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quinta-feira, 15 de maio de 2008

Casa, Rio de Janeiro
|Líbano Vive> + |Líbano Kaput>

Estamos no ano 2008 depois de Cristo. Todo o Líbano foi dominado pelo Hizbollah e seus aliados... Todo? Não! Uma montanha habitado por irredutíveis Drusos resiste ainda e sempre ao invasor.
A situação no Líbano está ainda mais confusa que o habitual. A vitória militar do Hizbollah e aliados foi rápida e (quase! veja abaixo) completa. Mas as consequências políticas ainda permanecem bastante obscuras. Por um lado, ganha peso a teoria segundo a qual o Hizbollah (e seus patronos sírios e iranianos) agora pode ditar os termos que quiserem para o governo e que, na sua variação mais extrema, afirma ainda que o Líbano como uma comunidade multiconfessional cosmopolita está acabado: o seu futuro consistiria em alguma combinação de guerra civil intermitente, tutela e rapinagem sírias, e ação livre para os iranianos.

Por outro lado, alguns partidários do 14 de Março afirmam que a vitória do Hizbollah é (de novo) oca. Os sunitas, maronitas e drusos agora estariam unidos em seu ódio profundo ao partido de Deus (e, por extensão, xiitas em geral), e o mito da resistência heróica legítima que Nasrallah e cia construíram em torno de si estaria definitivamente desacreditado. Mas agora que o Hizbollah provou que pode se impor pela força, e os Sírios parecem estar voltando, munidos de carros-bomba e agentes secretos e não-tão-secretos, será que o que a maioria pensa ou sente ainda importa?

Neste contexto, a confusão em torno do resultado da batalha travada entre os drusos[1] habitantes do Shouf[2] (situado nas estratégicas encostas do Monte Líbano), e o Hizbollah e aliados é não só emblemática da dificuldade que existe em entender a situação no Líbano, mas pode ainda indicar se a oposição a combinação de poder de fogo do Hizbollah e a infiltração síria ainda é factível.

Na quinta feira, as forças de um líder druso aliado ao Hizbollah, Talal Arslan, foram enviadas para o Shouf com o objetivo aparente de desalojar os partidários de Jumblatt. Ao invés disso, os homens de Arslan (alguns? a maioria? todos?) mudaram de lado... O Hizbollah então enviou os seus cadres, bem armados e com a experiencia de lutar pau a pau com os israelenses, shouf acima. Por três dias os dois lados lutaram as batalhas mais intensas desta última crise. E os drusos, mal armados e sem nenhum apoio externo, deram uma surra nos hizbolas que não será esquecida tão cedo!

Daí em diante, as coisas começam a ficar obscuras. Jumblatt, no que foi interpretado alternadamente por diferentes observadores como uma admissão humilhante de fraqueza, ou um brilhante embuste para aparentar fraqueza e atrair Nasrallah para uma armadilha, ordenou que seus seguidores cessassem a luta, obedecessem as ordens de Arslan, e entregassem suas armas para o exército. A imprensa noticiou que vilas estratégicas no Chouf já eram controladas pelo Hizbollah/Arslan.

Porém, outros observadores libaneses, incluindo aparentemente drusos com contatos no local, afirmam que nenhuma vila caiu, e que tudo não passa de desiformação do Hizbolla. Os drusos resistem agora e sempre, ao invasor. Ou, pelo menos, assim dizem alguns.

Eu não sei, e não conheço quem saiba, que lado controla o quê atualmente no Shouf. Mas sei o seguinte: nas encostas do Monte Líbano os drusos fincaram o pé e disseram 'não passarão!'. E que, por três dias pelo menos, o Hizbollah não passou. Comparações históricas são sempre enganosas (e as Termópilas são um protótipo tão improvável quanto Asterix); mas se os libaneses que marcharam em 14 de Março de 2005 seguirem o exemplo dos drusos, e mostrarem-se dispostos novamente a não se render sem luta, por mais improvável que pareçam as chances de sucesso, então talvez o Líbano ainda tenha futuro.


[1] Os Drusos são um povo peculiar (c.f. discussões no Pedro Dória aqui e aqui, além deste interessante site dedicado à drusofilia.). Uma dissidência sincrética do xiismo, cheia de segredos, espalhados entre a Síria, Israel e Líbano, têm neste último país um peso político muito maior do que sua implica sua participação demográfica (cerca de 5% da população). Seu líder mais importante, Walid Jumblatt, é um camaleão politico que atualmente é o mais feroz crítico libanês do Hizbollah e da Síria.

[2] A maior parte dos drusos libaneses moram em um distrito chamado al Shouf, nas encostas ocidentais do Monte Líbano e a sudeste de Beirute. Um ponto que separa e mantém disjuntos os três principais territórios de maioria xiita controlados pelo Hizbollah: O sul, o vale de Beeka, e os subúrbios de Beirute.

PS: Não, não me esqueci da normalização. Mas como coloco 1/Sqrt(2) em html? Se os blogs fossem editados em LaTex...

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sábado, 10 de maio de 2008

Casa, Rio de Janeiro
O Líbano caiu do telhado


O Hizbollah e aliados controlam Beirute ocidental. A maior parte da luta ficou por conta dos milicianos do Amal e do 'Partido Social-Nacionalista Sírio'*, lutando contra membros do 'Movimento (do? para? de volta para o?) Futuro', sunita e liderado pelo Hariri jr. O exército libanês, que havia antes tomado uma postura solomonica de não se envolver na briga, parece agora estar ajudando timidamente o 8 de Março, desarmando milicianos sunitas e negociando a rendição de seus redutos.

A coisa toda esta cada vez mais parecida com um golpe de estado, planejado e executado com a competência típica do Hizbollah. Milicianos xiitas rapidamente assumiram o controle das principais vias de acesso à capital(e, em particular, da estrada para o aeroporto de Beirute). Jornais e estações de TV ligados ao governo (e em particular, aos Hariri) foram invadidos (e, em pelo menos dois casos, queimados) e colocadas fora do ar ou circulação. Edifícios do governo e as residências de alguns dos lideres do 14 de Março foram cercadas. Os Sírios demonstram seu talento cômico ao afirmar que os eventos no Líbano são um 'assunto interno' (assunto interno sírio é provavelmente o que eles têm em mente), enquanto o Irã obviamente culpa Israel e os EUA. Os apoiadores do 14 de Março, por outro lado, não parecem estar dispostos a tomar uma atitude mais enérgica em favor de seus protegidos, se estes não parecem dispostos a fazer o mesmo. Deste modo, as reações até agora foram confusas, se resumindo em geral a obviedades diplomáticas e piedosas homilias em favor da paz e reconciliação.

O próximo passo do Hizbollah, segundo a cartilha dos golpes em republiquetas de bananas, seria obviamente assumir o controle do governo, em nome da 'salvação nacional', e começar a prender ou calar seus oponentes. As coisas porém não são tão simples, já que Nasrallah não controla e provavelmente não tem como controlar as áreas maronitas, druzas e sunitas fora de Beirute; e juntas estas isolam os xiitas em três enclaves disjuntos (sul, Beirute ocidental e vale de Bekaa).

O mais curso provável dos acontecimentos daqui em diante, me parece, é um recuo humilhante por parte do 14 de Março em relação aos estopins da crise (movimento já ensaiado ontem por Hariri e Jumblatt), seguido da eleição do General Michel Suleiman* para presidência, e a formação de um governo 'de união nacional' liderados por alguém maleável, e onde o Hizbollah e aliados tenham poder de veto. O governo cessaria a cooperação com o tribunal da ONU que investiga a morte de Hariri, libertaria os quatro generais presos pelo crime (todos com fortes ligações sírias). O Líbano voltaria, em essência, a ser um protetorado de Damasco, onde o Hizbollah poderia fazer o que bem entendesse.

Obviamente, a situação ainda está em fluxo, e tudo pode acontecer (para parafrasear os prognósticos da típica mesa redonda de futebol). Mas se o 14 de Março quer ter alguma influencia no resultado final, é bom que parem de esperar que o resto do mundo envie a cavalaria, e tomem uma atitude (eles poderiam, no mínimo, seguir meus conselhos ;-))

Acredito que a guerra entre Israel e Hizbollah em 2006 deve ser entendida no contexto da briga de poder dentro do Líbano. Instigar seu belicoso vizinho ao sul é uma maneira que o Hizbollah tem de justificar a sua própria existência como uma milicia/partido político/ONG/entreposto persa além do controle ou sanção do estado Libanês. Visto desta forma, o golpe que ocorreu nestes últimos dias é simplesmente a culminação do conflito entre esta visão e o ideal do Líbano como um estado-nação de verdade, regido por leis e protegido por um exército nacional. Se vencer esta batalha, poderemos dizer finalmente que o Hizbollah ganhou a guerra. O Líbano, novamente, terá perdido.


* Um grupo de inspiração nazista que defende a ideia de uma 'Grande Síria', que incluiria o Líbano, a Jordânia, Israel, Palestina, o Sinai (no Egito) e a região em volta de Iskederum (na Turquia). Eles têm a mania de pendurar posteres do Assad jr. (oculista e presidente da Síria nas horas vagas) por onde passam.

** O atual comandante do exército libanês; ele havia sido proposto pelo próprio 14 de Março como um candidato a presidência 'de consenso' (o que no caso queria dizer aceitável para a Síria e o Hizbollah). O 8 de Março bloqueou sua nomeação porque queria também direito a nomear um número suficiente de ministros para ser capaz de bloquear qualquer decisão do governo. Os eventos recentes, porém, aparentemente mostram que Suleiman, mais do que simplesmente 'aceitável', está totalmente do lado da Síria.

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quinta-feira, 8 de maio de 2008

LNAC, Rio de Janeiro
O Líbano subiu no telhado


O Líbano está agora em um estado incipiente de guerra civil. O conflito, inicialmente entre o governo e o Hizbollah, já começou a degenerar em alguns subúrbios de Beirute em conflito sectário entre xiitas e sunitas, mediado por tiros e RPGs (do tipo que se lança, não do que se joga).

