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sábado, 11 de agosto de 2018

Piccadilly line a caminho de Heathrow, Londres
Goodbye to all that

Adeus Londres
Estou na passagem final por Londres, a caminho do aeroporto; cheguei ontem de Newcastle e chego hoje a noite no Brasil. Depois da Alemanha, passei por Londres, pedalei até Oxford, Pedalei até Reading e pedalei até Londres novamente. Peguei um trem para Newcastle, fui e voltei no fim de semana  para/de Cragside, e agora ei-me de volta.

Vários posts escritos e semi-escritos, que irei postar no futuro próximo, espero.

Adeus Newcastle (e a melhor comida chinesa da Inglaterra)

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quarta-feira, 19 de julho de 2017

St. John's College, Oxford
Cidade vs. Beca II

O Uber local

Até dois dias atrás, eu não sabia que tinha uma cozinha.

Yoga de Penrose - procurando quase-simetrias
Quando cheguei aqui só pensava no banho que iria tomar e na cama em que iria deitar. Me identifiquei aos porters do St. John's, e um deles gentilmente me levou até o meu apartamento, a cerca de 50 metros de distância do college. Para visitantes, este número é importante, pois a antiguidade da habitação, e portanto a quantidade e qualidade de confortos modernos, varia em proporção inversa com a distância. Assim, estas oscilam entre monásticos quartinhos literalmente medievais dentro do college, a apartamentos vitorianos logo ao lado, ainda com banheiro e/ou cozinha compartilhados, até apartamentos razoavelmente modernos a uma dúzia de minutos de distância.

Fiquei com a segunda opção. Um prédio honesto com combinações um tanto idiossincráticas de privadas, banheiras e chuveiros distribuídos entre seus três andares, cada um com dois ou três apartamentos.

Perguntei ao meu guia se havia uma cozinha no prédio. Ele disse não ter certeza e, na pressa, deixei por isso mesmo. Sem notar, tomei de forma implícita a possível ausência como um fato estabelecido.

Punting
Ontem, duas semanas depois de chegar, voltei para casa tarde, e notei acesa a luz da janela logo acima da entrada. 'Que curioso', - pensei, - 'o cidadão faz coleção de panelas...'


Enquanto procurava por minhas chaves, finalmente conclui que esta não era, afinal, a explicação mais provável. Subindo as escadas, vi então que a porta correspondente não tinha número, ao contrário de todas as outras que lhe eram nos outros aspectos indistinguíveis. Do outro lado, a cozinha.

Hoje vai ter carbonara...








Punting 2 - quase em linha reta


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sexta-feira, 3 de julho de 2015

chez Chantal, St. Mary Cray, perto de Londres
Dobras, fissuras e tectônica de provas


Infinita diversidade, mas só em algumas combinações
Estamos, eu e minha bicicleta, novamente a caminho de Londres e arredores para colaborações científicas várias. Estamos também, porém, no final do semestre, com a concomitante pilha de provas e relatórios para corrigir. Ao longo da semana, a medida em que as turmas iam fazendo suas provas a pilha aumentava; a minha caneta vermelha só lentamente erodindo o monte que se formava.

Era soterrado pela correção de provas que eu me encontrava em minha sala, correndo contra o relógio no dia em que iria embarcar. E a caneta riscava e cortava, enquanto eu grunhia em reprovação aos erros desnecessários e tentava decifrar caligrafias hieroglíficas, quando meu celular e meu computador começaram a apitar em unissono. A atividade no meu Facebook, por alguma razão, estava pululando com pedidos de amizade de completos desconhecidos, menções a meu nome e avisos de postagem. Demorei um pouco para entender que isto tudo era a consequência do interesse gerado por um paper que escrevi com a Suzana, e que havia há pouco minutos sido publicado online na Science.

A pouco mais de uma ano, eu e a Suzana estamos trabalhando em um projeto para tentar entender como o cortex cerebral dos mamíferos se dobram. É cada um do seu jeito? Existem padrões comuns entre diferentes grupos? Ou há um padrão universal? Questões de óbvio interesse biológico, certamente, mas porque isto seria de interesse para um físico? Acontece que regularidades, mesmo aproximada, entre objetos que a princípio deviam ser díspares (tal como o espectro da radiação emitida por corpos diversos quando aquecido) muitas vezes são consequencia de algum principio fundamental ainda não explicitado.  Física nova, na acepção mais ampla do termo. A tal radiação térmica era evidência da natureza fundamentalmente quântica da matéria e energia em pequenas escalas. Quais novos princípios físicos um entendimento teórico da neurociência poderiam inspirar? Eu não sei, mas gostaria muito de descobrir...

