quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Terry's, San Diego
Pacific sunset


Hoje foi o último, e mais modorrento, dia do Neuroscience. Aproveitei para colecionar brindes e freebies dos expositores: Cérebrinho de borracha para aliviar a tensão, uma caneta com o meu nome gravado por um laser de 1 kw ('Preço mediante consulta. Solicite uma visita sem compromisso do nosso representante!'), pendrives, camisetas, balas, sacolas, etc.

Sai no horário de almoço; o meu plano original era fazer um passeio de veleiro em um barco que participou da America's cup. Infelizmente, quando cheguei lá, descobri que não havia quorum, e que portanto, apesar do dia lindo, não haveria passeio. O plano B consistiu pedalar através da escarpada peninsula que limita a baia de San Diego, em direção a seu ponto extremo, Point Loma. Foi nessa península, em 28 de setembro de 1542, que João Rodriguez Cabrilho, um português (como enfatiza uma placa comemorativa doada pela marinha portuguesa) a serviço da coroa espanhola, 'descobriu' a Califórnia. Os nativos permaneceram ignorantes do seu novo status de descoberto por quase dois séculos, até os espanhois decidirem (sem muito entusiasmo) se estabelecer por aqui.

Ponta Loma é um parque, que contém um farol desativado, um monumento ao lusitano supracitado, e uma vista espetacular da baia. O couchsurfing tornou estas minhas viagens curtas em eventos bastante sociais, o que tem sido bastante agradável. Mas eu ainda gosto muito (e na verdade, preciso) destes meus passeios solitários, idealmente de bicicleta, onde posso ficar sozinho com meus pensamentos, minha câmera e meu ipod, e perambular do meu jeito e no meu ritmo.

San Diego era, e ainda é, uma das principais bases navais dos EUA. Cada vez que eu ia para o centro de conferencias, podia ver três porta aviões nucleares atracados, cada um com mais poder de fogo aéreo que as forças aéreas da maior parte dos paises do mundo. Enormes areas da cidade são tomadas por bases, centros de treinamento e congêneres da marinha, guarda costeira e fuzileiros navais. O caminho até Point Loma é margeado de vários representantes da sopa de letrinhas pentagonal, e metade da ilha logo em frente, no centro da baia (Coronado), é uma enorme base aérea, de onde uma sucessão interminável de helicopteros decolava em direção à algum lugar indeterminado no pacífico, intermeados de ocasionais F/A-18s e C-2A.

Terminei o passeio no final do dia. No caminho (que é quase só descida), parei para apreciar um pôr do Sol no oceano Pacífico, enquanto ouvia o Adágio para Cordas do Samuel Barber.

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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

San Diego convention center
Nerd de 3a idade



Estou em San Diego, hospedado na casa de uma nerd de 70 anos de idade. A Terry já trabalhou no instituto Scripps de oceanografia e programou em Fortran 4 (a Arca de Nóe rodava Fortran 7) para a industria aeroespacial. Atualmente ela é jogadora inveterada de NetHack! É complicado imaginar algo mais herméticamente nerd que NetHack...

É realmente difícil competir com couchsurfing no quesito encontrar pessoas interessantes. A Terry tem um lado avuncular de querer manter seus hospedes bem alimentados; a casa dela está literalmente abarrotada de comida. Mas como ela mesmo diz com frequência, ela tem mais 50 anos de idade. Assim, me arvorei de cozinheiro da casa: Toda noite eu ataco a geladeira, cozinho algo interessante; depois do jantar, ficamos conversando enquanto um cachorro e uma população flutuante de gatos anda pela casa.