Recapitulando muito rapidamente (veja mais aqui): Desde a última guerra entre Israel e Hizbollah, vem crescendo a tensão entre este último e seus aliados (conhecidos coletivamente como '8 de Março, e apoiados pela Siria e Irã) e o governo do primeiro ministro Siniora e agregados (i.e. 14 de março, apoiado pela Arábia Saudita, EUA e França). No ano passado, o mandato do então presidente Emille Lahoud acabou, e os dois lados foram incapazes de chegar em um consenso sobre um novo nome (em grande parte devido à pressão síria). O cargo está vago desde então. Pairando sobre tudo isto, fica o espectro do ex-primeiro ministro Hafik Hariri, que muito provavelmente foi assassinado pela Síria em 2005. O crime levou aos protestos e contraprotestos nos dias respectivos, das coalizões que se cristalizaram nas facções oposta de 8 de Março (xiitas e parte dos maronitas) e 14 de Março (sunitas, druzos e os demais maronitas). Como eu já disse algumas vezes antes por aqui, a própria guerra de 2006 contra Israel se insere neste contexto, no qual o Hizbollah tenta proteger seu status atual de estado-dentro-do-estado armado até os dentes, instigando guerrinhas que mantenham viva a ameaça israelense, justificando assim a continuidade da sua 'resistência'. De forma mais ampla, as duas facções libanesas se alinham em lados opostos na nova guerra fria emergente no Oriente Médio.

Mais recentemente, as lideranças do 14 de Março (e, em particular, o líder druzo Walid Jumblatt) começaram a pressionar o poder paralelo do Hizbollah. O estopim desta mais recente briga foi a demissão do chefe de segurança do aeroporto de Beirute, um aliado do Hizbollah que atende por General Wafik Shoukair; e a tentativa por parte do governo de assumir o controle de uma rede paralela de comunicações (fibra otica e WiMax, alto nível) mantida pelo Hizbollah.

A reação foi rápida. Em um discurso furibundo, o Nasrallah (lider do Hizbollah) acusou Israel, EUA, França, Arábia Saudita, e a mãe Joana, de conspirarem contra a resistência, e afirmou que as ações do governo (que ele chamou de 'governo Jumblatt') eram uma 'declaração de guerra'. Quase imediatamente, membros armados do Hizbollah e Amal (outra milicia xiita) surgiram nas ruas de Beirute, e bloquearam a estrada para o aeroporto. Fontes locais afirmarm que uma emissora controlada pelos Hariri foi tirada do ar, a sede de um jornal pró-governo e anti-sírio foi queimada, e a casa de um parlamentar proeminente da situação foi cercada por milicianos. Por toda Beirute, membros do Hizbollah e Amal trocam tiros e foguetes com uma melange de grupos sunitas, maronitas e drusos.

O exército libanês, com medo de se fraturar, prefere ficar quieto e fingir que não tem nada a ver com o assunto, e a liderança do 14 de Março faz discursos chorosos pela unidade nacional e age como o Sir Robin. Aparentemente o Hizbollah já controla boa parte da cidade. O premiê Siniora tomou chá de sumiço, e tanto Hariri Jr. (Saed, filho do assassinado Rafik) quanto Jumblatt agora estão tentando sem muito sucesso por panos quentes e aplacar Nasrallah.

Com a vaca fixando residência e criando família no brejo, a situação no Líbano hoje lembra muito os primórdios da guerra civil, em meados da década de 70. A lealdade ao clã/secto/etnia é mais importante do que a lealdade ao estado (o Líbano como estado nação sempre foi em grande parte uma farsa consensual, e só funcionou na medida em que a todos os lados interessava manter a fachada), o que leva as várias facções a preferirem encontrar aliados e patronos externos a resolverem internamente suas disputas. Mas se por um lado isto é assustador, por outro a própria lembrança do cataclismo passado provavelmente é um excelente dissuasivo para que os vários lados não o repitam no futuro.

A curto prazo, o Hizbollah parece estar a ponto de controlar Beirute, e a intimidar ou mesmo derrubar o governo. Mas a longo prazo, se o 14 de Março não emular a estratégia francesa em 1940, é bem possível que Nasrallah tenha novamente mordido mais do que consegue mastigar. Depois dos eventos dos últimos três dias, é improvável que os libaneses não-xiitas voltem a ver o Hizbollah como uma força de resistência legítima (a legitimidade foi conquistada após o 'partido de Deus' ter forçado a retirada israelense do sul do pais, em 2000), ainda mais agora que a promessa tantas vezes repetida de jamais voltar as armas da 'resistência' contra os outros libaneses foi quebrada. E como a história da guerra civil demonstra, dominar os redutos druzos e maronitas que cercam Beirute e separam as zonas de maioria xiita no sul e no vale de Bekka vai ser muito mais difícil do controlar (a maior parte de) Beirute (c.f. esta entrevista de um Walid Jumblatt que parece ter reencontrado seus testículos). De qualquer maneira, a situação ainda é incerta demais para enterdermos o que exatamente está acontecendo; ficar fazendo previsões a longo prazo então é um exercício de euachismo na mesma categoria de futilidade que mesas redondas de futebol.


Para as notícias mais recentes, recomendo o Naharnet (um jornal) e o Blacksmiths (um blog). Para comentários, veja os blogs dos dois Abus, Kais e Maqawama.

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sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Dia da independência

Hoje, muito ironicamente, é o dia da independencia do Líbano. É irônico porque o país nunca conseguiu escapar da sina de ser joguete e campo de batalha por procuração de seus vizinhos e quase-vizinhos. Hoje ele se encontra em uma encruzilhada, que pode leva-lo de volta ao, ou livrá-lo de vez do, sufocante abraço da Siria.

O bicho está pegando por lá. Essencialmente, os dois lados em que o pais se dividiu, conhecidos como 14 de Março (apoiados pelos EUA, França e Arabia Saudita) e 8 de Março (apoiado pelo Irã e pela Siria) não se entendem sobre a eleição do presidente do pais. O atual, Emille Lahoud, é um pau mandado sírio, e foi a extensão do seu mandato passando por cima da constituição local, que levou o ex-premiê Hafik Hariri a romper com Damasco. Os sirios controlavam o pais então, e não gostaram muito da ideia. Rafik Hariri foi vaporizado em uma enorme explosão no centro de Beirute poucos meses depois. Credito extra para quem adivinhar por quem.

O atentado galvanizou o pais. Uma mobilização popular sem precendentes (com alguma ajuda dos amigos*) pegou os sírios de surpresa, e os forçou a retirar suas tropas de ocupação. Desde então, para encurtar (e simplificar quase ao ponto de fábula) a história, o pais se dividiu entre anti-sirios e pró-sirios. Esta divisão, e todas as ramificações bizantinas dela decorrentes, é a mola mestra da historia recente do Líbano. A guerra do Hizbollah contra Israel, por exemplo, faz muito mais sentido neste contexto do que puramente no contexto do conflito arabe-israelense (c.f. meus posts anteriores sobre o assunto).

Algum dia Amanhã eu termino este post.
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* Em particular os americanos, cuja presença no vizinho Iraque, armados até os dentes e liderados por um presidente com fama de psicopata, provavelmente fez os baathistas em Damasco meditarem sobre o destino dos baathistas em Bagdá. Os sauditas, principais aliados dos Hariris, também não ficaram muito felizes, e ninguem gosta de irritar os sauditas.

PS: Caralho! Mataram a Benazir Bhutto!

RAWALPINDI, Pakistan (CNN) -- Former Pakistan Prime Minister Benazir Bhutto was assassinated Thursday outside a large gathering of her supporters where a suicide bomber also killed at least 14 of her supporters, doctors and a spokesman for her party said.

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sábado, 6 de janeiro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
A nova guerra fria

A expressão 'crise no Oriente Médio' parece quase um pleonasmo, mas é na verdade inexata na maior parte das vezes em que é empregada. Uma região de grande importância estratégica e significado histórico, encruzilhada de religiões, civilizações e etnias, o Oriente Médio está em conflito semi-permanente desde (escolha a data) a) 1917; b) 1947 ou c) 3000 A.C. E alguns dos seus conflitos se incluem entre os mais badalados, renitentes e fascinantes da história recente.

Mas uma crise é um desvio agudo da normalidade, com o potencial de uma ruptura permanente. Sob certas circunstancias, a violência (efetiva ou como ameaça) pode se tornar o status quo, e não necessariamente implica em uma crise.

Com o preâmbulo acima em mente, eu digo agora que o Oriente Médio está em crise. Não porque bombas explodem e ameaças são feitas, mas porque está em curso um realinhamento estratégico que pode dividir a região em dois grupos mutuamente hostis de países, encabeçados pelo Irã de uma lado, e a Arábia Saudita de outro, e porque a própria coesão nacional da maior parte destes países está ameaçada.

O Irã está em ascensão. Os seus inimigos tradicionais foram destruídos, no caso da União Soviética e de Saddam Hussein, ou fragilizados, no caso dos americanos (devido ao atoleiro no Iraque e a impopularidade dos EUA entre os Árabes). Embalado pelos altos preços do petróleo, e com sua influencia ressurgente na Asia Central, no Líbano, no Afeganistão e principalmente no Iraque (com agradecimentos ao colapso soviético pelo primeiro e aos americanos pelos dois últimos), os mulahs acreditam que a hora deles é agora para tornar o Irã a potência dominante no Oriente Médio.

Mas por baixo de toda esta força aparente, o Irã esconde suas fragilidades. A sua população é jovem, mas a rápida queda da natalidade nas últimas duas décadas vai em outras tantas torna-lo um pais de velhos. Embora seja solidamente xiita, a população iraniana consiste de uma estreia maioria dominante persa, e uma série de minorias cujo tratamento varia entre o racismo negligente (azeris), repressão violenta (baluchis) e perseguição religiosa (bahais).