Cada ponto é uma espécie diferente. Se você é um
mamífero, está em algum lugar desta reta
Bom, de volta ao cortex. O que conseguimos mostrar foi que, se levarmos em conta somente a maneira como a expansão do cortex alonga os axônios, e que a superfície cortical não pode se auto-interceptar (seria preciso rasgar o cortex para isso), é possível encontrar uma relação entre a área total do cortex, sua área exposta e espessura, que vale (como verificamos) para todos os mamíferos. É como se os axônios tentassem enrugar o cortex mais e mais e o contato entre pedaços diferentes da superfície tivesse o efeito contrário. A configuração real dos cortices é exatamente aquela em que estas duas tendências estão em equilíbrio. Não importa se o seu cérebro é liso, como em um camundongo, ou dobrado, como o nosso. A regra é a mesma, a física é a mesma.


Além disso, a forma exata da relação implica em que a única escala de tamanho que define se e o quanto o córtex será dobrado é a sua espessura. Isto significa que, se usarmos a espessura como nossa régua, então existe uma área crítica (medida em múltiplos da espessura ao quadrado); abaixo dela o cortex não se dobra. Acima, ele se dobra.

Existe outro sistema físico que pode ser entendido como uma superfície de espessura finita auto-evitante sob compressão, e cuja escala de tamanho característica é dada pela espessura. Um sistema físico amplamente disponível nos quais experimentos são muito mais simples do que no cérebro. Bolinhas de papel...



Papel, de fato, era o que eu tinha em mente naquele dia. Uma pilha interminável de papeis, cobertos pelos alunos com fórmulas, números e gráficos. Na minha usual afobação para chegar a tempo do vôo sem esquecer nada de essencial, tive que levar um maço de provas para corrigir no avião. Assim que terminar, envio a pilha por correio de volta ao Brasil. Me desejem sorte. E aos meu alunos também...

PS: Alguns artigos de divulgação interessantes sobre o artigo aqui, aqui e aqui. 



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domingo, 11 de agosto de 2013

Queen Mary, University of London, Londres
O culto do Elfo da Segurança

O Elfo da segurança ataca novamente!
Saúde e segurança são duas coisas inegavelmente boas. A ausência de uma ou ambas é sempre razão para ansiedade. Mas aqui na Inglaterra existe a aparente ilusão de que todos os riscos podem ser mitigados, todos os perigos debelados, todos os acidentes evitados, se uma quantidade suficiente de pentelhação for imposta ao público. Imagine algo como o teatrinho sobre os procedimentos de segurança que ocorre antes da decolagem, mas que continue durante todo o voo. Seriamos informados não só sobre a localização das portas de emergência e sobre o funcionamento das máscaras de oxigênio, mas também receberíamos aviso sobre como café quente pode queimar, o que fazer no caso de um infarto, e como proceder durante um ataque de marimbondos. É assim que me sinto atualmente em Londres.

Health and Safety é o nome genérico deste culto de segurança, ocasionalmente pronunciado 'elf an' safety. O Elfo da segurança é invocado sempre que alguma construção ocorre sem o envolvimento de dúzias de agências estatais e para-estatais, em conformidade com resmas de regras e procedimentos obrigatórios. Quadros de aviso, corredores, ruas e metrôs são cobertos por proibições, conselhos e informativos, que podem ser banais ou importantes, paranoicos ou pertinentes; mas que pelo seu próprio excesso, são quase completamente ignorados. 

Boris Johnson
Só como exemplo: Estou alojado em um apartamento no próprio college. Ele tem banheiro, quarto e escritório. Todos ligados por portas corta-fogo ("Fire door keep shut") a uma ante-sala que não tem muito propósito. Esta por sua vez é ligada a um corredor externo, por outra porta corta-fogo, e o corredor é ligado ao átrio do elevador por, adivinhem, uma porta corta-fogo! Todas as portas são pesadas e se fecham automaticamente por meio de um sistema de pistões e molas. No caso da cozinha (dotada obviamente de extintor de incêndio, cobertor térmico e inúmeros adesivos com informação sobre segurança), um alarme é acionado sempre que a porta fica aberta por mais que alguns segundos.

Obviamente, se ocorrer um incêndio na cozinha, apesar de todos os avisos, e se este não for apagável pelo extintor e manta térmica disponíveis, então deve ser um alívio ser capaz de se colocar a quatro portas corta-fogo de distância do fogo. Mas eu não consigo não achar que este nível de proteção, provavelmente maior do que o de muitos paióis, é um tanto excessivo...

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sábado, 10 de agosto de 2013

Margem do Tâmisa, Oxford, Inglaterra
Rumo a Váu do Gado.

Rola um D20...

Estou postando isto do celular, então tenho que ser breve. Estou em Oxford, onde cheguei pedalando de Londres. Pela rota que escolhi, foram um pouco mais de noventa quilômetros. Sai cedo do meu alojamente, e fui até um dos extremos ocidentais do metrô londrino, em Uxbridge. De lá, fui percolando por trilhas e estradas rurais. Descobri, surpreso, que meu caminho passava pelos Estúdios Pinewood, onde foram filmados muitos dos filmes do 007. Uma pequena placa em um prédio no segundo plano comemora esta ligação com o agente secreto (a esquerda do segurança sinalizando que era proibido fotografar).
 
