quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Convention center, New Orleans
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Hotel Villa Convento, New Orleans
Ciência e pé na jaca na Big Easy
Todos os fatores referentes à minha estada aqui em New Orleans até agora contribuíram para que eu poste com menos frequência neste blog. Eu apresentei dois trabalhos diferentes em dois encontros distintos, que têm sido tão interessantes quanto cansativos; esta é uma cidade fascinante, e o único lugar nos EUA onde eu consistentemente comi bem o tempo todo, e sai todas as noites com grupos vários e multinacionais. Entre a dicotomia de participar de congressos e enfiar o pé na jaca, tive pouco tempo e energia para postar no blog ou fazer qualquer outra coisa.
O charme da cidade não vem de alguma atração específica ou vista espetacular, mas da combinação dos charmes culinário, musical e arquitetônicos, sintetizados no (mas não circumscritos ao) French Quarter. Mesmo evitando a já um tanto batida Bourbon Street, aqui é possível ir percolando pela ruas locais, guiado somente pela arquitetura local, durante o dia, ou pela música emanando dos vários bares e congêneres, durante a noite. Como consequência, vamos então experimentando uma variedade de ambientes, estilos musicais e bebidas alcólicas diferentes, e nos encontrando com pessoas randômicas, entre locais e turistas (que, em geral, se mostram ser neurocientístas; como somos 30.000 em uma cidade de 300.000, tivemos um impacto demográfico localmente significativo).
Eu cheguei transnoitado no aeroporto, peguei um ônibus até o centro da cidade, e fui andando até a casa do meu anfitrião (couchsurfing!). Tomei um banho, troquei de roupa e tentei explicar para ele brevemente o que eu fazia, nesta ordem. Mas tive que deixar o meu mais novo (e bastante confuso) amigo para trás e ir direto, a pé por me faltar ainda uma bicicleta, para o hotel onde ocorria a primeira das 3 conferências das quais vim participar*. Hotel alias famoso, o Orleans, onde os senhores das plantações locais iam a procura de senhoritas mestiças (com exatamente 1/4 de descendência negra, não mais, não menos, e postadas nas extensas varandas rapunzelicamente) com quem formar o que era eufemisticamente conhecido como 'alianças'. A rua homônima termina nos fundos da catedral local (onde a sombra projetada pelos braços levantados de uma estátua de Jesus deu origem ao apelido 'Touchdown Jesus')
A culinaria local é particularmente rica, com três grandes vertentes. A cozinha creole é tradicionalmente urbana, com grande influencia francesa, mas adaptando técnicas e ingrediantes. O mirepoix (cebola, aipo e cenoura refogados) se torna a holy trinity (com pimentões substituindo as cenouras), os rouxes (farinha frita na manteiga, base de molhos vários) se tornam mais escuros (i.e., aquecidos por mais tempo, ficando mais saborosos mas menos espessos). Aparentada, a culinaria cajun é rural, mais rústica, e e com a fama de transformar em cozido ou churrasco qualquer vertebrado desafortunado o suficiente para se encontrar sob a mira de uma espingarda, preso a um anzol ou debaixo de uma roda de caminhonete. Finalmente, a soul food é a tradicional comida das comunidades negras locais (com influencias indígenas), usando ingredientes locais e originados do oeste da África (e.g. o quiabo ou o feijão que chamamos fradinho), e que em alguns aspectos lembra bastante a culinária mineira/brasileira (feijão com arroz!). Como New Orleans é, de forma quase única nos EUA, um lugar onde elementos significativos da cultura africana foram preservados, é também um dos centros de difusão da Soul Food. Obviamente, as fronteiras entre os vários estilos são permeáveis. Todos fazem uso extenso dos frutos do mar e usam a baba do quiabo como espessante de molhos, por exemplo, e falam pelo menos a mesma linguagem gastronômica, embora em dialetos bastante distintos.