Produz-se menos petróleo (a base da economia) hoje do que em 1979, e com a demanda interna crescendo rapidamente, alguns analistas estimam que o Irã poderá deixar de ser um pais exportador em alguns anos. Além disso, vinte anos de revolução islâmica deixaram o espírito revolucionário dos Iranianos um tanto embotado (principalmente nos grandes centros urbanos). A tal vitória divina do Hizbollah foi recebida com júbilo nas ruas de Cairo e Damasco, mas com indiferença em Teerã (cujos habitantes sabem muito bem quem vai pagar a conta). E embora gritar 'morte à América' e 'morte à Israel' ainda seja parte do currículo escolar, até hoje eu não encontrei nenhum iraniano que tivesse qualquer entusiasmo pela ideia.

A crescente influencia iraniana (persa e xiita!) é vista com alarme pelas ditaduras dominadas por sunitas. Muitas possuem minorias (ou, no caso de Bahrein, maioria) xiitas que são tratadas de forma tipicamente atroz, e partilham de um medo (infundado ou não, mas centenário) de dominação persa. Mas nenhum pais tem mais a perder com a ascendência iraniana que a Arábia Saudita.

O reino saudita é o melhor exemplo do que alguém denominou 'uma tribo com uma bandeira'. Após a primeira guerra mundial, um clã liderado por um certo Ibn Saud, inspirado por um tipo de puritanismo revisionista islâmico criado por um tal de Wahab, conseguiu aos poucos conquistar a maior parte da península arábica, e expulsar os Hashemitas das cidades santas de Meca e Medina. Nadando nas maiores reservas petrolíferas do mundo, e ainda hoje controlada de forma absoluta pelos milhares de príncipes descendentes do fecundo Ibn Saud, a Arábia Saudita se considera não só guardiã das cidades santas, mas da própria ortodoxia islâmica.

Infelizmente para a Arábia Saudita, assim como o Irã a sua posição é frágil por baixo de toda a riqueza ostentada. A sociedade ainda é profundamente tribal, e, mais do que frágeis, as instituições modernas são praticamente não-existentes. A maior parte do trabalho é feita por estrangeiros, da prospecção de poços ao trabalho doméstico, e os Sauditas dependem totalmente da renda (enorme!) do petróleo. A maior parte do petróleo saudita porém se situa no leste do pais, habitado por xiitas, que o Wahabismo considera (e trata) como hereges da pior espécie.

Assim, ao mesmo tempo que são impelidos para o conflito pelo que consideram seus respectivos destinos manifestos, Irã e Arábia Saudita encaram um ao outro, devido às suas próprias fraquezas internas, como uma ameaça grave.

O que porém transformou hostilidade em guerra fria, e forçou os demais países árabes a tomar partido, foi a invasão americana do Iraque. George W. Bush criou de fato um novo Oriente Médio, embora provavelmente não o que ele tinha em mente. A invasão liberou (mas não criou) tensões entre xiitas e sunitas, e é este conflito, mais do que a luta entre americanos e insurgentes, que cada vez mais vai destruindo o Iraque. Todos os países vizinhos vêem tensões semelhantes dentro de suas próprias fronteiras. Se o lado 'errado' ganhar no Iraque, alguns deles temem que seus conterrâneos que compartilham etnia ou religião com os vitoriosos também se levantem.

Os países e grupos sunitas vêem os temidos persas se tornando o poder mais influente no que era até a pouco o grande bastião sunita contra a revolução islâmica iraniana, reforçando a sua aliança com a Síria, e extendendo sua influencia no Líbano e em Gaza. Temem uma conspiração para impor a hegemonia iraniana na região. Assim, Arábia Saudita, Jordânia, os sunitas Libaneses (liderados pelo Saed Hariri, filho do ex-premiê morto pelos Sírios, aliados dos iranianos...), e o Fatah de Mahmod Abbas na Palestina, se aliam para enfrenta-los.

Todos os conflitos recentes na região são ou tem o potencial de se tornarem guerras por procuração entre os dois lados. No Líbano, Israel recebeu inicialmente o surpreendente apoio velado dos demais paises sunitas contra o Hizbollah, que no pós guerra devolve o favor e luta para derrubar o premiê sunita apoiado por Hariri e, por extensão, pelos sauditas. Os palestinos estão a beira de uma guerra civil entre o Hamas, financiado com dinheiro Iraniano e com a liderança em Damasco, e o Fatah, que recebe o apoio Jordaniano e Egipcio.

No Iraque a situação é mais complicada, devido a presença dos americanos. Temendo serem o próximo alvo de uma mudança de regime, os Sírios apoiam qualquer um que torne a vida dos americanos difícil (ou mais curta), coerente com a sua política de apoiar no exterior grupos que são reprimidos ferozmente em casa, sejam eles fundamentalistas sunitas em geral, a Irmandade Muçulmana ou separatistas curdos. Os iranianos
por outro lado claramente procuram (com considerável sucesso) criar um governo iraquiano que possam controlar ou pelo menos influenciar. Mas os Sauditas já enviaram o recado: Eles não permitirão que os sunitas iraquianos sejam marginalizados. A retirada americana é uma questão de tempo; o que virá em seguida é difícil de prever, mas algum tipo de guerra por procuração parece provável.

Além de assumir o controle no Iraque, a estratégia iraniana para se tornar a potência regional dominante parece ter duas vertentes. A primeira é o programa nuclear, que eles insistem tem fins puramente pacificos. Só digo que, se o objetivo é realmente este, o entusiasmo de Amahdinejah pela energia nuclear é contagiante, porque Egito, Arábia Saudita e um consorcio de países do Golfo (além de Marrocos) manifestaram recentemente um súbito interesse em construir reatores nucleares, para fins igualmente pacíficos. Uma bomba atômica é um seguro anti-marines aparentemente eficiente, e historicamente tem sido o símbolo de status que distingue os grandes dos pequenos na ONU.

A segunda vertente é consequência do fato de os xiitas serem uma minoria em quase todos os países da região. Os iranianos precisam portanto de algo que atraia pelo menos alguns sunitas para o seu lado, algo que por exemplo atraia um ódio tão profundo que transcenda divisões confessionais ou étnicas. Não foi preciso ir longe para achar um objeto de repulsa apropriado. A cola que mantinha unidas as várias versões do pan-arabismo, a desculpa para todos os fracassos e a suposta fonte de todos os problemas do Oriente Médio: Israel.

Todas as conferências e concursos de cartoons sobre o Holocausto e os discursos inflamandos sobre varrer Israel das páginas da história podem ser um reflexo da imbecilidade do presidente Iraniano, mas também servem a um propósito estratégico. O Irã está se posicionando como *o* centro de resistência anti-sionista, uma posição que atrai amplas simpatias no mundo árabe. Assim, o Irã e a Síria financiam e apoiam todos os grupos que continuam na luta armada contra Israel e rejeitam o princípio de trocar terra por paz, sejam eles sunitas ou xiitas. Durante a última guerra no Líbano, a tal vitória divina tornou o Nasrallah provavelmente o líder árabe mais popular atualmente, para xiitas e sunitas (exceto obviamente entre os sunitas libaneses). Ao separar as massas árabes de seus líderes (nenhum dos quais é eleito democraticamente), o Irã restringe a margem de manobra de seus adversários. No limite, esta situação pode até mesmo causar a queda de alguns dos déspotas pró-americanos dispostos a uma acomodação com Israel, para serem substituídos, suponho, por déspotas pró-iranianos dispostos a uma guerra interminável com Israel. Egito e Jordânia em particular podem sucumbir a pressão, o que inverteria totalmente o balanço de forças.

Os sunitas obviamente não estão parados. A Arábia Saudita é o único grande produtor de petróleo capaz de aumentar significativamente sua produção a médio prazo. A baixa resultante nos preços seria danosa aos sauditas, mas um calamidade para os iranianos. Veremos nas próximas reuniões da OPEP se os sauditas aceitam cortar a produção ou se vão permitir que os preços continuem baixando. Juntos com a Jordânia e o Egito, os sauditas também redobraram os esforços para conseguir algum tipo de solução pacífica para o conflito entre palestinos e israelenses. Embora louváveis (mesmo que a motivação não seja o desejo de paz na terra e harmonia entre os homens), tais iniciativas infelizmente não tem sucesso garantido. Uma aposta mais líquida e certa, por outro lado, é a crescente demonização dos 'persas' na mídia árabe, onde eles são cada vez mais alvo da paranóia xenofóbica que tradicionalmente sempre foi reservada aos judeus. É quase uma corrida para ver quem é mais odiado, se os persas ou os judeus.

Obviamente fomentar conflitos sectários não costuma ser uma política sensata, e a longo prazo as consequências tendem a ser ruins para todos os lados envolvidos, quando o ódio toma vida própria e se auto-perpetua muito além da sua utilidade momentânea. Quase todos os países da região escondem sob a superfície tensões semelhantes às do Iraque (em parte devido às fronteiras artificiais impostas por britânicos e franceses quando os estados nacionais modernos foram criados por lá, mas é difícil imaginar fronteiras que eliminassem tais tensões completamente). Sem identidades nacionais totalmente consolidadas, os povos da região se dividem em um palimpseto de identidades
étnicas, religiosas e tribais muitas vezes contraditórias, que se tornam mais importantes em tempos de instabilidade. Se pressões externas criarem um conflito entre as várias identidades sobrepostas, quase todos estes paises tem o potencial de se desintegrar violentamente.

Mas o Oriente Médio não está chegou à situação atual por ter um excesso de lideranças sensatas...

