sexta-feira, 30 de julho de 2010

NACO, UFRJ, Rio de Janeiro
Tour du Fundão


Ser professor neste semestre aqui na UFRJ foi uma experiência bastante instrutiva. Em particular, a perspectiva do outro lado do quadro negro me faz ver algumas das minhas atitudes durante a graduação com outros (e mais críticos) olhos.

No final, eu acabei desenvolvendo uma relação boa com meus alunos (embora eles ocasionalmente fossem enrolados e chorões; e eu ocasionalmente fosse inflexível com prazos e viajasse na maionese com a matéria). O curso, incluindo exercícios virtuais e questionários, é todo disponibilizado online; como meu meio de comunicação favorito é email, acabei me correspondendo bastante com eles eletronicamente. No final, no meio da rede ad hoc emergente de email, gtalk, orkut, blogs, flickr, twitter e congêneres que estabelecemos, a festa final do semestre que eles organizaram e para a qual gentilmente me convidaram parecia uma relíquia (embora bastante agradável) do século passado.

Eram duas turmas, de duas matérias dadas sequencialmente (Introdução à Física A e B), com quatro horas de aula em sala de aula por semana, mais experimentos no laboratório (conduzidas pelos monitores); isto implica em, por aluno, duas provas finais, mais possivelmente duas provas de 2a chamada/substitutivas; dois relatório experimentais, e da ordem de 15 listas de exercícios e questionários. Eu passei boa parte das últimas duas semanas corrigindo, revisando e respondendo dúvidas e pedidos sobre as notas. Nos últimos dias, eu estava a ponto de me munir de um pincel atômico vermelho e sair marcando maniacamente certo ou errado em tudo que via pela frente. Mas sobrevivi; o alfarrábio multi-rêsmico se encontra em repouso em cima da minha mesa, e as notas finais foram enviadas. A partir de hoje, e até o começo do semestre que vem, estou de semi-férias.

Para comemorar, resolvi fazer um tour ciclístico pela ilha do fundão. A tal bicicleta dobrável que eu comprei em Washington agora fica aqui no laboratório, e é o meu meio de transporte entre a biologia e a física quando vou dar aula. Hoje, sem mais aulas para dar, levei ela para fazer turismo.

É interessante que seja possível fazer na UFRJ o mesmo que eu faço nas cidades que visito. A universidade foi projetada como uma espécie de Brasilia universitária, com prédios estilo pombal com predominio de concreto nú, cercados por espaços planos estéreis, e ligados por ruas que mais parecem rodovias. Tanto em escala quanto no acesso, é um espaço feito para o benefício dos carros mais do que dos seres humanos. Mas a ilha é ampla, e usando a incipiente rede de ciclovias local, acabei encontrando alguns lugares inesperados: uma prainha de aparência agradável, colonizada por um matilha de cachorros semi-selvagens. Uma vila residencial favelizada. Vistas interessantes da baia de Guanabara, e da ponte Rio-Niteroi. Uma zona militar quase florestal, em torno de uma igreja barroca de aparência anciã. Um heliporto e uma balsa de perfuração submarina (acho). E um tal de centro de computação virtual para a Amazônia, ou algo assim, em um prédio de aparência misteriosa com o formato de um poliedro irregular preto e cinza, e sem qualquer sinal de habitação humana; tenho certeza que este último é só uma fachada para um centro dissecção de alienígenas ou de adamantização de ossos de mutantes. Mas divago...

De qualquer, foi um passeio interessante. É uma pena que a maior parte da orla da baia de Guanabara não seja bibicletável.

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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Casa, Rio de Janeiro
De volta


Estou de volta ao Rio. A viagem de volta passou por três continentes e cruzou dois oceanos. Entre o vôo vindo de Amsterdam e o indo para São Paulo, passei 12 horas mofando no aeroporto em Washington. Mas, entre livros, WiFi, a lojinha do Smithsonian e um Mexicano decente com refil de coca, até que foi uma espera agradável. Até consegui descansar um pouco.

O encontro de Amsterdam (a FENS) foi cientificamente decepcionante, em alguns aspectos. Achei as plenárias e as paralelas bastante menos interessantes (e de interesse bem mais restrito) do que as suas equivalentes nos encontros da SfN (nos EUA). Por outro lado, as sessões de posteres foram animadas e instigantes; e a organização foi impecável.

