sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
O funeral de Pierre Gemayel

Hoje em Beirute algumas centenas de milhares de pessoas (200.000 segundo o NYT, 800.000 segundo a policia) transformaram o funeral do Pierre Gemayel em um protesto contra a Síria e seus aliados locais.


A cerimônia religiosa em sí foi bastante contida, com eulogias chorosas e clamores por justiça, união nacional e meia entrada no Mineirão (posso ter ouvido mal esta última). Fora da catedral, o pau comia, e a multidão entoou uma série de criativos insultos dirigidos aos líderes da Síria, Irã e Hizbollah, mas principalmente ao Michael Aoun e ao Emille Lahoud, enquanto pisoteavam seus retratos..

Com os ânimos dos maronitas exaltados, pelo menos por hora os aliados de conveniencia da Síria estão se afastando cautelosamente de seu espinhoso patrono. Na fase final da guerra civil o Aoun foi a grande liderança anti-Síria, até ser forçado ao exílio, e a sua aliança com Damasco sempre pareceu um tanto desconfortável. Ele pediu para seus partidários irem ao funeral, mas ao contrário do Nabil Berri (lider do partido xiita Amal), não foi pessoalmente. Os dois aparentemente decidiram ficar em cima do muro para ver para onde os ventos sopram, mas Damasco tem meios bastante persuasivos de faze-los mudar de ideia, se for o caso.

O Hizbollah (que parece ter sido pego de surpresa pelo assassinato) sabiamente adiou seus próprios protestos, e se juntou ao coro dos que acusam (com graus variados de sinceridade, creio) o próprio '14 de Março' de estar por trás do assassinato. O argumento também é do tipo 'cui bono', já que o 14dM parece ter sido re-energizado pelo ato. Considerando que o governo está a 1 ou 2 ministros de ser forçado a renunciar, e que os Assad e agregados tem assassinado desafetos libaneses com deprimente regularidade desde os anos 70, esta não me parece uma hipotese muito verossímil, mas tem que leve fé.

Resumindo, o quadro agora é este: O governo quer instaurar o tribunal para julgar os assassinos do Rafik Hariri, e a Síria tenta por todos os meios obstrui-lo. O HA quer depor o primeiro ministro, e o 14dM (com apoio do EUA, da França e da Arábia Saudita) quer depor o presidente. O resultado deste conflito pode depender do lado que o Aoun e o Berri escolherem.


Mais fotos do protestos aqui, cobertura aqui e aqui.

11 comentários:

Alba disse...

Bruno,

Hoje, no Estadão, foi publicado um artigo de Jonathan Steele, que escreve no Guardian, sobre ser interessante tanto para a Síria, como para o Irã, uma estabilização do Iraque.

Isso porque (no caso da Síria), se houvesse uma balcanização do país, e se instalasse um governo islâmico a oeste, poderia encorajar a Irmandadade Muçulmana a outros vôos. Infelizmente, sou assinante do jornal em papel, mas não consigo acessar o site, senão mandaria o link.

O que acha disso?

|3run0 disse...

Oi Alba, bem vinda!

Eu concordo que a nenhum dos dois interessa um colapso completo do Iraque, e menos ainda uma partição (adicione a Turquia com força neste último caso). Mas é uma questão de grau. O Irã quer influencia junto ao governo em Bagda, sendo então provavelmente a favor da estabilidade, desde que seus aliados locais estejam em ascendência (ecos não muito agradáveis do Líbano neste ultimo caso).

Quanto a Síria, embora ela suprima brutalmente o seu ramo doméstico da Irmandade Muçulmana, lembre-se que ele patrocina e dá abrigo à vertente Palestina (o Hamas). Como disse bem o Anton Efendi, a Síria exporta instabilidade para seus vizinhos para não ter que enfrenta-la em casa.

No Iraque, é difícil saber o que Damasco pretende. No passado, a insurgencia serviu para distrair os EUA e dissuadi-los de virarem a esquerda em Bagdá e darem um pulinho em Damasco. Mas acredito que a situação agora está tão violenta que os sirios estão realmente interessados em acalma-la. O que não implica que não pretendam cobrar pela ajuda prestada.

|3run0 disse...

Alba, e acho que o artigo a que vc se refere é este:

http://www.rojname.com/index.kurd?nuce=148400

Achei o artigo bastante interessante, e em geral concordo com o que o cara disse, com as ressalvas que fiz acima.

Alba disse...

Obrigada, Bruno

Realmente, a Turquia nem de longe vai permitir um Curdistão na sua fronteira sul. E a Síria, você está certo - tá jogando com a confusão toda e ainda levando um bom troco.

É triste para o Líbano, um país tão belo e tão massacrado. Esperemos que de alguma forma o Líbano consiga sobreviver. Seria terrível vê-lo anexado à Síria..

|3run0 disse...

Sobre o futuro do Líbano, e a (possivel) mudança de rumo da politica externa americana, estes artigos [(1) (2)] e as discussões que se seguem são um bom ponto de partida.

O tal blog alias é um excelente fórum, com vários Libaneses e Israelenses (e o ocasional Sírio) postando.

