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sábado, 21 de julho de 2012

Hostal del Ripolles, Ripoll
Um Cântico para Vilfredo

Começos são sempre arbitrários. São necessários, porém, para se contar uma história. A da Catalunia, podemos convencionar, começa no século IX, com os esforços de um potentado local para repopular e unificar a devastada região de fronteira entre os reinos mouros e o imperio carolingeo. Vilfredo, conhecido em proporções desconhecidos de afeto e sarcasmo, como 'o Cabeludo' (Guifré el Pilós), era um nobre de modestas posses quando foi nomeado conde de Barcelona e carcanias. O imperio de Carlo Magno se fragmentava, os mouros se retraiam, e ele viu ai a sua chance.

Ripoll se situa no ângulo entre dois rios de margens abruptas. A combinação de acessibilidade  e defensibilidade certamente figuraram no cálculo mental do hirsuto conde, que aqui fundou o monastério de Santa Maria de Ripoll. Em uma época iletrada e politicamente fragmentada, onde o tráfico de bens e informação era difícil e perigoso, e a Pax Romana era uma memória distante já assumindo ares de mito, um monstério era muito mais do que um retiro espiritual (como qualquer um que tenha lido 'Um Cantico para Leibowitz' sabe). Como o único repositório do saber escrito da região, o monastério adquiriu um poder muito maior e mais duradouro do que o advindo de qualquer exército feudal; não um poder sobre pessoas ou territórios, mas sobre informação.

Uma 'idade das trevas' não surge porque os recursos humanos e físicos nescessários para uma civilização coesa deixaram de existir, mas sim porque eles deixaram de ser aplicados de forma coordenada. A ausência de normas culturais e tradições em comum que simplificam e tornam seguros o comércio e o intercambio de ideias transforma vizinhos em estranhos, e atrofia o universo mental a aquilo que é delimitado pelo horizonte e por laços de sangue. Este processo de fragmentação vinha ocorrendo na Europa em geral, e na Catalúnia em particular, desde que os romanos penduraram as chuteiras. Em graus variados de desagregação sob os vários reinos sucessores, dos vândalos, godos e francos, a região era como um conjunto de redes, cada um operando sob os seus próprios protocolos, mas mal se comunicando entre sí. O monastério foi o TCP/IP que unificou todas as redes, o nodo central de um eventual backbone que a partir dele se propagou como pequenos esporos monásticos até povilhar a região de um rede interligada monastérios e conventos. Esta rede criou uma lingua franca cultural baseada no cristianismo monástico ancorado no poder da língua escrita, e protegida por grossas paredes e o braço peludo de um poder secular mais esclarecido. Registros dinásticos eram mantidos, transações comerciais eram registradas e tradições eram propagadas. Aos poucos, a Catalúnia voltou a vida. 

Tenho que terminar aqui porquê preciso desocupar o quarto do hotel antes que a proprietária ponha a porta abaixo. Daqui parto para Olot, cidade conhecida pelas dezenas de vulcões inativos nas redondezas. Chego lá através de Sant Joan de la Abadessa, onde fica um convento fundado pela formidável filha de Vilfredo, o peludo (Santa Emma), e por um passe montanhoso a 1070m de altitude chamado Coll de Santigossa.

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terça-feira, 5 de abril de 2011

Casa, Belo Horizonte
José Alencar e eu

Os tópicos dos quais trato neste blog são bastante diversos; mas tenho que reconhecer que obituários de políticos não são exatamente a minha linha. Mesmo assim, enfim, é fato que o José Alencar, ex-vice do Lula, morreu. Ele me parecia uma cara decente, e fico feliz que tenha conseguido completar o mandato. Porém, um post dedicado somente a tecer banalidades sobre alguém que eu conhecia só superficialmente seria um exemplo clássico do tipo de irrelevância auto-indulgente pela qual a internet é notória. Mas existe uma conexão, tênue mas não-trivial, entre o José Alencar e eu.

Eu criei o seu verbete na Wikipedia...

Repito: Nunca encontrei o falecido, ou tive por ele qualquer curiosidade excepcional. Mas em 2004, quando a wikipedia era novidade, eu queria fazer um experimento: estudar, em tempo real, como um verbete evolui, da sua criação até a maturidade. Como eu escrevi aqui na época:

[Eu] queria algo que fosse

a) Curto: Eram 3 da manhã e não queria ter mais que 2 minutos de trabalho
b) Fácil: Não queria pensar muito; um pequeno artigo factual não controverso
c) Útil: Um verbete curto só seria útil se fosse sobre um tema pontual e obscuro (para os leitores da Wikipedia). Algo que vc poderia ler mencionado em uma página na rede, e se perguntar o que é.

Decidi então escrever um paragrafo curto sobre... José Alencar! Nosso vice-presidente... Não tenho nenhum interesse especial pelo cara, nem sabia muito sobre ele. Mas ele se encaixava em todos os criterios: Uma micro-biografia é simples, incontroversa, e um carinha randômico lendo o NYT acharia o verbete útil (pq ele só que saber quem é José Alencar, não ler José Alencar: Vida e Obra). Fiz uma pesquisa de 1 minuto, e escrevi o texto. A lógica é bizarra, mas consistente...
O texto que escrevi era curto, com somente cinco frases factuais e não controversas:

José Alencar Gomes da Silva is the vice president of Brazil since 2002, under president Luis Inácio Lula da Silva. Born in Muriaé, in the inland state of Minas Gerais in October 17th 1931, he became a successful businesman, and was elected for the Senate in 1998. In 2001 he was selected as Lula´s running mate, in an effort to assuage worries about the then candidate´s supposed anti-business bias.

In office Alencar has often criticized his own goverment for failing to lower interest rates. In November 2004 he was sworn in as defence minister, following the resignation of José Viegas.

Ao longo dos anos, eu acompanhei a evolução do artigo com ares paternais. A primeira edição veio quase um mês depois, colocando em bold o nome do verbete e adicionando uma bandeirinha para indicar que o artigo tratava do Brasil. As ediçoes foram então se acumulando gradualmente, adicionando detalhes, formatação, uma simpática foto, e bibliografia. Em 2008, o verbete tinha 5 paragrafos e cerca de 4000 bytes (contra os 600 originais). Após a morte de Alencar, o crescimento foi mais rápido: o artigo ganhou corpo, dividiu-se em seções, e triplicou de tamanho. Mas em momento algum um pretendente a biógrafo ou enciclopedista se sentou em frente ao computador para escrever ab initio o verbete definitivo após longa pesquisa, a mãe de todos os verbetes, sobre o José Alencar. Pelo contrário, na melhor tradição da wikipedia, o razoavelmente completo artigo atual é o resultado de quase 500 pequenas contribuições, que coletivamente conseguiram compor um texto genuinamente digno de uma enciclopedia.