"Você usa anticorpos?" - me perguntou a representante comercial
"Só os que o meu sistema imunológico produz" - respondi

As feirinhas das editoras e fabricantes de equipamentos em congressos dirigidos às ciências biológicas são sempre um evento a parte. Se por um lado a distribuição de brindes foi menos liberal do que em outros encontros, por outro as bocas-livres, petiscos e chocolates eram muito mais numerosas e de melhor qualidade do que em eventos nos EUA. Outro destaque ficou por conta das anticorpetes, um grupo de vendedoras de anticorpos embaladas a vacuo em uniformes estilo Formula-1; sinceramente, elas estavam meio incongruentes em meio aos microscópios cofocais e os implantes craniais para ratos; e dada a demografia destes encontros, imagino que elas fariam mais sucesso em um encontro de física...

Um último comentário: Em sempre gostei de Rembrandt, mas nunca tinha prestado muita atenção nas suas gravuras (i.e., impressões em papel a partir de uma placa de cobre riscada). No seu primeiro a FENS só começava de tarde, então dei uma volta por alguns museus, incluindo o museu judaico e a Gassam Diamonds. Na antiga casa do pintor (sobre cujo conteúdo na época sabemos bastante, graças ao detalhado inventário produzido quando Rembrandt foi a falência e teve que leiloar todas as suas posses), eu estava subindo as escadas quando ouvi que uma demonstração das técnicas de gravura comecaria dentro de instantes. E, em frente a uma prensa manual, uma artista de verdade foi nos conduzindo passo a passo pelo processo: Das três técnicas de riscar o cobre, a maneira de se aplicar e retirar a tinta, até a impressão propriamente dita. E foi só assim que eu começei realmente a apreciar e prestar atenção nas gravuras (e suas matrizes).

As tais gravuras são impressionantes, em particular no uso e representação da luz e sombra. É muito interessante, para quem gosta de quadrinhos, notar o quanto o tipode traço ou risco usado determina a ênfase, o movimento e a forma de uma figura. Além disso, como Rembrandt nunca fora à Itália, o seu contato com os mestres da renascença se deu através de gravura; o seu entendimento do chiaroscuro deve tanto ao buril quanto ao pincel; de fato, tive a impressão de que a gravura para ele era uma forma de arte muito mais ínitma e pessoal do que a pintura. Assim, as suas gravuras ajudam um pouco a entender o restante de sua obra.







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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Aeroporto Schipol, Amsterdam
Você é o passageiro mais interessante que eu entrevistei hoje - ...

... foi o que me disse o policial após a entrevista de segurança pré embarque. De fato, a minha passagem pela segurança deste aeroporto foi um evento social: Conversei amigavelmente sobre o jogo contra a Holanda com o guarda que me revistou, e sobre ciclismo em Amsterdam com o operador do raio-X. Mas foi com o entrevistador que o papo rendeu mais.

Ele começou me perguntando o usual ('Você fez as próprias malas?'; 'Você recebeu algum pacote de estranhos?'), deu sequência com perguntas sobre meu itinerário ('porquê você vai fazer escala em Washington?'). Ao responder esta pergunta, eu obiviamente mencionei que estava viajando para participar de congressos científicos. De neurociência, esclareci. E ele engatou um papo bastante animado sobre as implicações éticas da possibilidade de alterar a personalidade por meio de terapia genética ou drogas. Ficamos uns 10 minutos conversando, enquanto a fila atrás aumentava, e a representante no local da United Airlines olhava o bate papo com crescente impaciencia.

Este alias vai ser outro daqueles posts cronológicamente invertidos. Hoje de manhã, com uma das minhas mochilas cada um, eu e o Graham pedalamos nossas bicicletas até aqui. É um passeio interessante (de uns 15-20 km no total, ao sul da cidade), com um cenário um tanto diferente da caminho que percorri para o norte em meu outro passeio de bicicleta pela região em volta de Amsterdam (e sobre o qual eu ainda não postei nada). No final, simplesmente dobrei a bicicleta, coloquei na sacola e fui viajar.