Este papo está me deixando com fome. Vou fazer um lanche na vizinhança, e depois preciso dormir. Posto mais nos dias seguintes.
_______________
* As duas primeiras ocorreram no mesmo local em dois dias seguidos e foram organizadas pelo JB Johnston Club; me apresentei oralmente na segunda. A terceira é a enorme reunião anual da Society for Neuroscience, onde apresento um poster
- |3run0 , 10/15/2012 1 pessoas sem mais o que fazer
-> comida, EUA, música, New Orleans, viagens
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Aeroporto Intercontinental GB, Houston
Vampiros a bordo
Estou em Houston, esperando a minha conexão para New Orleans.
Assistir Abraham Lincoln, Vampire Hunter em um vôo noturno no meio de uma tempestade de raios foi épico. Exceto pela inexplicada proficiência de combate em Bullet Time do encartolado Sr. Lincoln, e alguma sequencias de ação CGÍsticas demais, o filme é de um realismo quase documentarial. Eu não certamente sabia da importância da prataria da Casa Branca para a vitória do Norte em Gettysburg na guerra da secessão americana... Espero ansiosamente as continuações: Andrew Jackson, Werewolf Slayer e Teddy Roosevelt vs. Goddzilla.
Viajei ao lado de uma modelo (sim, isto acontece) até aqui, e acabei me desdobrando como tradutor improvisado perante um inquisitivo agente de imigração. Ela está indo para Los Angeles para se encontrar com o namorado, um jogador no futebol europeu, mas algo na história (ou monoglotismo) dela encucou o tal agente. Como é a primeira vez que ela vem aos EUA, é interessante notar através de seus olhos o quão opressivos os procedimentos de segurança por aqui se tornaram. Certamente, é assustador ouvir barbaridades tais como:
'You are reminded that any inappropriate remarks or jokes may result in your arrest'
Que o autofalante local repete a cada 15 minutos (alternadamente com avisos sobre bagagem desacompanhada e exortações a respeito do entusiasmo que agentes de segurança supostamente teriam em responder perguntas de passageiros randômicos).
A voz incorpórea volta a chamar o meu nome, desta vez com sotaque Texano...
- |3run0 , 10/11/2012 30 pessoas sem mais o que fazer
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Sala de embarque, Aeroporto do Galeão House in New Orleans
- |3run0 , 10/10/2012 0 pessoas sem mais o que fazer
-> EUA, New Orleans, viagens
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Limbo onírico, meu cérebro
O horror, o horror
São 5 da manhã e finalmente vou tentar dormir. Os meus padrões de sono
estão uma zona; Alguns dias eu tenho a impressão que eu nem adormeci nem
fiquei acordado totalmente hora nenhuma. Hoje foi um destes dias. O dia inteiro passou, o Gabriel chegou da escola e a Ceci do trabalho, e eu sem conseguir produzir.
Até que apelei, sai para pedalar as 9 da noite, andei 45km, e
voltei para casa. Tomei um banho, me sentei na minha cadeira
vestido somente com uma toalha, e finalmente consegui trabalhar, ouvindo
alternadamente Muse e três versões diferentes das variações de
Goldberg (de JS Bach)*, enquanto tropeçava no Bilbo e enchia o quadro de equações. Me
sinto como o próprio Kurtz** aqui dentro deste Congo neuronal.
________________________
* As gravações do Glenn Gould de 1955, 1980, e esta nova versão, de Kimiko Ishizawa, disponibilizada gratuitamente na rede. Não confundir com a conjectura de Goldbach.