Precedentes históricos certamente existem. A guerra Irã-Iraque, a mais mortal da história recente do Oriente Médio, também foi um conflito entre xiitas e sunitas, e árabes e persas. Mas foi um conflito que permaneceu limitado aos países beligerantes. A possibilidade agora existe de uma conflagração em toda a região. Na história europeia, a Ia Guerra Mundial, e (talvez mais apropriadamente) a Guerra dos 30 Anos vem a mente.

Obviamente um conflito generalizado, embora cada vez mais provável, permanece somente uma possibilidade. Talvez a carnificina no Iraque convença os dois lados a iniciar algum tipo de détente, ou talvez um acordo de paz na Terra Santa, ou um colapso nos preços do petróleo, ou um aumento do QI da liderança americana, adie as pretensões iranianas ou acalme a paranóia sunita. Sinceramente, é difícil saber pelo que torcer, quanto mais o que esperar, mas os próximos anos no Oriente Médio certamente serão interessantes.

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quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Pensamentos canônicos

Existe uma nova guerra fria no Oriente Médio, precipitada pela guerra no Iraque. Grosso modo, é um conflito entre xiitas e sunitas, mas vista de perto a coisa é um pouco mais complicada. O embate central do conflito é entre Arábia Saudita e Irã, ambos abarrotados de petrodolares, e que nunca se deram muito bem. Mas como nenhum dos lados quer por enquanto um confronto direto, a briga se dá na periferia, entre os seus respectivos agentes e aliados locais. Assim, os recentes eventos no Líbano e na Palestina, e em menor medida, no Iraque*; me parecem ser em grande parte conflitos por procuração entre estes dois lados.

Mas não estou com saco para falar sobre isso agora. O canon de Pechelbel é uma obra barroca muito agradável, embora um tanto manjada. Achei esta versão interessante.



E isso aqui é hilário.



Existe uma nova guerra fria no Oriente Médio, precipitada pela guerra no Iraque. Depois posto mais sobre isto.
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*A Arábia Saudita avisou o Cheney que se os EUA se retirarem precipitadamente ela irá começar a apoiar os Sunitas iraquianos

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sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
O funeral de Pierre Gemayel

Hoje em Beirute algumas centenas de milhares de pessoas (200.000 segundo o NYT, 800.000 segundo a policia) transformaram o funeral do Pierre Gemayel em um protesto contra a Síria e seus aliados locais.


A cerimônia religiosa em sí foi bastante contida, com eulogias chorosas e clamores por justiça, união nacional e meia entrada no Mineirão (posso ter ouvido mal esta última). Fora da catedral, o pau comia, e a multidão entoou uma série de criativos insultos dirigidos aos líderes da Síria, Irã e Hizbollah, mas principalmente ao Michael Aoun e ao Emille Lahoud, enquanto pisoteavam seus retratos..

Com os ânimos dos maronitas exaltados, pelo menos por hora os aliados de conveniencia da Síria estão se afastando cautelosamente de seu espinhoso patrono. Na fase final da guerra civil o Aoun foi a grande liderança anti-Síria, até ser forçado ao exílio, e a sua aliança com Damasco sempre pareceu um tanto desconfortável. Ele pediu para seus partidários irem ao funeral, mas ao contrário do Nabil Berri (lider do partido xiita Amal), não foi pessoalmente. Os dois aparentemente decidiram ficar em cima do muro para ver para onde os ventos sopram, mas Damasco tem meios bastante persuasivos de faze-los mudar de ideia, se for o caso.

O Hizbollah (que parece ter sido pego de surpresa pelo assassinato) sabiamente adiou seus próprios protestos, e se juntou ao coro dos que acusam (com graus variados de sinceridade, creio) o próprio '14 de Março' de estar por trás do assassinato. O argumento também é do tipo 'cui bono', já que o 14dM parece ter sido re-energizado pelo ato. Considerando que o governo está a 1 ou 2 ministros de ser forçado a renunciar, e que os Assad e agregados tem assassinado desafetos libaneses com deprimente regularidade desde os anos 70, esta não me parece uma hipotese muito verossímil, mas tem que leve fé.

Resumindo, o quadro agora é este: O governo quer instaurar o tribunal para julgar os assassinos do Rafik Hariri, e a Síria tenta por todos os meios obstrui-lo. O HA quer depor o primeiro ministro, e o 14dM (com apoio do EUA, da França e da Arábia Saudita) quer depor o presidente. O resultado deste conflito pode depender do lado que o Aoun e o Berri escolherem.


Mais fotos do protestos aqui, cobertura aqui e aqui.

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terça-feira, 21 de novembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
O assassinato de Pierre Gemayel

O ministro da indutria Libanês, Pierre Gemayel, foi assassinado hoje em Beirute. Ele foi abatido a tiros dentro do seu carro, quando voltava de uma visita a um suburbio cristão da cidade. Um de seus guarda costas também morreu, e outro ficou ferido no atentado (assim como um transeunte randômico).

Pierre Gamayel era o lider das Falanges, um grupo de direita maronita com uma história sangrenta durante a guerra civil, e que hoje integra a frente anti-Síria '14 de Março'. O seu tio, Bashir Gamayel, também foi assassinado em 1982, pouco depois de ser eleito presidente.

Para quem não tem paciencia para a minha verborragia, a solução do tipo Detetive (e.g. Cel Mostarda na Cozinha com um Candelabro) é: O assassino foi provavelmente o governo Sírio, usando armas e capangas locais, com o objetivo de forçar o governo Libanês a renunciar, já que o afastamento (por qualquer causa) de 1/3 dos ministros por lei exige a dissolução do governo. Com a renuncia de 6 ministros aliados do HA e agregados, e a morte de Gemayel, faltam só dois.

Todas as facções condenaram o atentado, e os membros do 14 de Março acusaram abertamente a Síria de estar por trás do assassinato. Damasco, obviamente, nega.

Não é uma acusação infundada. O assassinato do ex-premiê Hafik Hariri ano passado, então o principal opositor da presença Síria no pais, galvanizou a oposição à ocupação. O nome '14 de Março' se refere ao enormes protestos que ocorreram naquele dia, em resposta aos protestos organizados pelo Hizbollah no dia 8 em favor da Síria. A combinação de protestos e pressão externa forçou os Sírios a retirar suas tropas. Mas a influencia de Damasco ainda permanece, através de aliados como o HA, e de prepostos como o atual presidente, Emille Lahoud.

O ditador da Síria, Bashir al Assad, digeriu muito mal sua expulsão do Líbano. Desde a muito tempo Damasco tem pretensões territorias sobre o país vizinho, e se recusa a demarcar sua fronteira comum ou trocar embaixadas. Assim, a Síria tem tanto a motivação quanto os meios de tornar as coisas ainda mais caóticas, tanto para impedir que as investigações avancem quanto para se reafirmar como a única força capaz de garantir a estabilidade no Líbano, e assim restabelecer sua hegemonia sobre o vizinho. O reestabelecimento de relações diplomaticas com o Iraque, e as recomendações da comissão realista liderada por James Baker(que já rifou o Líbano para os Sírios em 91 em troca de apoio contra Saddam)
nos EUA , tornam o momento propício para Assad.

Atualmente, a principal disputa entre as facções pró- e anti-Síria é a respeito do tribunal misto a ser instaurado em conjunto com a ONU para julgar os assassinos de Hariri (cuja formaçao o conselho de segurança da ONU aprovou hoje). Relatórios preliminares da ONU incriminaram vários manda-chuvas sírios e seus aliados libaneses. Pouca gente duvida que o governo baathista esteja por trás deste e de outros assassinatos (inclusive do recente atentado contra um dos agente de inteligêncua libanês envolvido na investigação); a questão é saber quão contundentes serão as provas recolhidas. Da mesma maneira que sonegação fiscal foi usada contra Al Capone, a ideia do 14 de Março (e de seus aliados americanos e sauditas) é usar uma eventual condenação de líderes Sírios para extirpar definitivamente o controle que Damasco ainda exerce sobre o Líbano.

Recentemente aliados da Síria tentaram bloquear a passagem de leis que permitem o estabelecimento do tribunal (liderados pelo Amal, um outro grupo xiita importante, os parlamentares paralizaram os trabalhos no congresso, sob a desculpa de protestar contra o bloqueio israelense). Na semana passada, os ministros leais ao HA, Amal e ao Lahoud renunciaram, deixando o governo sem representação xiita. Por lei, o governo Libanês tem que ser dissolvido se um terço dos ministros renunciar (ou morrer). Com o Pierre Gemayel morto, faltam só mais dois.

Assim como aconteceu com a morte de Hariri, é provável que este último crime seja um catalizador das forças anti-Sírias. Em um pais onde lealdades ainda são principalmente sectárias, e que não tem um censo desde a década de 30, o tamanho das manifestações é uma das poucas medidas razoavelmente objetivas da intensidade da opinião pública. Generalizando, hoje os xiitas se alinham a favor da Síria, os Sunitas e os Druzos contra, e os maronitas são o fiel da balança. O '8 de março' levou 400.000 pessoas às ruas, o '14 de março' levou 1,4 milhões. Recentemente o HA fez um 'comício da vitória' ao qual compareceram 350-600.000 Libaneses. Tudo indica que o funeral de Pierre Gemayel (adiado para quinta) também atrairá multidões. Até ontem o HA prometia protestos a favor da derrubada do governo. Se isso já era considerado provocativo antes, agora é potencialmente explosivo.

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terça-feira, 14 de novembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Conversando com o Hizbollah

No post abaixo, eu mencionei algumas das conversas e discussões improvaveis que tive na internet. Possivelmente o meu interlocutor mais interessante (embora nem de longe o mais amigavel) é um membro autodeclarado do Hizbollah, com quem troquei alguns comentários no blog do Michael Totten. A discussão se extendeu por vários posts, e envolveu alguns outros libaneses, além de israelenses e americanos.

