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domingo, 15 de dezembro de 2013

Guimarães-Twenhöfel Manor, Edinburgh, UK
Catacumbas

Depois de uma semana produtiva em Londres, e antes de voltar para o Brasil, vim passar o fim de semana em Edimburgo. Vim ver meus amigos André e Antonia, que esperam aqui um bebê que pode nascer a qualquer momento. A previsão do tempo indicava temperaturas de 3-9 graus, chuva intermitente e lufadas de vento ('gale force winds'...), um clima considerado extremamente ameno para a estação por diversos dos meus interlocutores locais.

Entrando no clima, literal e figurativamente, desci do ônibus do aeroporto, montei a bicicleta e fui margeando as colinas de Holyrood até o meu hotel. O frio não incomodava tanto, mas o chuvisco era bem irritante, e os ventos irregulares eram até perigosos (lufadas mais fortes quase me jogaram da bicicleta mais de uma vez).

Cheguei são e salvo, porém, e após um chá e um banho, fui para a casa do André. Conversamos, fomos assistir o Hobbit (o consenso: um exagero auto-indulgente que esconde o germe de uma adaptação interessante) e comer a versão local de churrasco (muito bom).

Os desjejuns escoceses são notoriamente substanciais; o do Salisbury Green é considerado exagerado pelos locais. No dia seguinte (i.e., hoje), após haggis, bacon, torrada, tomate e cogumelo fritos, ovos poché, suco, frutas, croissant, queijos e café, fui (lentamente...) me encontrar com outros amigos na cidade. A parte histórica de Edimburgo tende a agregar naturalmente um certo ar de mistério a lugares a princípio perfeitamente mundanos. A arquitetura elegante mas severa, quase sem cores, sugere sempre algo antigo mas ainda presente; e a dimensão vertical (é uma cidade de colinas irregulares) e a profusão de vielas tortas, alamedas e catacumbas várias adiciona um inevitável ar de mistério. O fato é que esta é uma cidade perfeita para se perambular. Perambulamos.

Me despedi dos meus amigos após uma refeição vegetariana um tanto decepcionante (durante a qual agradeci aos céus e a William Wallace pelo café da manhã), e fui conhecer o museu nacional da Escócia.  Talvez o seu artefato mais bizarro seja uma grotesca máscara de couro, com barba e cabelo humano e dentes falsos (?), que era aparentemente usada por um pastor presbiteriano para pregar incógnito em uma época em que o seu secto protestante era, por alguma razão ou outra, ilegal. O que as suas efêmeras congregações achavam dos sermões proferidos por um aparente serial killer não ficou registrado, infelizmente.

Me atendo ao tema, encontrei-me novamente com o André e a Antônia, para visitarmos algumas catacumbas. São várias na cidade, então é preciso ser criterioso. A chamada Gilmerton Cove foi escavada em uma época não determinada no arenito sob uma casa ordinária em uma vila sem distinção. Foi oficialmente descoberta no século 18, quando o dono da dita casa foi preso por usar as catacumbas como pub e vender bebida no domingo. São diversas câmaras e nichos, com mesas de arenito esculpidas na rocha, tuneis misteriosos bloqueados por entulho e a aparência de um local criado para algum propósito bem definido, mas que nos é totalmente misterioso. As
Rola um D20
hipóteses para explicar tal propósito variam do esdrúxulo ao meramente improvável: Locais de missa secreta de dissidentes religiosos, refúgio de cavaleiros templários, antro de vício e covil de bruxos. Nada que me pareça muito convincente.

Acabamos de jantar em um pub fundado em 1380. Daqui a pouco pego o ônibus de volta ao aeroporto. Voo até Londres, passo a madrugada em Heathrow, faço escala em Paris bem cedo pela manhã, e chego no Rio a tarde, mais bagaço do que gente.
 

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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Queen Mary, University of London, Londres
Achados e perdidos

Estou de volta em Londres, por somente uma semana. Vim para uma conferência e para juntar algumas pontas científicas soltas da vinda anterior. Por razões misteriosas, o vôo mais barato* passava por Roma, de onde me conectei por Embraer até o London City Airport, um aeroporto de somente uma pista situado convenientemente a menos de 10 km do college onde estou. Para Londres em dezembro, o clima estava surpreendentemente ameno (i.e., sem chuva), então vim pedalando, margeando o Tâmisa até chegar (ironicamente) ao East End vindo do leste. É uma região de aparência nova e um tanto holandesa, com um teleférico que liga ambas as margens do rio e grandes prédios multifacetados de vidro com propósito vago. Naquelas circunstâncias e clima, me pareceu bastante agradável.

Cheguei ao Queen Mary cedo demais para pegar as chaves do meu alojamento, então fui diretamente até o prédio da escola de ciências matemáticas, comprei meia dúzia de pacotinhos de um ristretto do juizo final, me fiz um duplo com a consistência de mingau e a potência de Red Bull concentrado, e subi até a sala dos visitantes. E eis que, em meio a diversos e silenciosos acadêmicos, vejo a minha antiga mesa, desocupada. Sobre ela, uma pequena caixa preta.

Logan, a mosca
É preciso fazer agora uma pequena digressão. Na minha última visita, durante o verão local, estava eu certo dia sentado nesta mesma mesa, quando uma enorme mosca começou a me orbitar. De forma quase instintiva, estabeleci logo um diálogo entre filos por meio de uma cacetada com um bloco de anotações enrolado. A mosca se estatelou no chão, e por lá ficou. Fim da história, pensei eu. 

Porém, alguns minutos depois, vejo que ela ainda se mexe debilmente. Em menos de uma hora ela já agitava as pernas de forma mais coordenada. Pouco depois, ela se pôs de pé, e começou a alisar as asas, e logo em seguida já me orbitava novamente.

A cacetada seguinte fez todos na sala, e na vizinha, pararem o trabalho e esticarem o pescoço para ver o que estava acontecendo. Sobrancelhas foram levantadas. O corpo da mosca já não se via mais, presumivelmente desintegrado.

Logan e sua vítima
No dia seguinte, ao chegar, a encontro bem viva sobre o bloco de anotações com o qual eu tentara matá-la. Se era um aviso ou sinal de perdão eu não sei, mas achei melhor não insistir. A mosca, agora apelidada de Logan devido ao seu fator de cura, me orbitou por mais algum tempo, e depois sumiu.

No dia seguinte, no batente externo da janela, vejo um pombo morto. Ao seu lado, Logan. Me lembrei de Mario Puzzo e Francis Ford Coppola, e resolvi definitivamente deixar a mosca em paz pelo resto da minha estada em Londres.

A caixa que encontrei ontem continha um par de óculos escuros. O *meu* par de óculos escuros, que eu havia concluído por exclusão terem sido perdidos no Museu Britânico. Não sei como foram parar na minha mesa, pois me lembro de os haver procurado, sem sucesso, no dia em que fui embora. Quero crer, porém, que o seu reaparecimento foi um gesto de reciprocidade.

Ainda não vi o meu amigo díptero desta vez. É dezembro, afinal, e faz frio. Porém, se existe um inseto capaz de sobreviver ao inverno londrino, é Logan, a mosca.




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* Alitalia, que supostamente era uma sigla para 'Arrived late in Turin, all luggage in Arezzo', mas que se mostrou bastante decente.

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sábado, 12 de novembro de 2011

Mount Vernon Convention Center, Washington DC
Save Ferris

Eu conheci o Anthony quando vim para o SfN em Washington pela primeira vez, a 3 anos atrás. Eu precisava de um lugar para ficar, e enviei meio a esmo um pedido para me hospedar na casa dele logo após criar uma conta no Couch Surfing.