A cidade seguinte, Marlow, parecei fazer parte de algum cenário dos tais estúdios, pois era tão quintessencialmente e ruralmente inglesa que parecia uma caricatura. Dos pubs com nomes como 'George and Dragon' e 'Fox and Hounds' ao tráfego equestre, passando p
elo casamento na igreja pseudo-gótica local onde ternos caudados se misturavam a uniformes militares com espada, tudo parecia um cenário de algum tipo de remake contemporâneo de Downton Abbey.

Parei para almoçar em Henley-on-Thames, onde comprei peito de pato defumado, um excelente queijo azul com massa quase cremosa cujo nome esqueço, e coca-cola. Almoçei no banco da praça, e continuei a pedalar.

Cheguei nos limites de Oxford um tanto estropiado, ansioso para chegar com tempo suficiente para aproveitar a visita antes de pegar o trem de volta para Londres (onde tinha um jantar chinês marcado). Foi um trajeto mais longo que os demais nesta viagem, mas depois das colinas da Escócia, os morrinho ingleses não assustam tanto. Acabei tendo tempo somente de tomar um café com um amigo que estuda aqui, e pegar o trem de volta. Estou agora digitando do trem para Paddington.



PS: Acabou a bateria do celular. Subi o post quando cheguei no meu ap mesmo.

PS2: Não postei sobre Orkney, ou sobre Edimburgo, mas pretendo fazê-lo em breve.

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Apessoinha Bed & Breakfast, Paris
Adieu London, hello Paris

Os dias foram movimentados em Londres, e continuei com o meu novo hobby de caminhadas noturnas. Na 5a me encontrei com a Rima, e fizemos um tour a pé pela parte chique (posh) da cidade: Sloane Square, Chelsea, Kensington, etc. Sob muitos aspectos, caminhadas são uma maneira muito mais interessante de reencontrar amigos do que refeições em restaurantes. A experiencia é muito mais memorável, não ficamos presos ao ritmo imposto pelo serviço do restaurante (pedido/comida/sobremesa/conta), e é possível haver pausas na conversasão sem desconforto (e, reciprocamente, não existe a nescessidade de preencher cada minuto de silêncio com palavras); pausas não-desconfortáveis são um sinal de entendimento real entre duas pessoas (só em relações superficiais a conversa nunca para), mas é preciso algum tempo até achar o ritmo certo se estas não se vêem há muito tempo. Depois da extremamente agradável caminhada, me despedi da Rima e fui andando ao longo do Tâmisa a partir da ponte Chelsea, passando por uma usina termoelétrica fora de funcionamento (muito feia, mas por alguma razão tombada), e por uma monstruosidade em forma de pirâmide asteca, em frente à ponte de Vauxhall. Passei pelo parlamento e adjacências (habilmente iluminados, o que produziu em mim certos impulsos homicidas em relação a carregadores de bagagem holandeses), e finalmente peguei o metro em Embankment (ligando a trajetória do passeio com a da noite anterior)

Sexta fui em um jantar Iraniano, cozinhada pela simpática irmã do Reza (o meu colaborador em Londres, professor no QMUL). Discutir a situação no Irã com pessoas que nasceram e viveram lá é bem diferente do que debater o assunto com outros nerds de plantão na internet. É mais informativo também.

Sábado almocei com o João Guilherme e a Dani, primos meus que estão na Inglaterra (os Mota são uma especie adaptável). No caminho para o restaurante (estritamente falando, no caminho oposto ao caminho para o metro, porque confundi a direção devido a insistencia do sol neste hemisfério de andar do lado errado do ceu), passei por uma pequena mas animada manifestação contra a Igreja da Cientologia, uma picaretagem inventada por um escritor de ficção científica mediocre. Simpáticos os manifestantes. Alias, qualquer grupoque consiga combinar o meu desprezo pela Cientologia com o meu apreço pelos quadrinhos do Alan Moore merece aplausos (pessoas com mascaras de Guy Fawkes em Londres! Da próxima vez que estiver em Nova York vou procurar pelo doutor Manhattan).

Comprei ainda uma nova câmera (uhu!), e cheguei no aeroporto com uma antecedencia incomum. Minha bagagem foi revistada em detalhes, e eu não pude não explicar para o guarda o funcionamento do sextante de navegação que comprei em uma feirinha de antiguidades em uma igreja (st. James) em Piccadilly.