A surprendente discussão acabou sendo razoavelmente bem educada, e muito informativa. O AlGhaliboon (o cara do HA) se mostrou extremamente cortês, e aberto ao debate. Em relação a assuntos espinhosos, como o direito de Israel a existir, ele é muito mais conciliatório do que a posição oficial do seu partido. E o discurso dele é (para o meu alívio) livre daquela cansativa lengalenga conspirazoide sobre sionistas isto ou sabios de Sião aquilo, tão comum na região.

Mas sempre que o assunto era o seu vizinho ao Sul, ele esbarrava no axioma segundo o qual 'a culpa é sempre dos israelenses', e na consequente absoluta falta de autocrítica que o impedia de admitir que pelo menos alguns dos atos do HA foram imorais ou contraproducentes. Era deprimente ver um cara, que em geral parece sensato e bem informado, celebrar a possibilidade de outra guerra (meses após a última 'vitória' do HA ter devastado o seu pais) como algo não só provável como também desejável.

A discussão entre ele e os israelenses do fórum também foi instrutiva. Era obvio que não havia grandes diferenças entre eles a respeito do que seria nescessário para uma paz duradoura entre os dois paises. Mas bastou os israelenses objetarem ao 'direito de retorno' dos refugiados palestinos da guerra de 1948 (e seus filhos e netos) para que o AlG voltasse a sua concha e insistisse que o conflito é a única solução, negociações são impossiveis, etc e tal. Mas também ficou claro que existe dentro e fora de Israel quem acredite que os Arabes são uma massa uniforme de maníacos genocidas, independente de qualquer evidencia do contrário.

A ansia de repatriar os palestinos que moram no Líbano tem muito pouco a ver com o suposto amor que os Libaneses sentem pelos refugiados (que são confinados em campos esquálidos e impedidos por lei de trabalhar ou construir habitações permanentes), mas sim ao medo de que eles alterem o delicado equilíbrio entre os diversos grupos etnico-religiosos que compoem o Líbano, e em particular, que atrapalhem os planos hegemonicos da antiga maioria (os cristãos maronitas) ou da nova maioria emergente (os fecundos xiitas). Acontece que a insistencia em um direito absoluto ao retorno (de volta a algo que para todos os efeitos não existe mais), ao invés de um retorno (ou ida) à uma Palestina independente juntamente com compensasão financeira, só perpetua a situação. Gerações de palestinos cresceram acreditando que um mitológico retorno iminente à vilas próximas a Haifa que não existem mais, o que é uma anátema para os israelenses, já que isso implicaria no fim de Israel, seja como a pátria judaica ou como um país democrático.

Entre os Libaneses, o tópico mais quente foi a renuncia coletiva dos ministros aliados ao Hizbollah e ao Amal (o outro grande partido xiita) do governo Libanes. A causa imediata foi a recusa por parte do movimento anti-sírio '14 de Março', que é maioria no parlamento, de dar ao HA o poder de veto sobre as decisões do governo. A outra razão não verbalizada é tentar bloquear a criação do tribunal que está sendo instalado para julgar os culpados pelo assassinato do ex-premiê Rafik Hariri. O crime é atribuido aos sirios, e a ideia é usar o tribunal para extirpar de vez o controle que Damasco ainda exerce sobre o pais, assim como Elliot Ness usou a evasão de impostos para prender Al Capone. Mas os baathistas sirios desde a muito tempo tentam transformar o Líbano em uma província, e é improvável que saiam sem luta (seja na forma de carros-bomba, ou incentivando os conflitos sectários). Eu disse em um post anterior que a guerra com Israel é melhor entendida como um extensão dos conflitos internos para definir que tipo de país o Libano será daqui para frente, e que este conflito fundamental continou, indefinido, após o cessar fogo. Pois bem, agora as coisas estão esquentando de novo. O status quo não é mais sustentável, as tensões aumentam e algo ou alguem vai ceder.

Nesta linha, foi interessante o debate entre os Libaneses. Além do AlG, haviam vários que eram simpáticos ao '14 de Março', e um membro da FPM, o grupo de Michael Aoun,um ex-general que lutou contra os sírios até ser expulso com a conivencia dos americanos e franceses em 91, mas que ao retornar se aliou ao HA e (para todos os efeitos) a Síria. É dificil resumir várias opiniões dispares sobre um assunte tão complexo, mas os temas principais me parecem os seguintes:

  • Fora do HA ninguem parece muito animado com a tal vitória divina, e um retorno às hostilidades agora provavelmente deixaria o HA alienado até mesmo de sua base xiita.

  • Pelo menos entre as bases do HA e do FPM a Siria não é vista com bons olhos. O AlG até mesmo nega a existencia de uma aliança entre o HA e Damasco.

  • Nenhum dos lados quer o retorno da guerra civil, mas todos temem a possibilidade.

  • A mais importante demanda dos xiitas é uma participação maior no processo político, condizente com o seu peso demográfico. Tanto a guerra quanto a aliança com a Síria são vistas como meios de atingir este objetivo.

  • A FPM considera que os xiitas não devem ser isolados, pois isto seria explosivo. Outros grupos cristãos e sunitas tentam manter o seu controle sobre o processo politico.

  • O 14 de Março acredita que o HA está blefando, e está disposto a não se curvar ao HA desta vez

  • Crescem as tensões entre xiitas e sunitas. Grupos salafistas (i.e., Al Qaeda e assemelhados) atuam em Sidom e Tripoli (redutos sunitas). HA not amused.

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Abaixo uma seleção da discussão com o AlG

Eu:

AG:"I do not see why anyone would not give anyone with opposing views - but who nevertheless respects the unwritten rules of dialogue or written rules of commenting - the chance to challenge and discuss issues raised in one's blog."

AG, I agree. But you must admit you were given this chance. You adhered to these "rules", and presented your views and criticism in a reasoned way. MJT and others replied in kind and challenged your views, in the same spirit. As far as the conducting of the debate goes, I can't find fault in either side.

I am baffled by your position on an eventual peace with Israel. Do you think it is desirable? Do you accept that Israeli civilians have exactly the same right to peace and tranquility in their own land as Lebanese or American ones?

You also said:
"We will make peace with it when the time is right for our people to come to terms with the crimes committed against them"

If I understand you correctly this means you choose to be at war with Israel until you can get around to forgive it. Which makes me wonder:
Why is it so hard to forgive the Israelis in particular for the crimes they committed, even as you forgive other Lebanese factions and the Syrians (at least to the extent you are not advocating war with either), who also committed atrocities in Lebanon, often at a far greater scale?

Also, if you are at war with Israel, then Israel is at war with you, which in practice means lots of Lebanese will die. This to me means that achieving a just peace is a moral imperative, not something to be countenanced only after you come to terms with past wrongs. War is not psychotherapy.

My last two questions are practical. Correct me if I'm wrong, but the issues HA claims are unresolved (and must therefore be resolved by the force of arms) are some small uninhabited disputed bits of land and a handful of prisoners. Shouldn't you try to negotiate first? I mean sitting down with Israelis openly, and trying to come up with some peace deal acceptable to both sides. Do you oppose such negotiations in principle?

Finally, as MJT pointed out Israel can kill 1000 random Lebanese in 5 minutes if it chooses to. Its F16 can turn southern Lebanon literally uninhabitable (why bombing with F16 is cowardly but firing Katyushas is not?). Don't you think there is something flawed in a military strategy that relies on the relative restraint of your enemy, an enemy that moreover you hold to be evil and without scruples?

Ele:

Bruno,

Yes, I admit I was given the chance, but the point I raised was not about that, but about the qualification of this chance by many commenters.

Regarding peace with Israel: we are not war-mongers. We do not go out of our way to wage war. Whatever wars we have waged, have been imposed upon us. Our very existence has been the product of war and occupation. Peace is of course very desirable. I accept every human being's right to peace and tranquility in their own land, including the Israelis; this should not be at the expense of others, however.

Forgiveness does not happen overnight, nor does it happen on its own; it is a long process, and reconciliation takes a lot of effort; first the genuine desire on both sides to talk about the past with the intention of determining an equation that would include definite answers and steps (including compensation/reparation, return of lands, return of refugees, etc. - but the latter is part of the Palestinian issue). Anyway, this is what is chiefly missing in this region, because people (some sides more than others) are more willing to shoot than talk, because they believe that the other side only understands the language of force. At any rate, before we conducted the operation and captured the 2 soldiers, we warned a number of times that unless negotiations resume, we would take such action. Unfortunately, no one listened to us or took our words seriously (hence our operation name pointing out exactly this: "true promise/vow"). Even after the soldiers were captured, we again called for negotiations, and this was rejected out of hand. We told the Israelis that no matter what they do, at the end of the day they will not get their soldiers except through negotiations. We were true to our promise. At any rate, I presume some people will criticize the point in which I said that after we captured the soldiers we also called for negotiations, and they might say, after killing so many soldiers and violating Israel's sovereignty, you expect it not to retaliate? But I tell them, history does not start on July 12, 2006, so if we are going to take this issue to that level, then the operation was not only necessary, it was also completely justified and legitimate. As for a "peace deal", I already said this is out of the question until the Palestinian issue is settled, because you have 500,000 Palestinian refugees who will be lost in the Lebanese limbo, just so that Israel may close yet another front and concentrate its full strength on ethnically cleansing West Bank & Gaza of the Palestinians (the so-called disengagement does not mean Gaza is forever out of bounds for Israel). We cannot separate our conflict with Israel from the wider Arab-Israeli conflict. But we are willing to negotiate a truce and other details, indirectly of course.