Eu não tinha referências, amigos ou histórico no site, mas por qualquer razão ele aceitou o meu pedido. Ficamos amigos, e neste ano ele veio (foi...) ao Rio, onde eu organizei um coloquio no qual ele ensinou os rudimentos da linguagem de programação R para o povo da biologia. Quando mencionei que iria novamente à Washington para outro congresso, ele me convidou novamente para ficar na casa dele. Novamente, eu aceitei.

O Anthony acaba de comprar um apartamento. O que significa que seu apartamento antigo (alugado) está vago até o final do mes. Estava, porque estou lá instalado, a dois quarteirões do centro de convenção. Nada de um sofá na sala de outrém: Tenho o apartamento só para mim.

No dia em que cheguei, o Anthony também me convidou para jantar na sua nova casa. Conheci lá um colega dele chamado Matthew. Ao ouvir eu mencionar casualmente os meus hábitos ciclísticos, ele prontamente ofereceu sua bicicleta reserva, para eu usar enquanto estivesse aqui. Claro! Fui pegar a bicicleta no dia seguinta, e fiquei sabendo que a sua namorada estava dando uma festa celebrando a chegada de sua nova roomate. Eu não gostaria de ir? Fui, e encontrei diversas pessoas simpáticas e interessantes. Terminei a noite em uma profunda discussão sobre o significado epistemológico das coincidências para a teoria da evolução de Darwin.

Entre apartamentos, bicicletas, jantares e festas, estou com uma sensação um tanto Ferris Bulleresca, com pessoas que vou encontrando fortuitamente tornando a minha vida mais facil e confortável espontaneamente, sem nenhum esforço significativo (ou mesmo pedido) da minha parte. Acho que poderia me acostoumar com isto...

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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Embassy Row Hotel, Washington DC
O número 1 é o sucessor do número 0!

Hoje, as 11:11 do dia 11/11/11, a unicidade do número 1 será comemorada com a leitura dos axiomas de Peano sob a sombra do monumento a Washington.



  • 1. Existe um número natural 0;
  • 2. Todo número n tem um sucessor n' no conjunto dos números naturais (\mathbb{N})
  • 3. Não existe nenhum número natural que tenha como sucessor o número 0;
  • 4. Se n e m forem números naturais, e se n'=m' então n=m ;
  • 5. Se 0 tem uma propriedade e esta propriedade também é possuida pelo sucessor de todos os números naturais que a possuem, então ela é possuída por todos os números naturais.

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro
O Fim dos Tempos, explicado

Cheguei no Rio ontem de manhã, para uma reunião e para resolver alguns problemas. Parto hoje, assim que a Webjet conseguir acordar o piloto do seu torpor alcólico ou recauchutar o pneu furado do trem de pouso. Sou um otimista por natureza.

Sai de casa hoje muito cedo (para quem acorda), ou muito tarde (para quem ainda vai dormir), e andava pela Ataúlfo quase deserta a procura de transporte quando vi duas moças, bastante apresentáveis e obviamente bêbadas, descendo de um taxi alguns metros a frente. Entrei em seguida. O motorista, que parecia o cruzamento entre o Groundskeeper Willie e o Woodie Allen, decidiu que não bastaria simplesmente me levar ao meu destino; era preciso me entreter com suas palavras de sabedoria. Após interpretar corretamente meus grunhidos como 'Santos Dumont, por favor', ele emendou:

"Tá vendo estas duas ai? Gostosas paca, e provavelmente passaram a noite inteira bebendo por ai. E nenhum homem para chegar perto e pirocar as duas! Enquanto isso ficam os caras na Lapa esfregando lingua uns nos outros. É por isso que o mundo tá assim... É o apocalipse, entende? Eu li sobre isso... A chuva em Teresópolis foi o começo. Eu quero ver quando a agua começar a subir no Leblon, em Ipanema, em Copa... Aí eu quero ver!"
O monólogo continuou com variações sobre o tema. Deus obviamente está insatisfeito com a não-pirocação de donzelas bêbadas pelos representantes da masculinidade carioca. A escolha da região serrana como objeto imediato da sua ira era óbvia e natural, por razões que me escapavam no momento, possivelmente devido ao sono.

Apesar da temática, conseguimos chegar no aeroporto (bastante rápido; ele queria receber pela corrida antes que as trombetas soassem) sem incidentes mais graves do que um retrovisor trincado e algumas palavras inamistosas trocadas com um motorista de ônibus. Agora é só esperar alguém decidir por qual portão se dará o embarque, e torcer para que a tripulação não seja arrebatada para junto de Deus durante o vôo.

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quarta-feira, 2 de junho de 2010

NACO, Rio de Janeiro
Aforismo do dia

"Fatos são infinitamente maleáveis, mas verdades são invariantes topológicos"


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sábado, 2 de maio de 2009

Sítio da Júlia, Morro Vermelho
Resistere nugatorium est

Estou aqui em retiro pani-etílico-espiritual com diversos outros físicos, para comemorar os 10 anos da turma de 1999 da Física/UFMG. Não, não é a minha turma, mas é dai? Festa é festa. Da minha parte, encontrei um monte de gente que não via a tempos, e me lembrei porque gosto tanto deste povo. Ajudei o Breno a fazer pão e a Indira a subir no telhado, e discuti com o Costela os paralelos (surpreendentemente próximos) entre redes neurais e o modelo de Ising com uma definição generalizada de primeiros vizinhos. De forma mais geral, os eventos até agora, de forma absolutamente típica, oscilaram entre o inacreditável e o impublicável, então não vou escrever mais a respeito, pelo menos até aparecerem fotos. Mas entre um copo de coca e outro os meus pensamentos começaram a divagar, o que me leva naturalmente ao seguinte:

O príncipe Pirro, de Épiro, já havia sido comparado a Alexandre, o grande, devido a aparência física, habitos festeiros e habilidades militares de ambos. Quando aportou em Taranto, na Itália, com seu altamente eficiente exército de armas combinadas semelhante aquele com que os macedonios conquistaram todo o mundo conhecido ao leste da Grécia, provavelmente achou que o oeste seria ainda mais fácil. Na Itália, tinha pela frente somente algumas cidades estados na Etrúria, tribos montanheses esparsas no Apeninos, e uma peculiar cidade no vale do Laccio, pouco renomada mas com a fama de belicosa. Uma tal de Roma.

Na primeira batalha, as coisas correram bem para Pirro. Seus elefantes colocaram em fuga as tropas romanas. Os lideres destas últimas foram mortos, e os remanecentes de seu exército ('legiões', na sua peculiar nomeclatura) por pouco escaparam da aniquilação. Pirro continuou marchando, para receber a esperada rendição da cidade... E encontrou outro exército, idêntico ao anterior. A batalha subsequente foi renhida. Os tais romanos haviam adaptado suas táticas. O exército epirota sofreu grandes perdas antes de finalmente vence-los, e o nome de Pirro ficou para sempre associado a este tipo de custosa vitória tática que não leva a vantagens estratégicas. Porque enquanto aos epirotas após as duas batalhas faltavam homens para guarnecer suas conquistas e continuar a campanha, as cidades conquistadas por Roma se encarregavam elas mesmas de fornecer homens para formar um terceiro exército, idêntico aos anteriores, mas um pouco mais adaptado para enfrentar seus novos inimigos. Roma não simplesmente conquistava seus inimigos, ela os assimilava. Piro se lembrou que havia deixado o forno ligado lá em Épiro, e pegou o primeiro navio de volta.