Bruno Gottlieb disse...

Você ja viu isso?

http://www.youtube.com/watch?v=-8fa9yKQeTY

|3run0 disse...

Oi Bruno! Pelo que eu li, o que ela diz descreve bem a guerra civil no Líbano. Mas ela omite o fato que as milicias maronitas eram tão brutais quanto as outras. As pessoas se lembram somente de Sabra & Chatilla, mas os maronitas e os palestinos cometeram toda uma série de massacres uns contra os outros.

Também acho que caracerizar a guerra como cristãos vs. muçulmanos é simplificar demais as coisas. Prex, foram os cristãos que pediram ajuda para a Síria contra os pelestinos. A síria então mudou de lado duas vezes, se aliando aos palestinos para depois ataca-los (juntamente com os drusos), cercando e e bombardeando os campos de refugiados, etc.

O problema do Líbano é sectário. As pessoas se identificam (e votam, e lutam) com o seu próprio grupo etnico-religioso antes de qualquer consideração política ou moral. E estes vários grupos ao longo da história estiveram dispostos a se aliar a forças externas (Síria, Israel, EUA, França, Arabia Saudita, Irã, etc.) contra os seus supostos compatriotas. Assim o Líbano acaba virando campo de batalha dos outros por procuração.

Paula disse...

Finalmente achei alguma coisa sobre física. Só agora entendi os links do lado direito. Sem querer cliquei e caí em 2004. Uma visita à Tate... Delícia... Quando fui tinha muito Mondrian, e estava havendo uma reforma de modo que não vi tudo.
Voltei para o brokeout.blogspot.com e consegui acessar. Mas tem dois artigos imensos um em francês e outro com uma entrevista com Toni Negri em espanhol. Foi isso que eu tive vontade de botar hoje. Vai espantar todo o mundo. Mas sou eu quem mais leio o meu Blog então não tem problema:)))
Tá tudo a maior bagunça. Quando der eu arrumo.
Eu confesso que não estou com muita paciência de discutir o Oriente Médio, o Hezbolá, o islã... Fico de olho se aconteceu algo de novo. Esta semana parece que Bush, Blair e até a Dona Arroz, toda sorrisos, estão querendo correr atrás do prejuízo.
Teve até conversa com o Abbas. O Olmert tá querendo conversar com os palestinos. O Nasrallah não tá gostando nada dessa história e convocou greve geral...
Só rindo senão a gente pira. Não consigo fazer nem uma diferença para baixar os preços quadriplicados da padaria daqui da rua! Já disse, vamos passar uma sexta-feira sem comprar nada. Ninguém quer e todos pagam o triplo pela mussarela de qualidade péssima. Eu não como borracha.
Mas e a TESE? Bruno, se eu não tivesse dado com o post que você tinha acabado de sair da conferência lá em Londres eu já ia achar que você não é físico coisa nenhuma. Confessa aí. Você é de alguma facção islâmica. Juro que não falo nada prá ninguém.
Nossa! Tinha até imagem do Max Ernest na página que visitei ao acaso. Infelismente as outras imagens não apareceram.
Boa Semana e manda ver na tese. Senão vai ficar pressionado pelo tempo que é na verdade a única mãe de todas as teses.

Paula disse...

Não pensei em mandar uma carta:) E "infeliSmenté" é de amargar...

|3run0 disse...

Paula, vou fazer só mais um post obre o Líbano, e prometo que o próximo será sobre física. O pau tá comendo, principalmente entre xiitas e sunitas em Beirute. Hoje já morreu um.

Na palestina, a dinâmica mais interessante hoje é entre o Fatah e o Hamas. Eu acho que o plano atual do Abu Mazen é declarar que o Hamas está obstruindo as negociações para a formação de um governo de união nacional, e convocar novas eleições. Para isso, ele terá apoio do Ocidente, de Israel, e dos paises com lideranças sunitas (Arábia Saudita, Egito, Jordania). O Hamas, que não é bobo, provavelmente vai recomeçar o foguetório (na verdade, só intensificar) na esperança de que a retaliação israelense torne a posição combativa do AM isustentável.

Semana passada mandamos a última versão do último paper para a revista, e ele foi aceito no praso recorde de 20 horas! Vou escrever sobre ele aqui, o assunto é 'anisotropias em grandes escalas na radiação cósmica de fundo'. Apesar do nome empolado, dá para explicar usando algumas figuras que tornam tudo muito (mais) claro.

Paula disse...

Bruno,
Para complicar tinha de haver esta "diferença" entre xiitas e sunitas. Aí fica muito mais fácil para o ocidente dizer que são bábaros e mandar todos os clichês que se espalham pela mídia e discurso dos políticos (como dialogas com "eles"?).
"anisotropias"???!!! Mas que palavra mais linda. Será que é "sem tropias"?
Eu já disse que invejo a tua área.
Vi ontem que você participou de um programa de neurosciência. Estou interessada nos neurotransmisores. Existem 4 conhecidos, alguns candidatos e parece que um monte que ainda não se conhece. Boa semana.