terça-feira, 21 de novembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
O assassinato de Pierre Gemayel

O ministro da indutria Libanês, Pierre Gemayel, foi assassinado hoje em Beirute. Ele foi abatido a tiros dentro do seu carro, quando voltava de uma visita a um suburbio cristão da cidade. Um de seus guarda costas também morreu, e outro ficou ferido no atentado (assim como um transeunte randômico).

Pierre Gamayel era o lider das Falanges, um grupo de direita maronita com uma história sangrenta durante a guerra civil, e que hoje integra a frente anti-Síria '14 de Março'. O seu tio, Bashir Gamayel, também foi assassinado em 1982, pouco depois de ser eleito presidente.

Para quem não tem paciencia para a minha verborragia, a solução do tipo Detetive (e.g. Cel Mostarda na Cozinha com um Candelabro) é: O assassino foi provavelmente o governo Sírio, usando armas e capangas locais, com o objetivo de forçar o governo Libanês a renunciar, já que o afastamento (por qualquer causa) de 1/3 dos ministros por lei exige a dissolução do governo. Com a renuncia de 6 ministros aliados do HA e agregados, e a morte de Gemayel, faltam só dois.

Todas as facções condenaram o atentado, e os membros do 14 de Março acusaram abertamente a Síria de estar por trás do assassinato. Damasco, obviamente, nega.

Não é uma acusação infundada. O assassinato do ex-premiê Hafik Hariri ano passado, então o principal opositor da presença Síria no pais, galvanizou a oposição à ocupação. O nome '14 de Março' se refere ao enormes protestos que ocorreram naquele dia, em resposta aos protestos organizados pelo Hizbollah no dia 8 em favor da Síria. A combinação de protestos e pressão externa forçou os Sírios a retirar suas tropas. Mas a influencia de Damasco ainda permanece, através de aliados como o HA, e de prepostos como o atual presidente, Emille Lahoud.

O ditador da Síria, Bashir al Assad, digeriu muito mal sua expulsão do Líbano. Desde a muito tempo Damasco tem pretensões territorias sobre o país vizinho, e se recusa a demarcar sua fronteira comum ou trocar embaixadas. Assim, a Síria tem tanto a motivação quanto os meios de tornar as coisas ainda mais caóticas, tanto para impedir que as investigações avancem quanto para se reafirmar como a única força capaz de garantir a estabilidade no Líbano, e assim restabelecer sua hegemonia sobre o vizinho. O reestabelecimento de relações diplomaticas com o Iraque, e as recomendações da comissão realista liderada por James Baker(que já rifou o Líbano para os Sírios em 91 em troca de apoio contra Saddam)
nos EUA , tornam o momento propício para Assad.

Atualmente, a principal disputa entre as facções pró- e anti-Síria é a respeito do tribunal misto a ser instaurado em conjunto com a ONU para julgar os assassinos de Hariri (cuja formaçao o conselho de segurança da ONU aprovou hoje). Relatórios preliminares da ONU incriminaram vários manda-chuvas sírios e seus aliados libaneses. Pouca gente duvida que o governo baathista esteja por trás deste e de outros assassinatos (inclusive do recente atentado contra um dos agente de inteligêncua libanês envolvido na investigação); a questão é saber quão contundentes serão as provas recolhidas. Da mesma maneira que sonegação fiscal foi usada contra Al Capone, a ideia do 14 de Março (e de seus aliados americanos e sauditas) é usar uma eventual condenação de líderes Sírios para extirpar definitivamente o controle que Damasco ainda exerce sobre o Líbano.

Recentemente aliados da Síria tentaram bloquear a passagem de leis que permitem o estabelecimento do tribunal (liderados pelo Amal, um outro grupo xiita importante, os parlamentares paralizaram os trabalhos no congresso, sob a desculpa de protestar contra o bloqueio israelense). Na semana passada, os ministros leais ao HA, Amal e ao Lahoud renunciaram, deixando o governo sem representação xiita. Por lei, o governo Libanês tem que ser dissolvido se um terço dos ministros renunciar (ou morrer). Com o Pierre Gemayel morto, faltam só mais dois.