Algo semelhante aconteceu durante a primeira guerra púnica (contra Cartago, cidade de origem fenícia no norte da África). Roma não tinha absolutamente nenhuma tradição náutica, enquanto Cartago era a potencia naval dominante no Mediterraneo ocidental. Mas uma briga pelo controle da Sicília forçou os romanos a contruirem, a um grande custo, uma frota. Que foi prontamente afundada pelos calejados cartagineses. Os romanos construiram então uma segunda frota. Que afundou em uma tempestade. E uma terceira. E uma quarta. Com cada frota que perdiam, aprendiam um pouco mais. E construiam outra. Até que, eventualmente, os romanos adaptaram um tipo de gancho ('corvus') com o qual podiam prender o o costado dos navios inimigo de encosto aos seus, transformando uma batalha naval de manobra em uma batalha terrestre sobre uma plataforma flutuante, mas estática. As mesmas espadas (gládios, adaptadas da Espanha) que causaram tanto estrago junto aos epirotas fizeram rapidamente sashimi cartaginês, e os romanos tiveram sua primeira vitória naval. Em pouco tempo, os catarginese pediram a paz. A Sicilia era romana.

Na segunda guerra púnica, Roma enfrentou um dos maiores gênios militares do mundo antigo, Anibal, que inflingiu seguidamente derrotas acachapantes às legiões. Mas, novamente, após cada derrota Roma produzia de alguma forma um novo exército, e aprendia um pouco mais. Até que, finalmente (e estou pulando uma história bastante complicada, c.f. a 'História' de Políbio), em Zama, a algumas léguas de Catargo, um exercito romano sob o comando de Scipio Emiliano venceu o exército de Aníbal. Cartago foi completamente derrotada, e perdeu sua frota e suas colônias. A terceira guerra púnica foi quase um anti-clímax; o senado romano decidiu simplesmente que Cartago, embora não oferecendo qualquer perigo imediato, poderia concebivelmente causar problemas no futuro. Cartago precisava ser destruida. Cartago foi, portanto, destruida. Algumas gerações depois, uma cidade planejada, ao estilo romano, foi construida no lugar.

O ponto saliente a respeito desta história não é afirmar que a Roma republicana era uma cidade totalmente psicopata (embora isto seja verdade também), mas sim demonstrar a sua capacidade única de se adaptar após suas derrotas, e de assimilar seus inimigos. Estes últimos poderia vencer de primeira, e de segunda, e de terceira. Mas os romanos não paravam, não desistiam, não mudavam de ideia. Os romanos continuavam vindo, se adaptando ao que quer que fosse jogado contra eles, até que seus inimigos fossem vencidos, conquistados e assimilados. Algumas gerações depois, os netos dos derrotados marchavam novamente, desta vez sob as águias das legiões, como cidadãos romanos ou ao caminho de sê-lo.

Os romanos eram os Borg da idade do ferro. Não tinham laseres na cabeça, e formavam quadrados de infantaria, não espaçonaves cúbicas. Mas o princípio de ambos era o mesmo. Avançar inexoravelmente, se adaptar, e assimilar. Resistere nugatorius est, diriam.

Roma, até onde eu sei, não era uma hive-mind cibernética. Mas era uma república com uma noção ampliada da antiga cidade-estado, onde aos conceitos de cidadania, e as concomitantes responsabilidades e liberdades cívicas, eram extensiveis (eventualmente, mas certamente não automaticamente) aos povos conquistados. Esta era a grande diferença entre o império romano e (por exemplo) o império marítmo ateniense. Enquanto no primeiro celtas e macedônios
podiam aspirar a eventual cidadania, no último nem mesmo gregos livres de outras cidades podiam, exceto em circumnstâncias excepcionais, jamais se tornar atenienses.

No final, Roma não caiu porque foi soterrada por uma maré bárbara, mas porque ao longo do império o velho militarismo cívico foi se esvaindo, enquanto instituições e valores republicanos eram substituidos por um despotismo mais tradicional. Ser um cidadão romano, a base da república, perdeu seu significado, e seus atrativos. Quando imperadores divinizados se alternavam como presidentes-perpétuos em uma republica de bananas, e o senado e magistrados eram puro mis-en-cene decorativo, lutar por Roma era uma questão para soldados profissionais cada vez mais indistinguíveis de mercenários, e leais a seu soldo, não à abstrações cívicas vazias.

Durante a 2a guerra púnica, a república romana teve um exercito destruido em Cannae, e prontamente produziu outro. Em Adrianópolis, uma derrota igualmente acachapante para a cavalaria Gótica* levou o império a efetivamente se render (subornando os Godos para que não saqueassem Constantinopla) e a abandonar o formato de legiões centradas na infantaria (onde cidadãos livres marchavam em formação e dependiam de um do outro para proteção) por outras menores centradas em cavalaria (onde nobres cavalgavam juntos mas tinham meios indendentes de picar a mula se o bicho pegasse). Se passariam quase mil anos antes que alguma força de infantaria europeia fosse capaz de enfrentar e vencer um ataque de cavalaria (apropriadamente, quadrados de lanceiros suiços, cidadões livres de cantões independentes). Quando Atila (o Huno, em oposição, suponho, a Átila, o Coreano) estava as portas de Roma, a cidade de 500.000 habitantes não foi capaz de produzir um exército de cidadãos para defende-la. O Papa da época acabou salvando o dia, e Roma não caiu neste dia. Mas a republica romana já estava morta e enterrada havia muito tempo.


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* I.e., formado por godos, não por adolecentes soturnos com maquiagem preta.

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segunda-feira, 23 de março de 2009

Casa, Rio de Janeiro
Deus ex Machina

Pai, filho e espirito santo

Eu não costumo fazer resenhas neste blog (tecnicamente, o que se segue não é exatamente uma resenha, mas é próximo o suficiente para merecer o comentário). Mas ontem (hoje...) fiquei a madrugada inteira baixando e assistindo o último episódio de Battlestar Galactica, a minha série de TV favorita. Muita gente diz que é dificil explicar porque BSG é tão bom. Eu discordo! Diria que o seu apelo vem da combinação de honestidade temática, plausibilidade estética e foco nos personagens, e de evitar os Scylla e Charybdis da alegoria e do niilismo. O dificil é convencer quem nunca a viu que uma série com o tema e pedigree da BSG pode ter estas qualidades. Eu explico...

A nova BSG (iniciada em 2004) é uma iteração de uma série um tanto baranga com o mesmo nome do final dos anos 70*. A premissa é a mesma: humanos habitantes das '12 colonias' são atacados por suas antigas criações cibernéticas, os cylonios. Os sobreviventes fogem em uma frota improvisada, liderados pela titular Galactica, a procura de um lugar mítico chamado 'Terra'. A nova BSG mantém ainda a maior parte dos personagens principais (com ligeiras alterações em alguns casos, tais como o sexo [+ mulheres], incidencia de alcolismo [+ pinguços], gosto musical [- disco fever, + Bob Dylan] e a propensão ao homicidio [+ psicoticos]). Com o tempo a série vai criando uma mitologia original bastante intrincada e interessante.

Ficou mais claro agora?

Lendo o parágrafo acima, mesmo quem nunca viu qualquer uma das duas já deve ter adivinhado que a série nova é um tanto mais sinistra e sombria que a original. De fato, enquanto nesta última os refugiados sofrem um holocausto em um episódio e já estão se engraçando com as locais em um cassino interestelar no seguinte, a série nova explora de forma implacável (e, em alguns casos, bastante original) as implicações do genocidio, e dos concomitantes colapso social, penúria e paranoia (alguns cylonios agora têm aparência humana).

Ao longo de 4 temporadas, BSG manteve esta honestidade temática, ao mesmo tempo em que evitou o terreno pantanoso da alegoria, se tornando assim a melhor abordagem ficcional do espirito pós-11 de setembro. Nas últimas temporadas, a temática foi mudando naturalmente para os elementos de ficção científica intrinsecos da série (o ciclo de criação-conflito-destruição entre humanos e suas criaturas, entre outras coisas).

