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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Casa, Belo Horizonte
A vida em duas rodas


Não esteja lá quando chove; é um dos lugares em que mais caem raios no mundo

BH vista do Morro do Cachimbo


Quando ainda morava em Belo Horizonte, antes de me mudar para o Rio, eu não era ciclista. Mesmo após começar a andar por todo o lado  de bicicleta, no Rio e mundo afora, eu achava que BH tinha morros demais para uma vida em duas rodas. Eu pedalava ocasionalmente até o Belvedere, mas era o que eu considerava no limite do agradável em termos de rugosidade.

Alguns meses de pandemia, a ida ao Belvedere já havia se convertido em passeio semi-diário na minha bike dobrável de viagem. Seis meses de vírus, e estávamos a família toda com mountain bikes novas, participando de grupos de ciclismo e tratando automóveis como um recurso a ser utilizado in extremis em condições de clima inclemente. Um ano, e eu arrastava a bike por picadas aleatórias a procura de trechos pedaláveis.

Não era que os morros não me incomodavam. Eu mal os notava mais.

E é por isso que é tão frustrante que, quase dois anos convivendo com o COVID; indo pegar a BR para subir até o Retiro das Pedras; pronto para pegar uma trilha de chão farofento e um trecho de caminhada sobre pedras escorregadias; e a procura de ruínas portuguesas e cachoeiras ermas... Eu fui ser atropelado pela primeira vez na vida na Bandeirantes, a mais tranquila e bike-friendly avenida da cidade, e a pouco mais que um grito de distância da minha casa.

Fui abalroado por uma moto por trás, no curto trecho entre o final da ciclovia e a praça Alasca. A bike empinou, e voei por cima dela até um encontro com o asfalto mediado pelo meu antebraço esquerdo (quebrado), ombro direito (deslocado) e pé esquerdo (aparentemente torcido; mas mais sobre isso mais tarde).


Eu estava mais vestido e usando capacete, porém
 

Eu não notei a extensão do dano imediatamente. Um mero toco, pensei; é só uma questão de montar de novo e sair pedalando, até a dor passar. Fui demovido pelo ângulo pouco natural do meu braço, e pela impossibilidade de sair da posição de Gaulês Moribundo em que me encontrava.

Me saí melhor que o supracitado gaulês, porém. Vivi o meu sonho infantil de passear de ambulância, fui drogado e operado no braço, e voltei para casa, e uma temporada na cadeira de rodas. Um mês depois, descobri*  que o meu pé esquerdo não estava meramente torcido; o seu osso calcâneo estava em pedaços (pouco dolorosos, porém, para surpresa para os médicos e alívio para mim).

Fui novamente drogado, operado e enviado de volta à casa. Com recomendações estritas de só voltar a andar em Janeiro de 2022.

A minha vida continua em duas rodas, porém. Me tornei hábil com a cadeira de rodas e imito de forma passável o Saci Pererê; faço fisioterapia e assisto The Witcher pedalando a ergométrica. Estou aprendendo arco e flecha, e vou desenvolvendo habilidades de tiro Parta. Cozinho, com ajuda do Gabriel, e fico dando voltas no pilotís ouvindo podcasts.

A vida continua, e ano que vêm estou de volta pedalando minha bicicleta.

Agora só preciso de coquinhos



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* Graças à ressonância magnética, refutando quem acredita que física e representações irredutíveis de SU(2) nunca foram úteis para ninguém




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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Pousada da Sra xxx, 강정보., Coreia do Sul
Manutenção posventiva

Estou na Coreia. Do sul. Para um congresso, o IBRO 2019, em Daegu. Para chegar aqui, fiz uma parada não programada em Adis Abeba, na Etiópia. Mas a história desta série de contratempos, e do turismo improvisacional daí advindo, vai ter que ficar para um post quando eu tomar vergonha na cara em relação a este blog.

Chave de corrente. Nunca saia de casa sem ela

Após o congresso, o plano (como sempre) era pedalar rapidamente de uma cidade a outra antes de voar para o Brasil. A Coreia recentemente construiu uma série de ciclovias, cruzando todo o pais. Resolvi seguir pela que acompanha o rio Nakdonggang, de Daegu até Busan.
 