No nivel molecular, a evolução biológica é extremamente conservadora. Estruturas desenvolvidas para uma função e situação específicas são adaptadas e readaptadas para os mais diversos fins; o notório ciclo de Krebs preserva em seus cantos mais recôndidos uma série de reações que aconteciam expontaneamente nos mares primordiais, cooptadas em um ciclo metabolico cujas ideosicrasias nos contam sua história. Analogamente, na Wikipedia o desenvolvimento de cada verbete tem mais em comum com a evolução de uma bacteria a partir de uma sopa bioquímica primordial do que com a construção de um prédio. Ao longo da evolução de um verbete, eu gostaria de estudar se, e como, eram preservados as evidências fosseis de sua origem.

De fato, das cinco frases que compunham o meu verbete original, nada menos que quatro estão presentes na versão atual, com pequenas modificações. Ao longo dos anos elas mudaram de lugar e de ordem; antes juntas, foram separadas por frases e paragrafos novos. Mas José Alencar continua nascido em ´Muriaé, in the inland state of Minas Gerais´. Se em 2004 ele foi ´selected as Lula´s running mate, in an effort to assuage worries about the then candidate´s supposed anti-business bias´, hoje dizemos que ele ´was tapped to be Lula's running mate, in an effort to assuage worries about the candidate's alleged anti-business bias´. E se antes ele ´has often criticized his own goverment for failing to lower interest rates´, mais recentemente ele ´often criticized his own administration for failing to lower the Central Bank's base interest rates´.

É claro que qualquer verbete mais completo incluiria a informação contida nas frases acima. Existem porém incontáveis maneiras concebíveis de se expressar tais ideias; mas foram as estruturas e termos que eu circunstancialmente escolhi em 2004 que continuam a ser usadas. O texto atual, muito mais extenso e complexo, preserva a linguagem fossil primordial, que em maior ou menor medida ainda guia o seu desenvolvimento. Assim como as mitocôndrias no interior de nossas células preservam e em grande parte se definem pelos azares pré-cambrianos de sua evolução.

Não só na Wikipedia e na bioquímica o estado atual é, mais que um consequencia, um registro de sua história. Sistemas que evoluem ao invés de serem criados costumam apresentar esta propriedade. Unidades angulares, constelações e relatos mitológicos sumérios foram (e são) usados milênios depois de que a civilização que as originou havia sido esquecida. As circunstâncias específicas, geografia e história de uma península montanhosa as margens do Egeu e de uma cidade de origens conturbadas fundada sobre sete colinas beirando o Tibre determinam não só a nossa terminologia política, mas em certa medida ainda moldam nossas ideias idem. A internet hoje também é o resultado das circunstâncias da origem de seus vários componentes. Do uso do caracter ´@´ aos protocolos abertos, passando pela neutralidade de rede, a separação em camadas entre conteudo e a sua transmissão, e o ethos confrontativo e anárquico da Usenet, tudo poderia ter surgido de forma diferente. Mas agora que a rede se tornou o sistema nervoso mundial, é muito dificil mudar os seus fundamentos. Algo que foi criado quase sem supervisão ´adulta´ ou hierarquia definida pela subcultura nerd de uma sociedade liberal, conseguiu se tornar ubíqua e imprecindível antes que o mundo se desse conta das consequencias deste fato. Tivemos, creio, muita sorte.

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Casa, Belo Horizonte
Teoria do dominó


A noticia mais significativa no mundo atualmente são os protestos na Tunísia, e o papel da internet na sua disseminação. O que parece ser a primeira revolução auto-organizada pela internet esta a beira de derrubar o governo tunisiano. A censura a internet foi suspensa ontem, e o Presidente Zine al-Abidine Ben Ali, a 27 anos no poder, fugiu do pais.

Tradicionalmente, um governo repressivo mas sem vocação açogueira a lá Saddam Hussein, se mantém no poder desarticulando qualquer primordio de oposição organizada: Prendendo lideranças, cooptando elites várias, e controlando a imprensa. Mas a internet criou um curto-circuto no mecanismo repressor, ao permitir a organização mais ou menos expontânea de protestos, sem uma liderança carcerável ou aparato partidário reprimível; e ao tornar possível (com alguma ajuda hacker) a disseminação de noticias sobre a repressão aos mesmos. Motivados inicialmente pela alta no preço dos alimentos*, e remotivados pela repressão que já deixou dezenas de mortos, os tunisianos foram as ruas. Ao contrário dos protestos pós-eleitorais no Irã, a Tunísia não dispõem de uma milicia de lumpem-trombadões motivados ideológicamente (os Baseej), uma segunda linha de defesa que provavelmente salvou o regime islâmico (mas não a sua legitimidade).

O Governo tunisiano está se dando conta, possivelmente tarde demais, da precariedade de sua situação. No que talvez seja o começo do fim, a censura à internet foi desativada esta noite. É difícil prever até onde isto vai; mas a derrubada de um governo árabe por um movimento popular expontâneo (e não islamista) seria um divisor de águas.

PS: A cobertura na imprensa internacional tem sido esparsa. A Al Jazeera em inglês e a BBC tem sido as menos omissas, mas só começaram a reportar o tópico em detalhes ontem. O silencio quase total dos paises ocidentais está sendo ainda mais vergonhoso (nem menciono a liga árabe). E, por isso mesmo, é notável que uma quase revolução está acontecendo sem líderes, sem apoio internacional aparente e sem grande exposição na mídia de massa.

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* Que não necessariamente são as demandas mais urgentes para os tunisianos, mas pelo fato de atingirem toda a população simultaneamente de certa forma sincronizam as outras fontes de insatisfação.

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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Calçada em frente ao Gare Montparnase, Paris
Internet de guerrilha

Estou no momento sentado na calçada, na frente da Gare Montparnasse, filando um wifi. São 11:53 da noite... Hoje é aniversário da Ceci, mas eu não consigo falar com ela, o que me leva a apelar para este tipo de internet de guerrilha, já que na casa da Jacqueline não há wifi. De qualquer maneira, uma foto para não perder a viagem.

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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Casa, Rio de Janeiro
Marg bar marmalad

Em homenagem às práticas eleitoras Khameinescas, eu mantive por alguns dias a tagline 'Como se diz marmelada em farsi?' no gtalk. Levando a minha pergunta mais a sério do que eu, eis que hoje me aparece o Batatinha (que saiu da física para virar linguista), e me diz que após intensa pesquisa podia afirmar que no Irã marmelada é marmalad. Ora, o slogan favorito do regime iraniano é 'Morte à America' (ou Israel, ou Salman Rushdie, ou ao Barney, o dinossauro púrpura; depende do ocasião), que rapidamente verifiquei se diz 'Marg bar xxx'. Daí, meu novo tagline se tornou Marg bar marmalad. Morte à marmelada.