O meu plano de sair pedalando do aeroporto diretamente até o centro de convenções funcionou bastante bem. Mas me enrolei ao sair do centro de conveções em direção à casa da Terry. A distância a ser percorrida é de aproximadamente 18km, margeando avenidas movimentadas e com alguns trechos de subida considerável. Já estava anoitecente, eu carregava toda a minha bagagem nas costas, e eu não dispunha de um mapa confiável. Acabei parando no único lugar em que parecia haver alguma atividade: Um centro de amparo a veteranos de guerra. O atendente foi muito simpático, e, entre distribuir remédios e conselhos para um fluxo constante de veteranos, recomendou enfaticamente que eu pegasse um taxi (que ele mesmo chamou).

Suponho que um passageiro com uma bicicleta dobrável e uma mochila abarrotado com um tubo de poster preso ao lado é algo que atrairia a curiosidade do mais desinteressado dos taxistas. Em poucos minutos, Kurt, o taxista, já sabia o propósito da minha visita a San Diego, a minha profissão, e a minha opinião em relação a aparições de OVNIs. Ele é um cara simpático, e interessado em física; mas ele estava naquela situação perniciosa de saber o suficiente para ficar interessado, mas não o bastante para realmente entender do que estava falando. Assim, tive que lhe explicar que não, pi não é a velocidade da luz, e que físicos de partículas não são multados sempre que descobrem uma partícula nova. Mas foi um papo agradável, embora inusitado.

O congresso tem sido excelente, até para os padrões dos SfNs passados, com palestras muito interessante; tive portanto pouca oportunidade de fazer turismo de alto de desempenho; mas consegui visitar o museu maritimo (incluindo um tour de barco pela baia) e o porta aviões Midway em horários de almoço. A minha rotina agora é ir de bicicleta até o centro de convenções, e voltar usando uma combinação de trolley e ônibus. San Diego é uma cidade agradável, apesar de compartilhar da tendência americana de ser excessivamente orientada para carros.

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Taxi a caminho do Galeão, Rio de Janeiro
Like, California baby, yeah!

Eu não sei porque ainda me surpreendo com o equibrio tênue entre o épico e o tragicômico que caracteriza os dias em que vou pegar um vôo para fora do Brasil. Estou indo para San Diego, para participar do encontro anual da Society for Neuroscience. O plano era relativamente simples, como eles sempre são: Preparar o poster no começo da semana, deixar tudo pronto até o dia da viagem; colocar a bicicleta dobrável na mala (pois a ideia é sair pedalando do aeroporto), e chegar no aeroporto com suficiente antecedência tal que perder a paciência fosse muito mais provável que perder o vôo.

Para combinar dois lugares-comuns: Nenhum plano resiste ao primeiro contato com o inimigo, e o inimigo era eu...

Eu passei a semana inteira quebrando a cabeça com o modelo*; tentando entender como o tal 'gás de axônios' deveria ser descrito (estritamente falando, este tópico extrapola o tema do poster, mas fazer quê?). Finalmente, ontem de madrugada, resolvi tomar vergonha na cara e fechar o poster com o que eu já sabia, ao invés de tentar fazer pesquisa original na véspera da viagem. O resultado é que terminei o poster hoje na hora do almoço, e fiquei resolvendo as demais pendências enquanto ele era impresso na gráfica. Ficou pronto as 5. O meu vôo era (ainda é) as 2250. Tempo de sobra para pegar um taxi...

Exceto que a linha vermelha (e a amarela, e a marginal) estava parada (sabemos que o transito está parado, ao invés de simplesmente lento, quando vendedores de biscoito Globo surgem expontaneamente do asfalto**). Um rio de carros imóveis se extendia por dentro do fundão: Por trás do Hospital, em volta do CCS e chegando até a Petrobrás. Não tive dúvida. Passei pedalando pelos carros, atravessei a passarela, e sai perseguindo o primeiro taxi semi estacionário vazio que vi.

O taxista se mostrou uma compania excelente! Ele se chama Marco Sensei, toca em uma banda de Reggae e dá aulas de judo. Demorei duas horas para chegar em casa, onde decobri que a mala que uso para levar a bicicleta havia desaperecido. Resolve o problema usando um saco de colchão e 3 m^2 de papel bolha que consegui comprar na papelaria da esquina para fazer da minha bicicleta dobrada uma especie de crisálida. Peguei o taxi e estou indo para o aeroporto. Pelo menos o trânsito está decente.