Mal sabia eu que, assim como os norte-coreanos em 1950, o meu avanço até Busan seria detido de forma inesperada.

E a Coreia é linda! As paisagens rurais são genuinamente de cair o queixo; e eu ia apreciando a minha sorte e as belezas locais quando, após 40km idílicos, em uma subida mais íngreme, eu sinto uma travada súbita na corrente da bicicleta, seguida do ruído de algo sendo triturado que doeu no fundo da minha alma. O algo era o câmbio traseiro, cuja parte inferior havia se quebrado, se enroscando na corrente e engruvinhando no cassete. Após proferir algumas lições extemporâneas de português escatológico para os transeuntes locais, fui a procura de ajuda.
 
Na própria ciclovia havia uma estação de manutenção não muito distante. Mas eles não podiam resolver meu problema.

Imagem meramente ilustrativa

O simpático mecânico, velhinho e monoglota,  então me levou até a loja de bicicletas da cidade local. O dono da loja olhou e cutucou, mas concluiu também que não podia fazer nada. Foi então a procura de uma hospedaria. Inquirido, o atendente de uma loja de aluguel de patinetes me levou até o 4o andar de um prédio ordinário até uma senhora de roupão. Inesperadamente, ela *não* me ofereceu um cookie e discutiu cripticamente o meu futuro, mas simplesmente me mostrou um quarto de hóspedes tradicional coreano, com futon, mesa baixa, porta de correr e senha de wifi. Paguei pela estadia e fui contemplar as minhas opções.

Retroceder nunca, render-se jamais é um péssimo filme mas uma excelente filosofia para andar de bicicleta. Passei as duas horas seguintes em cirurgia, desengajando o câmbio e montando e desmontando a corrente. A ideia era achar um número de elos correspondendo de forma aproximadamente à uma corrente esticada em alguma marcha específica. Depois de algumas tentativas consegui transformar uma bicicleta de 7 marchas quebrada em uma de 1 marcha que roda. Ela guincha como um guaxinim enfurecido e não tenho muita fé na longevidade da corrente, forçada a um grau de torção pouco saudável. Mas amanhã vou tentar dar uma de Ayrton Senna e ver se consigo completar o trecho de hoje na 3a marcha.
 
Antes... (7 marchas)
... e depois (ersatz-fixie)

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sábado, 11 de agosto de 2018

Piccadilly line a caminho de Heathrow, Londres
Goodbye to all that

Adeus Londres
Estou na passagem final por Londres, a caminho do aeroporto; cheguei ontem de Newcastle e chego hoje a noite no Brasil. Depois da Alemanha, passei por Londres, pedalei até Oxford, Pedalei até Reading e pedalei até Londres novamente. Peguei um trem para Newcastle, fui e voltei no fim de semana  para/de Cragside, e agora ei-me de volta.

Vários posts escritos e semi-escritos, que irei postar no futuro próximo, espero.

Adeus Newcastle (e a melhor comida chinesa da Inglaterra)

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sexta-feira, 20 de julho de 2018

RE3, entre Züssow e Berlim
A última Fritz Cola em Berlim



Entre uma conferência e outra, eu pedalo. Depois da FENS em Berlim e antes da Sociedade Anatômica em Oxford, pedalei entre Berlim e uma ilha no mar Báltico chamada Usedom. Passei por florestas densas, pântanos cheios de aves, parques eólicos e cidades da ex-Alemanha Oriental onde Trabrants ainda são dirigidos de forma não-irônica. Passei brevemente pela Polônia, na nesga oriental da ilha, a caminho da parada final em Peenemünde, onde Werner Von Braun et al. projetaram, testaram e construíram os foguetes V2 que choveram sobre Londres e Antuerpia nos meses finais da 2a Guerra.

Foram 327km e troco no total. Entre rodovias, trilhas asfaltadas e ladrilhadas, e picadas cascalhosas e arenosas de liquefazer a espinha, cheguei sem maiores transtornos.