Pouco depois, uma amiga que mora em Isfaham (onde também ocorrem protestos imensos, repressão pelos Basij, mas sem presença alguma da imprensa estrangeira) também apareceu, rindo e me perguntando se eu estava aprendendo farsi. Dado o contexto, ela sacou rapidamenet o significado da expressão (embora a associação especifica com o doce tenha talvez permanecido um pouco misteriosa). Virou o nosso slogan particular; a minha humilde contribuição ao léxico politico iraniano.

No Irã, os protestos já há muito trancenderam a disputa politica entre duas vertentes do regime. Há uma proto-revolução no ar (os revolucionarios não sabem ainda que são revolucionarios). Ela não é secular, mas é antitotalitaria. A principio, tudo sugere que está fadada ao fracasso; mas após a votação tudo sugeria que os protestos seriam limitados ao relativamente abastado norte de Teerã; que não durariam mais que um ou dois dias; que seriam esquecidos pelo mundo quando a imprensa internacional fosse impedida de transmiti-los pela televisão; e que seriam superados pelo poder de mobilização da mídia e logística estatais. Mas apesar de tudo, os iranianos continuam marchando. Os protestos continuam, e o regime dá mostras de nervosismo.

De qualquer maneira, tais imponderáveis não importam no cálculo moral. Quando, dia após dia, milhares de pessoas saem às ruas pacificamente para para exigir o direito de escolher seus governantes, correndo os riscos inerentes ao enfrentamene com um regime autoritário, elas merecem apoio, seja sua causa quixotexca ou não.

O papel que a internet, e em particular o Twitter, teve em divulgar os acontecimentos é indiscutível; o seu papel em promove-los é objeto de intensa discussão. Mas eu gostaria de pensar que em algum porão na Birmânia, ou no Zimbabwe, ou no Egito, ou em Cuba, um appartchnik vai estar daqui para frente perdendo o sono com os mais recentes hashtags da oposição.



Para terminar, alguns links úteis para acompanhar o que está acontecendo

Eis um agregador decente das noticiais vindas do Irã, feito por iranianos:
http://raymankojast.blogspot.com/

Uma lista de leitura extensa e bastante diversa:
http://cyrusfarivar.com/blog/?p=2169

A Pirate Bay (renomeada Persian Bay) criou um Forum para discutir/entrar em contato com os iranianos/dar dicas de protesto:
http://iran.whyweprotest.net/

O hashtag do twitter relevante é #iranelection

O blog do Pedro Dória está acompanhando os eventos, com algumas discussões interessantes
http://pedrodoria.com.br/

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quarta-feira, 2 de maio de 2007

Casa, BH
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A indústria de entretenimento (para usar o termo americano) me lembra um pouco aqueles povos primitivos que tentavam espantar eclipses solares com chocalhos. Da mesma maneira, tentar sustentar na base do litígio um modelo de negócios falido baseado em conteúdo digital em um mundo onde informação é disseminada quase instantaneamente pela Internet é tão patético que quase dá dó.

Um hacker conseguiu descobrir a chave (supostamente inviolável) do sistema de DRM (=digital rights management, um eufemismo para proteção contra cópias e outros usos, legítimos ou não) usado no HD-DVD e Blu-Ray, os sucessores do DVD. A chave de 128 bits acima obviamente já corre pela rede (em vários formatos), mas o consorcio da HD-DVD agita seus chocalhos legais, e por meio da uma carta de 'cease & desist' (i.e., pare ou eu processo!), tentou impedir o Digg de menciona-la. Este tipo de estupidez pode funcionar razoavelmente quando o alvo é um jornal de papel, mas na Internet o tiro saiu *muito* pela culatra.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Józej Maria Hoene-Wroński, vida e obra


Eu já escrevi sobre a maravilhosa capacidade da internet de conectar pessoas que fisicamente estão nos mais diversos cantos do mundo, mas tem interesses em comum. Obviamente o fenômeno em sí não é novo, só a sua amplitude geográfica. Não é incomum, afinal de contas, ficar amigo dos frequentadores habituais de nossos sebos ou bares favoritos. Mas a internet também tem o equivalente ao esbarrão acidental que gera um pedido de desculpas que acaba virando um papo agradável.

O prenome do meu email é wronski. Não sou descendente de poloneses, ou obcecado por Anna Karenina. Simplesmente decidi criar uma conta de webmail grátis, vários anos atrás, e descobri que meu nome, sobrenomes e apelidos, em todas as permutações razoáveis, já tinham dono. Em desespero, e sem querer me tornar o bmota74, me lembrei das aulas de Calculo II (eu havia acabado de terminar o segundo periodo), e de um objeto matemático chamado Wronskiano*, descoberto no século XIX por Józej Maria Hoene-Wroński, um obscuro matemático polonês. No auge do meu solipicismo lusófono, pensei: 'brunos existem vários, mas wronski não deve ter nenhum'. E de fato não havia. Hoje, nove anos e dois provedores depois, continuo wronski (a alternativa, que considerei por um breve instante, era frobenius).

Um efeito colateral da minha alcunha peculiar é que ocasionalmente recebo emails em polonês por engano. Não é o mesmo que ter o numero de telefone a um digito de distância da telepizza, mas é quase. Já passaram pela minha inbox um orçamento de conserto de carro, mensagens natalinas, e o que parecia ser uma destas correntes irritantes ('envie para 10 dos seus amigos para que Deus/Buda/Cthulhu/Flying Spagetti Monster lhe dê saúde e dinheiro'). Estou supondo obviamente, baseado na formatação, já que o conteúdo é para mim indistinguível da lista de compras do Lech Wallesa.

Na semana passada recebi um destes emails, remetido por uma pessoa chamada 'Abi'. Como sempre faço, respondi com uma curta mensagem em inglês sugerindo que o destinatário não era eu. Recebi de volta um email efusivo, que pedia mil desculpas, e obviamente perguntava de onde diabos vinha o meu nome polonês. Eu então contei a historinha acima, e começamos a conversar. A Agnieszka fez mestrado em direito, mora em Varsóvia, e está programando uma viagem de esqui nos alpes italianos. E eu descobri que físicos são considerados criaturas exóticas até mesmo na Polônia, e que o Józej Maria Hoene também desenvolveu uma doutrina filosófica bastante popular no século XIX, e ainda hoje é razoavelmente famoso no pais natal. Wronski é um pseudônimo que ele assumiu após a morte da mãe, para tentar fugir da influencia do pai.