Ontem foi o jogo Holanda X Uruguai. Assisti, com a Su e a Gabi, em uma churrascaria argentina, onde um pequeno grupo de Uruguaios se refugiou. Como a churrascaria fica ao lado da praça Rembrant, onde jovens holandeses em diversos graus e tipos de intoxicação se congregam em dias normais, o barulho quando o time local tocava na bola era ensurdecedor. Acho que pessoas como eu (e a Su, e a Mari), que normalmente só acompanham futebol em jogos da seleção na copa, são muito mal acostumadas. Mesmo quando a seleção vai mal, os jogadores do Brasil tendem a ser bastante habilidosos. Então ficavamos curiosos com a demora de holandeses e uruguaios em decidir o que fazer com a bola quando esta chegava aos seus pés. Não posso dizer que fiquei impressionado com qualquer um dos dois times.

Ao final do jogo, os locais comemoraram, com vuvuzelas, bandeiras e baseados, como se tivessem ganhado a copa. A policia olhava, em peso e atenta, mas tolerante, enquanto os celebrantes jogavam uma quantidade prodigiosa de lixo na rua, transformavam carros de bombeiro em carros alegóricos improvisados, e em geral faziam barulho como se possuídos por cacodemônios. Mas era uma bagunça amistosa, bem holandesa.

No dia do jogo, pela manhã, apresentei o meu poster. Inicialmente, achei que estava na Sibéria científica local, em uma seção meio erma do salão, na manhã seguinte à festa ('Jump de FENS') que entrou madrugada a fora. Mas aos poucos, os interessados foram aparecendo, e um mini-engarrafamento foi se formando enquanto eu agitava os braços maniacamente (é o que acontece quando eu fico entusiasmado) e explicava como calcular as massas médias dos neurônios. Fiz alguns contatos interessantes; em particular, um professor polonês me convidou para passar um tempo em Varsóvia (ele tem uma coleçao respeitavel de insetívoros leste-europeus). Inspirado pelo 'Wronski' do meu email, ele me contou uma história interessante sobre o Banach, outro matemático polonês excentrico: Aparentemente, ele e seus colegas se reuniam em um café local para discutir matemática. Infelizmente, após a ressaca inevitável, eles esqueciam muitas das demonstrações brilhantes que havia obtido quando seus cérebros estavam bem lubrificados pela vodka. A solução foi convocar a esposa de um deles, que passou a manter um livro com o registro das soluções para problemas já resolvidos, e os prêmios propostos para os problemas em aberto. Recentemente, um alemão resolveu um destes últimos, e ganhou o ganso vivo estipulado do governo polonês em cerimônia solene.

Tenho que ir. Vou sentir saudades desta cidade, que combina bastante comigo.




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sábado, 3 de julho de 2010

RAI Convention Centre, Amsterdam
Laranjas azedas

Estou aqui em Amsterdam desde 5a. Já fiz um extenso tour a pé pela cidade (em particular, pela arquitetura moderna na região do porto), e um tour ainda mais extenso de bicicleta, através da região ao norte da cidade, e suas vilas piturescas. Fiz ambas as coisas com o Graham, o meu host muito gente fina no CouchSurfing.

Mas hoje eu vou postar sobre o jogo de ontem...

Eu sai de casa sem saber muito bem onde assistiria o jogo. Eu queria a compania de outros brasileiros, e não somente por temer por minha integridade física se o Brasil ganhasse. Passei por inúmeros bares e resturantes decorados de laranja do chão até o teto; mas não vi nenhum verde e amerelo. Exceto por estes últimos, Amsterdam tinha aquela aparência de cidade fantasma a que estamos acostumados no Brasil em dia de jogo da seleção. Os holandeses levam o futebol a sério.

Alguns museus depois, eu estava no museu local de ciência ('Nemo'), e jogo começaria em 45 minutos. Comentei casualmente com a atendente da bilheteria que os funcionarios do Nemo deviam ser os únicos holandeses vestidos de amarelo (é o uniforme do museu). "Sim! Eu queria estar vestindo LARANJA hoje!!' - ela respondeu, enfática. Eu tive que mencionar a minha nacionalidade nesta hora, ao que ela respondeu com um 'boa sorte!' um tanto envergonhado, mas aparentemente sincero.