Nos últimos anos a minha assiduidade neste blog tem sido patética; o que é uma pena, pois fiz algumas viagens bem interessantes. Eu começava escrevendo um post entre um trecho e outro, mas acabava o meu tempo ou ânimo, e eu não escrevia sobre os trechos subsequentes porque tinha ainda a intenção de terminar o anterior. O resultado foi um ou dois posts esparsos por viagem, se tanto, e uma penca de rascunhos espalhados por diretórios vários.

Desta vez, resolvi esboçar rapidamente um post a cada par de dias. No final (já no trem), escrevo um meta-post amarrando tudo, e vou então publicando um post por dia em ordem cronológica. Vamos ver se funciona...

De qualquer forma, estas são as horas derradeiras da minha primeira visita à Alemanha. No trem, passo na volta pelas cidades por onde passei na ida, de forma um tanto mais laboriosa. Conheci muita gente legal, reencontrei amigos que moram por aqui, e me enturmei com graus variados de desenvoltura linguística com ciclistas pelo caminho. Vou procurar por algo para fazer na cidade, em seguida pedalar até o aeroporto de Tegel, e de lá voar até a Inglaterra. Refaço, portanto, o caminho dos V2 de Peenemünde até Londres, embora (espero) fazendo menos estrago.





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domingo, 15 de julho de 2018

Gusthoff Wilsickow, Pasewalk
Salvando o planeta


Hoje a trilha foi mais longa, 86km. Com mais colinas que a anterior, mas nada muito sério.

Água (ou mais propriamente a sua falta) pode ser um problema em viagens longas em um dia quente como foi hoje. São vários litros ao longo do dia, mesmo descontando as Coca/Fritz-Colas dos dois almoços que fiz pelo caminho (pedalar abre o apetite...). Felizmente, não preciso levar um galão comigo em lugares como o norte da Alemanha; me basta uma garrafa de água mineral comprada em Berlim, e a capacidade de dizer extemporaneamente 'Wasser, bitte' para os locais. Não é Goethe e soa como os delírios de um explorador em apuros no Kalahari, mas funciona.

Faltando uns 20 km para chegar, e com a garrafa vazia, parei em um supermercado para comprar dentifrício. Levei a garrafa, para ser enchida em uma torneira ou bebedouro. No caixa, a atendente apontou para a garrafa e me disse "". Ao perceber que eu não entendia, muito solicitamente pegou a garrafa, atravessou a loja, e a introduziu em uma enorme máquina amarela. "Bebedouro peculiar" - pensei, momentos antes de ouvir os  sons de uma garrafa plástica sendo esmigalhada cruelmente. Para a reciclagem.

A atendente voltou triunfante, e eu não tive coragem de tentar dizer (ou insinuar, comprando uma segunda garrafa) que o que eu queria era água para beber, e não ajudar a salvar o planeta.

Ganhei 25 centavos de desconto no dentifrício, porém.

Pedalei os últimos quilômetros sob um sol Piauístico (exagero. Um pouco.), e com uma dor de cabeça crescente. A 3km do destino, o GPS me instruiu a virar em um caminho estreito coberto de cascalho grosso, que fazia a bicicleta chocoalhar como uma pipoqueira. A tal via é, suponho, usada para a manutenção do parque eólico que atravessei, mas é uma verdadeira autopista comparada com a cratera linear coberta de mato, aparentemente usada por tratores e colheitadeiras a caminho dos campos de cereal adjacentes, em que me enfiei em seguida.

Cheguei finalmente na mansão dos Holtzendorff; uma agradável propriedade rural que foi da família epônima de 1742 até ser expropriada pelo Alemanha Oriental em 1945. Foi readquirida por uma Holtzendorff ('Ilsa-Maria Von Holtenzdorff') após a unificação, e hoje é um pensão* surpreendentemente em conta. Fico aqui mais um dia, e depois pedalo até o Báltico e volto de trem para Berlim; de lá pego avião para Londres, de onde parto de bicicleta para Oxford.