Não vou dizer que o papo mudou a minha vida, mas eu gostei de conhecer uma pessoa gente fina de forma tão randômica a partir de um mero esbarrão. Não há nada de excepcional nisto, exceto que os esbarrantes estão a 10.000 Km um do outro.

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Continuando no tema 'amizades improváveis mediadas por TCP/IP', o Doug, um capitão americano em Kabul com quem costumo discutir séries de animação japonesa, está pedindo votos para o seu blog ('Afghanistan Without a Clue') em um concurso pela internet. O cara é gente fina**, e o blog dele é interessante, então se alguém aqui gostar deste tipo de coisa, eu sugiro que vote nele.

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* Um determinante gerado a partir das soluções de uma equação diferencial ordinária e suas derivadas, usado para verificar a sua (in)dependência linear.
** Ele é da força aérea, mas o trabalho atual dele é ensinar as tropas de logística afegãs a descarregar a carga de aviões e transporta-la em comboios para o resto do país. E ele *gostou* de Ghost in the Shell.

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quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Buon giorno mondo!

Indeed. A captain in Kabul and a cosmologist discussing anime and web comics. The world is a freaking wondrous place. I wouldn’t have it any other way. I’d send you to his blog, but I think it is Italian. It is named Milliways Lounge, which we all know is the Restaurant at the end of the Universe. Oh, heck here it is anyways. Maybe one of you speaks Italian.

Acho que todo mundo se lembra de como eram os primeiros dias em uma escola nova. Você chegava em uma sala cheia de pessoas desconhecidas, se sentindo deslocado. Após um silêncio meio constrangido, fazia alguns comentários inofensivos e piadinhas para quebrar o gelo, e tentar entender qual é a desse povo novo. Aos poucos, ia engrenando conversas, descobrindo interesses em comum, até fazer alguns novos amigos. Dias, semanas ou meses depois, você finalmente se tornava parte de uma rede de relações humanas na qual se sentia confortável.

Escrever em um blog pessoal é um processo semelhante. O que você escreve pode potencialmente ser lido por todo o mundo. Além disso, sendo uma pessoa curiosa, você vai fuçando internet afora. Não importa qual seja o seu interesse, em alguma URL tem alguem dizendo algo interessante a respeito. Você entra nos blogs que vai descobrindo, e vê raciocínios tão brilhantes ou bobagens tão ultrajantes que não podem ficar sem resposta. Posta um comentário tímido aqui e acolá, até se envolver em discussões, brincadeiras e brigas de foice, convencer e ser convencido. Depois de um tempo, você vira figurinha carimbada em certas comunidades.

Seguindo os links de seus comentários, ou através de blogs dos seus amigos, ou por pura sorte, as outras pessoas também vão trombando com o seu blog. Elas deixam comentários, e links para os seus próprios blogs.

E então, antes que se dê conta, você achou sua turma. Não um grupo de colegas que tem um comum uma escola ou local de trabalho, mas um conjunto difuso de pessoas, possivelmente em todo o mundo, que compartilham pelo menos em parte seus interesses e temperamento. Porquê esta é a característica realmente única da comunicaçao pela internet, você cria ralações totalmente baseadas em afinidades, sem nenhuma restrição de cunho geográfico, profissional ou familiar.

O paragrafo no inicio deste post foi escrito por um americano que está atualmente no Afeganistão. Ele no meio de uma guerra por lá, eu escrevendo tese por aqui, e mesmo assim nós dois podemos discutir animação japonesa. Eu fico feliz de saber que uma coisa destas é possível (mesmo que ele tenha achado que o meu blog era em italiano). Também gostei de discutir política brasileira com um israelense, futebol e topologia com blogueiras catarinenses, e propor charadas para um português e vários brasileiros espalhados pelo mundo (UPDATE: e discutir politica com um membro do Hizbollah).

A minha relação com estas pessoas é um pouco diferente da relação que tenho com meus amigos em carne e osso (vários dos quais também estão na rede). Pelo menos por enquanto, é como se um aspecto da minha personalidade se relacionasse com um aspecto da personalidade deles. Eu por exemplo sei em detalhes o que o Doug Traversa acha de Evagelion (que o Fernando afirma entender), e sobre o Taliban. Mas não sei se ele é calmo ou agitado, para qual time ele torçe, o que ele gosta de comer, etc., coisas que descobrimos quase sem querer sobre qualquer conhecido casual não-virtual. É uma maneira nova de se relacionar com as pessoas, e acho que ainda não nos demos conta de todas as implicações quando isto deixar de ser a exceçao para se tornar a regra.

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segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Como comprar um laptop

Funcionalmente, boa parte do meu trabalho consiste em ler e escrever coisas. As coisas que leio estão disponíveis na internet; as coisas que escrevo são (depois de considerável esforço) disponibilizadas na internet.

A outra parte segnificativa do meu trabalho consiste em viajar para congressos, para apresentar trabalhos, e para me reunir com colaboradores distantes.

Era óbvio então que eu precisava de um laptop.

Eu odeio trabalhar sentado em um escritório em um horário regular. Eu gosto de me enfurnar em livrarias, cafés, escrever na cama, e tenho inspirações súbitas nas horas mais bizarras. Isto vale não só para o trabalho, mas também para o RPG, e para os contos que gosto de escrever.

Era obvio então que eu queria um laptop.

Juntando a fome com a vontade de comer, no final de 2004 eu decidi que estava na hora de comprar um.

Não foi uma tarefa fácil. Eu tinha bem claro na minha cabeça o que eu precisava que minha máquina fizesse, mas era obvio que com meu orçamento disponível não poderia bancar tudo o que eu queria. Mas o pior era o cipoal de marcas, modelos, configurações e especificações que tornavam difícil fazer uma escolha bem informada.

Eu não posso fazer nada a respeito da estreiteza do orçamento alheio, mas posso pelo menos dividir algumas das coisas que aprendi no longo processo de comprar o meu vaio.




Em um desktop, é obvio que um modelo com um chip de 2 GH é melhor que um de 1 GH, que um monitor de 21" é melhor que um de 15", etc. A única dificuldade é priorizar o que é mais importante, e maximizar as especificações até o limite de seu orçamento. A escolha de um laptop por outro lado sempre envolve algum tipo de compromisso. Essencialmente, existem dois conjuntos opostos de características, que podem ser agrupados como mobilidade versus performace. A melhora de um lado implica geralmente em piora no outro.