UPDATE. Mas deu tudo certo. Estou na sala de embarque e estão chamando o meu vôo. Mas fui enganado na entrada da sala de embarque: Ao contrário do que me foi dito, não há nenhum ligar que venda livros aqui dentro! Nove horas sem nada para ler além da revista de bordo. Tentarei com todas as forças manter a minha sanidade.


_________________________
* Descrevendo como o cortex se dobra de dentro para fora devido a tensões internas ao longo dos axônios geradas por uma força entrópica usando combinações muito simples de leis de potência

** É sintomático da minha vida dupla entre a física e a biologia que eu hesito entre usar como metáfora a geração expontânea de vida ou flutuações do vácuo (asfáltico).

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domingo, 7 de novembro de 2010

Museu do Índio, Rio de Janeiro
As fibras-linas da vagina da avó canibal

No dia seguinte, os gêmeos cresceram. A onça preta os entregou para a mãe-ïnmöxä. Cesceram rapidinho porque eram encantados, filhos de yämïxop. Já sabiam fazer armadilha e pegaram anta e falaram assim: "Tia, nossa armadilha pegou anta!" Primeiro, eles pediram à tia deles. Entre as pernas dela, havia um monte de embira. Aquilo estava como que fincado em seu corpo. "Vó, me dá cipó para fazer armadilha". Foi com estas fibras que fizeram armadilha. Ela disse - "Meus netos pegaram a fibra da vagina da avó para fazer mais armadilha. Atravessaram um rio grande onde haviam descoberto. Fizeram armadilha para lá onde havia muitos bichos. Flecharam o jacu que gritou e disse: - "Você me flechou, mas não fui eu que matei sua mãe. Foram os ïnmöxa que a mataram". Tiraram a flecha do jacu. Ele ficou bom e foi embora. Os gêmeos ficaram sabendo que foi "seu povo" quem matou a mãe e fizeram mais armadilhas. Chegaram e disseram: "Vovó, nossa armadilha pegou duas antas". Os dois já estavam preparados. Puseram um pau para atravessaro o rio, planejando jogar todos os demais lá detnreo. Todos vieram e eles viraram o pau. Cáiram e morreram todos.


PS: 'ïnmöxa (com ~, não ", mas o me teclado não permite til em i) é uma espécie de zumbi ou corpo insepulto que as vezes vira onça (não me peçam para explicar). Yamïxop são espiritos. A unica fonte online imediatemente disponível está aqui.
PS2: Acho que dá para fazer uma campanha de Chulhu baseado nesta história.

Que apropriado...

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Praia do Leme, Rio de Janeiro
A musa da COMLURB



Eu sou alguem que é pago para entender várias coisas; mas certas situações só são passíveis de descrição, não de análise.

Eu cheguei na ponta do Leme a cerca de meia hora atrás. Parei a bicicleta, comprei um coco e abri meu livro. O sol se punha, e enquanto eu apreciava preguiçosamente tanto a vista quanto a situação, notei que a única pessoa efetivamente na areia era uma moça vestida com incongruentes bikini e salto alto. Ela tirava fotos de si mesma com uma câmara portatil, em diversas posições. "Que pessoa peculiar..." - pensei, e e voltei para meu livro e meu coco.

Minutos depois, notei que o trator da COMLURB encarregado da limpeza da praia vinha se aproximando. Os garis aboletados obviamente também notaram a senhorita, e, por coincidência ou não, escolheram aquele ponto da praia para fazer uma pausa. Momentos depois, ela se aproximou do trator (para reclamar de algum comentário ou olhar mais atrevido, supus inicialmente). Após uma rápida conversa, ela entregou a câmera a um dos garis, e se aboletou na roda do trator. Enquanto ela fazia poses várias, variando entre o circence e o ginecológico, o gari tirava fotos como um profissional, enquanto os seus colegas (como ele, já completamente alheios a quaisquer eventuais detritos praianos) ficavam em volta, dando dicas sobre enquadramento e iluminação. Não foram uma ou duas fotos; foram dezenas de poses com diversos takes cada. É um forma pouco ortodoxa, mas certamente econômica, para criar o portofólio de uma (suponho) modelo-e-atriz de poucos recursos.