Regarding the comparison between Lebanese criminals, Syrian criminals, and Israeli criminals, I do not think you can compare; but you are right, all are criminals - but to varying degrees. I do not accept nor recognize the legitimacy of the Lebanese criminals, indeed I call for their incarceration and trial for crimes against humanity. As for Syrian criminals, may I remind you that we have suffered also at their hands, for example, in 1993, many of our supporters were killed by the army on orders from the Syrians, because we openly defied Syria. However, the importance of the resistance to Israeli occupation, and our absolute preoccupation with it meant that we would not be able to open another front, whoever that front might've been. Moreover, Assad himself is not the one who was behind much of the crimes that the Syrians committed against our people; rather, people like Ghazi Ken'an, Rostom Ghazale, & co., were the ones who had the keys to Lebanon, and in many cases Assad was not even aware of what was going on, as he was deliberately kept in the dark (also provides clues as to who might've been behind the Hariri assassination if it was indeed Syrian elements - Khaddam, Ghazi Ken'an, etc. - the old guard).

Please do not compare bombing with F-16s to firing Katyushas, especially that our Katyushas were fired merely in RETALIATION for the cowardly F-16 attacks on our people; it says quite a lot that the Israelis, with all their guided missiles of F-16s have killed more civilians than we have, even though as I have stated earlier we could DEFINITELY have exacted heavy civilian casualties.

We do not rely on the restraint of our enemy; rather, we take it pretty much for granted. The only thing that we assume is that the enemy would not be stupid enough to massacre our people in broad daylight whereas we hit its battleships, helicopters, and tanks (I see why apologists for Israel never actually bring up these hits). Even then, we cannot provide shelter to civilians, as that would not be feasible; that is the task of the government anyway (they are desperately trying to frame the state-within-a-state argument in terms of the endless chicken-or-the-egg game, but this is not really the case; Hizbullah rose from the absence of the state and its authority and services, and the state continues to be absent, and by state I do not refer to the army, but the institutions).

Finally, as MJT pointed out Israel can kill 1000 random Lebanese in 5 minutes if it chooses to. Its F16 can turn southern Lebanon literally uninhabitable (why bombing with F16 is cowardly but firing Katyushas is not?). Don't you think there is something flawed in a military strategy that relies on the relative restraint of your enemy, an enemy that moreover you hold to be evil and without scruples?

Rest assured, however, when rebuilding our villages, we will take the things we learned from the July war, and put them into constructive use.

Eu:

AG, thank you for your reply. I appreciate your willingness to talk and listen, especially on such a charged subject. I have given up in frustration on discussions with people whose views I found far less extreme than yours, simply because they could not engage in honest debate.

You said:
"Forgiveness does not happen overnight [...], and reconciliation takes a lot of effort [...]"

I accept that. But forgiveness won't happen when both sides are still fighting either. Some 100.000 people died in the civil war, most of whom were not killed by Israelis. I don't know of any of those responsible, many of whom still hold leadership positions, apologizing. Lebanese of all sects suffered, and I'm sure not all is forgiven. Your country is still recovering from the carnage, and of course that takes time. Bur crucially, you have agreed to stop killing each other, and I think we can all agree that was a good thing. Why should the Israelis, uniquely, be excluded from this process whereby cessation of violence leads to acceptance, and acceptance leads eventually to forgiveness?

"[as for] Lebanese criminals, indeed I call for their incarceration and trial for crimes against humanity"
Agreed! But you are not at war with the factions they lead either.

Even if at some stage it was necessary to focus solely on the Israeli occupation, it ended in 2000 (except, possibly, in the SF). Surely from then on Syria became the main oppressor of the Lebanese? Damascus ruled over your country, assassinated people who dared to disagree, and to this day holds an unspecified number of Lebanese prisioners, and refuses to demarcate your common border (a step that could easily solve the Sheeba controversy in your favour). And yet HA not only failed to object (let alone oppose these things militarily), it allied with Syria agaisnt those who did!

I don't buy this 'Assad did not know' thing. But even if this is true, the fact remains that the real rulers of Syria are going around murdering Lebanese. Whether Assad is counted among their number or not is immaterial.

"because people (some sides more than others) are more willing to shoot than talk"

I agree! I would just add that there seems to be plenty of those on HA. The fact that HA feels it needs to kidnap Israeli soldiers to trade for prisoners and the SF is evidence that there is nothing else it is willing to offer. If HA (or, more appropriately, the Lebanese government with HA support) offered a permanent cease-fire, recognition of Israel right to exist, and accepted the UN demarcation as the border between both countries, I'm sure Israel would agree to give up the SF and to exchange all prisoners (even Samir Kuntar, though that creep does not deserve to be freed). Even if you disagree with my assessment of Israel's intentions, surely it is worth trying.

"But [HA is] willing to negotiate a truce and other details, indirectly of course"
Why indirectly? If you can get all you want from negotiations, why not do it openly? I always assumed this was the because because neither HA nor Israel was willing to accept the other's legitimacy. But surely if such a truce is worth the paper it would be written, surely HA must accept Israel's right to exist south of the Blue Line and west of the Green line? Israel likewise must accept HA as a legitimate Lebanese party.

"[...] our Katyushas were fired merely in RETALIATION for the cowardly F-16 attacks [...]"

The F16 attacks were also retaliation for
something else. Which was in its turn retaliation for some other thing. And so on and so forth.

In any case, firing Katyushas indiscriminately against built up areas is immoral. The fact that Israelis also comitted crimes is no excuse.

"[...]it says quite a lot that the Israelis, with all their guided missiles of F-16s have killed more civilians than we have, even though as I have stated earlier we could DEFINITELY have exacted heavy civilian casualties."

How? Could you fire more missiles than you did? They were too imprecise to aim for anything smaller than a city, how could you improve their letality?

"We take it pretty much for granted that they would defy all reasonable restraints."

The Israelis could have destroyed every power station, every dam and water treatment plant, obliterated the airport terminals and knocked down every high rise in Beirut. Think Hama 82, or Grozny 95, or even Caen 44. There would have little you could do if these things happened. This of course is no excuses for some of the things they effectively did, but they could do much worse, and chose not too. However imperfect, the Israelis had some restraints, on which HA bet the very physical existence Lebanon.

"Even then, we cannot provide shelter to civilians, as that would not be feasible"

You could spare some of your state-of-the-art bunker-building abilities to get them some proper shelters. It surely beats dying in stairwells.

"Rest assured, however, when rebuilding our villages, we will take the things we learned from the July war, and put them into constructive use."

Please do. But learn the right lessons. The last thing your countrymen need right now is another victory like that.

Ele:

Forgiveness won't happen when we are fighting; isn't this the dilemma in all conflicts? At any rate, the focus should be on smaller issues, things that might seem insigifnicant but which provoke hostilities and more hatred.

The Lebanese are from agreeing on stopping killing each other; they are as resolved to killing each other if that means they will get rid of the other viewpoint. As for comparing this to Israel, I would say the comparison does not hold; while we do have to live with other Lebanese, we do not have to deal with the Israelis. In fact there is a strong argument against the normalization of economic ties with Israel because that would greatly harm domestic agriculture and industries.

I think it's also important to clear this up; Syria are not our allies (vice versa). We have relations, mutual understandings, but not alliance; where did anyone see any alliance? We have had many fallouts with Syria exactly because our diplomatic/political relationship was based on an equal footing (though control of the state and the army apparatus effectively meant that they were the masters of the country, and fighting against them would have necessitated fighting against the army). At any rate, whom did Syria assassinate?

On the contrary, we at Hizbullah are organized and do not - have not at any point - violated orders. There is full control within the ranks. Not one rocket will leave our launchers without the knowledge and approval of our local units and commanders. Not one bullet would be fired until we are given the green light to do so. I will not elaborate more, but I think our great show of discipline speaks more than words can do it justice.

We - Hizbullah and the Lebanese government - have offered permanent ceasefire and accepted UN demarcation (the demarcation took place and the blue line was the result; we even accepted the Israeli encroachment onto Lebanese territory at Misgav 'Am, which we did not have to accept, technically, and could refuse if we wanted to), but have stopped short of recognizing Israel's right to exist; this is as I said part of the Arab-Israeli conflict in general and Lebanon cannot possibly take a stand independent of other countries' positions. Primarily the internal scene would not allow it either.

Indirect negotiations because we do not wish to give Israel something that it has done nothing to deserve, namely recognition of its right to exist. Why would we recognize a state that adopts terrorism as a way of life? Don't they justify their non-recognition based on this too? What would they lose if they recognize us? They even deny that we have a support base; I guess they started believing their own lies after all.

The Katyushas were not indiscriminate; they were fired with coordinates. Being unguided, however, if they fell elsewhere, or that the Israelis did not listen to their governments warnings to stay indoors, that has not been our intention. The same cannot be said for Israel, the same country that was proven to have deliberately targeted the UNIFIL compound at Qana in 1996, killing 102 civilians.
In war, people die, remember? Or does that apply only to us?

As for how we could've exacted hevay civilian casualties, I would leave it open for your speculation (because not everything can be said). However, I can assure you, on my own honour, that we could've done what I am saying, and did not. Feel free to doubt it, or accuse me of lying, as I am sure many will.

Eu:

AG, thank you for the reply

The Lebanese are [far?] from agreeing on stopping killing each other; they are as resolved to killing each other if that means they will get rid of the other viewpoint.

You are of course in a far better position to judge this than I, but the fact remains they are not killing each other in large numbers at the moment. They do not find it imperative to keep on fighting despite their enduring mutual hate. Thus, in this case practical considerations of peace and self-preservations trump old hatreds.

As for comparing this to Israel, I would say the comparison does not hold; while we do have to live with other Lebanese, we do not have to deal with the Israelis."

Yes you do. You may choose not to trade with the Israelis, but in a war you will be forced to deal with them. Fighting the Israelis (who are not exactly a continent away) brings about death and suffering with no end in sight, just like fighting your fellow Lebanese would. Thus the practical imperatives not to fight are the same if differences can at all be resolved or papered over.

In fact there is a strong argument against the normalization of economic ties with Israel because that would greatly harm domestic agriculture and industries

Fair enough, trading or not is your prerogative, but surely bombs are far more more damaging to your economy.