Assim, no quesito mobilidade, temos:
- Autonomia (tempo de bateria)
- Portabilidade (peso e tamanh0)
- Barulho e calor gerados

E para performace:
- Ergonomia (tamanho da tela, do teclado)
- Velocidade (processador, processador gráfico)
- Conectividade (Wi-fi, Bluetooth, drive optico, leitor de cartões, etc)

A primeira coisa a fazer é definir muito bem o que você quer do seu laptop. Você vai usa-lo somente para editar textos? Jogos? Você pretende usa-lo como o seu único computador, ou em parceria com um desktop? Você pretende leva-lo para todos os lados em uma mochila? Ou andar de bicicleta com ele? Você pretende usa-lo em qualquer lugar, ou somente no trabalho ou em casa, onde uma tomada vai estar sempre disponivel para carrega-lo?
Eu pretendia tornar o meu laptop o único computador que eu usaria para trabalhar. Isto implicaria em ser capaz de leva-lo para qualquer lugar sem muito desconforto. Seria uma máquina de uso geral, capaz de fazer tudo o que eu fazia nos desktops em casa, no trabalho ou na casa dos meus pais
Para quem precisa somente de um extremo ou outro, a escolha é relativamente simples; seja um ultraportavel que cabe em uma bolsa com um teclado catilográfico, ou um 'desktop replacement' que faz tudo bem, mas pode ser levado (com algum muque) de um escritório para outro se necessário. Mas para quem, como eu, se encontra no meio do caminho, é preciso achar um equilíbrio. O macete é equilibar ganhos no que você acha importante com perdas no que é dispensável.

Recomendo primeiro definir como você pretende usar o computador (i.e., os items na coluna 'mobilidade'), para só depois me preocupar com o que vai poder fazer com ele ('performace'). Fazendo isso, você pode escolher as configurações que satisfazem as suas necessidades (ao invés de definir suas necessidades em função das capacidades do computador).
Eu queria um laptop que pudesse levar de bicicleta, com uma bateria que durasse umas 4 horas para que eu pudesse fazer trabalho útil essencialmente em qualquer lugar, sem depender da disponibilidade de uma tomada. Eu não fazia questão de uma tela muito grande (posso sempre conectar o monitor de 17 quando estou em casa), mas queria um teclado de tamanho padrão, e um drive ótico. Não precisava de um processador ridiculamente rápido, mas queria uma placa gráfica decente para jogos eventuais.
Definidas a autonomia e peso aproximados, e tendo uma ideia das caracterísitcas gerais da máquina, agora passamos as configurações específicas. Eu sugiro seguir a ordem abaixo. Ela vai do mais geral ao mais específico; primeiro você define qual classe de computador quer comprar, depois define o modelo, e depois as opções configuraveis em cada modelo. Assim, cada escolha vai restringindo as opções seguintes. É uma maneira de não ficar perdido no cipoal supracitado.

Tamanho do Monitor
O monitor é o item que mais consome energia, de forma mais ou menos quadrática com o seu comprimento, que também define grosso modo o tamanho final do laptop. Assim, o tamanho do monitor é em grande parte definido pela autonomia e portabilidade desejadas.

Por convenção, o tamanho do monitor define qual a classe o laptop pertence (em inglês, não sei se existem correspondentes em portugues):
  • Desktop replacement Faz tudo que um desktop faz; tela grande (17'' ou mais) e com todos os tipos de conectores. Pesado e com bateria mediocre, não é feito para ser carrgado para todos os lados. Pode pesar uns 5 quilos ou mais.
  • Medium size Laptops 'vanilla', padrão para executivos. Podem ser transportados facilmente se você não tem que andar/pedalar muito. Costumam ser mais baratos que as demais categorias. Baterias com autonomia suficiente para um filme ou trabalho leve. Pesam de 3 a 4 quilos, com tela de 14.1'' (aspecto normal) ou 15.4'' (widescreen)
  • Thin and Light Leves o suficiente para serem carregados para todos os lados, mas capazes de realizar quase qualquer tarefa sem grandes sacrificios. Bateria suficiente para realizar algum trabalho significativo. Tela de 12.1 ou 13.3''. Entre 2 e 3 quilos.
  • Ultraportables Ridiculamente leves, looonga vida de bateria, mas com sérias restrições de uso: Teclados e telas apertadas, em geral sem drive ótico, e processadores sem muito folego. Tela com 10'' ou menos, pesando 1.5 kilos ou menos.
Eu precisava do mais leve computador possível que ainda pudesse ser usado confortavelmente. Também queria uma autonomia razoável. Optei então por um Thin and Light widescreen.
Drive óptico
Defina se pretende ter um drive óptico no computador. A opção existe para alguns ultraportables e quase todos os thin and lights. A ausência do DO diminui o peso e o preço, mas pode ser um grande sacrifício a não ser que o laptop seja usado como um 'satelite' de um desktop mais parrudo, ou junto com um drive externo.

Se você optar por um drive ótico, resta definir se você vai querer somente um leitor de DVD/gravador de CD (a opção mais básica), ou um gravador de DVD, DVD dual layer, blu ray, etc. Você pode deixar esta escolha para depois de definir o modelo, mas a não ser que exista alguma necessidade específica, eu recomendo o DVD-ROM ou no máximo o gravador de DVD. As outras opções ainda são bastante caras, ainda existem padrões concorrentes e você provavelmente não vai sentir falta delas.
Eu queria um laptop totalmente autônomo, então o DO era necessário. Só fazia questão de assistir DVDs.

Processador gráfico
A opção é entre um processador dedicado, ou um processador 'integrado' com memoria compartilhada. Se você não pretende instalar jogos ou fazer uso de aplicações gráficas pesadas (tipo autocad), opte pelo integrado.
Nada como matar zumbis para relaxar. Processadores gráficos integrados são para os que não sobreviverão à próxima infestação. Eu obviamente optei pelo processador dedicado

Processador

PC ou MAC? Intel ou AMD? Eu não vou me aventurar no terreno minado da guerra santa entre os Borg e o Culto da Maçã. Faça sua escolha e viva com ela. Os últimos powerbooks esquentam pacas, porém.

Se vc optar pelo PC, os chips para laptop da Intel baseados no Pentium-M são em geral mais econômicos, silenciosos que os da AMD. Eu recomendo fortemente Intel neste caso. Você ainda tem a opção entre monocore ('centrino'), dual core (essencialmente dois P-M em um único chip) e daqui a pouco quad-core. O dual core é o padrão atualmente, mas se a performace não importar muito opte pelo centrino. Se a performace importar muito, espere uns meses, gaste muito $ e compre um quad core.

O clock do processador é muito menos importante, e pode ser escolhido depois de definido o modelo.