Cheguei em Paris, vim para a casa da Mariana e do Sylvain, dormi, e tive um domingo relativamente light; me registrei no congresso, participei inadvertidamente de uma missa maronita, e comprei o meu almoço em uma mercearia grega, onde discuti brevemente Tucídides com o vendedor (originario da Tessália) em franglês (o assunto surgiu quando ele me perguntou se eu conhecia a Grécia, e eu respondi que sim, mas só através de livros, e mencionei o dito cujo como exemplo). Não entendi direito se ele me disse que na época da guerra do Paloponeso a Tessália era uma terra bárbara, ou se ele reclamou que o Tucídides fazia parecer injustamente que era este o caso. Em ambos os casos, uma conversa interessante. Passei também mais de duas horas na Sainte-Chapelle, que ainda considero uma das coisas mais bonitas criadas pelo ser humano (os vitrais...). Se tiver tempo, escrevo um post dedicado a respeito; mas as fotos já estão no flickr.

Hoje fiz minha apresentação (que foi muito bem), e cozinhei um jantar para a Mariana, o Sylvain e o André: Salada de pepino, tomate, azeitonas e queijo fetá, com molho de iogurte; endívias recheadas de alho poró e cogumelo, e risoto de presunto espanhol, pera e cogumelos (inventei hoje, ficou gostoso). Falei com o Gabriel e a Ceci por Skype, li alguns emails, visitei alguns blogs, bloguei, etc. Por algum estranho efeito relativístico são agora 4:40 da manhã. Talvez eu devesse ir dormir...

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

France House - QMUL, Londres
Vida noturna


Estou aqui em Londres já a dois dias, habitando um excelente alojamento dentro do Queen Mary College enquanto colaboro com o Reza (professor aqui) e o Marcelo em um paper. A minha camera foi roubada da mala que despachei em Amsterdam, então não tenho fotos daqui por enquanto. Eu tive um dia extraordinário em Amsterdam, com e graças a Ana Júlia, que me hospedou e serviu de guia.

Amsterdam merece um post separado, que não vou escrever agora porque são 5:43 da manhã e ainda não fui dormir. Não fui dormir porque só cheguei no alojamento meia hora atrás. Cheguei tão tarde (ou cedo) porque ontem saí daqui as 9:30 da noite e fui andando pela cidade. Segui pela Mile End Road, White Chapel, Brick Lane, e inúmeras ruelas e becos do East End com nomes inusitados. Passei pela estação ferroviaria de Liverpool Street (que em sua incarnação moderna data dos anos 60, mas que eu acho extremamente charmosa), a ponte do milenium, a ponte Blackfriars e o simpático pub arte deco com o mesmo nome logo em frente, Chancery Lane, Holborn e Oxford Street. Já era mais de 11 da noite, o sol tinha acabado de se por, e eu estava com fome. Continuei portanto até Leicester square, o único lugar onde achava que poderia encontrar algum restaurante aberto.

Após comer uma pizza mediana, o metro já havia encerrado as operações. Desci então até Trafalgar Square (Charing Cross no mapa), onde algum artista maluco organizou um maratona de 100 dias de ocupação initerrupta do quarto pedestal da praça, o único no momento desprovido de estátua. Milhares de voluntários estão se alternando, passando cada um 1 hora no topo fazendo o que lhe vier a cabeça. Sem metrô, e sem um onibus noturno direto, resolvi descansar um pouco e esperar o sol nascer de novo. Periodicamente os voluntários iam se sucedendo (por meio de uma plataforma extensível) no pedestal. Um deles leu um livro, outro cortou o próprio cabelo, e outro ainda protestou contra o fechamento de algum curso de línguas no King's College. Mas o mais interessante foi um prefessor de educação artística de segundo grau, que engravatado e com presença de espírito e de palco, deu uma aula de arte aos gritos, com ajuda de uma série de cópias de pinturas distribuidas por sua assistente. 'O que voces vêem' - ele perguntava. A aula terminou com uma discussão informal (ele ficou feliz em saber a respeito do Brughel que vi hoje na Sotehrby's (outra estória...)). Passei mais uma ou duas horas lendo na praça (muito apropriadamente para um caminhante solitário, um livro novo do Paul Theroux onde ele repete, 30 anos depois, sua viagem solitária de trem através da Europa e Asia), sendo periodicamente interrompido por um bêbado um tanto paranóico chamado Cameron, que inicialmente presumiu que eu fosse um muçulmano lendo o Corão (a barba...), e depois queria saber o que um grupo de barulhentos Italianos estava cantando ao lado.

Em hora nenhuma a praça ficou vazia; inicialmente bandos de turistas passavam apressados, como bandos de aves migratórias, tirando fotos e rindo alto (italianos e brasileiros eram sempre ouvidos antes de serem vistos). Aos poucos, grupos de mendigos foram se formando educadamente nos bancos da praça, preparando-se para dormir. Todos tinham seu equipamento mendigal customizado, e tratavam todo o processo com uma naturalidade desconcertante. Por último, vieram os jovens, pinguços e farreiros a procura de transporte para casa, vindos de incontaveis casas noturnas e festas particulares nas redondezas. Garotas de minissaia e maquiagem borrada, totalmente bebadas, chapinhavam nas fontes e gritavam palavrões. Seus companheiros masculinos urravam selvagemente e encarnavam o papel dos romanos no rapto das sabinas, carregando-as de um lado para o outro nos ombros. Alheios a tudo isso, os amadores no pedestal e suas inevitáveis claques de família e amigos prosseguiam na sua performace.