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* O lema da família pode ser lido ao lado do seu brasão, na parte externa da mansão. É uma frase de Ovídio, e é difícil pensar em algo menos Game of Thrones:



RURA QUOQUE OBLECTANT ANIMOS STUDIES COLENDIQUELIBET HUIC CURAE CEDERE CURA POTEST



Que pode ser traduzida como "A vida no campo e o desejo da agricultura também deliciam a mente; aquele que a isto se dedica tem paz antes dos demais". Por que o Ned Stark não pensou nisto?
















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Fahradpension Joachimsthall, Joachimsthall
Tradução simultânea





A minha primeira parada, a 76km do meu AirBnB em Berlim, é a pequena Joachimstall, famosa por possivelmente ser a raiz etimológica e numismática do dólar. A ausência quase completa de colinas por essas bandas (repleta de lagos e florestas) faz o caminho ser bem tranquilo, e é comum ver famílias inteiras viajado de uma cidade a outra.

Fico na 'Fahradpension Joachimsthall', um hotel para ciclistas com um café da manhã reforçado e ferramentas para manutenção e um agradável jardim. Mas quando cheguei, não havia vivalma. Vi uma porta semiaberta e entrei.
Só que era o quarto de uma família alemã. Após explicações e desculpas cabíveis, sai para procurar o análogo local da recepção. Encontrei uma campainha. Toquei e me apresentei. Do outro lado, uma senhora monoglota começou a falar, repetindo a mesma frase incompreendida com graus crescentes de exasperação 
Meus novos amigos/tradutores
Meu escritório
O dono do quarto que invadi veio em meu socorro, e, após conversar com a voz incorpórea, me disse que a monoglota em questão mora por perto e estava a caminho. Ela se mostrou simpática, embora resolutamente incomprensível. Mas fazendo uso novamente do meu novo amigo, consegui me assentar. A pensão é bem legal, tem um jardim e um apiário, e fica perto de Lagos e florestas. O meu plano é alternar dias de pedalar e dias de trabalhar. Hoje então fico aqui revisando papers nos jardins da pensão.

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domingo, 19 de novembro de 2017

UA 511, Espaço aéreo entre Boston e Washington
Nunca se sabe, quando se voa United






UPDATE: Até que a United foi bem razoável na sua resposta. Eles reconheceram o erro, pediram desculpas e me devolveram o dinheiro

Quando o policial me perguntou, no aeroporto em Houston em julho deste ano, por que eu levava um capacete preso à minha mochila, eu quase respondi: "Quando se viaja United, nunca se sabe". Pensava obviamente no passageiro que havia sido arrastado de um avião da empresa por razões estupidas. Só não fiz a piada, após profunda consideração, pela notória falta de senso de humor e mentalidade literal de seguranças de aeroporto.

Hoje eu volto para o Brasil; saindo de Boston, faço conexão em Washington e São Paulo, e chego no Rio amanhã. Mas ao tentar fazer meu check-in em Boston, só conseguia pensar em como a piada acima subitamente parecia menos engraçada.

Sempre viajo com minha bicicleta dobrável. Ela cabe em uma mala, dentro dos limites de peso e tamanho da United e outras companhias. E normalmente viajo pela United, sem problemas ou taxas adicionais. A política explícita da empresa permite o seu embarque como bagagem regular*, e seria irracional tratar de forma diferente uma bagagem que, para todos os efeitos práticos para a empresa, é indistinguível das demais.

Mas não existe argumento, fato ou bom senso que demova um ser humano pensante depois que este decidiu se tornar um autômato cumpridor literal de regras que não escreveu nem entende. Eu não tinha acesso a internet, e os funcionários em Boston aparentemente não possuem as habilidades elementares de compreensão de texto. Eles me fizeram retirar a bicicleta de sua mala, desdobrá-la, e colocá-la em uma caixa de papelão ('vendida' por módicos U$25), enorme e de aparência frágil, que obviamente foi pensada para guardar uma bicicleta não dobrável de tamanho normal. E me fizeram pagar U$200 pelo privilégio.

Volto ao Brasil em breve, e espero que a equipe de atendimento ao cliente seja mais racional do que seus colegas bostonianos...