Ao mesmo tempo, e ao contrário de muitas séries de ficção científica, o foco da série se manteve nos personagens, e não nas tecnicalidades. Os elementos fantásticos, tais como vida artificial e saltos pelo hiperespaço, criam situações novas e interessantes para serem explorados pelos personagens, e não o contrário. Personagens que, no caso, são quase excessivamente humanos: Eles mudam, aprendem e esqueçem, e fazem bobagens e barbaridades inomináveis uns com os outros. Dada a situação em que se encontram, isto implica em uma narrativa bastante sombria. Mas, talvez exatamente porque são tão humanos e falívies, e porque a série evita o niilismo puro e simples, é criada uma empatia real com os personagens. Nos queremos que as coisas se acertem, ao mesmo tempo em que estamos cientes da possibilidade de que elas dêem errado, e sabemos que o Tyrol não vai usar as nasceles de dobra para modular um feixe de tachyons para estabilizar a anomalia espaço-temporal e salvar a situação no último segundo.

Um último ponto: BSG é visualmente linda. Os efeitos especiais e o desenho de produção são competentes, bem aplicados e tematicamente consistentes. Isto pode parecer secundário se o foco é, como eu afirmo, nos personagens e não nas explosões; mas na verdade cumpre um papel fundamental em uma obra de ficção científica, que é estabelecer de forma plausível a existência de um mundo coerente para além do foco da camera. Além disso, só quem tem um coração de pedra ou de silicio é incapaz de apreciar uma batalha espacial bem feita, e BSG tem algumas das melhores cenas do tipo já filmadas (a Galactica caindo na atmosfera de New Caprica...)

Bom, acabei não falando muito do episódio final [SPOOOILERS....] . O Ron Moore, criador da série, explica um pouco as coisas aqui, e boas resenhas podem ser encontradas aqui e aqui. Digo somente isto: Gostei, gostei bastante, e me surpreendi por gostar tanto. Digo isto porque BSG até então só raramente havia apelado para dii ex machinis** para resolver situações espinhosas, e no entanto terminou com a enfática aplicação da expressão, literal e figurativamente. Mas a influencia divina acabou se mostrando surpreendentemente natural. Deus (o Anders?!) e seus anjos (head 6 e head Baltar) mais influenciam do que interveem diretamente nos eventos, e as escolhas feitas por humanos e cylonios continuam sendo o motor principal da estória. Alem disso, a temática religiosa e instâncias desta influencia manifesta já haviam se tornado parte integrante da mitologia da série, de modo que o seu uso final não ficou parecendo (muito) marmelada ou evidência do desespero dos roteiristas (imagine se no último minuto o Arcanjo Gabriel descesse do céu ao som de um coro de querubins e desarmasse a bomba para o Jack Bauer? Ou reconciliasse o Ross e a Rachel?!) Finalmente, através de suas escolhas a respeito do que revelar e do que deixar misterioso***, o episódio final uniu de forma eficiente e satisfatória a mitologia da série e a Mitologia dentro da série. Em retrospecto, a trajetoria da série, e de seus personagens, continuam fazendo sentido, agora inseridas no contexto de tal plano divino de acabar com o ciclo de conflitos. Depois de tanto tempo, os personagens de Galactica, incluindo a própria, mereciam um final que encaixasse (quase) todas as peças soltas, e terminasse em uma nota de otimismo cauteloso. E creio que é isto que tiveram.

PS: O Fernando também escreveu uma quase-resenha (com s, não z :^$ )

PS2: A reação da Casa Branca...

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* BSG2004 não é um clone melhorado de BSG1978. Se tivesse que defini-la de forma genealógica, diria que BSG2004 é o filho mutante de BSG1978 com Star Trek TNG/DS9

** A expressão (romana) significa deus(es) saido(s) da máquina, e se refere ao uso teatral (grego) da intervenção divina (ou, de forma mais geral, de algum elemento de fora da estória) para resolver situações espinhosas. Tradicionalmente os tais deuses eram baixados no palco por um guincho, dai o termo.

*** Fora as questões obvias sobre o panteão Moorico (quem são Deus-que-não-gosta-de-ser-assim-chamado? Starbuck? Head 6, Baltar e o Pianista?), poderiamos nos perguntar como a Starbuck ressucita duas vezes com seu viper (Isto que é piloto...), o que aconteceu com o Anders, e como diabos a nova Terra tem seres humanos. E qual o profundo significado cósmico de 'All along the Watchtower'. São vários os momentos 'What the Frak?!' neste episódio, mas o seu (relativamente reduzido) número e (instigante) qualidade os impedem de arruinar o episódio, e, em retrospecto, a série.

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terça-feira, 26 de agosto de 2008

Casa, Rio de Janeiro
"Eu não sou padre, pajé, juiz ou profeta..."

"...Sou um físico com interesses ecléticos que ocasionalmente fala de si mesmo na terceira pessoa". Mesmo assim, a Suzana (minha chefe) e o Carlos me pediram para celebrar o casamento deles este último sábado ("para minha enorme honra e eterna perplexidade"). Como gosto muito dos dois, aceitei; mas passei uma semana inteira em silencioso pânico, sem saber o que diabos dizer. Não era o medo de fazer algo de forma errada, era o pavor de não saber nem o que este 'algo' seria exatamente. Aos poucos, fui estruturando minha 'homilia' (é difícil evitar a terminologia tradicional: 'altar', 'congregação', etc.) de modo a responder três perguntas que ao meu ver eram o cerne da questão: 1) O que é casamento; 2) Porque a Suzana e o Carlos resolveram se casar; e 3) Porque sou eu a celebrar o casamento? A medida que as respostas iam se delineando, o texto praticamente se escrevia sozinho. Algumas referências aos habitos matrimoniais no Cáucaso, às noivas masai, ao Douglas Adams e ao Cthulhu depois (bem de leve este último), e alguns minutos após o horário-limite para sair de casa, o 'sermão' estava pronto. Não o reproduzo na íntegra abaixo, mas eis a, digamos, digressão antropológica a respeito dos hábitos matrimoniais mundo afora:

UPDATE: Atendendo aos pedidos, as referências ao Hitchiker's e ao Cthulhu seguem no final do post

Um casamento pode ser um contrato legal; um acordo informal; um sacramento divino, um instrumento de perpetuação dinástica ou um tratado de paz. Pode ser celebrado por religiosos, juizes, burocratas ou líderes tribais. Pode ser acordado entre os cônjuges, ou entre seus familiares ou conterrâneos. Em alguns casos, o casamento é pré-requisito para a procriarão; em Bali, a gravidez é o pré-requisito para o casamento. As vezes, o que precede o quê é objeto de intensa controvérsia.

Na Índia, as mães e sogras selecionam, ou pelo menos sugerem, os futuros casais. No Sahel, as primeiras esposas escolhem as segundas esposas para os maridos. As noivas Masai só encontram seus noivos na cerimônia, enquanto no Nepal jovens crescem conhecendo seus pares desde a infância. No Cáucaso as noivas são cerimonialmente seqüestradas; seus familiares masculinos partem cerimonialmente em vingança; e o casamento ocorre após uma troca igualmente cerimonial de ameaças e a negociação do preço de um dote bastante real. De fato, segundo Tito Lívio a primeira geração de romanos conseguiu suas esposas sequestrando-as de uma tribo vizinha, os Sabinos. A guerra entre maridos e pais enfurecidos só foi evitada quando suas esposas e filhas, carregando seus filhos e netos, se interpuseram entre os beligerantes. Carregar a noiva através do batente da porta era originalmente um símbolo deste rapto primordial.