Eu não sei se existe algum nicho no mercado atendendo pessoas com tara por parafernalha de limpeza urbana; mas se existir, a tal moça um dia vai ser saudada como uma visionária.

PS: Luxo é WiFi na praia!




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sexta-feira, 30 de julho de 2010

NACO, UFRJ, Rio de Janeiro
Tour du Fundão


Ser professor neste semestre aqui na UFRJ foi uma experiência bastante instrutiva. Em particular, a perspectiva do outro lado do quadro negro me faz ver algumas das minhas atitudes durante a graduação com outros (e mais críticos) olhos.

No final, eu acabei desenvolvendo uma relação boa com meus alunos (embora eles ocasionalmente fossem enrolados e chorões; e eu ocasionalmente fosse inflexível com prazos e viajasse na maionese com a matéria). O curso, incluindo exercícios virtuais e questionários, é todo disponibilizado online; como meu meio de comunicação favorito é email, acabei me correspondendo bastante com eles eletronicamente. No final, no meio da rede ad hoc emergente de email, gtalk, orkut, blogs, flickr, twitter e congêneres que estabelecemos, a festa final do semestre que eles organizaram e para a qual gentilmente me convidaram parecia uma relíquia (embora bastante agradável) do século passado.

Eram duas turmas, de duas matérias dadas sequencialmente (Introdução à Física A e B), com quatro horas de aula em sala de aula por semana, mais experimentos no laboratório (conduzidas pelos monitores); isto implica em, por aluno, duas provas finais, mais possivelmente duas provas de 2a chamada/substitutivas; dois relatório experimentais, e da ordem de 15 listas de exercícios e questionários. Eu passei boa parte das últimas duas semanas corrigindo, revisando e respondendo dúvidas e pedidos sobre as notas. Nos últimos dias, eu estava a ponto de me munir de um pincel atômico vermelho e sair marcando maniacamente certo ou errado em tudo que via pela frente. Mas sobrevivi; o alfarrábio multi-rêsmico se encontra em repouso em cima da minha mesa, e as notas finais foram enviadas. A partir de hoje, e até o começo do semestre que vem, estou de semi-férias.

Para comemorar, resolvi fazer um tour ciclístico pela ilha do fundão. A tal bicicleta dobrável que eu comprei em Washington agora fica aqui no laboratório, e é o meu meio de transporte entre a biologia e a física quando vou dar aula. Hoje, sem mais aulas para dar, levei ela para fazer turismo.

É interessante que seja possível fazer na UFRJ o mesmo que eu faço nas cidades que visito. A universidade foi projetada como uma espécie de Brasilia universitária, com prédios estilo pombal com predominio de concreto nú, cercados por espaços planos estéreis, e ligados por ruas que mais parecem rodovias. Tanto em escala quanto no acesso, é um espaço feito para o benefício dos carros mais do que dos seres humanos. Mas a ilha é ampla, e usando a incipiente rede de ciclovias local, acabei encontrando alguns lugares inesperados: uma prainha de aparência agradável, colonizada por um matilha de cachorros semi-selvagens. Uma vila residencial favelizada. Vistas interessantes da baia de Guanabara, e da ponte Rio-Niteroi. Uma zona militar quase florestal, em torno de uma igreja barroca de aparência anciã. Um heliporto e uma balsa de perfuração submarina (acho). E um tal de centro de computação virtual para a Amazônia, ou algo assim, em um prédio de aparência misteriosa com o formato de um poliedro irregular preto e cinza, e sem qualquer sinal de habitação humana; tenho certeza que este último é só uma fachada para um centro dissecção de alienígenas ou de adamantização de ossos de mutantes. Mas divago...