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* I.e., "If the bicycle(s) are packed in a container that is less than 50 pounds (23 kg) and 62 (158 cm) total linear inches (L + W + H), there is no bicycle service charge"

Por que viajar assim...
...se você pode viajar assim?

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quinta-feira, 6 de julho de 2017

St. John's College, Oxford
Cidade vs. Beca I

As vezes é preciso contar meus planos para alguém mais de uma vez. Não porque meus interlocutores sejam estúpidos ou desatentos, mas simplesmente porque o que pretendo fazer parece implausível demais para ser verdade.

Home sweet home (por 3 semanas)
Estarei em Oxford por 3 semanas, dividindo o meu tempo entre o departamento de 'Fisiologia, Anatomia e Genética', por um lado, e o Instituto de Matemática, por outro, enquanto tento entender como neurônios se formam e migram. Como nada nesta cidade é simples ou cartesiano, sou hospede do St. John's College, que intersecciona mas nem se sobrepõe ou se superpõe aos departamentos supracitados. Vim a convite do Prof. Zoltan Molnar, que na SfN de San Diego em 2016 marchou até onde eu apresentava meu poster e simplesmente me perguntou - 'Você é o Bruno? Quer passar um mês em Oxford ano que vem?"

"Claro! Em Julho eu apareço com minha bicicleta"

Ele ficou feliz com o aceite, e ignorou a menção à bicicleta. Obviamente um chiste, deve ter pensado

Ao se aproximar a data, discutimos a hospedagem. "Eu só preciso de espaço para mim e minha bicicleta", eu disse.

Quase no dia de viagem, combinamos horários. Expliquei que chegaria cedo pela manhã em Heathrow e demoraria cerca de 6-7 horas pedalando até chegar.

Pronto para rodar
Pousei em Heathrow. Fui até sua extremidade ocidental, comprei um cartão telefônico local, montei a bicicleta, ajustei a bagagem no bagageiro, e sai pedalando. Cheguei em Oxford no horário combinado. Peguei minha chave e me instalei, e fui me encontrar com o Zoltan para jantar. Conversa agradável, indo e voltando, e começo a falar da vinda. Após alguns minutos, finalmente ele tem a epifania: "Você veio pedalando do aeroporto?!" - Tentei protestar, mencionar que já havia explicado meus planos, etc. - "VOCÊ É DOIDO! Nunca ouvi de alguém que tenha feito isso".

Passado o espanto, o jantar transcorreu normalmente. Mas nos dias seguintes, sempre que eu era apresentado a alguém, era com variações sobre o tema "Bruno, do Brasil/Rio. Ele é físico, e veio pedalando desde Heathrow em uma bicicleta dobrável!"

Termino mencionando que não é a primeira vez que faço isso. Já pedalei até Reading a partir de Heathrow, e até Oxford a partir de Londres. É bastante mais direto e racional (para não falar barato) do que pegar um trem para Londres, e outro na direção oposta logo em seguida. Desta vez a viagem foi agradável e sem maiores percalços (exceto pelas inexplicáveis esculturas de coelhos antropomórficos que encontrei em uma fazenda perto de Marlow). Fui seguindo por estradas secundárias, trilhas rurais e ocasionais picadas,  parando em pubs locais para as várias refeições de hobbit que um passeio destes requer.
Usem a criatividade

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terça-feira, 4 de julho de 2017

United Club, Aeroporto Intercontinental de Houston
Pegando aviões II





Preciso de muito pouca bagagem para viajar. A minha bicicleta dobrável e o meu laptop quase bastam. A caminho de passar o mês de julho inteiro na Inglaterra, mandei, portanto, a dita cuja para a revisão. Foi quando o dito cujo parou de funcionar.

Por razões complicadas demais para expor aqui, a assistência técnica capaz de me ajudar fica em BH. A uma semana da viagem, levei para lá o paciente, e aproveitei para passar o fim de semana com a família. Mas o reparo só foi concluído no sábado, as vésperas da viagem na 2a.