Só faltava colocar o terno (pela 2a vez na minha vida), e repetir de forma inteligível o que eu havia escrito perante algumas centenas de familiares e amigos dos noivos, que provavelmente se perguntariam porque eu estaria falando de Tito Lívio e 'simetrias sutis'. Mas no final, tudo deu certo. Fiquei calmo, os noivos gostaram, os convidados (aparentemente) gostaram, e eu gostei. Acho que a minha situação era tão inusitada que os mecanismos de pânico pleistocênicos implementados no meu cérebro simplesmente não souberam o que fazer, e decidiram, frustrados, tirar o dia de folga. Foi um casamento bastante pouco ortodoxo (como provavelmente já deduziram meus leitores mais argutos, dada a escolha do celebrante), concebido do começo ao fim pelos noivos, e muito bonito (já mencionei que gosto muito deles?).

UPDATE: A seguida, outro trecho que faz as referências ao Hitchiker's e Cthulhu:
O Universo se organiza em inúmeros padrões instigantes e simetrias sutis. Estes padrões e simetrias, em última instância, pagam o meu aluguel; mas não implicam que o cosmo seja totalmente inteligível. De fato, existe uma teoria segundo a qual se alguém algum dia entender o que é e para que serve o Universo, este ira imediatamente ser destruído, e algo muito mais confuso e ininteligível tomará o seu lugar. A quem diga que isto já aconteceu. Eu não sei como exatamente Deus, o Universo, o grande Cthulhu ou a Mãe Natureza querem que as coisas aconteçam. Mas eu sei o seguinte: Por mais incompreensível e ocasionalmente hostil que seja o Universo, nós criaturinhas dentro dele temos escolhas. Viver ou não viver, abrir ou fechar os olhos, ir para frente ou ficar parado no escuro. Nós estamos aqui hoje porque estas duas pessoas resolveram dar este passo. Elas decidiram, livremente e de acordo com sua própria consciência, que são uma benção um para o outro; que querem estar juntos, e ficar juntos, e juntos aproveitar e enfrentar o que a vida tiver a oferecer. Esta não é a escolha de duas famílias ou tribos, ou a imposição de algum Deus impessoal. É a escolha de dois indivíduos que se amam, e que escolheram celebrar este amor na companhia de seus pais, filhos, familiares e amigos. Olhem em volta. Vocês verão pessoas de todo o tipo, idades e opiniões. Mas além da nossa humanidade compartilhada, o que nos une é que todos nós gostamos imensamente da Suzana e do Carlos. Nós queremos que eles sejam felizes, e nos queremos vê-los felizes. É por isto que estamos aqui.

Eu não sou padre, pajé, juiz ou profeta. Sou um físico com interesses ecléticos que ocasionalmente fala de si mesmo na terceira pessoa. Carlos e Suzana me escolheram para celebrar este casamento, para minha enorme honra e eterna perplexidade. Mas acima de tudo, eu sou amigo. De ambos. Gosto deles por mais razões do que tenho tempo de enumerar. Eu fico feliz porque eles estão felizes. E é por isto que eu estou aqui.

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domingo, 27 de julho de 2008

LNAC, UFRJ, Rio de Janeiro
40 toalhas brancas, uma banheira com champanhe e um piano de cauda

Não foi minha primeira participação aleatória em video. Mas não havia como não ficar surpreso quando cheguei em casa na 6a e encontrei uma nota dizendo que a 'TV Globo' queria falar comigo. Além da sensação cyberpunk de ser objeto de atenções de uma entidade incorpórea com ramificações eletromagnéticas em todos os domicílios do país, fiquei obviamente me perguntando o que diabos eles queriam comigo. Uma entrevista para o Fantástico, esclareceu a moça do outro lado da linha.

No dia seguinte, exatamente no horário combinado, chega lá em casa uma equipe assustadoramente eficiente (a sensação cyberpunk de novo...), liderada pelo tal Zeca Camargo (que incidentalmente se mostrou extremamente simpático). O resultado pode ser visto abaixo:


Eu realmente falo assim?!

PS1: O livro que leio (ou finjo ler) é o Reed-Simon de Análise Funcional. Era o que estava mais à mão, graças a uma controvérsia com o Sandro a respeito de medidas de Lebesgue.

PS2: A Ceci ficou revoltadíssima que escolhi logo um prato lascado para servir o salmão. Foi mal...

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terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Limbo, Aeroporto de Confins


Vim para BH no domingo, de sopetão, para ficar com o meu pai, que sofreu um descolamento de retina no sábado (ele está se recuperando bem). Deveria voltar hoje, e de forma pouco caracteristica cheguei aqui no aeroporto de Confins com quase 40 minutos de antecedencia. Só para descobrir que nenhum avião decolou ou pousou nesta birosca desde 12:00 dia. Supostamente um raio caiu no Cindacta, e paralisou todo o trafego aéreo do sudeste. Sei. Imagino que os raios queiram um aumento, afinal descargas elétricas atmosféricas cumprem um papel inportante na natureza.

Aparentemente o CINDACTA1 está de pé novamente. Pousos e decolagens estão novamente autorizados em todo o pais, e os aviões que estão no solo já começaram a decolar. O aparelho em que eu deveria voar faria Rio-Vitória-BH-Rio. Ele ainda está no Rio, então mesmo com o Homer Simpson fora do CINDACTA as minhas perspectivas ainda não são boas. Estou pensando seriamente em voltar à civilização e pegar um ônibus para o Rio. A não ser que um raio tenha caido na policia rodoviária ou algo assim.

UPDATE1 [18:01]: As decolagens estão autorizadas somente com intervalos de 20 minutos (e não os usuais 5). A historia do raio parece ser só boato, a causa oficial é uma pane não-especificada.

UPDATE2 [18:13] Todos os aviões que já estavam aqui no solo ja decolaram. Mas ainda não há perspectiva de pouso (quanto mais decolagem) para os demais. Argh!! Acho que vou para a rodoviaria mesmo. Segundo minhas estimativas, devem ter pelo menos uns 10 voos atrasados no Rio antes do meu. Mesmo se a etapa de Vitória for cancelada, com 20 minutos entre decolagens isto corresponde a 3 horas de espera no Rio, 1 hora de vôo até BH e 1 hora até o Rio. Total de 5 horas...

UPDATE3 [18:39] Vou para a rodoviária comprar passagem. No Rio um vôo que deveria sair as 10:15 ainda não decolou.

UPDATE4 [19:58 do dia seguinte] Estou no Rio, depois de viajar a noite toda de onibus. Acho que fiz a escolha certa, já que os vôos continuam atrasando e os passageiros já começaram a apelar para o canimbalismo. As autoridades já trabalham para sanar o problema, e redefiniram 'atraso' como sendo algo que ocorre mais de 1.5 horas depois do horario previsto. Eu sinto orgulho do incrível talento Brasileiro para criar soluções semânticas para problemas concretos.

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sábado, 4 de novembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
O que ele tem noss bolsosss?

Há quem pense que charadas são domínio exclusivo de vilões de HQs e Hobbits viciados em artefatos mágicos. Indo contra o esteriótipo, alguns anos atrás o Bernardo Esteves me desafiou com uma charada que eu não consegui resolver. Hoje ele postou esta mesma charada no blog dele. E mesmo assim ainda não resolvi a desgraçada! Mas no esforço acabei inventando duas novas charadas, uma delas inspirada diretamente por uma das minhas tentativas fracassada:

Para trás!
Erga-se!
Justifica o perdão? Notável!
(1,3)

Avistei
aquele que anda devagar
mas com ardor.
(1,3)


A regra é simples. Cada linha corresponde à uma palavra, sendo que a terceira é formada pela junção das duas primeiras, cujo número respectivo de sílabas é indicado entre parênteses.

PS: Eu ia postar a mensagem acima no blog do Bernardo, mas quando tentei recebi a seguinte mensagem:

We apologize for the inconvenience, but we are unable to process your request at this time. Our engineers have been notified of this problem and will work to resolve it.

Então tá bom!

SPOILER! O Pedro resolve a 2a charada nos comentários abaixo, e a Juliana (postando como anônimo) resolveu a 1a.

PS2: Resolví a charada do Bernardo! My mission here is now complete...