O museu é dirigido principalmente para crianças e adolecentes; mas a coleção é muito bem bolada. A parte dedicada à educação sexual é (como poderiamos esperar na Holanda) particularmente direta. Uma série de bonequinhos de madeira demonstra posições sexuais descritas no Kama Sutra; uma caixa com duas marionetes cônicas vermelhas permite aos atendentes simular um beijo de língua gigante; e um desenho animado estilo XKCD mostra de forma cronológica as mudanças nos corpos feminino e masculino entre a infância e a idade adulta. Para as crianças, havia uma apresentação sobre o princípio de causa e efeito. Enquanto uma apresentadora hiperativa (de avental branco, obviamente; mas usando um faixa laranja na cabeça) explicava o que estava acontecendo, uma complicada série de mecanismos iam se ativando em cadeia: Uma série de dominós solta uma bola que empurra uma alanca que libera um bondinho que furava um balão que deixava cair um peso em uma balança, que... No final, um foguete era lançado, fixando nas impressionáveis mentes infantis presentes a ideia de que o desenho do Papa-Léguas é um documentário.

Saindo do museu a poucos minutos do inicio do jogo, ainda sem ideia de onde ir, a atendente patriótica com quem havia conversado anteriormente me chamou de volta. Após uma breve conferência com a colega do lado, ela simpaticamente me informou que um bar a algumas quadras do museu estava decorado com bandeiras brasileiras (e holandesas), e que um turbulento grupo de brasileiros era esperado por lá. Após profusos agradecimentos, me dirigi ao local indicado. Eu ouvi os brasileiros muito antes de os ver.

Cerca de 100 dos meu compatriotas gritavam, tocavam vuvuzelas, ou produziam ruido de formas mais criativas. Eram acompanhados de duas emplumadas e sacolejantes morenas, uma barraquinha vendendo churrasquinho, e um grupo de percussionistas. Me senti o próprio estereótipo nacional. Um grupo consideravel (mas minoritário) de holandeses alaranjados completava o grupo. Apesar dos cliches e da proximidade com o 'inimigo', o clima era relaxado e bastante agradável. Gritos de 'Brasil!' e 'Holland' e jingles improvisados ('A laranja! foi chupada! A Holanda vai para casa!') se alternavam; mas a disparidade em números e hábitos culturais, e a presença dos tambores tornavam esta disputa uma que os holandeses não tinham a menor chance de vencer. Pelo menos até o final do segundo tempo...

Não tenho muito a dizer a respeito do jogo. Comentários pós-jogos, em mesas redondas e similares, são famosas por serem (até mais do que blogs) exercícios fúteis de teleologia. Mas, para o crédito dos brasileiros, a batucada continuou quase sem interrupção após o jogo, enquanto algumas holandesas mais aventurosas dançavam releituras (digamos) criativas do samba.

O resto do dia (museu Van Gogh, uma soneca no parque vizinho, torta de maça na praça) trasnscorreu agradavelmente. A única coisa difíl de aguentar eram os bandos de celebrantes, alaranjados e com níveis variados de alcool no sangue, assoviando em coro 'Aquarela do Brasil'.


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terça-feira, 29 de junho de 2010

Hampton Inn, Silver Spring
Caçador de talentos



A conferencia foi mais tranquila nos seus últimos dias, mas as palestras continuaram bastante interessantes, em geral. Algumas, porém, eram pouco mais do que sopa de letrinha anatômica para alguem com o meu treinamento.

Na noite de domingo, fomos em bando multi-nacional na Chinatown local. Eu encontrei um simpático restaurante estilo 'buraco na parede'*, especializado em massa feita na hora. Depois alguns de nos (eu, a Suzana, a Mari do laboratório e a Madison, uma estudante de biologia local) fomos andando até o memorial do Lincoln.

Segunda foi um dia mais parado. Andei de bicicleta, peguei uma chuva brava, e por causa disto acabei perdendo a excursão pelos bastidores do Smithsonian de história natural. De noite, combinei de me encontrar com um dos caras que me hospedou aqui a dois anos atrás. Fui de bicicleta até a cidade. Enquanto esperava por ele em Dupont Circle, uma percussionista local tocava brilhantemente uma bateria improvisada com barris de plástico, latas de lixo e um carrinho de supermercado. Acabei comentando com ele que ele deveria vir para o Brasil tocar. "Breziw? Where the hell is that??" - ele me respondeu. Após os esclarecimentos geográicos devidos, ele aparentemente gostou da ideia. Me pediu para vigiar sua bateria, enquanto comprava uma cerveja. E eu fiquei lá sentado, com um livro e bloquinho de anotações no colo (estava terminando algumas contas), quando após uns cinco minutos o percussionista volta, um pouco tímido, e vem conversar comigo sobre o que ele precisava fazer para se apresentar no Brasil. Imagino que, para ele, um cara randômico sugerindo turnês internacionais extemporâneas e tomando notas só poderia ser um caçador de talentos. Pois bem, se alguem souber de alguma oportunidade para um baterista urbano talentoso, no Brasil ou no exterior, eu sugiro que veja o video abaixo. Não tenho telefone para contato, mas é só esperar o final da tarde na frente do Krispy Kreme em Dupont circle que ele aparece.