Após examinar e descartar diversas opções com graus crescentes de heterodoxia, consegui construir uma gambiarra multimodal onde o laptop foi trazido pelo técnico até a casa da minha tia, de onde foi levado por meu pai até a casa do irmão da Indhira, que foi de carro até Juiz de Fora, onde cheguei de ônibus para resgatá-lo no domingo a noite. Cheguei em casa em casa as 5 para uma soneca, e no fundão as 8 para aplicar uma prova. O resto do dia foi a correria jejúnica pré-jornada de sempre enquanto eu tentava terminar tudo que havia sido procrastinado antes de embarcar.

A Linha Vermelha - Imagem meramente ilustrativa
A corrida  do Uber foi merecedora do nome. Passando por alguns atalhos desconhecidos pelo Waze para evitar uma linha vermelha quase parada, fiz o checkin as 19:39. Para um vôo as 20:40. Cujo sistema para de aceitar passageiros com menos de uma hora de antecedência.

Andando com pressa para trocar dinheiro, passar pela segurança e fila de passaporte, acabei indo para o portão errado (distante um dígito e 600 metros do correto). Foi quando ouvi meu nome sendo anunciado.

Não foi a primeira vez que passei por isso. Em geral, quem é chamado é o último a embarcar, sob olhares de reprovação da tripulação de terra e transeuntes aeronáuticos locais. Ou perde o avião.

Fui correndo, mochila pesada nas costas, até o portão. Cheguei esbaforido e semi-coerente, e demorei um pouco para notar que uma nutrida fila de passageiros ainda esperando para embarcar. 'Não precisa correr', disse o atendente - 'Eu lhe chamei por uma boa razão. Você ganhou um upgrade.'

Imagem meramente ilustrativa
Não vou dizer que viajar de classe executiva é o meu sonho aeronáutico. O meu sonho aeronáutico é tocar um sinete e anunciar casualmente: 'Jarbas, prepare o jato'. Mas na falta deste ultimo, aceito a classe executiva de bom grado.

Comer uma carne suculenta e um sundae feito sob medida vale a pena. Vale mais a pena dormir em uma superfície horizontal em um vôo de longa distância.

Pousando em Houston (minha conexão para Londres, por razões complexas demais para explicar aqui), fui o primeiro na fila da imigração, onde fui entrevistado por uma simpática policial ('Graças a Deus você ganhou o upgrade'; 'Então existem físicos que acreditam em Deus? A gente aprende uma coisa nova a cada dia'). Menos simpático foi segundo policial, que na saída do saguão de bagagens me mandou bater um papo camarada no secondary screening com terceiro policial, este positivamente antipático.

Imagem meramente ilustrativa
Aparentemente cético a respeito do meu itinerário, ele me interrogou sobre onde ia, de onde vinha, e digitou o equivalente a meia novela russa em seu terminal de segurança. Ficou encucado com meu capacete, apalpou minha bicicleta, revistou minha mochila, e olhou feio para o meu caderno de notas ('Neuronomicon'), e mais feio ainda para sua capa com o pentagrama circundado por neurônios.

Abrindo o caderno, ele examinou cuidadosamente, página a página, cada equação, diagrama, lista de compras e mapa de RPG. 'O que você faz?' - Perguntou. Mas logo abandonou a linha investigativa após ouvir sobre invariância de escala e neuroanatomia comparada.

Cthulhu Ackbar!
Após mais alguns minutos, ele decidiu que eu não apresentava ameaças a nada além da sanidade alheia, e me liberou para vagar por horas pelo aeroporto até embarcar de novo. Me refugiei no United Club (outra vantagem do upgrade), onde tenho internet, sofá, chuveiro e um buffet de café da manhã/lanche. Trabalhei por alguma horas excepcionalmente produtivas (até decidir postar no blog...). O plano amanhã é, chegando cedo em Heathrow, sair pedalando direto para Oxford. Mas esta é outra história



Não seu guarda, este não é um croqui de Camp David...













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domingo, 10 de julho de 2016

Estação ferroviária, Halmstad, Suécia
Imprevistos e improvisos



Terminada a FENS em Copenhagen, fui pedalar. Para o norte, ao longo da costa leste da (velha) Zeländia. Até a Helsingor dinamarquesa, e de lá por balsa até a sua imagem no espelho, a Helsingborg sueca, nos arredores da qual fica a fazenda em que me hospedaria (couchsurfing!).