Modelo
Definidos os parâmetros acima, está na hora de escolher uma marca e modelo específicos. A esta altura, devem haver uns 4 ou5 modelos que se encaixam na sua especificação. Esta é a parte mais subjetiva do processo. Eu só posso recomendar que você pesquise em revistas e na internet até se apaixonar por um modelo. Se possível, tente manusear o laptop em uma loja. São vários os detalhes que definem esta atração, tais como a posição dos conectors, a qualidade da imagem no monitor (tradicionalmente, a Sony tem os melhores monitores), a qualidade do teclado (IBM/Lenovo são considerados os melhores), detalhes do acabamento, a qualidade do som (os autofalantes embutidos nunca são bons, mas tem graus diferentes de ruindade), reputação da marca, etc. O melhor lugar para começar é na Notebookreview, que tem comentários sobre qualque modelo existente. Na dúvida, entre nos forums e faça uma pergunta; os participantes em geral tem muito boa vontade para discutir os méritos relativos dos vários modelos. Também recomendo a CNET para reviews e comparações entre os modelos, e as revistas PCmag e Laptop.

Os sites dos fabricantes costumam, ser careiros, mas muitas vezes permitem configurar o laptop nos mínimos detalhes. São uteis para saber quais são as opções disponíveis, e ter uma ideia do preço. Veja e.g. o site da Sony:
Eu estava em dúvida entre modelos da Fujitsu, Sony e Averatec. Optei pela Sony porque a tela é fantástica, e achei o design da serie S extremamente conveniente (prex: a tela tem dobradiças pneumáticas, e precinde de uma trava mecânica. É só levantar e abaixar; os conectores ficam em nichos cobertos por tampas de plástico, impedido a entrada de poeira, etc). E ele é lindo.
Escolhido o modelo, resta agora configurar memória, processador, HD, etc. As opções são mais ou menos padrão.


Processador (clock)
Para cada tipo de processador (AMD ou Intel, mono-, duo- ou quad-core), o valor exato do clock influencia muito pouco a performace. A não ser que você precise do topo de linha ou tenha dinheiro sobrando, opte pela opção mais modesta, a diferença de preço é significativa.

Memória
256 MB é uma imprudência. Tenha pelo menos 512 MB, 1G se possível. Mais que isso é desperdicio a não ser para algumas necessidades específicas (e.g. edição de vídeo).

HD
O tamanho do HD não importa muita, a não ser que vc preciso acumular arquivos enormes (como no caso de edição de vídeo, vide acima). Se você é rato de BitTorrent, grave uns DVDs. De qualquer maneira mesmo um HD pequeno só vai começar a ficar lotado após alguns meses ou anos. É tempo suficiente para juntar mais dinheiro e comprar um HD muito maior, que vai estar muito mais barato do que hoje. Qualque coisa acima de 40GB está de bom tamanho.

A velocidade de rotação do HD por outro lado pode influenciar bastante a performace. HDs que rodam a 4200 rpm podem tornar o laptop lento ao carregar um programa. Prefira, se possível, um com 5400 rpm. Alguns modelos mais novos tem 7200, mas ainda são muito caros.
O preço de um HD de 5400 rpm era muito acima do de um de 4200 rpm. Optei pelo último, mas esta provavelmente é a maior trava na performace do meu vaio. Ele é em geral muito rápido, mas se arrasta um pouco quando tem que acessar muito o HD.
Conectividade sem fio
Wi-Fi a/b/g é padrão. Bluetooth é útil para conectar com o celular/palm, e com algumas câmeras mais modernas. Além disso, no futuro próximo, a conexão com a internet por celular deve se tornar mais viável, com preços menos ridículos. Quase todos os modelos tem o BT ou como padrão, ou como um opcional, então mesmo que ele seja fundamental, não deve ser motivo de preocupação antes de definir o modelo do laptop. Outros padrões de wireless ainda não estão bem estabelecidos, e só valem a pena se já vierem no modelo básico.
No final de todo este processo, comprei um Sony Vaio S270P, com um processador Pentium-M 1.6 Ghz, 512 MB de memoria e HD de 60 GB e 4200 RPM; Gravador de CD e DVD, Wi-Fi. E estou muito satisfeito.
(o sucessor da série S é o SZ, que tem algumas melhorias significativas mas ainda é meio caro)


Algumas considerações finais:

- Se o seu orçamento não der para comprar o laptop que você quer, mesmo fazendo todos os sacrificios possíveis, considere esperar alguns meses. Os preços caem muito rápidamente, da ordem de 50% em um ano. Modelos novos são lançados por volta de maio e novembro, então a melhor época para conseguir um bom preço é logo antes.

- Pesquise bem os preços. A variação costuma ser enorme. Bons lugares para começar são a Newegg e na Amazon. Mesmo que você não vá comprar lá, vale a pena dar uma olhada para verificar os modelos disponíveis e a faixa de preço (a Newegg é geralmente a mais barata na internet). O Froogle também é util para comparar preços.

- Não confie nos valores dados pelos fabricantes para a duração da bateria.

- Os preços no Brasil são ridículos, se possível compre (ou ache quem compre para você) lá fora.

- [PS] Vale a pena verificar algumas marcas menos conhecidas, tais como a supracitada Averatec (americana), Asus, Acer (vende direto no Brasil) e BenQ (mais fácil de achar na Europa)

Bom, é isso. Espero que ajude.

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quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Blog de cara nova

Como é obvio para qualquer um que já veio aqui antes, eu mudei bastante a cara do meu blog. Inicialmente eu planejava simplesmente mudar o template. Mas depois de fuçar um pouquinho, decido que talvez uma coluna de cada lado dos posts ao invés de uma fosse uma boa ideia...

Uma noite insone depois, antes da qual eu não sabia o que era CSS, consegui por funcionando o ml42 com *2* colunas! Aos poucos, por tentativa e erro e um pouco de adivinhação (baseada na premissa de que quem escreveu o template original [Douglas Bowman, many thanks] era uma pessoa racional), consegui descobrir o que cada pedaço do código html fazia, e fui alterando, na base do ctrl-c ctrl-v, até consegui o resultado desejado. Meio sacal, mas educativo.

Uma semana depois, é criada uma nova e melhorada versão do blogger (beta). Eu tinha a opção de manter o ml42 no formato antigo, mas então não poderia usufruir das novidades, tais como posts antigos indexados naquelas setinhas colapsaveis, labels e edição WYSIWYG dos elementos do blog. Assim, quando o blogger disponibilizou a edição diretado html do novo template, eu migrei.

Outra noite insone depois, refiz meu trabalho de colocar as duas colunas laterais, em uma linguagem substancialmente modificada.

Hoje descobri um blog que explica em detalhes como fazer exatamente isso, escrito por alguem que efetivamente entende do que está fazendo. Se tivesse visto antes, poderia ter feito tudo em 5 minutos.

Mas aí eu continuaria tão ignorante quanto antes. What can't kill you...