Só para terminar: O meu amigo chegou, e após alguns hamburgueres e uma discursão amigavel (sem sarcasmo) com alguns argentinos de passagem sobre as perpectivas respectivas na copa do mundo, fomos fazer uma bicicletada noturna por Georgetown.

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* Chinatown Express, 746 6th Streeet, NW, Washington DC 20001, tel: (202)638-0424

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domingo, 27 de junho de 2010

Radiology Building, Walter Reed AMC, Washington
Observações e comentários

Estou em uma conferência interessante. Ontem um professor sul-africano demonstrou (de forma amplamente ilustrada) como extrair o cérebro de um elefante usando uma serra elétrica. O tecido é fixado por 200 litros de formol bombeados através de uma carótida com o diâmetro de uma mangueira de jardim, e retirado de uma caixa craniana cuja espessura chega a 15cm em certos pontos. Segundo o meu intrépido colega, a carne do elefante não é particularmente apetitosa; mas a tromba é reservada ao lider tribal local.

Hoje vimos diversos vídeos onde um cientista italiano faz caretas para um macaquinho, enquanto eletrodos registram a atividade de um dos neurônios-espelho deste último. E pensar que o cara é pago por isso (e eu sou pago para assistir!)...

Neste momento, dois professores estão praticamente se estapeando devido à discordancias a respeito da natureza e estrutura do Tálamo. Eu não exagero; eles obviamente se odeiam, e este não é o seu primeiro confronto. "Já que você se considera uma histoquímico melhor do que eu, deveriamos talvez trocar experiências educacionais" - "Sim, eu sou um melhor histoquímico que você!" - "Está a seu critério resolver esta controvérsia. Eu desafio você a visitar o meu laboratório e ver como fazemos as coisas por lá" - "Eu não tenho tempo de refutar todos os seus pontos, mas se você vier ao meu laboratório talvez eu posa lhe ensinar algo sobre o tálamo"

O encontro ocorre no interior do principal complexo médico do exército americano. Do ponto de vista prático, este fato tem duas consequencias principais: Em primeiro lugar, os participantes do congresso são completamente dependentes das vans que vão e vêm do hotel quando o encontro começa e termina; ou melhor, aqueles participantes que não compraram uma bicicleta dobrável são completamente dependentes das vans. Além disso, o almoço se dá no refeitório do hospital aqui ao lado. A perpectiva de viver da comida de hospital(1) do exército(2) americano(3) não é exatamente tentadora, mas até agora tenho sobrevivido, com a ajuda generosa dos numerosos coffee breaks.

Para terminar, uma lista comparando alguns alimentos cotidianos nos EUA e no Brasil:

Coisas que são mais gostosas nos EUA que no Brasil

  • Leite industrializado
  • Manteiga
  • Cheesecake
  • Cereal matinal
  • Peito de peru (surpreendentemente suculento)

Coisas que são menos gostosas nos EUA que no Brasil
  • Café (argh! Quanto menos for dito sobre o café daqui, melhor)
  • Coca Cola (adoçada com xarope de milho)
  • Vegetais (com a consistencia de papelão)
  • Purê de batata (sem gosto, com a consistência de cimento)
  • Salada de frutas

Uma última observação: A quantidade de lixo descartado a cada refeiçao por aqui é assustadora. Entre pratos, talheres e copos de plástico; embalagens de alimentos, pacotes de codimentos e guardanapos, é uma pilha que vai para a lixeira todo dia.

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sábado, 26 de junho de 2010

Hampton Inn, Silver Spring
Elemento suspeito portando uma bicicleta

Existe todo um espectro para guardas de segurança, que vai do vigiliante do shopping assistindo seu futebol na TV portatil e deixando a vida passar ao seu redor, até seguranças de comboios no Iraque que atiravam primeiro (contra qualquer movimento considerado suspeito) e não perguntavam depois. O parâmetro que diferencia uns dos outros é o quanto que eles consideram que sua vida é da conta deles.