Fui na FENS pela manhã. A saída de Copenhagen foi no começo da tarde, atrasado pela mesma chuva insistente que não deu trégua durante toda a semana. Parti finalmente sob chuvisco; mas antes de sair da cidade um vento norte forte, que iria continuar durante todo o dia, limpou as nuvens. Isto tornou o passeio ao mesmo mais agradável (mais seco e fotogênico) e mais penoso (pedalar contra o vento é como subir um morro pouco íngreme, mas que nunca acaba).

O cascalho deve ser só neste trecho

A parte dinamarquesa do caminho inicialmente segue pelo litoral, ao longo de uma auto-estrada, até se separar em uma via dedicada, passando por florestas e vilas pitorescas com telhados de sapé. Após uma breve viagem de balsa (e um novo amigo de facebook e um sanduiche de salmão defumado depois), e cheguei em Helsingborg, uma cidade de aparência agradável, mas que vi só de passagem. Uma dúzia de quilômetros em estradas rurais depois, cheguei na fazenda da simpática família que iria me hospedar: Andreas, Julia e seu filho Alexander de 7 meses. Uma janta, algumas horas de conversa agradável e uma noite bem dormida em cama macia depois, era hora de continuar viagem. Acompanhado pela Júlia pelos primeiros quilômetros (alguns meses de ser mãe em tempo integral em uma zona rural, 
O cascalho deve recomeçar logo após estas pedras...
qualquer desculpa para sair de casa é bem-vinda), o plano do dia era seguir através de uma península até o farol de Kullen, a porta de entrada do mar Báltico, que tem existido de uma forma ou de outra desde o século XIII (anteriormente, e ocasionalmente posteriormente, os locais se sustentavam saqueando naufrágios). O gps me mandava seguir pela estrada que subia suavemente pela espinha central da península. Mas havia uma alternativa possivelmente mais agradável, segundo o mapa: Uma pequena trilha de dois quilômetros beirando a praia, que se liga a estrada principal através de uma conexão perpendicular já bem mais próximo do farol. Era só pegar um desvio em direção ao mar por alguns quilômetros.

Começando em um balneário local, a trilha começa como uma estreita faixa de asfalto a poucos metros do mar. Paisagem de fato agradável... Mas em breve o asfalto deu lugar ao cascalho. Que foi ficando mais grosso e irregular. Só mais um quilômetro, pensei. Não pode ser tão ruim...
Esta trilha não foi feita com bicicletas em mente...



O cascalho acabou em uma picada de pedras irregulares; as rodas da bicicleta escorregavam e era preciso descer e empurrar. Mas com certeza eu retornaria ao cascalho em breve... Certamente não havia como piorar.


As pedras iam se tornando mais irregulares, e a tal trilha neste ponto era mais uma sugestão otimista do que uma via trafegável. Eu me atinha a crença de que encontraria algo mais pedalável após cada curva e pedra. Foi neste estado de espirito em que cheguei na primeira escada escavada na rocha.

Passei os próximos 30 minutos com a bicicleta e toda a minha bagagem nos ombros, subindo laboriosamente cada degrau e tentando manter sob controle a decida de cada barranco, sob o olhar curioso dos ocasionais transeuntes que faziam o percurso sensatamente a pé.

Após enriquecer o vocabulário em português destes últimos com alguns comentários, digamos, contundentes sobre a sua geografia local, finalmente cheguei até um café a beira de praia. Uma praia com uma história um tanto escandalosa, descobri, tendo sido o primeiro lugar na Europa em que homens e mulheres podiam se banhar (vestidos!) juntos. A infâmia era tanta que aparentemente alguns dos visitantes seguiam pela minha trilha até a vila seguinte para que suas cartas não tivessem o carimbo dos correios de tão notório antro de corrupção carnal.

%$¨%#$!

Do café uma estrada asfaltada seguia até a crista da península, subindo em algumas centenas de metros tudo que a estrada principal sobe em alguns quilômetros. Mas pelo menos era a bicicleta a me carregar, e não o contrário.


