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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Pousada da Sra xxx, 강정보., Coreia do Sul
Manutenção posventiva

Estou na Coreia. Do sul. Para um congresso, o IBRO 2019, em Daegu. Para chegar aqui, fiz uma parada não programada em Adis Abeba, na Etiópia. Mas a história desta série de contratempos, e do turismo improvisacional daí advindo, vai ter que ficar para um post quando eu tomar vergonha na cara em relação a este blog.

Chave de corrente. Nunca saia de casa sem ela

Após o congresso, o plano (como sempre) era pedalar rapidamente de uma cidade a outra antes de voar para o Brasil. A Coreia recentemente construiu uma série de ciclovias, cruzando todo o pais. Resolvi seguir pela que acompanha o rio Nakdonggang, de Daegu até Busan.
 
Mal sabia eu que, assim como os norte-coreanos em 1950, o meu avanço até Busan seria detido de forma inesperada.

E a Coreia é linda! As paisagens rurais são genuinamente de cair o queixo; e eu ia apreciando a minha sorte e as belezas locais quando, após 40km idílicos, em uma subida mais íngreme, eu sinto uma travada súbita na corrente da bicicleta, seguida do ruído de algo sendo triturado que doeu no fundo da minha alma. O algo era o câmbio traseiro, cuja parte inferior havia se quebrado, se enroscando na corrente e engruvinhando no cassete. Após proferir algumas lições extemporâneas de português escatológico para os transeuntes locais, fui a procura de ajuda.
 
Na própria ciclovia havia uma estação de manutenção não muito distante. Mas eles não podiam resolver meu problema.

Imagem meramente ilustrativa

O simpático mecânico, velhinho e monoglota,  então me levou até a loja de bicicletas da cidade local. O dono da loja olhou e cutucou, mas concluiu também que não podia fazer nada. Foi então a procura de uma hospedaria. Inquirido, o atendente de uma loja de aluguel de patinetes me levou até o 4o andar de um prédio ordinário até uma senhora de roupão. Inesperadamente, ela *não* me ofereceu um cookie e discutiu cripticamente o meu futuro, mas simplesmente me mostrou um quarto de hóspedes tradicional coreano, com futon, mesa baixa, porta de correr e senha de wifi. Paguei pela estadia e fui contemplar as minhas opções.

Retroceder nunca, render-se jamais é um péssimo filme mas uma excelente filosofia para andar de bicicleta. Passei as duas horas seguintes em cirurgia, desengajando o câmbio e montando e desmontando a corrente. A ideia era achar um número de elos correspondendo de forma aproximadamente à uma corrente esticada em alguma marcha específica. Depois de algumas tentativas consegui transformar uma bicicleta de 7 marchas quebrada em uma de 1 marcha que roda. Ela guincha como um guaxinim enfurecido e não tenho muita fé na longevidade da corrente, forçada a um grau de torção pouco saudável. Mas amanhã vou tentar dar uma de Ayrton Senna e ver se consigo completar o trecho de hoje na 3a marcha.
 
Antes... (7 marchas)
... e depois (ersatz-fixie)

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Casa, Rio de Janeiro
Sgt. Kim's ronery hearts club bomb

Feeling ronery, Elton John style


A Coreia do Norte testou outra bomba atômica. Ao contrário da última, esta parece ter funcionado a contento (uns 20 kilotons de TNT, dizem, comparável à bomba de Hiroshima). Os suspeitos de sempre emitiram os protestos de sempre. Mas nenhum pais, seja os EUA, Japão, Coreia do Sul ou China, parece querer fazer algo mais drástico a respeito. Na verdade, ninguém parece saber muito saber o que fazer.

Me parece que a incapacidade da comunidade internacional para tomar algum tipo de ação coordenada eficaz a respeito da CdN se deve a dois medos quase ortogonais: O medo de uma guerra devastadora contra um inimigo formidável em uma das regiões mais importantes (e densamente povoadas, e industrializadas) do mundo, e o medo de um colapso economico e social norte-coreano.

Em relação ao primeiro medo, a CdN nunca precisou de bombas atómicas para dissuadir um ataque dos EUA: A ameaça de suas forças convencionais, em particular no referente a Seoul, é e sempre foi mais que suficiente para isso. Porém (muita gente acredita), se pressionada demais, e não tendo nem escrúpulos nem literalmente nada a perder, a liderança norte-coreana poderia lançar um ataque* final desesperado. É uma guerra que a CdN provavelmente iria perder, mas isto seria de muito pouco consolo para os milhões que iriam morrer antes que isto acontecesse. Deste ponto de vista, ceder a chantagem relativamente barata da CdN parece realmente um opção menos danosa, financeira e moralmente.