I think it's also important to clear this up; Syria are not our allies (vice versa). [...] At any rate, whom did Syria assassinate?

You are currently in an alliance, even if just one of convenience. In any case, by the criteria you set forth (occupation, prisoners, violation of sovereignty) they ought to be your sworn enemies. Even if you do not want to fight them militarily, directly or by proxy (although you do take on the IDF, a much harder nut to crack, so to speak), surely there should be some serious pressure to resolve these issues, and I can see none. As I said, demarcation of your common borders (implying Syrian de jure acceptance of Lebanese sovereignty) is not only a worthwhile goal in itself, it will all but guarantee the Israelis will leave the SF.

As for the assassinations, I find it hard to believe that those critical of Syria just happen to blow up spontaneously. In any case, you mentioned earlier a number of HA member executed by the Syrians. Surely that was murder?

We - Hizbullah and the Lebanese government - have offered permanent ceasefire and accepted UN demarcation [...]

My understanding is that HA did not accept the demarcation, which held the SF were Syrian, and after the Israelis pulled that uninhabited piece of land no one had ever heard of before was turned into a reason to continue the resistance. If Nasrallah is offering any sort of permanent cease fire now, he is being exceedingly subtle about it.

[...] have stopped short of recognizing Israel's right to exist; this is as I said part of the Arab-Israeli conflict in general and Lebanon cannot possibly take a stand independent of other countries' positions. Primarily the internal scene would not allow it either.
Why must Lebanon, and Lebanon only, be held at ransom of all the other countries' diplomacy? The Egyptians and Jordanians took an independent stand and have enjoyed peace ever since. The Syrian sat on their asses while you where fighting, and still you are expected to remain in a state of perpetual conflict until they get the Golan back. And if your internal scene cannot countenance the idea of genuine peace, then I'm sorry but you should get ready for rounds 2, 3, 4...n. You can't reject both peace and war and expect the universe to comply and come up with a third option.
Indirect negotiations because we do not wish to give Israel something that it has done nothing to deserve, namely recognition of its right to exist. Why would we recognize a state that adopts terrorism as a way of life? Don't they justify their non-recognition based on this too?
You do not have to do anything to have a right to exist. Many countries did far worse that the Israelis and have not forfeited this right. As far as I know, Israel accepts Lebanon's right to exist too.

Now, what is the point of negotiating if the other side does not accept your right to exist in the first place? It is like saying to someone you want to share a flat with him but you do not accept his right to live there.

This is basic, you do not have to accept any Israeli claims to the West Bank, or agree to resettle the Palestinians in Lebanon, or anything. You just agree to end the fighting, and accept the fellow down south as your neighbors. You give up nothing, and gain a a great deal. Peace between Lebanon and Israel is not a zero-sum game.

What would they lose if they recognize us? They even deny that we have a support base; I guess they started believing their own lies after all.

Nothing, I suppose, although it is hard to imagine them recognizing a movement that refuses to recognize them as a country. And yet, you are the one that ruled out direct negotiations.

The Katyushas were not indiscriminate; they were fired with coordinates. Being unguided, however, if they fell elsewhere, or that the Israelis did not listen to their governments warnings to stay indoors, that has not been our intention.

Come on! Israel could (did) claim with far greater propriety that Lebanese civilians should have heeded the call to evacuate, and that bombs sometimes miss their targets, and sometimes the targets are wrong. This is true, and still does not justify all of their actions. When they fired all those cluster bombs, they knew as HA did with the K. did that no matter how legitimate the aim point was civilians would be greatly harmed because this weapon was effectively unguided. They should not get away with it, and neither should HA.

HA's claim to have fired missiles at a city with no intention of harming civilians, on the off chance it may hit a soldier somewhere, is simply not credible, and would not be morally acceptable even if true.

As for how we could've exacted hevay civilian casualties [...] I can assure you, on my own honour, that we could've done what I am saying, and did not. [...]

Fair enough. But then accept that the Israelis could also have done far, far worse and did not.

Eu (em relação a uma resposta dela para outra pessoa)

AlG:
"especially ones that are willing to risk bringing Syria back to Lebanon for their adventures in regime change in other countries, whose affairs are none of our business."

Can you be more clear? I genuinely do not understand who you are talking about in the paragraph above.

While we are at it, what is your opinion on the court that is being set up to try the Hariri killers?

Ele:

Bruno,

I am referring to feudal chieftain Walid Jumblatt, Saudi billionaire Sa'ad el Hariri (Rafiq el-Hariri's son) who does not know how to speak proper Arabic (I wonder what language he speaks in??), and warlord Samir Geagea, and their minions. These people continue to lead a self-destructive (by self I am referring to Lebanon of course; though they would see to it that if they are to go down, Lebanon would go down with them) policy of provocation against Syria. Jumblatt and Hariri have openly expressed the wish to see a regime change in Syria, and the replacement of the Alawite leadership with a Sunni one. They also hailed Khaddam's defection and exile; this guy Khaddam was one of the chief architects of Syria's presence and continuation (and oppression) in Lebanon. He was, and continues to be, their ally, hero, whatever you want to call him.

The court... is a joke. A joke because it is a travesty of justice. Nevertheless, we do not oppose it. But we say, let those who are concerned with crimes also hold investigations into and trial of the perpetrators of the assassination of Sheikh Ragheb Harb, attempt to assassinate Sayyed Muhammad Hussein Fadlallah (80 civilians killed instead), disappearance of Imam Mussa al-Sadr, assassination of Samir Qassir, assassination of Mr. Gebran Tueni, Mr. Georges Hawi (Lebanese Communist Party), assasination of Sayyed Abbas Al-Mussawi and his family, Mr. Elie Hobeika, Mr. Dany Chamoun and his family, and countless other figures, not to mention the civilians who were killed by these same people who are calling for the court.

Eu (novamente respon

AlG, you said [em outro comentário]:
"I also have knowledge of some things that supporters otherwise do not."

Should you be bragging about it then?

About the Palestinian refugees, you consider it an imperative that they be disarmed, and that they do not become naturalized. I believe these are reasonable concerns, but don't you think allowing them decent living conditions (instead of penning them into squalid camps where 'permanent constructions are not allowed') would go a long way towards bringing about such disarmament?

Still on the subject of the Palestinians, why should they settle in a country to which they (obviously, and rightly) hold no allegiance? Because a corolary of the implementation of the 'right of return' is that they would have to somehow become Israelis. Since we both seem to agree that there should be an independent Palestine alongside Israel, to me its obvious that these people should return (or go) to their own country, not to that of their erstwhile enemies, even if their ancestors happened to have lived there.

The two sides could agree on compensations, and even on the acceptance of the RoR in principle but not in practice (i.e., agree that although thae have a right to go back to their former homes, these no longer exist in any meaningful way, so they'll get the next best thing: to go back to their own homeland with an apology and enough money to start over). Whaddyathink?

Ele:

Bruno,

Should you be bragging about it then?
No; I was not bragging; I don't believe in vain pride. I was only stating a fact, which does make a difference. It's one thing to talk with someone who has his information from hearsay or some book, it's another to talk with someone who has a certain degree of internal knowledge albeit he would not say anything that would jeopordize anyone's or the party's wellbeing. I thought that was pretty clear. Where did the accusation of bragging come from?

Regarding Palestinian refugees, their disarmament should be coupled by giving them more rights though not naturalizing them because that would pretty much mean giving up on the right of return. So basically the right to work, and so on. Anyway, there are a number of Palestinians who were in fact naturalized because they were Christians, and if we are to be fair, their citizenship should be revoked.

What the country they are returning to is called is irrelevant, and who lives there today is irrelevant too. This is not 1920 when the native Palestinians were disgusted with the "western" lifestyle that the Jewish settlers brought with them from Europe. They have come to accept this lifestyle themselves, they have become pretty urbanized and if you like, westernized. The Israelis themselves have accepted some aspects of the local traditions and culture. Anyway, these people care about returning to their ancestral lands, and putting an end to the suffering (especially the Palestinian refugees in Lebanon who suffered A LOT during the 1975-1990 war). By the same token the Palestinian citizens of Israel are loyal to the state and co-exist with their neighbours, though they are not exactly treated as equals. They have learned to address their grievances through institutions and legal means. For example the "ADALAH" legal center for Arab minority rights in Israel, also other joint Jewish-Palestinian projects like Neve Shalom/Wahat al-Salam, Ta'ayush, and even a political party with mixed leadership and support base, the Hadash/al-Jabha. A large number of Palestinian citizens of Israel prefer to give their vote to Labor than to Arab parties.

Yes, returning to their "homes" means returning to the land, these homes most probably no longer exist; entire villages have been completely wiped out, often replaced with Kibbutzim and often not replaced with anything, they are just no longer there (by the way, there is also a joint Palestinian-Israeli initiative for raising awareness of this issue in Israel, and every year there are tours to areas where villages used to stand and were wiped out during the "nakba" the catastrophe). So these people can be given meaningful sums (maybe contributed to, in addition to Israeli payments, by Arab countries and also Britain whose role in creating the Arab-Israeli conflict should not dismissed or forgotten) to start over again. You will find, that if and when this is done, this will be met by absolute goodwill on the part of the returning refugees, rather than "revenge" attacks, etc. One can always say that these could be merely "acting" and waiting for the right time, but such an attitude would mean that no trust is forthcoming, and where there is no trust, there is no solution to any conflict, because reconciliation would be impossible.

Eu:

AlG:

"Should you be bragging about it then?

No; I was not bragging; I don't believe in vain pride. I was only stating a fact [...]"

You should say you are just a humble gardner or something like that, even as you plant bugs on the knesset during the night or mass produce katyushas in your backyard. That would definitely enhance your aura as an international man of mystery.

PS: This is a joke. HA knows everything about jokes, they have long studied the jokes of its enemies, and should not be underestimated.