De qualquer, foi um passeio interessante. É uma pena que a maior parte da orla da baia de Guanabara não seja bibicletável.

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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Casa, Rio de Janeiro
De volta


Estou de volta ao Rio. A viagem de volta passou por três continentes e cruzou dois oceanos. Entre o vôo vindo de Amsterdam e o indo para São Paulo, passei 12 horas mofando no aeroporto em Washington. Mas, entre livros, WiFi, a lojinha do Smithsonian e um Mexicano decente com refil de coca, até que foi uma espera agradável. Até consegui descansar um pouco.

O encontro de Amsterdam (a FENS) foi cientificamente decepcionante, em alguns aspectos. Achei as plenárias e as paralelas bastante menos interessantes (e de interesse bem mais restrito) do que as suas equivalentes nos encontros da SfN (nos EUA). Por outro lado, as sessões de posteres foram animadas e instigantes; e a organização foi impecável.

"Você usa anticorpos?" - me perguntou a representante comercial
"Só os que o meu sistema imunológico produz" - respondi

As feirinhas das editoras e fabricantes de equipamentos em congressos dirigidos às ciências biológicas são sempre um evento a parte. Se por um lado a distribuição de brindes foi menos liberal do que em outros encontros, por outro as bocas-livres, petiscos e chocolates eram muito mais numerosas e de melhor qualidade do que em eventos nos EUA. Outro destaque ficou por conta das anticorpetes, um grupo de vendedoras de anticorpos embaladas a vacuo em uniformes estilo Formula-1; sinceramente, elas estavam meio incongruentes em meio aos microscópios cofocais e os implantes craniais para ratos; e dada a demografia destes encontros, imagino que elas fariam mais sucesso em um encontro de física...

Um último comentário: Em sempre gostei de Rembrandt, mas nunca tinha prestado muita atenção nas suas gravuras (i.e., impressões em papel a partir de uma placa de cobre riscada). No seu primeiro a FENS só começava de tarde, então dei uma volta por alguns museus, incluindo o museu judaico e a Gassam Diamonds. Na antiga casa do pintor (sobre cujo conteúdo na época sabemos bastante, graças ao detalhado inventário produzido quando Rembrandt foi a falência e teve que leiloar todas as suas posses), eu estava subindo as escadas quando ouvi que uma demonstração das técnicas de gravura comecaria dentro de instantes. E, em frente a uma prensa manual, uma artista de verdade foi nos conduzindo passo a passo pelo processo: Das três técnicas de riscar o cobre, a maneira de se aplicar e retirar a tinta, até a impressão propriamente dita. E foi só assim que eu começei realmente a apreciar e prestar atenção nas gravuras (e suas matrizes).

As tais gravuras são impressionantes, em particular no uso e representação da luz e sombra. É muito interessante, para quem gosta de quadrinhos, notar o quanto o tipode traço ou risco usado determina a ênfase, o movimento e a forma de uma figura. Além disso, como Rembrandt nunca fora à Itália, o seu contato com os mestres da renascença se deu através de gravura; o seu entendimento do chiaroscuro deve tanto ao buril quanto ao pincel; de fato, tive a impressão de que a gravura para ele era uma forma de arte muito mais ínitma e pessoal do que a pintura. Assim, as suas gravuras ajudam um pouco a entender o restante de sua obra.







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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Aeroporto Schipol, Amsterdam
Você é o passageiro mais interessante que eu entrevistei hoje - ...

... foi o que me disse o policial após a entrevista de segurança pré embarque. De fato, a minha passagem pela segurança deste aeroporto foi um evento social: Conversei amigavelmente sobre o jogo contra a Holanda com o guarda que me revistou, e sobre ciclismo em Amsterdam com o operador do raio-X. Mas foi com o entrevistador que o papo rendeu mais.

