornio' (o que é bastante injusto com o leão, que tem tanta proeminência quanto o cavalo cornado nas imagens). Outra série interessante narra a história de Santo Estevão, com toda a pregação, martírio e milagres que esperamos de uma superprodução da igreja católica (aparentemente com números de canto e dança estilo West Side Story, a crer no detalhe acima).


Outro tipo de arte de que sempre gostei são vitrais e vidros tingidos medievais, e a coleção do museu é respeitável. Coincidentemente, enquanto eu examinava alguns exemplares, uma americana ao lado começou a discorrer longamente sobre as técnicas de fabricação elaboradas e a qualidade artistica impecável da peça em questão (uma crucificação, veja detalhe ao lado). Puxando um pouco de papo, fiquei sabendo que ela era também uma artista especializada em vidraçaria (vidraçeira? Deve haver um nome mais adequado...). Seus colegas medievais tampouco brincavam em serviço. Segundo minha amiga, a tal crucificação teria ido para o forno pelo menos umas sete vezes, com detalhes sendo acrecidos gradativamente a cada iteração. Cada cor (correspondente a um óxido metálico diferente) era colocada separadamente; e as folhas metálicas de cobre eram aplicadas a nano-marteladas e cobertas de esmalte dos dois lados de modo que as tensões mecânicas no vidro se equilibrassem. Não é preciso ser especialista para apreciar algum tipo de arte, obviamente; mas saber mais sobre como ela foi feita (ou conhecer alguem que saiba) torna a experiencia muito mais interessante.


Mas o que mais me fascinou nesta visita, de forma um tanto ideosicrática, foram os assentos de igreja esculpidos em madeira, dos quais o museu dispões de cerca de 40. Sob a prancha escamoteavel de cada assento existe uma pequena escultura ilustrando algum aspecto da vida mediaval (fazer manteiga, amolar facas, matar porcos, chacinar camponeses, etc), ou alguma criatura fantástico, ou o que quer que os carpinteiros medievais tivessem vontade de representar na época. Assim como com as gárgulas de Notre Dame, não parecia haver um controle eclesiastico muito sistemático sobre os escultores, então estes podiam abusar do humor e profanidade (veja o final deste post para alguns exemplos).


Depois da overdose de idade média, e de um pulinho na pracinha para um pouco de internet, começei o meu caminho de volta para a casa da Jacqueline. Uma tradição que estou aparentemente criando aqui em Paris é ser emboscado pela parada Gay local. Quando passei por aqui a caminha da Córsega, anos atrás, eu emergi do Metro (na época eu ainda andava nisso) na praça onde supostamente pegaria meu onibus para o aeroporto, e me vi no meio do que parecia ser o ponto de concetração da parada, com drag queens ajustando os enchimento peitorais e grupos afinando os últimos detalhes da coreografia. Desta vez, estava a ponto de atravessar o Blv. St. Germain quando vi o meu caminho interrompido por um rio de gente, celebrando festivamente a diversidade sexual e os shorts apertados de couro perante turistas e curiosos locais.


Consegui com dificuldade atravessar a corrente sem ser arrastado por ela; cortado ao meio, o transito na cidade toda estava obviamente arrastado, até para bicicletas. Finalmente chegando na casa da Jacqueline, encontrei-a de de saida, para um show de chorinho (!) em Montparnasse. Depois de um banho e um lanche, me juntei a ela. Foi um show interessante, tanto pelo conteudo quanto pela situação. Fomos então andando até a rua Racine para jantar em um simpático restaurante em arte noveau. Eu já disse que a Jacqueline é animada? Saimos do restaurante e continuamos andando, para observar a arquitetura parisiense a noite. Passamos pela Ponte Nova (a ponte, não a cidade; apesar do nome é a ponte mais velha de Paris), Les Halles, a usina George Pompidou e diversos hôtels particuliers cujo nome não vou me lembrar agora. Voltamos para casa no penultimo metrô, quase duas da manhã.


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