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domingo, 8 de outubro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Brainjuice


Eu conheci a Suzana, minha amiga neurocientista, no Candogueiro, uma roda de samba em Niteroi. Enquanto o Bernardo, a Carla, a Ceci e nossas hospedes francesas aproveitavam a cerveja e a música, eu e a Su berravamos animadamente um com o outro, eu explicando como o universo poderia ter uma topologia não trivial dobrando guardanapos em faixas de Möbius, ela me contando como fazia sucos de cérebro de várias especies de roedores para poder contar o número de neurônios e glia*

Com o tempo, ela foi ficando muito amiga nossa (sim, somos capazes de discutir outros assuntos). E quando a Ceci não estava por perto, ou as vezes quando estava, continuavamos a falar de sucos de cérebro.

Simplificando bastante (afinal o neurocientista não sou eu), o cerebro e suas várias estruturas são formados por dois tipos de células: os neurônios, que se interconectam para processar e transmitir informação, e as glia, que provêem os neuronios com suporte físico e serviços gerais de vários tipos. A Su inventou um método para fazer o tal suco de cérebro, e contar (por amostragem) quantos neurônios e quantas glias existem em cada pedaço dele. Ela descobriu que para os roedores adultos (que vão desde um musaranho do tamanho de um dedo até uma capivara), a massa de cada estrutura cerebral (cortex, cerebelo e a rapa) é proporcional ao numero de ambos os tipos de célula elevado a um expoente.

Leis de potencia são interessantes, entre outras razões, porque não tem um comprimento característico, são invariantes por escala. Obviamente cérebros não tem tamanho arbitrário, mas o que este resultado sugere é que todos os cérebros seguem uma mesma receita, que depende só do seu tamanho.

Conversa vai, conversa vem, e combinei de dar uma olhada nos dados dela. De uma olhada começei a fazer umas contas, das contas a tirar conclusões, e um dia me surprendi como colaborador no trabalho...

O meu problema era o seguinte: Sabiamos como o numero de celulas de cada tipo variava com o tamanho do cérebro, mas não havia maneira confiavel de saber o que acontecia com a massa média individual de tais células. Será que dava para calcular estes valores teoricamente, usando as leis de potência já conhecidas? No final das contas, descobri que sim, se assumisse (o que é bastante razoável) que as massas médias seguiam algum tipo de lei de potência também. É uma conta simples, mas as conclusões são interessantes. Em primeiro lugar, a massa média dos neurônios cresce muito quando o cérebro aumenta de tamanho, enquanto a massa média das glia permanece quase constante. Além disso, a razão entre as massas totais de células neuronais e não neuronais permanece fixa em cerebros (de roedores!) de qualquer tamanho. Isto indica que um neurônio em um cérebro grande faz muito mais coisas que seus provincianos colegas habitantes de cerebrinhos; para um glia por outro lado, pouco importa em que tipo de cérebro ela vive; elas parecem servir como uma especie de andaime, cada uma sendo responsável por uma quantidade quase fixa de massa neuronal.

No final, de colaborador virei co-autor da Su e do Roberto Lent, em um artigo na PNAS. Como toda pesquisa interessante, o trabalho deu origem a muito mais perguntas do que respondeu. A Su já começou a trabalhar com cérebros de primatas. Eu quero entender como varia o comprimento dos axônios, e qual a contrinuição deles para a massa neuronal, mas tenho que terminar minha tese (lembra dela?) antes. Tem muita coisa ainda para estudar; o objetivo da Suzana é descobrir a receita de bolo para construir um cérebro mamifero. A minha função é calcular exatamente quantas xícaras de farinha e quantos ovos serão precisos para isso.
_________________
* Simplificando um pouco. Células não-neuronais, para ser mais preciso.

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quinta-feira, 13 de abril de 2006

Casa, BH

Vendo a morte chegar...


Eu tirei estas fotos na estrada para o Rio. Um caminhão na nossa pista, de frente para o nosso carro. Demonstrando frieza sobre-humana, tirei outra foto.










Note que não há motorista. Vamos todos morrer, etc. e tal.












And now, for something completely different, se nossa estrada nos levasse ao Afeganistão rural, precisariamos pedir informações. Infelizmente, a resposta poderia ser esta















Na dúvida, leve um mapa













PS: O caminhão acima estava sendo rebocado. A burkhette é grossa mesmo, e o que quer que você faça, evite aquela parte do mapa que parece um garfo de carne.

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sexta-feira, 3 de junho de 2005

Casa, Rio de Janeiro

Imagens do Portal do Inominavel

Alguns meses atras passei um fim de semana na fezenda do André (em Moeda, OPDI de triste fama). Entre manifestações de entidades cósmicas e ocasionais assasinatos hediondos, foi muito agradavel.

No sábado, fomos eu, André, Laura, KK, Ligia e Danilo, para uma caminhada pelas serras locais. Tirei algumas fotos com meu celular, que ficaram boas dentro das limitações do aparelho. Hoje na tal madrugada insone (veja o post anterior), aprendi a baixar as fotos por bluetooth, acertar o equilibro de cor no Polyview, e fazer o upload no flickr. Quem estiver interessado pode ver as fotos na minha página no flickr, e eu posto as mais interessantes aqui. Termino com um gif animado que eu fiz de meus intrepidos companheiros (exceto Danilo & Ligia, que já tinham sido vitimas das vacas tartáricas). Eles iam na direção de algumas torres misteriosas inexploradas perto de Moeda. Subiram a colina, e nunca mais foram vistos...



Reparem nos estranhos fenomenos atmosfericos que ocorrem ao fundo. Notem também que o KK levanta os braços horrorizado quando chega no topo da colina, ante a visão das ruinas ciclopicas.

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quarta-feira, 13 de abril de 2005

Casa, Rio de Janeiro

O André e o Alastair organizaram um grupo para fazer um levantamento arqueológico na serra de Moeda. Veja detalhes neste post no blog do Fernando. O grupo partiu de BH, e nunca mais foi visto. A presente narrativa é uma reconstrução a partir de fontes fragmentarias e entrevistas com os habitantes locais.

Moeda: Portal para o Inominavel
compilado por Bruno Mota

DRAMATIS PERSONAE

André, Arqueólogo. Diretor do projeto.

Alastair, Arqueólog. Co-Diretor do projeto e gringo de plantão.

Fernando, Designer. Acumula as funções de fotógrafo, cinegrafista e designer.

Daniele "Dani", Arquiteta. Responsável pelos Croquis.

Ricardo "Tala", fotógrafo. Abandonou o posto da fotografia, assumido por Fernando, e é o Administrador. Cuida de toda a burocracia, gastos e supervisão geral.

Reginaldo "Regis", Historiador. Responsável pela parte de historiografia.

"", Estudante de Turismo. Faz-tudo, faz o leva e traz, cuida dos equipamentos, suprimentos e alimentação.

CENA I - Land Rover superlotada, dia

FERNANDO> André, vai caber todo esse povo na fazenda?

ANDRE> Não se preocupe, estão todos viajando. A fazenda estará deserta. Sera ótimo.

ALASTAIR> Where are we going again?

REGIS> É melhor começar a trabalhar. Para aí perto daqule casebre para começarmos as entrevistas.

A LR para. Um matuto abre a porta do casebre e olha o grupo com desconfiança. FERNANDO tira inúmeras fotos.

REGIS> Com licença meu senhor, o que você sabe sobre a velha fundição?

MATUTO> grgmbmlemdbagmbuyashubnigurathnyarlatothepcreoignem.... --- Bate a porta.

FERNANDO> Orra meu, vamo embora. Cara grosso. A gente continua isso amanha.

RICARDO> Estou precisando mesmo de uma viagem para relaxar. O lugar é tão agradável, e o dia está lindo...

Começa a chover. Muito.