Com o ceu azul-escuro, peguei finalmente um onibus noturno até Liverpool Street. O McDonalds ao lado da estação dava a impressão de ser o único estabelecimento comercial aberto na cidade, e naquele momento me parecia um lugar extremamente acolhedor, com a perspectiva de um chocolate quente. Um chocolate e mais um ônibus depois, e após uma curta caminhada ao longo do canal, finalmente voltei, saudoso e com 7 horas de atraso, para a minha cama macia e meu chuveiro quente.

Update: O post, agora em português!

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sábado, 17 de julho de 2004

QM, Londres

Hoje acordei cedo para fazer minha mochila. Dois dias antes tinha lavado algumas roupas (na banheira, operacao complicada), e deixado secar no banheiro. Felizmente estavam secas quando acordei. Devolvi as chaves do flat e levei minhas coisas para o departamente. Depois fui assistir ao seminario de comemoracao dos 60 anos do McCallum (um fisico foda do departamento aqui). As palestras foram interessantes (em particular a do Ellis). O Penrose ficou tirando sarro dos cordistas, comparando-os 'a uma manada de bufalos', e o Witten ao Mao Tse Tung.

Depois do seminario fui almocar com a Sara em um comida a kilo brasileiro! (sugestao da Flavia, fica em Oxford street em frente 'a Virgin records). 1.1 kilos a mais e varias libras a menos depois, o nosso plano era ir ate' a Tate modern. Descemos antes em Hyde park, para tomar uma cafe no gramado e deixar a comida descer. Duas horas depois acordo de um sono tranquilo (o dia estava bastanta agradavel). Acabamos ficando conversando por la' mesmo ate' a hora da Sara ir embora, e depois eu segui para a Tate.

Cheguei na Tate, sentei em um poltrona para dar uma olhada no mapa, e claro, dormi. Nao so comi demais, mas estou realmente detonado. Viajar 'e bom mas cansa fisicamente.

A Tate e' um enorme museu de arte moderna que fica em uma antiga Termoeletrica recauchutada*, um lugar bastante interessante. Ela tem algumas exposicoes temporarias, e varias exposicoes tematicas, e felizmente e' razoavelmente livro daquele pedantismo viajado tipico deste tipo de lugar**

Alguns exemplos aleatorios

1 Logo no saguao existem varias fileiras de bustos, desde Rodin ate' uns malucos contemporaneos em video. A ideia e' mostrar a evolucao da representacao da cabeca humana na escultura.

2 Existe uma sala dedicada a posteres de propaganda da era sovietica. Alguns sao ate' bem feitos (como o que celebra as tropas da NKVD, futura KGB). Um do Uzbequistao, decada de 20, mostra uma revolucionaria com cabelos ao vento e lenco vermelho conclamando uma fileira de mulheres cobertas com o veu muculmano (os rostos nao aparecem) a votar na eleicao. Interessante os paralelos com os dias de hoje... Mas o premio Hellmans vai' para uma do Cazaquistao (acho), que diz "A guerra do futuro: So' a uniao socialista pode evita-la", enquanto mostra uma *nave* futurista detonado uma cidade com raios da morte! Bizarro.

3 Vi tambem um quadro surrealista +- famoso do Max Ernst (um alemao que lutou na 1a guerra, bla bla bla). Ao lado existe uma aparelho que reproduz gravacoes onde varios criticos, psicanalistas, historiadores e chutadores em geral tentam explicar o quadro. Cada um diz uma coisa diferente, chega a ser engracado.

Max Ernst, The Elephant Celebes (1921)

4 Em um bloco maciço de madeira, um escultor escavou cuidadosamente os nos, aparando ate' chegar na camada que corresponde a arvore quando era pequena. E' muito interessante ver o tronco e tocos dos galhos da antiga arvorezinha emergirem do bloco de madeira.

Voltei de onibus aqui para o departamento. Originalmente pensava em ficar em um albergue esta noite (o dormitorio estava reservado). Mas resolvi acampar aqui mesmo na sala de pos graduandos. Minhas coisas ja' estao aqui, saco de dormir e esteira inclusive, e' de graca e tenho Coca Cola. Poderia sobreviver ao inverno nuclear se fosse preciso.

Por ultimo, como este deve ser o ultimo post significativo de Londres, ai vao as fotos que faltavam. As primeiras sao do Regent's canal. No meio, as de Hamsptead Heath (a primeira delas e' a do show que entrei de penetra), e no final uma na Corsega da Parvin & Slaba.