A outra possibilidade para a CdN é, obviamente, um colapso. O fim de um regime tão grotesco não vai deixar ninguém com saudade. Mas depois que cessarem as comemorações, a comunidade internacional (e a Coreia do Sul e a China em particular) vão se descobrir responsáveis, por exclusão, por uma sociedade brutalizada formada por milhões de miseráveis mal-nutridos, e com uma economia arruinada. Os custos da reconstrução, que se arrastaria por décadas e seria uma âncora no crescimento económico da região, fariam o preço da reunificação alemã parecer troco. Novamente, deste ponto de vista, deixar que os norte-coreanos continuem sendo responsabilidade do Kin Jong Il, e oferecer alguma ajuda modesta, mas suficiente para adiar um colapso completo, parece ser a alternativa mais simples e menos custosa.

Assim, o grupo dos 6 continua a negociar, e a emitir condenações sonoras mas ineficazes, e a fingir acreditar que o Kim esteja negociando de boa fé. O teatrinho vai continuar enquanto as concessões e auxílios económicos continuarem mais em conta que as alternativas. Imagino que secretamente os negociadores torcem para que a CdN siga pelo menos alguns passos d da China e se torne um pais mais ‘normal’, um pouco menos despótica e com um economia um pouco mais funcional. Nos últimos anos, a CdN mudou bastante, de fato, mas não me parece certo de que seja para melhor.

Neste contexto, a bomba atômica representa menos uma ameaça militar iminente, e mais uma maneira da CdN aumentar o seu ‘preço’, ao tornar ainda mais terríveis as alternativas (’Seoul e Tóquio radioativas!’, ‘Bombas atômicas a solta em uma anarquia pós-stalinista!’). A contenção da Coreia do Norte fica mais cara, mas sua lógica permanece a princípio válida.

O problema (para todos os envolvidos, norte-coreanos inclusive) é que a introdução de armas nucleares introduz um fator novo importante, que não está incluído no cálculo acima: A proliferação.

Por um lado, os vizinhos e quase-vizinhos da CdN já estão investindo pesadamente em armas anti-balísticas. Coreia do Sul, Taiwan, e (principalmente) Japão têm a capacidade técnica de rapidamente obter bombas atômicas e coloca-las em misseis. A península Coreana não é a única área de conflito potencial na região, e o surgimento de destas novas potencias nucleares (seguidas, possivelmente, de Vietnã, Indonesia, Singapura, Austrália, etc) criaria diversos conflitos nucleares em potencial.

Por outro lado, existe muita gente neste mundo com dinheiro de sobra que gostaria muito da tecnologia de bombas e misseis que a CdN tem, e nunca teve problemas em vender. A maior parte dos casos recentes de proliferação nuclear e de misseis balísticos têm envolvimento norte-coreano (e paquistanês, incidentalmente). Com uma bomba testada e aprovada, e a capacidade de produzir material físsil, a Coreia do Norte tem a capacidade de tornar realidade os sonhos de qualquer maluco com mais petrodolares do que bom senso.

A questão é: se a politica anterior de contenção e ‘diálogo’ já não é mais aceitável, nem tampouco as são as alternativas que se apresentam (guerra preventiva ou um se-vira-malandro global). Estamos precisando urgentemente de alguma ideia nova.

PS: Este post é uma adaptação de um comentário que fiz no blog do Pedro Dória. Quem quiser penetrar no universo paralelo do querido mas ronery leader, é só ler os surreais press releases da agencia de noticia dele. Ou ouvi-lo cantar.

Finalmente, para quem tem o prazer mórbido de querer saber quanto estrago exatamente uma bomba atômica de x kilotons faz, o Wolfran Alpha tem as respostas.

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* O objetivo seria provavelmente um ataque rápido para tomar algum território, para logo em seguida iniciar ‘negociações’ de uma posição de força. Mas eu duvido muito que a guerra seja ‘parável’ neste estágio.

