sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Casa, Belo Horizonte
Teoria do dominó


A noticia mais significativa no mundo atualmente são os protestos na Tunísia, e o papel da internet na sua disseminação. O que parece ser a primeira revolução auto-organizada pela internet esta a beira de derrubar o governo tunisiano. A censura a internet foi suspensa ontem, e o Presidente Zine al-Abidine Ben Ali, a 27 anos no poder, fugiu do pais.

Tradicionalmente, um governo repressivo mas sem vocação açogueira a lá Saddam Hussein, se mantém no poder desarticulando qualquer primordio de oposição organizada: Prendendo lideranças, cooptando elites várias, e controlando a imprensa. Mas a internet criou um curto-circuto no mecanismo repressor, ao permitir a organização mais ou menos expontânea de protestos, sem uma liderança carcerável ou aparato partidário reprimível; e ao tornar possível (com alguma ajuda hacker) a disseminação de noticias sobre a repressão aos mesmos. Motivados inicialmente pela alta no preço dos alimentos*, e remotivados pela repressão que já deixou dezenas de mortos, os tunisianos foram as ruas. Ao contrário dos protestos pós-eleitorais no Irã, a Tunísia não dispõem de uma milicia de lumpem-trombadões motivados ideológicamente (os Baseej), uma segunda linha de defesa que provavelmente salvou o regime islâmico (mas não a sua legitimidade).

O Governo tunisiano está se dando conta, possivelmente tarde demais, da precariedade de sua situação. No que talvez seja o começo do fim, a censura à internet foi desativada esta noite. É difícil prever até onde isto vai; mas a derrubada de um governo árabe por um movimento popular expontâneo (e não islamista) seria um divisor de águas.

PS: A cobertura na imprensa internacional tem sido esparsa. A Al Jazeera em inglês e a BBC tem sido as menos omissas, mas só começaram a reportar o tópico em detalhes ontem. O silencio quase total dos paises ocidentais está sendo ainda mais vergonhoso (nem menciono a liga árabe). E, por isso mesmo, é notável que uma quase revolução está acontecendo sem líderes, sem apoio internacional aparente e sem grande exposição na mídia de massa.

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* Que não necessariamente são as demandas mais urgentes para os tunisianos, mas pelo fato de atingirem toda a população simultaneamente de certa forma sincronizam as outras fontes de insatisfação.

Um comentário:

Karina Fonseca Azevedo disse...

"É difícil prever até onde isto vai; mas a derrubada de um governo árabe por um movimento popular expontâneo (e não islamista) seria um divisor de águas."

Muito bom!!!