Os seguranças do Instituto de Patologia das forças armadas americanas* certamente achavam que a minha vida era muito da conta deles. Me interpelaram assim que entrei inadvertidamente pela porta automática (que recebe soldados mortos no Afeghanistão e Iraque, por exemplo) a procura do tal congresso. A minha incapacidade de desaparecer de imediato quando me disseram que eu deveria sumir dalí só aumentava o nervosismo. Creio que a indagação a respeito 'do congresso de neurociência', dita em um sotaque não identificado por um maluco empurrando uma incongruente bicicleta soou para eles como 'vou estourar os seus miolos com estes pneus cheios de C4!' ou algo assim. De alguma forma, consegui aos poucos acalmar os ânimos, repetindo a explicação e mencionando que o evento deveria ocorrer no museu. 'Aaaa, não é aqui, é descendo a escada' - me disseram. Ficou tudo por isso mesmo, e achei o congresso sem maiores contratempos. Mas segundo a Priscila (que também foi para lá por engano, embora sem uma bicicleta e em circumstâncias menos suspeitas), eles mencionaram que um maluco com bicicleta havia aparecido lá dentro mais cedo, e eles estavam quase a ponto de sacar as armas. Quando não são folhas de bananeira, é uma bicicleta...

A dita cuja é uma Dahon D7, dobrável, dando prosseguimento ao plano que esbocei ontem. Eu havia selecionado algumas lojas próximas à Foggy Bottom, e resolvi passar por elas a pé para cotar as bicicletas disponíveis. Não encontrei nada pagável na margem leste do Potomac. Atravessei então uma ponte, passando por cima da Roosevelt island, e cheguei na ciclovia do lado Oeste (em Arlington, a cidade satélite de DC onde fica o famoso cemiterio). O problema é que, se de um lado havia um rio de água, do outro havia uma enxurrada de carros, sem sinal ou faixa de pedestres, e logo além, um muro de contenção de pedra que desencorajava quaisquer tentativas de dar uma de frogger

O senhor para o qual perguntei onde havia uma saida que eu poderia tomar não parecia muito familiarizado com o conceito de 'pedestre', e eventualmente sugeriu que eu usasse um carro. Felizmente, depois de andar um pouco consegui achar um elevado conveniente, adaptado para quem não é dotado de rodas. Chegando na rua certa e andando mais alguns quilometros, (uma possibilidade real em cidades onde a numeração das ruas extremamente retas vai, quase sem indicação, até os altos milhares), finalmente achei a loja de bicicletas que procurava.

Para resumir, porque preciso dormir com alguma urgência, vim de bicicleta de Arlington, Virginia, até Silver Spring, em Maryland, cruzando o Distrito de Columbia no processo. Posso dizer que foi um passeio por três estados. Minhas pernas doem.

De qualquer forma, se não chover, pretendo quase ignorar a existência do metrô durante estes dias. Washington é uma cidade bem adaptada para bicicletas.


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* Dentro do complexo Walter Reed, e anexo ao museu de medicina onde ocorre o meu encontro

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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sala de embarque, aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro em trânsito ou no trânsito

Estou embarcando hoje para Washington; passo uma semana lá em um congresso de neurocoisas, e depois vou direito para Amsterdam (para outro congresso). Em Washington, a organização vai me pagar a hospedagem, então pela primeira vez desde a Argentina (e, antes disso, sei lá quando), vou ficar em um hotel em uma viagem internacional.

A minha escolja de transporte urbano, por outro lado, continua um tanto inortodoxa. Pretendo comprar uma bicicleta dobrável em Washington*; embaraca-la para Amsterdam, usáa-la por lá, e traze-la de volta para o Rio, para ser o meu meio de transporte dedicado entre a biologia e a física na UFRJ.

A razão pela qual estou teclando isto é que o vôo está atrasado. Está atrasado porque a tripulação ficou presa no transito infernal da linha vermelha. Estão na altura do fundão, segundo me informaram. Para ver que isto não acontece só comigo...

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* O encontro será no museu nacional de patologia clínica, em uma ´cidade satélite´ de Washington chamada Silver Spring; as ciclovias e parques abundam por lá.

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