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* Quando vamos acampar, `a fazenda ou ao parque, estamos revivendo um simulacro das experiencias das sociedades pre'-agricultura e pre'-industrial respectivamente. A arquitetura da a Tate e' algo parecido, uma especie de nostalgia da era industrial.
** Tipo: "A instalacao e' uma releitura de mitos da criacao aborigenes refletindo a incerteza da sociedade pos-moderna em face a subordinacao da polis burguesa face ao super-ego da coletividade" ou algo assim

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sexta-feira, 16 de julho de 2004

QM, Londres

Hoje sai depois do almoco do QM. Fui no Imperial War Museum. A exposicao sobre o Dia-D foi meio decepcionante, mas eu gosto do IWM (nao e' um museu muito reflexivo, mas o acervo e' muito interessante). De noite, fui assistir a primeira parte de Henry IV* no anfiteatro do Regent's park. Estudante paga £10 (o menor preco), e fica com o melhor assento disponivel no dia. Se a peca lota, vc vai em pe'. Mas hoje fiquei na melhor secao, logo de frente para o palco.

Eu gosto da peca (e' a unica que e' efetivamente engracada, embora seja uma tragedia**), e gostei da montagem (e' a primeira vez que vejo esta peca em particular). Eles conseguiram fazer com que a maior parte dos dialogos soasse natural (mas e' meio complicado manter uma torrente de sentencas complicadas durante uma luta de espadas). O Falstaff e' duca, com um timing comico que eu nunca vi numa peca do balancador de lancas de Stratford.

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* Shakespeare e' igual aos filmes do Rambo. No primeiro (Henry IV, Rambo I) o principe Hal (futuro Henry V)/Rambo e' um personagem dividido, que rejeita sua vocacao marcial, e so' a contragosto sai na porrada (no final). No segundo (Henry V, Rambo II) ele ja' superou estas duvidas e o pau come solte para seus desafetos (franceses/vietnamitas). Profundo...
** Hamlet no McDonalds:
' Coisa admiravel o Big Mac, tao cheio de hamburgers & alface, dotado de excelso queijo e refinado molho especial, e mesmo assim repleto da malicia infinita do colesterol. Escolheria-o eu, senao pelo aviso do fantasma de meu pai, e entao pelo Cheddar me inclino. O' nobre feicao do queijo derretido, a duvida me corroi as entranhas, ha' mais opcoes entre o ceu e a terra que caberiam em meu vao estomago. Cheddar ou big mac, eis a questao. E depois de comer, dormir, sonhar talvez? '

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QM, Londres

Durante a semana, passava a maior parte do dia trabalhando. Como as coisas fecham cedo por aqui, mas a noite cai tarde, quando saia do QM ia andar por algum canto da Cidade que nao conhecia. Descobri que a luz do 'final da tarde' (que dura umas duas horas), combinada com  a iluminacao dos predios e monumentos, e a falta de gente na rua, cria um efeito impressionante. A cidade ganha uma textura que nao tem durante o dia; a luz suave e obliqua cria sombras que, junto com as lampadas, realcam a arquitetura e o desenho das ruas. Durante o dia a luz solar e' mais democratica, e o contraste se desfaz. 
 
Tirei umas fotos, mas so' uma ficou boa. Tambem tirei uma foto do Big Ben nestas circunstancias, para provar que nao estou escrevendo isto do meu ap. no Rio e viajando so' na maionese ;-)



Nestas andancas, fui pela margem do Tamisa do monument ate' Waterloo, passando pela Millenium bridge* e a catedral de Saint Paul. Outro dia resolvi conhecer o East End. Fui me embrenhando a partir de Mile End. Passei por algumas regioes bem detonadas, e algumas coisas interessantes (tem mercearias vendendo jacas por aqui!). Parei um pouco na Ion square (com um nome desses nao dava para nao parar), e depois continuei meio sem rumo. Tinha a vaga ideia de ir ate' o Tamisa, mas acabei indo parar em Islington. Chutando o balde, continuei andando ate' Camdem (ao longo do curso do rio Fleet, hoje um esgoto canalisado subterraneo*)
 
Em Camdem jantei em um restaurante vietnamita/chines de aparencia bem ordinaria. Geralmente por aqui restaurantes chineses tem um servico meio brusco, para dizer o minimo. Os garcons falam mal ingles, esperam que o cliente mentalize o seu pedido assim que se senta, e se vc abre um livro e comeca a ler ficam fazendo cara feia, aparantemente como um estimulo para comer rapido e vagar a mesa. Neste, o solicito garcon tinha cabelo tingido de laranja, e falava pelos cotovelos (me ensinou a receita de frango satay). A musica de fundo era um tipo bizarro de techno-calypso pop em chines,  com o garcon como backing vocal double surround durante os refroes.
 