** I.e, o Marlon Brando no Apocalipse Now.
- |3run0 , 9/13/2012 0 pessoas sem mais o que fazer
-> argh, coisas estranhas
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Vastitas Borealis, Marte
O blues do planeta vermelho
Historicamente, Marte tem sido um planeta difícil de se explorar. Dificil, e azarado. Os Soviéticos/Russos, que já conseguiram pousar e enviar dados da superfície muito mais hostil de Venus, nunca conseguiram efetuar uma missão completamente bem sucedida por lá. Tiveram alguns sucessos parciais em órbita, e só fracassos na superfície. Os americanos, embora mais bem sucedidos em ambos os quesitos, também têm um histórico irregular. Em Marte a Lei de Murphy tem pelo menos tanto embasamento empírico quanto a segunda lei da termodinâmica. Quase literalmente tudo que poderia dar errado nas várias missões marcianas, deu. Foguetes explodiram ou colocaram as sondas nas órbitas erradas; erros de programação desorientaram painéis solares; vazamentos de combustível fizeram naves parafusearem fora de controle; baterias se descarregaram. Unidades métricas e imperiais foram confundidas umas com as outras e antenas de alto ganho engastalharam. Algumas sondas simplesmente deixaram de transmitir subitamente, sem explicações ou cartão de despedida.
A exploração marciana robótica começou em 1960, meros três anos após o início da corrida espacial. Com a mesma obstinação férrea e falta de caso com baixas eventuais que os levou à vitória em Estaligrado, os Sovieticos mandaram sonda após sonda para o planeta vermelho ao longo dos anos 60 e 70. E, assim como Dick Vigarista ou Willie E. Coyote, viram cada novo plano ir por água abaixo, pelas mais diferentes razões.
A primeira missão realmente bem sucedida, a Mariner 4 americana (sua gêmea, Mariner 3, se perdeu no lançamento) passou por Marte em 1965. Embora muito limitada tanto em tempo de observação quanto tecnologia, mostrou-se um balde de água fria para os entusiastas dos canais marcianos. Numerosas crateras de impacto, a ausencia de um dipolo magnético sério e cinturões de radiaçao, uma atmosfera com apenas 1% da pressão na superfície terrestre e temperaturas sub-glaciais indicavam um mundo morto, não o agitado Barzoon da ficção pulp ou mesmo o ambiente limitrofe coberto de vegetação sazonal postulado por muitos cientistas. A Mariner 9, em órbita a partir de 1971, mostrou um quadro um pouco mais ambíguo. Verificou-se que, se Marte está morto atualmente, pelo menos esteve vivo no passado. Geologicamente, vulcões extintos e o maior canyon do Sistema Solar (batizado Vales Marineris em homenagem à sonda) atestam uma geologia mais ativa no passado; e aparentes lagos e leitos de rios indicam que, sob uma atmosfera mais densa, agua líquida já existiu no passado (sólida, ela existe atualmente nos polos e sob o solo).
A primeira grande onda de robos exploradores terminou com as Vikings, duas sondas compostas cada uma de um orbitador e um módulo de aterrisagem. Grande parte da massa útil destes últimos era tomado por um conjunto de experimentos para procurar sinais de vida microscópica. Os resultados foram cruelmente irônicos, com três falsos positivos (depois atribuidos aos peróxidos presentes no solo) sendo afinal desenganados pelos instrumentos que atestaram a completa ausência de compostos orgânicos no solo.
A hibernação pós-apollo da Nasa implicou em um hiato de décadas até a próxima visita (neste interím, os soviéticos tiveram um sucesso parcial em uma missão até Phobos, a maior lua de Marte). Em 1997, finalmente, um pequeno e fotogênico robozinho chamado Pathfinder explorou titubiantemente as redondezas de seu ponto de aterrisagem, após quicar algumas vezes pela superfície, envolto em airbags. Desde então, Marte foi praticamente invadido por robos (nenhum dos quais achou Sarah Connor, porém), enviados em pequenas flotilhas a cada dois anos, o período sinódico de Marte em relação à Terra, que corresponde ao intervalo entre as janelas para lançamento em órbitas de energia mínima. Existem atualmente três satélites operacionais em órbita marciana, que serão usadas para monitorar e retransmitir dados da sonda.