Ele começou me perguntando o usual ('Você fez as próprias malas?'; 'Você recebeu algum pacote de estranhos?'), deu sequência com perguntas sobre meu itinerário ('porquê você vai fazer escala em Washington?'). Ao responder esta pergunta, eu obiviamente mencionei que estava viajando para participar de congressos científicos. De neurociência, esclareci. E ele engatou um papo bastante animado sobre as implicações éticas da possibilidade de alterar a personalidade por meio de terapia genética ou drogas. Ficamos uns 10 minutos conversando, enquanto a fila atrás aumentava, e a representante no local da United Airlines olhava o bate papo com crescente impaciencia.

Este alias vai ser outro daqueles posts cronológicamente invertidos. Hoje de manhã, com uma das minhas mochilas cada um, eu e o Graham pedalamos nossas bicicletas até aqui. É um passeio interessante (de uns 15-20 km no total, ao sul da cidade), com um cenário um tanto diferente da caminho que percorri para o norte em meu outro passeio de bicicleta pela região em volta de Amsterdam (e sobre o qual eu ainda não postei nada). No final, simplesmente dobrei a bicicleta, coloquei na sacola e fui viajar.

Ontem foi o jogo Holanda X Uruguai. Assisti, com a Su e a Gabi, em uma churrascaria argentina, onde um pequeno grupo de Uruguaios se refugiou. Como a churrascaria fica ao lado da praça Rembrant, onde jovens holandeses em diversos graus e tipos de intoxicação se congregam em dias normais, o barulho quando o time local tocava na bola era ensurdecedor. Acho que pessoas como eu (e a Su, e a Mari), que normalmente só acompanham futebol em jogos da seleção na copa, são muito mal acostumadas. Mesmo quando a seleção vai mal, os jogadores do Brasil tendem a ser bastante habilidosos. Então ficavamos curiosos com a demora de holandeses e uruguaios em decidir o que fazer com a bola quando esta chegava aos seus pés. Não posso dizer que fiquei impressionado com qualquer um dos dois times.

Ao final do jogo, os locais comemoraram, com vuvuzelas, bandeiras e baseados, como se tivessem ganhado a copa. A policia olhava, em peso e atenta, mas tolerante, enquanto os celebrantes jogavam uma quantidade prodigiosa de lixo na rua, transformavam carros de bombeiro em carros alegóricos improvisados, e em geral faziam barulho como se possuídos por cacodemônios. Mas era uma bagunça amistosa, bem holandesa.

No dia do jogo, pela manhã, apresentei o meu poster. Inicialmente, achei que estava na Sibéria científica local, em uma seção meio erma do salão, na manhã seguinte à festa ('Jump de FENS') que entrou madrugada a fora. Mas aos poucos, os interessados foram aparecendo, e um mini-engarrafamento foi se formando enquanto eu agitava os braços maniacamente (é o que acontece quando eu fico entusiasmado) e explicava como calcular as massas médias dos neurônios. Fiz alguns contatos interessantes; em particular, um professor polonês me convidou para passar um tempo em Varsóvia (ele tem uma coleçao respeitavel de insetívoros leste-europeus). Inspirado pelo 'Wronski' do meu email, ele me contou uma história interessante sobre o Banach, outro matemático polonês excentrico: Aparentemente, ele e seus colegas se reuniam em um café local para discutir matemática. Infelizmente, após a ressaca inevitável, eles esqueciam muitas das demonstrações brilhantes que havia obtido quando seus cérebros estavam bem lubrificados pela vodka. A solução foi convocar a esposa de um deles, que passou a manter um livro com o registro das soluções para problemas já resolvidos, e os prêmios propostos para os problemas em aberto. Recentemente, um alemão resolveu um destes últimos, e ganhou o ganso vivo estipulado do governo polonês em cerimônia solene.

Tenho que ir. Vou sentir saudades desta cidade, que combina bastante comigo.




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