No dia seguinte voltei de metro ate Camdem, para continuar andando ate' Regent's park, que tem um jardim duca. Continuei ate' Hyde Park, onde rolava um show de Simon & Garfunkel. Fiquei ouvindo de fora, porque a) nao tinha ingresso, b)minha cota de penetra em Londres esta esgotada, e  c) estava acabando
 
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* Uma ponte de pedestres;  foi inaugurada em 2001,  e teve que ser fechada logo depois porque oscilava demais. Os calculos de oscilacao tinham sido feitos supondo que os pedestres andassem de forma mais ou menos aleatoria (i.e., com frequencias e fases diferentes). Mas assim que uma pequena oscilacao comecava, todos instintivamente (para manter o equilibrio) comecavam a andar no mesmo ritmo, aumentando a amplitude da oscilacao.
** O Fleet ja foi importante no passado, ja teve desde cerveja (ale) fabricada com sua agua, ate' plantacoes de acafrao em suas margens. Sua nascente fica em Hampstead Heath. Descobri isso tudo lendo uma exposicao de paineis que achei pelo caminho.
 

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segunda-feira, 12 de julho de 2004

QM, Londres

Ontem depois do almoco fui conhecer Hampstead heath. Ao sair do onibus, encontrei um grupo de espanhois que me disseram que um concerto de Jazz estava ocorrendo em Kenwood (que e' uma antiga casa de campo no canto de HH). Fui com eles ate o local. A entrada era 40 paus, sem chance. Ficamos ouvindo de um gramado proximo a area do show por um tempo, mas me cansei (de ouvir mal a musica e dos espanhois), e resolvi dar uma de penetra. Entrei no meio do mato, dando a volta em um lago, e consegui achar um tronco caido com uma vista razoavel do show. Por umas 2 ou 3 musicas tudo correu bem, ate que apareceu um seguranca mal-humorado (por que sera?), que expulsou de la.

Depois desta experiencia, o show perdeu a graca (nao gostei muito do que ouvi de qqr maneira). Fui entao andar pela heath (que quer dizer charneca). O lugar e' muito grande, e impressionante. Na maior parte, consiste em bosques e enormes campinas semi-planejados (i.e., nao e' uma floresta natural, mas tambem nao e' um jardin (que existem nas proximidades e sao fantasticos)). Fiquei varias horas me perdendo mato afora, em varios pontos nao se ve sinal da cidade. Apos anoitecer, peguei o onibus de volta ate Totteham, e fui andando pela Charing cross e Whitehall ate westminster. Claro que tudo esta fechado a esta hora, mas a iluminacao noturna da abadia e do parlamento e' interessante.

Hoje o dia foi meio parado. No almoco saimos eu, o Reza, dois indianos e um paquistanes. Foi uma conversa interessante... No final da tarde fui para uma livraria em Charing cross que fica aberta ate mais tarde. Fiquei no starbucks da loja (estou gostando do SB. O cafe e' bem mediozinho, mas existem poltronas confortaveis e ninguem enche o saco se vc ficar algumas horas. E a comida pelo menos mata a fome tb.

Alias, ja tinha notado isso antes, mas o papo de duas brasileiras na livraria (comparando as habilidades sexuais de varias nacionalidades) me lembrou de o quanto brasileiros soltam a lingua quando acham que nao tem ninguem ouvindo (ou pelo menos entendendo).

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domingo, 11 de julho de 2004

QM, Londres

O clima aqui continua erratico, mas fora isso as coisas vao bem. Sexta fui jantar na casa do Reza. O papo foi rendendo e quase perdi o ultimo trem.

Em baixo da minha janela, passa o regent's canal. Ele vai ate' Yorkshire, e e' um lugar interessante para andar. Imagine a paisagem inglesa padrao, com salgueiros, casinhas com jardins,o canal com patos,trutas e agregados. Varia eclusas operadas manualmente permitem a passagem de barcos em ambas as direcoes; varias pessoas aqui em Londres moram em uns barcos estreitos proprios para estes canais (tem varios), e' um estilo de vida bem agradavel, acho. Esta vocacao veneziana de Londres eu nao conhecia.

Sabado de manha o dia amanheceu sem uma nuvem no ceu, e fui andar pelo dito-cujo. Andei bastante, ate' Camdem, onde existe uma 'feira-punk' (que nao e' exclusivamente, nem majoritariamente, punk. Mas a feira hippie tambem nao e' la' muito hippie). A feira tem de tudo, de cogumelos magicos a havaianas. Como havia chegado cedo, ainda nao estava muito cheia, e pude andar bastante e conversar com os feirantes. Claro que, sendo aqui Londres, comecou a chuviscar por volta do meio dia. Eu estava de bermuda e minha camiseta de ciclismo. Nao sou uma pessoa muito friorenta (menos que a media dos Londrinos), mas isto ja era demais. Minha unica blusa de frio estava em casa, e nao era impermeavel. Acabei comprando o casaco de coura mais detonado que achei, de um indiano com cara de picareta, por 12 libras. Nao encontrei facadas ou manchas de sangue ainda no casaco...