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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Casa, Belo Horizonte
Brain Jüche

O estimado lider da Republica Democratica Popular da Coreia (que não é uma republica, é a mais precisa antítese da democracia existente atualmente, e perderia um concurso de popularidade para as hemorroidas de Átila, o Huno) afirmou sua satisfação pelo lançamento bem-sucedido de um satélite norte-coreano, que doravante irá transmitir os inesqueciveis sucessos da parada Pyonyangnense para um insuspeito planeta Terra. Aparentemente, é um satélite único que, ao invés de alçar vôo até o espaço, mergulhou no oceano Pacífico juntamente com os dois últimos estágios de seu foguete. Não tenho nada a acrescentar ao seguinte comentário (achado aqui):

De acordo com a marinha dos EUA, o altamente original satelite norte-coreano entrou em órbita subaquatica no oceano Pacifico, e está transmitindo as melodias das imortais canções revolucionárias Canção do General Kim Il-sung e Canção do General Kim Jong-il no canal acústico de 15kHz.
Os norte-coreanos pensam grande, porém. O satélite subaquatico é só o primeiro passo

Kim Jong Il Announces Plan To Bring Moon To North Korea

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sábado, 28 de outubro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
O boletim ML informa:

  • Eu estou indo para BH hoje a noite, para votar e para entregar o presente do meu afilhado (que ainda preciso comprar, incidentalmente). A Ceci tá trabalhando igual doida no Tim Festival, então a visita será ainda mais relâmpago do que o usual. Chego domingo de manhã e saio segunda de manhã.

  • O Gabriel vai ser alpinista quando crescer. Está escalando sofás, cadeiras, tudo que vê pela frente. Analisando de forma puramente objetiva, é impressionante, mas quando você vê seu filho se equilibrando precariamente no topo da cadeira enquanto tenta agarrar a luminária, orgulho paterno é a última coisa que me vem à mente.

  • O Jan Pronk vai voltar ao Sudão, onde deve permanecer até o final do ano

  • O Rafa postou a receita para seus famosos crepes (e Galetes, aparentemente). Pretendo fazer um test drive assim que possível; se eu aguentar talvez até amanhã. Estou pensando em todo tipo de recheio...

  • O governo atual da Coreia do Sul é meio bundão. Não só em relação a Coreia do Norte, que eles evitam a todo custo contrariar, mas também em relação aos americanos e aos chineses, e a próprio oposição doméstica. O Sunshine Roh tenta agradar todo mundo, e acaba não sendo levado a sério por ninguem. Todos os outros paises envolvidos, os EUA, a Coreia do Norte, a China e o Japão, bem ou mal sabem onde querem ir e tem um plano para chegar lá. O governo da CdS parece ter dificuldades para explicar para si mesmo o que está acontecendo, quanto mais formular uma política coerente. Metade dos ministros envolvidos com a politica 'Sunshine' de reaproximação com Pyonyang já renunciou, o presidente Roh tem taxa de aprovação abaixo vinte por cento, e aparentemente espiões norte-coreanos se infiltraram em várias organizações sul-coreana influentes, e chegaram perto de determinar o resultado da eleição para prefeito de Seoul.

  • A Planetary Society, uma ONG (!) tenta levar adiante um projeto de lançar uma vela solar (que usa pressão dos fotons solares e prescinde de combustível).


  • Velas solares tem um enorme potencial para a exploração do sistema solar além da órbita terrestre baixa, mas embora o seu funcionamento em princípio seja muito bem entendido, na prática produzir e desenrolar uma pelicula ultrafina no espaço são extremamente não triviais. Pessoalmente, acho que o grande entrave nas pesquisas espaciais hoje é acesso. Chegar na órbita terrestre baixa já é mais da metade do caminho andado, mas atualmente isto é caro e arriscado, com foguetes químicos que não avançaram muito desde os anos 60. Novas tecnologias, ou mesmo novos paradigmas de lançadores, existem na prancheta, mas só lá. Essencialmente, a ideia é usar o oxigênio da atmosfera (obstando a nescessidade de carrega-lo em tanques) [2], e reduzir o peso dos componentes o suficiente para permitir um veículo que chegue em órbita em um único estágio, e seja reutilizavel. Estas ideias, isoladamente ou em combinação, tem o potencial de reduzir o preço do acesso ao espaço por um fator de 10 ou mais.

    Para além da orbita baixa, existem inúmeras tecnologias promissoras. Além das velas solares, existem motores ionicos (outra tecnologia bem entendido na teoria mas difícil de implementar na prática), e o VASIMIR (que parece nome de figurante do Guerra e Paz, mas que é provavelmente a tecnolgia mais promissora).

    O fato porém é que a NASA e congêneres preferem aplicar seu dinheiro em projetos grandes, complexos e seguros, e não em experimentos pequenos, inovadores mas com grandes chances de dar em nada. Enquanto esta mentalidade permanecer, o espaço vai continuar sendo exclusividade dos Marcos Pontes da vida.

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