Pois bem. Em menos de uma hora, a Curiosity vai chegar em Marte diretamente para uma
O procedimento de aterrisagem é barroco. Após perder a maior parte dos seus 6 km/s de velocidade por fricção com a atmosfera (protegida por um escudo térmico ablativo), um para-quedas irá se abrir, e dissipará um pouco mais de velocidade. O fundo da capsula então ira se abrir, deixando cair a sonda, presa na parte de baixo de uma plataforma dotada de retrofoguetes. Estes irão frear ainda mais a decida enquanto, próximo ao solo, a sonda é guinchada para baixo até ficar pendurada por três cordas a alguns metros abaixo da plataforma. Esta configuração inusitada irá, se tudo der certo, depositar suas 6 rodas diretamente no solo marciano, após o qual a plataforma pirotecnica cortará os cabos e dará um último salto para se espatifar alhures.
Espero muito que tudo ocorra como descrevi acima. Não só pela ciência (em quantidade e qualidade, a intrumentação no tal fusca marciano é sem precendentes, em alguns casos por ordens de magnitude), mas também pela satisfação de ver dar certo um plano que poderia ser plausivelmente atribuido ao MacGyver, ao Esquadrao Classe A ou ao Visconde de Sabugosa.
Para quem for sonâmbulo ou penitente, é possível acompanhar a modalidade mais nerd das olimpíadas (aterrisagem de sonda em equipe) no SpaceFlightNow, na NASA mesmo, ou no Twitter (hashtag: #MSL). A própria sonda twita regularmente, o que pode ser considerado inovador ou perturbador, dependendo da perspectiva de cada um e de quantas vezes assistimos 2001 e o Exterminador do Futuro.
Agora é só esperar. De uma forma ou de outra, teremos notícias em breve.
PS: Ainda vou postar mais sobre a Espanha. Onde de fato estive, ao contrário de Marte.
- |3run0 , 8/06/2012 0 pessoas sem mais o que fazer
terça-feira, 31 de julho de 2012
Casa, Rio de Janeiro
Fatos e fotos
Ainda tenho vários posts sobre a viagem para subir, mas fisicamente estou de volta ao Brasil. Enquanto enrolo, coloco aqui as fotos que tirei da viagem, que estão todas no Flickr. Separei as fotos em três categorias: As de Barcelona propriamente dita:
A bicicletada catalúnica pela trilha Ripoll-Olot-Girona-Sant Feliu de Guíxols:
E, finalmente, as fotos do interlúdio francês, em que fui visitar a cidade murada medieval de Carcassonne e pedalar pelo Canal du Midi:
- |3run0 , 7/31/2012 0 pessoas sem mais o que fazer
-> bicicleta, Carcassonne, fotos, Girona, Olot, Ripoll, Sant Feliu de Guíxols, viagens
domingo, 22 de julho de 2012
Hostel Olot, Olot
Fluência
Olot é a menor e mais pacata das cidades que vou visitar. Além de uma um tanto lúgubre igreja local, e de um punhado de prédios modernistas (abaixo) ela tem nas redondezas um grade número de vulcões inativos, um dos quais subi hoje mais cedo. Existe uma pequena abadia no topo, de onde tremula a bandeira da catalunia da foto acima. Supostamente, e se me lembro bem, a bandeira representa as marcas deixada em um estandarte (amarelo, suponho) pelos dedos sangrentos de um martir nacional mortalmente ferido, cujo nome me escapa. Fora a bandeira e a abadia, havia uma animada velha que entabulava conversas aleatórias com transeúntes randômicos. Eu não entendia bem a discussão, mas pela reação dos tais transeúntes ela parecia estar descrevendo seu plano para aterrisar discos voadores na antiga cratera do vulcão.
- |3run0 , 7/22/2012 1 pessoas sem mais o que fazer
-> coisas estranhas, Espanha, Olot, viagens