GÒ> Com esta chuva, não seria melhor voltar outro dia?

ANDRE> Bobagem! Minha LR passa por qualquer lama, o que de ruim poderia acontecer?

ALASTAIR> I thought we were going to the beach...

A chuva piora. A LR derrapa. Um raio cai sobre uma arvore, que cai sobre a estrada momentos depois da LR passar.

GÓ> Eu quero voltar!

ANDRÈ> Não se preocupe, já fiz isso milhares de vezes. Nada de ruim vai acontecer!

ALASTAIR> Can I surf with this rain?

Um relâmpago cai ao longe, iluminando uma figura vagamente humanoide no topo de uma colina


CENA II – Fazenda, à noite, chuva forte. Todas a janelas estão abertas, símbolos estranhos foram talhados no assoalho.

RICARDO> Que decoração... Peculiar.

REGINALDO> Hmmm...

ANDRÉ> A caseira nova ainda não pegou o jeito. Mas são só uns arranhões. Não tem problema nenhum, o que mais pode dar errado?

DANI começa a fazer esboços das inscrições. ALASTAIR encera sua prancha. FERNANDO tira fotos. ANDRE emburra e começa a dar voltas em torno da escada.

FERNANDO> O quarto com o pentagrama é meu. Falei primeiro!

Barulho de cascos do lado de fora.

GÒ> Que barulho estranho. Estou morrendo de medo! Por isso, vou sair sozinha lá fora e investigar.

Passos. Silencio. Grito, interrompido bruscamente. Barulho de mastigação.

ANDRE> Gó, quando você terminar de brincar com os cachorros não se esqueça de limpar os pés. Se não sujarmos a casa vai ficar tudo bem.

FERNANDO> Vou dormir.

DANI continua desenhando como que em transe. ALASTAIR examina demoradamente sua prancha.

CENA III Fazenda, de manha. Neblina pesada


Todos se reúnem na mesa da cozinha, exceto GO e FERNANDO. A nova caseira esta preparando um cozido. Ela possui vasta cabeleira, veste um pesado manto negro, exala leve odor de putrefação e tem a pela acinzentada. Na panela, nacos apetitosos de carne cozinham no molho espesso. Um dos nacos está grudado em um farrapo onde os dizeres ´Turismo 2004´ainda podem ser lidos. Ninguém comenta sobre a aparência inortodoxa da caseira porque ela é nova e não querem constrange-la.

ANDRE> O Fernando não acorda!

DANI> Eu passei no quarto dele e ele não estava mais lá. Acho que já foi. Eu peguei a câmera dele.

ANDRE> Então vamos comer e picar a mula. Vai dar tudo certo hoje!

ALASTAIR> Now can we go to the beach?

Eles comem e picam a mula. Começam a caminhar em direção as ruínas. ALASTAIR leva sua prancha. No caminho, encontram estranhas pegadas de cascos bovinos, grotescamente deformados.

RICARDO> (saca uma foto do bolso de sua camisa vermelha) Esta é minha mulher e meus dois filhos. Quando a guerra terminar vou comprar uma fazenda lá em Iowa.

TODOS> Uhh...Ok.

RICARDO> Dá para ir mais devagar? Estou ficando cansado, essa nevoa púrpura ta me deixando enjoado.

ANDRE> Deixa de frescura. Vamos indo

ALASTAIR> Yeah! Now we are finally getting somewhere! --- Faz uma onda com as mãos.

RICARDO vai ficando para trás. Na tentativa de acompanhar os outros, tropeça. No chão e desorientado, ouve o tropel de cascos artiodactilos. Seus olhos reagem com terror ao que vê, mas o seu grito mal sai da garganta quando é interrompido bruscamente. Ruídos de mastigação.

ANDRE> Rosinha! Tava preocupada sô! Fica aí brincando com o Ricardo enquanto a gente vai trabalhar, fica.

REGINALDO> Gente, tem algo que eu talves devesse ter falado para vocês antes... --- O grupo emerge da mata e vê as ruinas. Reginaldo se cala.

CENA IV – Ruínas. Os modestos restos da antiga fundição são cercados por várias torres de aspecto intimidador, cobertas por gárgulas vagamente bovinoformes em poses torturadas. Está anoitecendo, começa a ventar forte. Do interior da maior das torres emerge um barulho surdo e ritmado. Reginaldo fica cada vez mais agitado. Dani olha as imagens na câmera digital de Fernando. Subitamente o terror se espalha por seu rosto

DANI> Gente!! Vocês deviam ver isso!

ANDRÈ> Não temos tempo para turismo! – Entra na torre mais alta

ALASTAIR> I can already smell the ocean. André, wait!

REGINALDO e DANI contemplam as cenas no display da câmera. Fotos que Fernando distraidamente tirara de si mesmo. Fernando. Fernando e o Pentagrama. Fernando e o Pentagrama fosforescente. Fernando, o Pentagrama fosforescente e a nevoa. Fernando, o Pentagrama fosforescente, a nevoa e uma criatura disforme com aparência de vaca, com garras e dentes afiados. Fernando em pedaços, o Pentagrama fosforescente, a nevoa, a criatura disforme com aparência de vaca, e um portal para o que parece ser o interior da torre. O Pentagrama.

REGINALDO e DANI ouvem um tropel distante. Começam a gritar.

ANDRÈ> Parem de gritar seus malucos. Fiquem quietos e tudo ficará bem.

ALASTAIR> They are already in the water! Wait for me!

Enquanto prestam atenção na comoção, ANDRE e ALASTAIR colidem com os corpos destroçados e pendurados de GO, FERNANDO e RICARDO, que batiam ritmicamente contra a parede. A cada pancada, as inscrições em baixo relevo ficavam mais distintas e brilhantes.

TODOS> AAAHHHH!!!!

REGINALDO e DANI entram correndo na torre. São seguidos por várias criaturas bovinoformes de horrenda aparência. As criaturas emitem mugidos abissais enquanto cercam o grupo em pânico. As inscrições agora brilham fortemente; os corpos pendurados sofrem espasmos enquanto ressecam; uma nevoa fina se espalha como se dotada de vontade própria, envolvendo o grupo no centro da sala e as criaturas antes de sair em direção ao breu externo.

ANDRÉ> Fiquei juntos, vai dar tudo certo.

ALASTAIR> André, you were right about these cariocas. They are really rude.

REGINALDO> É culpa minha. Eu reconheci as inscrições na fazenda. Muitas historias são contadas sobre as estranhas criaturas que rondam estas ruínas. Entre murmúrios semi-coerentes dos matutos locais há referencias a entidades inomináveis que acordariam do seu sono milenar quando as estrelas estivessem alinhadas.

DANI> Você quer dizer... Estas criaturas?!

REGINALDO> Não! Elas são apenas seus arautos. As inscrições na fazenda são uma prece para a sua invocação. Estas inscrições aqui são muito piores, elas invocam a horrível... a mãe... a...

FIGURA ENCARQUILHADA DE PRETO> ---Emerge das sombras --- Shub Niggurath, a mãe de escura prole!!!

ANDRÉ> O Marido da Selma!!

MARIDO DA SELMA (formely known as FIGURA ENCARQUILHADA)> Vocês me expulsaram, vocês riram das minha vacas. Pois riam agora. As minhas filhas foram abençoadas por Shub Niggurath, e vocês serão o primeiro sacrifício sobre o seu altar!

Um barulho grotesco e não natural se faz ouvir fora da torre. Algo se aproxima. Um rumor de flautas sopradas por bocas não-humanas se espalha como um eflúvio.

ALASTAIR> Is this funk music? It sucks!

DANI> Aaaahhhh! Deixa cair seu bloco de anotações, que se abre na pagina onde copiou as inscrições da fazenda.

REGINALDO> As inscrições! Começa a ler em uma língua gutural “Iee Inomine Alae Isvrequië...”

