sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Estrelas e guerrinhas sórdidas

Este é um daqueles posts meio aleatórios.

O mundo esteve e está cheio de guerras sanguinárias, mas o interesse que cada uma delas desperta tem pouco a ver com a número de mortes ou a destruição causada. Alguns conflitos são estrelas, com cobertura constante dos paparazzi da reuters. Cada morte é anunciada como um prenuncio do apocalipse, assim como foram as 100 anteriores e serão as 100 seguintes. Reporteres sem folego correm com seus coletes a prova de bala para anunciar os boatos e informação desencontrada que surgem após cada incidente. Sagazes colunistas interpretam os eventos como prova cabal da justeza de suas opiniões, sejam elas quais forem. E guerras verbais de um detalhismo quase barroco são travadas a respeito na internet.

Outros conflitos trabalham como garçonetes, e deixam curriculos que nunca são lidos na portaria da TV Globo. Alguem se lembra do separatismo na Abkhazia? Guerra em Nagorno-Karabah? A batalha de Badme? A insurgencia montanhesa em Myanmar?

Mas os conflitos mais frustrantes são aqueles que as vezes arranjam trabalho de figurante, já fizeram uma ponta em um curta, mas que ninguem reconheceria na rua. São guerras sobre as quais o mundo está ciente o suficiente para saber que algo horrivel está acontecendo, mas não preocupado o suficiente para fazer algo a respeito. A guerra no Congo, que começou como uma continuação do genocidio em Ruanda, foi deste tipo. A guerra civil no sul do Sudão foi outro. Ambos terminaram, ou estão dando um tempo, depois de matar mais gente cada que todos os conflitos no Oriente Médio de 1914 até agora. Mas, ei, alguem viu o video da tal Cicarelli? E o Ronaldo tá gordo pacas...

No Sudão, a guerra civil contra os animistas e cristãos do sul durou décadas e matou de 1 a 3 milhões de pessoas entre 1955 e 2005 (com uma pausa entre 72 e 83). E quase ninguem, seja o Ocidente, a União Africana, a Liga Árabe, ou a China, deu a mínima. No final, uma aliança entre evangelicos e lideranças negras conseguiu fazer o governo americano por pressão nos dois lados por tempo suficiente para que um acordo de paz fosse assinado. Foi provavelmente a única iniciativa decente do governo Bush em matéria de politica externa, mas a guerra no sul acabou.

A guerra em Darfour começou logo em seguida, mas as tensões subjacentes existem a tempos. A divisão entre ‘negros’ e ‘arabes’, assim como qualquer outra divisao racial, é um artefato cultural, mas o preconceito é bastante real. Os ‘negros’ são tribos de agricultores, e os ‘árabes’ são tribos de pastores. Como o Sahel está se desertificando rapidamente, o conflito por terra e agua vem se intensificando, com o governo central em geral tomando partido das tribos ‘árabes’. De modo mais geral, as minorias no Sudão sempre ficaram de fora da divisão dos espolios em Cartoom (chamar aquilo de governo é muita caridade), mas as coisas pioraram muito desde que o Bashir e co. tomaram o poder, e começaram com a lenga lenga salafista. Quando ficou claro que Darfour seria excluido do acordo de repartir a renda do petroleo entre norte e sul (o petroleo fica quase todo no sul), os rebeldes atacaram. A resposta do governo foi armar milicias arabes (os Janjaweed), e apoia-las com logistica e helicopteros de ataque. O numero de mortos é dificil de determinar com certeza, estimativas vão até 400.000, com 2 milhões de refugiados, internamente ou no Chad. Mas, novamente, ninguem dá a mínima.

Darfur é um dos cantos menos estratégicos do planeta. O governo Sudanês tem cooperado com os EUA desde que expulsou o Bin Laden em 1998, a China explora o petroleo Sudanes, em troca de armas e cobertura diplomatica, e a Russia (assim como a China) acredita no direito soberano de cada pais de massacrar o próprio povo. Para a esquerda engajada um conflito que não envolva os americanos não conta, então não esperem grandes passeatas. Também não esperem protestos furiosos na liga árabe, porque o massacre de milhares de muçulmanos em um dos paises-membro só é significativo se cometido por judeus ou ocidentais.

No final da conta, Darfur não importa para quase ninguem, e quase ninguem se importa com Darfur. As razões são bastante obvias, mas as desculpas apresentadas são muito criativas.

UPDATE: Nem todo mundo.

9 comentários:

desassistidas disse...

Oi Bruno mto importante sua reflexão, eu não aceito que existam estas guerras é uma vergonha.

Gostei da estratégia para o pessoal ver o restante do texto.

Abraços, THA

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|3run0 disse...

THA, um dia ainda vou descobrir qual é o assunto do meu blog...
Mas o jeito que Darfur tem sido sistematicamente ignorado já estava me incomodando a algum tempo. Fiquei feliz de finalmente conseguir articular este incomodo.

pedro leite ribeiro disse...

CARTA DAS NAÇÕES UNIDAS
CAPÍTULO I
PROPÓSITOS E PRINCÍPIOS
ARTIGO 1 - Os propósitos das Nações unidas são:
1. Manter a paz e a segurança internacionais... etc., etc.
Se alguém se quiser dar ao trabalho de contabilizar as guerras que já aconteceram desde que as Nações Unidas foram fundadas, em 45, até aos nossos dias, chegará naturalmente à conclusão que esta organização, do ponto de vista do cumprimento dos objectivos que delineou para si própria, é um rotundo fracasso. Mas... substituír por o quê, eis a questão. Por motivos semelhantes se afundou a SDN.
Excelente o seu artigo!
Obrigado pelo comentário!
Pedro

pedro leite ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
pedro leite ribeiro disse...

Parece que o link não cabe, por isso vou optar por parti-lo. Dizia que nem de propósito:
http://news.bbc.co.uk/
onthisday/hi/dates/
stories/october/24/
newsid_4353000/4353094.stm

Parabéns?

|3run0 disse...

Bom, a ONU é boa ou ruim na exata medida em que seus paises membros o são. Os darfurianos certamente tem muito pouco para comemorar.

Nobody disse...

I remember meeting a Macedonian in Barcelona. When she heard that I am Israeli she said in an unforgetable voice," what a horrific war you got there!!"

And I was thinking that the combined number of Israeli Palestinian victims over the last 5 years is barely reaching 5000. No case of rape was ever reported. During the civil war in Yugoslavia hundreds of thousands died and thousands of women were raped. Yet these people are just horrified by our war.

Paula disse...

Não somos mais tão ingênuos de acreditar num mundo sem guerras. Mas precisa haver tantas? E precisava ter escala de importância estilo 5 estrelas para a guerra x e 1 para a y pois não dão IBOPE?
Darfur é um absurdo. O que o Mobuto fez no Zinbabwe outro... e são inúmeros absurdos... E os jornalistas sérios, que denunciam correm risco de vida...
Tá difícil de dormir mesmo.
Salvo os que mandam seu cidadãos para o front. Estes dormem tranquilos.