Desde então venho adicionando coisas que vou achando em blogs alheios. Entre em um programa da Amazon que me permite gerar automaticamente recomendações de livros que lí e gostei, algo que sempre quis ter mas sempre tive preguiça de implementar. Organizei minhas labels em uma 'nuvem', sumi com a navbar, etc. Tudo isso implementando codigo disponível na rede, escrito por almas caridosas.

Assim, se alguém mais quiser alterar o template do próprio blog, pode claro pegar o que quiser daqui; mas eu recomendo também que visitem os sites abaixo, que tem ótimas dicas e são escritos por gente que efetivamente sabe o que está fazendo.

* No Fancy Name
* phydeaux3
* apt thinking
* Hackosfera


No espírito de Grigory 'Grisha' Perelman, termino com uma simples e elegante solução de um milenar problema matemático.




HT: Roca

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segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Let loose the blogs of war

Acho que quando você lê muito sobre algum assunto, vai mudando aos poucos as suas fontes de informação. No caso da guerra no Líbano, em pouco tempo comecei a achar a cobertura da imprensa brasileira em geral bastante superficial (com notáveis exceções). Depois de um tempo, já achava a imprensa internacional insuficiente. Comecei então a ler avidamente a imprensa israelense e libanesa disponível em inglês. Mas no final a midia mais informativa foi a blogosfera. Não como uma substituição da mídia tradicional, mas como um suplemento que a potencializa.

Em primeiro lugar, os blogs funcionam como um agregador inteligente, descobrindo e disseminando artigos interessantes em fontes muitas vezes obscuras (para mim; e.g. a mídia árabe e hebraica), que de outra maneira eu nunca leria.

Segundo, os blogs israelenses e árabes fornecem um contexto que falta até mesmo ao jornalista mais bem informado e intencionado. É só dar uma lida em quase qualquer coisa escrita sobre o Brasil por estrangeiros para notar pequenos errinhos factuais e de contextualização, referentes a coisas que são obvias para um habitante local mas não são imediatamente aparentes mesmo para um visitante bastante diligente. Durante a guerra, e em particular no que se refere ao Líbano, foram em grande parte as pequenas sutilezas e detalhes históricos mencionados nos blogs que me permitiram entender (ou pelo menos achar que entendia) as motivações das várias (de novo, muito mais que duas) partes envolvidas.

Terceiro, e talvez o mais importante, os blogs permitiram, talvez pela primeira vez em uma guerra, que pessoas dos dois lados do front discutissem os acontecimentos a medida em que eles ocorriam. Escondido em um mar de idiotices e recriminações mútuas, é possivel notar um diálogo acontecendo, que não só é algo bom pelo que representa, mas também é bastante informativo, em particular no que se refere às percepções mútuas.

Abaixo segue uma lista de alguns dos blogs que achei mais informativos e interessantes. Não quero fazer muitos comentários, deixo cada blog falar por sí só.

* Beirut to the Beltway (Libanês nos EUA)
* Across the Bay (Libanês nos EUA)
* CedarSeed (Libanesa)
* Beirut Spring (Libanês)
* Bad Vilbel (Libanês nos EUA)
* Lebanese Bloggers (Libaneses em vários lugares)
* Lebanese Political Blog (Libaneses, também espalhados pelo mundo)
* The Thinking Lebanese (Libanês)

* On the Face (uma Israelense)
* Chega de Saudade (Israelense/Brasileiro, o único que conheço pessoalmente)
* Terra Estranha (Israelense/Brasileira)
* Israelicool (Israelense/Australiano)
* The Happy Arab News Service (um Israelense)

* Sandmonkey (Egípcio)
* Big Pharaoh (Egípcio)
* Healing Iraq (Iraquiano)
* Musings of a Palestinian Princess (Palestina)
* Bliss Street Journal (Americano, morou no Líbano e é casado com uma libanesa)
* Michael Totten (Americano, que viaja para zonas de guerra e bloga profissionalmente)
* Abu Aardvak (Americano, com análises da mídia em árabe)
* Harry's Place (Britânicos, um blog politico em que eu posto bastante)

Note que muitos destes blogeiros comentam uns nos blogs dos outros. Não é cada blog isoladamente que torna este meio tão interessante, é a rede de interações que se forma. Note também que os blogs Israelenses e Libaneses são muito cosmopolitas, uma característica entre muitas que os dois paises tem em comum.

Também vale a pena ler o Holm-Halom, um forum de discussão criado por Libaneses e Israelenses, e que se originou em uma thread no Lebanese Bloggers.

PS: Acabo de descobrir o Cedarland, um site com vários artigos longos e informativos sobre a história do Libano. Em particular, recomendo esta historia da guerra civil, e esta breve descrição das principais facções envolvidas. Mas o recurso mais interessante é esta lista com pequenas biografias dos principais lideres Libaneses (mais alguns Sirios e Israelenses)

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sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Casa, Rio de Janeiro
(Israel-Palestina, [sorry Mafra!])

Mudando só ligeiramente de assunto, abaixo segue um post meu, originalmente no Harry's Place, que fez algum sucesso. O post é uma tentativa de explicar porque eu acho que a formação de um estado independente palestino é um objetivo louvavel, mas os meios usados para atingi-lo foram e são os piores possiveis; e como isso contribuiu para a série de catastrofes pelas quais passou (e passa) o povo palestino. Um tanto petulantemente, eu então listo o que eu acho que a liderança palestina poderia ter feito diferente, com chances muito maiores de sucesso.

I don't pretend this is an easy question. Any list is bound to be simplistic; certainly none of the things I suggest would be easy. But, considering that the accomplishments of the Palestinian national movement these past 60 years have been non-existent, if not negative, they were at least worth a try.

First, historically a Palestinian state could have been created if
a) The 1947 partition plan had been accepted, or even if the principle of partition had been accepted.
b) A Palestinian state could have been created at any time between 48 and 67.

This is history now, a history HP threads have dissected in nanoscopic details multiple times.

Under the present context of being under occupation, Palestinians, or their leaders, might try to:

1) Have a realistic, non genocidal goal. Wiping Israel off the map is neither. Establishing an independent state in the occupied territories is. Work exclusively towards the goal. Ignore revenge, getting even, paying back or pointless venting of anger. Focus on the goal.

2) Act together. Having multiple groups with fractal splintering, often fighting each other, dissipates energy, and makes negotiating with the nominal head of the movement kind of pointless. Having a democratic, or at least consultive, decision-making process helps in this regard.

3) Be credible. When you say you will do or refraing from doing something, follow through. See 1.

4) Act state-like even before you become a country. Start building solid national institutions, competent and non-corrupt, from the begining. Strive to make such institutions a viable alternative to the occupation.