Assim como aconteceu com a morte de Hariri, é provável que este último crime seja um catalizador das forças anti-Sírias. Em um pais onde lealdades ainda são principalmente sectárias, e que não tem um censo desde a década de 30, o tamanho das manifestações é uma das poucas medidas razoavelmente objetivas da intensidade da opinião pública. Generalizando, hoje os xiitas se alinham a favor da Síria, os Sunitas e os Druzos contra, e os maronitas são o fiel da balança. O '8 de março' levou 400.000 pessoas às ruas, o '14 de março' levou 1,4 milhões. Recentemente o HA fez um 'comício da vitória' ao qual compareceram 350-600.000 Libaneses. Tudo indica que o funeral de Pierre Gemayel (adiado para quinta) também atrairá multidões. Até ontem o HA prometia protestos a favor da derrubada do governo. Se isso já era considerado provocativo antes, agora é potencialmente explosivo.

7 comentários:

Paula disse...

Vi hoje no telejornal. Lembro muito bem do dia em que o Gemayel tio foi assassinado.
Tá complicado, muito complicado.

|3run0 disse...

Paula, eu já disse isso antes lá no PD, mas o meu medo é que o Baker rife o Líbano para os Sirios, como em 91, em nome da 'estabilidade', seja no Iraque ou no próprio Líbano. Os Assad desenvolveram a técnica de tacar fogo nos paises vizinhos para depois vender a água.

Anônimo disse...

Eu acho improvavel a volta dos sirios ao menos por enquanto, pois a comunidade internacional ficou de cabelos em pe'. Ate' o ministro das realacoes internacionais da França esta' indo ao velorio/enterro. A situacao nao vai nada nada bem. Ha' quem diga que nao foram os sirios mais os iranis. Cruzes!

Paula disse...

Bruno, é exatamente quererem "rifar" o Líbano o problemão. Durante a invasão (em cada lugar a gente usa a palavra diferente, em outros lugares tenho de dizer durante o "conflito" Israel/Libano, tá bom) um amigo meu levantou esta hipótese e achei que era impossível. Mas está tudo caminhado para isto. Mas que mundo doido que a gente vive. Passei até um tempo sem ler ou ver telejornal. Agora estou voltando aos pouquinhos.

|3run0 disse...

Anon, eu não sei se a volta dos Sírios é provável, mas que eles querem voltar é inegavel. Como a Paula mencionou, é possível que o Baker recomende 'rifar' o Libano para os Sirios em nome da estabilidade.

Quanto a responsabilidade pelo crime, ele se encaixa em um padrão de comportamento do regime baathista que vem desde a intervenção Síria em 1976. O HA (e é improvável que o Irã faça algo no Líbano a revelia do HA) parece ter sido pego de surpresa (tendo marcado protestos pela renuncia do governo), e não parece estar interessado em uma guerra civil.

Além disso, um grupo desconhecido reivindicou o ataque, acusando o PG de 'envenenar as relações com a Síria e a Resistência'. Ninguem realmente acredita que o tal grupo surgiu espontaneamente e simpáticamente assumiu as dores da Síria, e creio que esta nem é a intenção. O governo sirio e formado por gangsters, e a sua principal arma não é a violência, é a intimidação.

Obviamente, o tiro pode sair pela culatra, assim como o assassinato do Hariri. Mas a Siria não se tornou um buraco totalitário estagnado tomando decisões sensatas. O Hariri só se tornou oposição porque o Assad forçou a barra para que o mandato do Lahoud fosse extendido ilegalmente. Enfiar o pé na jaca está no DNA deste regime.

Paula disse...

", e a sua principal arma não é a violência, é a intimidação."
Bruno,
Arma muito mais eficaz um dos motivos por que não se pode provar, não deixa evidências e deixando dificuldades imensas para se combater. Se vc leva um tapa na cara, tem marcas, com sorte DNA do agressor, pode ter testemunhas... mas como provar uma ameaça? Palavra contra palavra. Júri gosta de evidências.

|3run0 disse...

Hoje o funeral do PG virou um protesto anti-síria. O pessoal do 14 de Março que marchar até o palácio presidencial e depor o Lagoud; o HA e agregados que(ria) forçar a renuncia do primeiro ministro Siniora e de seu gabinete. Ambos os lados se acusam pela morte do PG (usando argumentos similares de 'cui bono', por mais inverossímeis que a suposta ansia suicida do 14dM possa parecer). O bicho vai pegar.

O resultado provavelmente vai depender do que fizerem os aliados do HA, a Amal e o FPM do Aoun. As evidencias iniciais indicam que eles estão se afastando cautelosamente do lado pró-siria (o Berri foi no funeral, o Aoun disse para seus apoiadores irem), mas Damasco tem meios bastante persuasivos de faze-los mudar de ideia, se for o caso.