PS2: This too is a joke. I'll give you a serious answer to the remainder of your post after I eat something and the hallucinations stop.

PS3: err...
[humor não é o ponto forte do HA. Eu estava parodiando a tendencia que ele tem de afirmar que o HA sabe sobre tudo, está sempre certoque não deve ser subestimado, yadayadayada. Falando um pouco mais sério, eu continuo:]

AlG: "Yes, returning to their "homes" means returning to the land, these homes most probably no longer exist; entire villages have been completely wiped out, often replaced with Kibbutzim [...]"

But it goes beyond that. They were a community that was uprooted and largely replaced with another. Today their culture survives in the camps in exile and among their brehtrem in the WB & Gaza; but if they were to return to Israel, they would remain strangers in what is effectively someonelse's land, or they would make the Israeli Jews strangers in their own homeland. In either case its too high a price to pay to stick to an absolutist point of principle. Their home, and place of residence, should be an independent Palestine.

You say you support Tsedek's husband's family right of return to wherever they were expelled from (but are you willing to fight for it, putting your own country on the line?). From what I gather they have found a home in Israel; while their former home elsewhere no longer exists. I don't see what good could come from a 'return' in this case. Recognizing this new reality does not imply forgeting or minimizing past injustices.

This insistence on an absolute right of return serves no good purpose (there are plenty of bad, cynical purposes though), it just helps to prolong the sufering. And I find it somewhat cynical that some Lebanese profess a total support of Palestinian aspirations even as they deny the Palestinians residing in their own country the most basic living conditions.

Lira, the Lebanese are not responsible for what Israelis did 50+ years ago. But they are responsible for treating the refugees residing in Lebanon humanely today. Blaming Israel for whatever is not a get out of jail card, you still are responsible for your own actions.

E ele:

Bruno, i agree that the Palestinians are treated badly and should be treated equally, but they should not be naturalized because that would mean giving up their right of return. also, if some people have chosen not to fight for returning to their homeland it does not mean that others should adopt their worldview. what you say about the palestinians being unable to fit in and being alienated or alienating the jews is not true, and even if true it is not a good enough excuse to violate their right of return.

the christian palestinians who were naturalized and also the armenian christians and non-lebanese sunnis should be de-naturalized.

Este útimo ponto dele é uma receita garantida de guerra civil, além de ser uma ideia particularmente repelente. De novo, o imperativo no caso é manter a pluralidade demográfica xiita emergente.

Em referência a comentários dele sobre a sua suposta vitória neta guerra, e como todos os seus objetivos serão atingidos se não desta vez então na próxima, ou na logo em seguida, etc, eu disse:

To quote Monty Pyhton:

"Listen, lad. I built this kingdom up from nothing. When I started here, all there was was swamp. Other kings said I was daft to build a castle on a swamp, but I built it all the same, just to show 'em. It sank into the swamp. So, I built a second one. That sank into the swamp. So, I built a third one. That burned down, fell over, then sank into the swamp, but the fourth one... stayed up! And that's what you're gonna get, lad: the strongest castle in these islands."

I'm sorry AlG, but that is how you sound like at the moment.

e também:
Another thing:
"First, they were not war crimes, as they were not unprovoked,"
They remain war crimes even if committed in response to another crime. Why is it that warring parts in the ME act as if the crimes by one's enemies excuses one's own?
e em referencia a suposta intenção israelense de roubar as aguas do rio Litani (no sul do Líbano):

AlG,the Litani stayed there from the armistice in 49 to the Cairo agreeement in 69. Doesn't it strike you as odd that during that time, when there was no effective force to oppose them, the Israelis didn't attempt an invasion*? They only seem to attack when there is someone to shoot back, be it the Palestinians or you. Must be some bizarre jewish notion o sportsmanship...

I think you will find that most if not all commenters here think the occupation of Lebanon from 1982-2000 was a lousy idea. But it ended, and it seems HA has been desperately looking for excuses to keep violence alive ever since. Seriously, you had to dredge up something Ben Gurion said in 1919!



E é isso. A discussão continua no blog do Micheal Totten.

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domingo, 24 de setembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Líbano - Cenas do próximo capítulo

A briga de foice silenciosa continua no Líbano. O Hizbollah foi surpreendido pela veemencia das críticas à sua guerrinha com Israel, algumas vindas de direções inesperadas. A implementação das resoluções que exigem o desarmamanto das milícias voltou ao centro dos debates, e o Nasrallah agora faz força para tornar tais discussões tabú novamente.

A UNIFIL 2.0, por outro lado, também dá surprendentes sinais de vivacidade. Os franceses enviaram tanques e artilharia, ao invés das usuais bandeirinhas brancas e capacetes azuis; e a força naval liderada pelos alemães parece ter a intenção de fazer algo a respeito do contrabando de armas. Segundo o seu mandato, a tarefa da UNIFIL 2.0 é auxiliar o governo do Líbano a implementar a resolução 1701, em particular no que se refere a patrulhar as fronteiras, o que a torna essencialmente a milícia particular do Siniora (pelo menos enquanto este contar com a boa vontade da França).

O que aconteceu é que, ao contrário do que muitos esperavam (eu inclusive), o governo do Siniora saiu fortalecido da guerra. Assim, o conflito agora é entre um governo que quer começar a efetivamente governar o pais, e o HA que quer manter sua excepcionalidade como estado-dentro-do-estado. Ambos os lados ainda são tolhidos por uma série de tabus oriundos da guerra civil, em particular da nescessidade de evitar qualquer aparencia de sectarismo. Assim, temos o estranho espetáculo de um kabuki político onde a dança é regida por inúmeras regras não-escritas, e a hostilidade se esconde atrás de alusões, metáforas e elipses. Mas a temperatura retórica está esquentando. Em breve o kabuki não será mais capaz de conter as pressões que estão se formando. Anteriormente, o HA estava contente em aceitar o governo, desde que esse não tentasse se imiscuir nas áreas sob seu controle. Agora, com a UNIFIL dando muque e o dinheiro saudita e ocidental queimando em seu bolso, Siniora está aos poucos tentando reestabelecer sua credibilidade, e o HA precisa mudar o governo, e colocar em seu lugar aliados que possam neutralizar tais tendencias perigosas.

Na sexta o Hizbollah fez um comicio enorme (500-800 mil; embora muitos tenham sido transportados de ônibus desde a Síria e campos de regugiados palestinos, a popularidade do HA entre os xiitas é bem real) em Harit Harek para comemora a tal 'vitória divina'. As primeiras comemorações, logo após a guerra, pegaram meio mal, já que muitos mortos nem haviam sido enterrados ainda. Desta vez, o HA precisava de uma demostração de força, e a coisa foi bem planejada. No meio da verborragia usual, Nasrallah, em sua primeira aparição além-bunker desde o começo da guerra, exigiu a renuncia do governo. Os críticos do HA (Jumblat, Gagea, etc) já acusam abertamente o HA de ter iniciado uma guerra evitável*, e exigem seu desarmamento. Nesta luta, é difícil julgar a real correlação de forças. Mas muito pode depender do que fizer o Michael Aoun, um ex-general maronita que foi o lider de um levante contra os Sírios, foi exilado em 91, e voltou recentemente como aliado do HA (e por extensão, de Damasco; estas puladas de cerca não são incomuns no Líbano). Aparentemente ele está disposto a tudo para se tornar presidente, incluindo se aliar com seus antigos inimigos. Mas não foi ao comício, e parece estar tentando descolar sua imagem do HA, que está começando a assustar a comunidade maronita.

Um outro fator complicador é a publicação em breve do relatório da investigação sobre o assassinato do ex-premiê Hafik Hariri. Os relatórios anteriores incriminaram vários manda-chuva sírios e seus aliados libaneses. Pouca gente duvida que o governo estava por trás deste e de outros assassinatos (inclusive do recente atentado contra um dos agente de inteligêncua libanês envolvido na investigação); a questão é saber quão contundentes serão as provas recolhidas. Recentemente aliados da Síria tentaram bloquear a passagem de leis que permitem o estabelecimento de um tribunal internacional para julgar estes crimes (liderados pela Amal, um outro grupo xiita importante, os parlamentares paralizaram os trabalhos no congresso, sob a desculpa de protestar contra o bloqueio israelense). A Síria tem tanto a motivação quanto os meios de tornar as coisas ainda mais caóticas, tanto para impedir que as investigações avancem quanto para se reafirmar como a única força capaz de garantir a estabilidade no Líbano, e assim restabelecer sua hegemonia sobre o vizinho.

Concluindo, o estado anterior de mutua tolerância entre o governo nominal do Líbano e o governo de fato do HA nas suas areas de influencia não é mais viável. A longo prazo, as opções são a integração do HA na politica como um partido normal, e a exclusão definitiva da Síria da política interna Libanesa, ou o controle direto do governo pelo HA ou seus aliados, e o retorno da Síria como provedora de 'estabilidade'. Mas sendo o Líbano o que é, acho que o mais provável a médio prazo é algum tipo de compromisso-que-desafia-a-lógica (como os acordos de Taif!), em que o braço armado do HA se integre formalmente ao exército, e o governo estabeleça sua soberanina pelo pais todo, mas continue ele mesmo sendo um conjunto de feudos semi-coeso que inclua o HA. Esta solução de compromisso poderia ser uma maneira de evitar o retorno da guerra civil que uma ruptura brusca do status quo para um lado ou para o outro poderia causar. Assim como a divisão sectária dos cargos de governo, e a ambiguidade oficial em relação à resistência e as ocupações, seria mais um compromisso tipicamente libanês para congelar um conflito ao invés de resolve-lo.


* A versão do HA é que eles simplesmente se anteciparam à uma planejada invasão israelense; não faz muito sentido, e contradiz a entrevista do próprio Nasrallah, mas na visão de mundo islamista as ações de Israel não precisam nem de motivação racional nem propósito outro além de maldade pura e simples.

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