5) Stop terrorism.. Please don't make me explain why.

6) Understand the occupiers. Not as a racist cartoon, but as a bunch of fallible human beings. Most of which have probably more profitable things to da than make your life miserable. Forge alliances with those without any vested interest in the occupation, to undercut its support in the home front.

7) Keep talking. Put forward tangible proposals, and create a national consensus behind them. Follow the letter of any agreement you do sign, and then demand the other side do the same. Acknowledge that the other side also has legitimate core demands, and learn how to diferentiate those from tactical negotiating positions. In the whole process, the more trusted you are the more concessions you are likely to get.

8) Resist occupation. Collectively, unceasingly. And non-violently. Ignore provocation and distractions, and keep focused on the goal. One of the least noticed side effects of suicide bombings is that they excuse the non-suicidal majority from doing anything against occupation.

Really, if the Palestinian violence and genocidal rhetoric were to stop, the conflict would be quite straightforward for most people, including Israelis: A people under occupation whose land is slowly taken away. Statehood would still be a long walk, but at least the Palestinians would be moving in the right direction.

Eu não quero dizer com isso que a culpa de toda a presente situação é exclusivamente dos palestinos. Os Israelenses também são resposáveis, e de fato muitos dos 'conselhos' acima se aplicam igualmente a eles. A diferença é que enquanto as politicas de ocupação e assentamento não trouxeram paz para Israel e são moralmente corrosivas; a 'resisitencia' tal como tem sido feita pelos palestinos é quase uma forma de suicídio nacional.

PS: Um pouco mais da minha petulancia aqui, onde discuto com Israelenses, Libaneses e Palestinos sobre o Holocausto e a Naqba.

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terça-feira, 18 de julho de 2006

Casa, Rio de Janeiro

Continuando o assunto do post passado, tem sido muito interessante observar as blogosferas libanesa e israelese, e a interação entre elas. Acho que nunca antes houve em uma guerra pessoas nos dois lados do front podem interagir em tempo real. Vejam e.g. essa discussão
, em que participam 'Beirutianos', 'Haifianos', soldados da IDF, etc. Após a previsivel troca de acusações e tentativas de jogar a culpa em um lado ou outro, o papo logo se transforma em uma diario em tempo real da guerra ('Porto de Sidon bombardeado', 'Predio em Haifa desmorona', 'F16 abatido' - 'IDF nega' - 'testemunhas confirmam' - 'era um container de panfletos' - 'não, era um foguete do HA qtingido no solo que disparou'), onde os participantes tentam entender o que está de fato acontecendo.

A coisa mais civilizada nesta bagunça toda.

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quarta-feira, 19 de abril de 2006

Casa, Rio de Janeiro

Estou de volta no Rio, por uns poucos dias. Existem poucas coisas mais chatas do que procurar um apartamento no Rio de Janeiro. Os alugueis são absurdos, a má vontade impera em todos os níveis e a documentação exigida é bizantina. O lado bom é que a minha vizinha (Claudinha, ou pelo menos esse é o nome da rede) ligou novamente o WiFi, e eu consigo pelo menos entrar na internet, mesmo que toscamente.

Por nenhum motivo em particular, eis duas fotos que tirei ano passado (com meu celular) do topo do edificio Martinelli, onde fui com o Fernando.



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sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Casa, Rio de Janeiro

Estou postando literalmente da minha janela, que é o unico lugar que pega bem o WiFi da 'claudinha' (o meu vizinho de baixo ainda não ligou o WiFi dele, tô quase batendo na porta para reclamar).

Estamos indo hoje para BH, onde ficaremos até o nascimento do Gabriel e além. Depois posto mais que a Ceci já esta chamando para ir embora.

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

Casa, Rio de Janeiro --- Wikipedia e tal

A capacidade da internet de se auto-organizar ainda me impressiona. Um dia alguém tem uma ideia nova para coletar/gerar informação de uma forma particularmente útil, e voluntarios de todo o mundo contribuem até termos outro projeto típico da rede: Excentrico, difuso, nem sempre correto, mas imensamente útil. Dado o chute inicial, uma comunidade com sua própria sub-cultura emerge para manter e atualizar o recurso, com custo agregado quase nulo e alcançe quase ilimitado.

Eu estava pensando nisso enquanto fuçava na Wikipedia (uma enciclopedia comunitaria; qualquer um pode contribuir um artigo, com a ressalva que o artigo pode ser rejeitado pela comunidade, ou modificado). A sequencia lógica do racicinio acima seria a seguinte "qualquer um pode contribuir, e uma contribuição útil, mesmo que pequena, vai permanecer disponivel para todos e para sempre"... Aliando teoria à pratica, resolvi então contribuir um artigo. Existem vários assuntos sobre os quais entendo um pouco, mas queria algo que fosse

a) Curto: Eram 3 da manhã e não queria ter mais que 2 minutos de trabalho
b) Fácil: Não queria pensar muito; um pequeno artigo factual não controverso
c) Útil: Um verbete curto só seria útil se fosse sobre um tema pontual e obscuro (para os leitores da Wikipedia). Algo que vc poderia ler mencionado em uma página na rede, e se perguntar o que é.

Decidi então escrever um paragrafo curto sobre... José Alencar! Nosso vice-presidente... Não tenho nenhum interesse especial pelo cara, nem sabia muito sobre ele. Mas ele se encaixava em todos os criterios: Uma micro-biografia é simples, incontroversa, e um carinha randômico lendo o NYT acharia o verbete útil (pq ele só que saber quem é José Alencar, não ler José Alencar: Vida e Obra). Fiz uma pesquisa de 1 minuto, e escrevi o texto. A lógica é bizarra, mas consistente...

Existem outros recursos parecidos: a usenet (faz 30 anos!), ou o slashdot agregam o saber e folclore da rede para a posteridade; o projeto Gutenberg armazena livros que não são protegidos por copyrigth, e redes P2P distribuem qualquer coisa para qualquer um. O principio é o mesmo do software de código aberto, só que aplicado a qualquer produção intelectual.

Na verdade, a empreitada de ´código aberto´ pioneira se chama ciência. Todo o processo de produção científica depende de grupos dispersos produzindo e tornando disponiveis teorias e observações, que são então testados, criticados e melhorados pela comunidade. Agora o círculo está completo, como diria Darth Vader. A internet e a web, inventadas por e para pesquisadores, agora são o principal meio pelo qual o intercambio científico se dá. Trabalhos científicos são disponibilizados na rede, referenciados por hipertexto e indexados pelo google.

Chega de mayonese por hoje. Mas se daqui a 20 anos houver um antropólogo pesquisando sobre auto-organização nos primordios da internet, talvez tropeçe aqui neste blog...

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