A chegada ao farol foi, comparativamente, de uma tranquilidade parnasiana. O céu azul e o mar escuro sob o penhasco combinavam agradavelmente. Andei pelas pedras e cavernas, subi no farol, tomei sorvete e me preparei para partir de novo. A parte difícil estava para trás; com o vento nas costas e seguindo um caminho que mais descia que subia, fui pedalando na direção de Angelholm.

O sol brilhava, a brisa soprava e os pássaros cantavam quando, a 27 km da cidade, o aro traseiro da minha bicicleta decidiu se desintegrar. Desgastado por uma pastilha de freio já avançada em idade, cuja borracha havia adquirido a consistência de chiclete após uma semana de operação quase aquática na chuvosa Copenhagen, o aro se partiu em dois ao longo de sua linha média lateral. Eu viajo preparado para consertar quase tudo que pode dar errado em uma bicicleta; mas soldar alumínio ou carregar um disco de 40 cm de diâmetro como sobressalente é além do que sou capaz.

É uma ribanceira, mas pelo menos é asfaltada...

Consegui pelo menos tornar a bicicleta empurrável (mulo de carga nunca mais!), e fui seguindo a estrada até encontrar pessoas. Mediante pedido, uma senhora (bibliotecária aposentada, e nova amiga de Facebook) que passeava com o cachorro me deu uma carona até a loja de bicicleta de Hoganas, onde morava. A loja não tinha um aro do tamanho que eu precisava (podia encomendá-lo em uma semana!); mas em Angelholm era mais provável que eu tivesse sorte.

Fui de ônibus até lá. Já era tarde, e fui direto para a casa da minha host de couchsurfing, uma simpática hiponga da região. Na manhã seguinte, fui até a loja de bicicletas local. Eles tinham o aro, e o conserto ficaria pronto no final da tarde seguinte.
Fui para a cidade seguinte, Halmstad, de trem (as cidades são todas muito próximas, ainda mais pelo caminho direto dos trilhos, se comparado com o costeiro da ciclovia). Conheci a cidade e fui relaxar na praia, antes de me encontrar com o meu host local, um professor de artes márcias e movimento, antes de voltar para Angelholm para recuperar minha bicicleta. Mas me confundi quanto ao horário de fechamento da loja. Já não havia vivalma por lá. Era 6ª, e ela só reabriria na 2ª.
A praia escandalosa!


Fui salvo pela minha host, que fez um crowdsourcing no FB até encontrar o número do celular do dono da loja. Não entendi a conversa que se seguiu entre os dois, em sueco, exceto pelas ocasionais menções a ‘brasiliansk’ e ‘Londonisk’, ou algo assim. Mas o resultado final é que o mecânico da loja, um simpático kosovar chamado Benny, foi abrir a loja as 8 da noite, para que eu pudesse seguir viagem.







Preciso me lembrar de levar equipamento
para solda em alumínio na próxima viagem...
Na manhã seguinte pedalei definitivamente até um pouco além de Halmstadt, passando por Bastad, onde comprei e comi um piquenique pantagruelesco. O meu host me ensinou a preparar panquecas de banana, e conversamos sobre neurociência e artes marciais. Com todo o drama com a bicicleta, acabei perdendo um dia de ciclismo, mas não reclamo. Este tipo de contratempo faz parte deste tipo de viagem, e apesar de tudo as experiências resultantes foram interessantes, mesmo que inesperadas. Quando se viaja sozinho para um pais novo, e propelido pelas próprias pernas, é preciso estar pronto para o inesperado, e para se virar para resolver eventuais problemas que surjam pelo caminho. E, de qualquer forma, eu estava na Suécia, não no vale de Korenghal. O pior que poderia ter acontecido teria sido ser obrigado a chamar um Uber.




PS: No dia seguinte peguei um trem de volta a Copenhagen, de onde voei para Londres, e de lá para Newcastle, onde estou agora. Sem nenhum contratempo. Fico por aqui por 11 dias, trabalhando em uma colaboração científica. 
































[Deletar se nao usado]

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