MARIDO DA SELMA> Tolos! Eu já fiz a invocação dos Úberes Tartáricos! As vacas do inferno responderam ao meu chamado, elas obedecem somente a mim! Nada sobre a terra ou debaixo dela se erguerá para salva-los agora!

Barulho de passos se aproximando. Mato se mexendo, galhos se quebrando. O perfil de uma figura alta aparece na entrada da torre.

FIGURA ALTA> O André, eu acordei hoje e tive a impressão que tinha jogo. Vamos jogar Dragonlance ou aquele MERP estranho do Bruno?

ANDRÈ> Vaca? Ricardo Vaca!

VACA> É, eu tive a impressão que alguém estava me chamando e...

Ele para no meio da sentença, e contempla as criaturas bovinoformes. Eles se olham inicialmente com surpresa, depois com espanto, e finalmente com o reconhecimento fraternal de uma família a muito separada.

MARIDO DA SELMA> Não! Não dêem atenção a este impostor, suas criaturas estúpidas. Ataquem estes intrometidos. Rápido, Ela se aproxima!!

VACA> Quem é esse cara? Não fale assim com elas. Elas podem ser feias e sanguinárias, mas são da minha família e eu as amo!

MARIDO DA SELMA> Infeliz! Incauto Oligofrênico! Mentecapto dez vezes amaldiçoado! --- Sua mão ossuda emerge de sob o manto, com terríveis garras recurvadas. Com velocidade incomum ele cruza o recinto e rasga o ventre de VACA.

VACA> Aaargh!!

CRIATURAS> MUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!!!!!!!!!!!!!!!

MARIDO DA SELMA> Não!! Eu.. Parem... Arghhh!!!

Ele é despedaçado pelas enfurecidas criaturas. As criaturas ficam cobertas por seu sangue e entranhas. De alguma maneira ele se mantém em consciente agonia.

MARIDO DA SELMA> Voltem aqui! Vocês precisam ficar, Ela exige um sacrifício!

Ele estende as garras na direção do grupo. É atingindo em cheio por uma prancha lançada com destreza por Alastair.

ALASTAIR> This is a violent city indeed. I am glad the SAS training paid off though.

ANDRÈ> Vamos sair daqui enquanto é tempo. Me ajudem a carregar o vaca. Vai dar tudo certo!

O grupo sai correndo pela noite escura. Ouvem atrás de si o barulho de algo muito grande emergir da mata e entrar na torre. Gritos e ruídos inomináveis, e depois o silencio. Ninguém ousa olhar para trás.

Depois de correr por vários minutos, eles notam que não sabem onde estão. O terreno em volta não lembra nada que exista nas vizinhanças de Moeda. Enquanto ponderam este enigma, um velhinho, baixo, careca e vestindo uma túnica vermelha emerge de trás de uma pedra, e sorri enigmaticamente.

FIM (ou o começo...)

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Casa, Rio de Janeiro

Muuuito tempo sem postar. Fui e voltei de BH duas vezes (peguei um onibus no dia em que perdi o voo mencionado no post abaixo). Na semana santa foi direto para a fazenda do André, e fim de semana retrasado vim para o aniversario do meu pai.


Hoje descobri que estou com um livro (sobre física estatística) da biblioteca do CBPF a varios meses. E também que não entendo algumas pessoas... Sempre que eu entrava lá a bibliotecaria mal me dava bom dia, e me tratava como se eu estivesse a ponto de sair correndo com um exemplar raro nas maos. Hoje, quando eu cheguei ela era só sorrisos, me chamou pelo nome e gentilmente me lembrou que eu havia me esquecido de devolver um livro. Entre risadas e comentarios jocosos concordamos que eu era de fato uma pessoa esquecida, e ela me desejou todo o sucesso minha missão de achar e recuperar o tomo perdido. Acho que se eu não conseguir achar o livro ela vai batizar os flhos em minha homenagem e me colocar no testamento...

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domingo, 27 de junho de 2004

Cafe Game, Ajaccio

Hoje acordei bem cedo (6 hora local). Tinha que desocupar o quarto ate as 1030, mas o cara do hotel disse que guarda minha mochila.

Fui andando meio sem rumo (meu plano orginal era ir direto para Cargese). A cidade e' simpatica; bem mediterrania com as ruas estreitas, casinhas de estuque e velhinhos desdentados. Sao obcecados com o Napoleao aqui, tudo e' Bonaparte isso ou Napoleao aquilo, estacao Austerlitz, sei la o que imperial, etc. Apesar da fama, os corsos tem se mostrado *muito* simpaticos (velhinhos desdentados em particular). Eles tem alta paciencia com meu frances macarronico (o pouco fetuccine que eu tenho se deve ao Bernardo, btw). Depois de conversar com a Charlotte e o Paul estava esperando levar pedrada na rua (exagerando um pouquinho).

Anyway, primeiro trombei com uma feira de 'antiguidades' (i.e., a tralha que estava atulhando os armarios locais). Comprei um postal com selo para a ceci de uma ilhas chamadas Iles Sanguinaires (vou descobrir o prq e posto aqui), e mulher me disse que poderia andar ate la. Eu fui.

O caminho e' interessante, vc passa por umas criptas familiares que dao para a rua, igualziho uma casa. Tipo um condominio zumbi ou algo assim. Depois, uma igrejinha grega simpatica (Ajaccio e' um nome grego, do Ajax (heroi, nao desinfetante, depois conto a historia do cara)). O mediterraneo e' cristalino, com uma cor meio esverdeada, da para ver o fundo por uns bons 20 metros; o ceu nao tinha nuvem...

Uns 2 km depois existem uns menires, em uma estrutura circular com um dolmen apoiado em 3 pedras no centro. Acho que deve ser autentico, pq alguem faria algo assim nos dias de hoje? (mas tambem, pq alguem faria isso no Neolitico?). A bussola do meu relogio e' uma porcaria, mas deu para ver que o dolmen central e' alinhado com um vale entre as duas maiores colinas na serra atras de Ajaccio (que eu nao mencionei; mas pretendo visitar agora). Meu chute e' que la e' onde nasce o sol no solsticio de inverno, algo como um renacimento do deus sol a partir da deusa terra (o chute! Andre' me perdoe). Sei la. Fiz um desenho do sitio (eu esqueci a @&%&*# da camera e de qqr maneira um desenho e' melhor para explicar)



Na volta (nao consegui chegar as ilhas; tinha que voltar ao hotel ate' as 1030), passei por um feira. Acertei tudo no hotel e voltei. Os feirantes foram muito simpaticos, provei tudo que e' tipo de queijo e carne. Acabei almocando na escadaria do mausoleu dos bonaparte (o maior dos condominios zumbi). O menu:

Baguete
Queijo de cabra*
Linguica de figado
Linguica de burro (isso mesmo! E' uma expecialidade local)
Framboesas
Coca Cola

Uma excelente refeicao em todos os aspectos. Acho que estava parecendo o arquetipo do corso, comendo linguica de burro na escadaria da tumba dos bonaparte com um canivete. Um casal parou e tirou uma foto...

Bom, e' isso.

* No Asterix os corsos sao famosos pelos queijos malcheirosos, e isso na opiniao dos franceses! Peguei um queijo relativamente fresco, mas haviam la' umas coisas pretas retorcidas.

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quinta-feira, 24 de junho de 2004

TESTE

Executing bigbang.exe

Extracting physics files....[OK]
Initializing laws of nature.....[OK]
Checking vacuum stability...[OK]
Checking internal logical consistency....[FAILED]
Error 442 - Singularity detected
Attempting to correct....
Initializing in human mode....[OK]
Checking internal logical plausibility....[OK]

Universe 2.0 has been succesfully installed
Thank you for using a GodSoft (r) product!

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