Eu estava parecendo o Indiana Jones do Agreste, e foi vestido assim que fui me encontrar com a Sara (sorry!). Por bondade ou desatencao, ela nao fingiu que nao me conhecia, e fomos almocar em uma lanchonete arabe com uma comida maravilhosa. Voltei no meu ap. para trocar de roupa, para preservar minhas pernas da hipotermia, e depois assistimos uma peca da 'Reduced Shakespeare Company', onde eles apresentam todas as pecas do pagodeiro de Stratford em menos de duas horas. Otelo vira rap, as comedias sao condensadas em uma so', e em Hamlet (que e' encenada 4 vezes; em 15 minutos, 2 minutos, 20 segundos e ao contrario) a plateia faz o papel do ego, superego e id da Ofelia. Interessante.

Hoje andei um pouco no Victoria park (perto do canal) hoje de manha. Nao sei ainda o que farei de tarde, mas acho que vou conhecer Hapstead heath e o cemiterio de Highgate

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quinta-feira, 8 de julho de 2004

QM, Londres

Estou me adaptando bem a vida aqui. Passo a maior parte do tempo na minha mesa, ou na biblioteca, ou no computador (como agora), nada que valha a pena colocar no blog. Comprar comida no supermercado poupa bastante dinheiro (o que eu faria sem meu canivete?). O presunto e' abominavel, e o unico suco de laranja decente e' caro, mas fora isso a comida e' boa e variada. Meu suprimento de livros acabou, porem, e devo me aventurar na selva eventualmente para conseguir mais.
Ontem a noite combinei de sair com a Sara (para quem nao conhece, amiga do Andre em Southampton, visitou BH recentemente). Fomos em um Indiano generico em Piccadilly. A comida era so' razoavel, mas o papo foi muito interessante. Ela e' iraquiana, mas passou quase toda a vida aqui, mas os pais ainda tem um pe' em Bagda, o que pode ser complicado as vezes. Gostei muito dela (tinhamos conversado pouco em BH), ela prometeu me levar na melhor lanchonete arabe de Londres. Estamos pensando em ir a' uma peca do Michael Frayn (o cara do Copenhagen).
Hoje foi a comemoracao da desfesa de uma aluno do Reza. Fomos (eu, ele, o Reza, o McCallum, e um pessoal que eu nao conhecia mas era bem simpatico) para um restaurante indiano aqui no East End que e' excelente. Muitos restaurantes indianos tem (ou tentam criar) um efeito de sobrecarga sensorial, na decoracao supercolorida cheia de penduricalhos, e no estilo de cozinha *.* (imagino que de forma parecida com restaurantes 'Brasileiros' em NY, cheios de araras e folhas de bananeira). No restaurante que fomos a decoracao era bem mais tranquila, e os pratos tinham sabores bastantes sutils. Comemos coisas bem variadas. O cafe, como sempre, era horrivel (alguns lugares tem expresso Lavazza, que e' muito bom)
Passei aqui no College (e' caminho) para dar uma olhada na internet. Daqui vou direto para cama

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terça-feira, 6 de julho de 2004

QM, Londres

Ontem quando sai daqui resolvi andar por esta regiao da Cidade (East end), que nao conhecia. Desci por Whitechapel (onde ocorreram os assassinatos de Jack o estripador) ate' a City (onde existem varios edificios recentes interessantes, em particular um que os locais chamam de Erotic Gerkin). O East end e' uma regiao relativamente pobre, com imigrantes de todo o mundo. Caminhando nas ruas, vemos uma profusao de sarongues, abayas, turbantes, saris, etc. Enquanto andava, fui pensando sobre a tal singularidade de Londres.

A maior parte das pessoas quem vem aqui tem a impressao que Londres e' uma cidade com muita 'historia'. De fato, ela e'. Mas nao de forma excepcional (para a Europa), no que se refere a idade ou conservacao de construcoes. A maior parte da cidade foi destruida no incendio de 1666, entao o que se ve em geral e' mais recente que o centro de varias cidades europeias.

Por outro lado, ninguem invade estas ilhas desde 1066. Nao existem (como em quase todo o resto do continente) quebras abruptas na tradicao cultural. Toda a cidade faz parte da mesma linhagem historica.

De forma tipicamente inglesa, nenhum plano de renovacao urbano foi realmente bem sucedido por aqui nos utltimos 400 anos. Assim, Londres e' uma cidade que cresceu, ao inves de ser construida. Cada epoca sucessiva foi deixando uma camada de novas construcoes. Austeros predios vitorianos, palacios do sec XVII, abadias e catedrais medievais e predios modernos de vidro nao so' convivem lado a lado, mas fazem todos parte integrante da vida da cidade. Sentimos aqui uma entidade quase viva que cresce e se desenvolve, e que tem raizes muito antigas. Nao ha' um centro antigo mumificado, ou museus historicos anacronicamente situados no meio de predios de escritorio. As velharias aqui existem como parte da cidade hoje, nao como lembrancas de um passado perdido.

O verdadeiro DNA da cidade esta nas ruas. O tracado das ruas e' muito mais antigo do que a maior parte dos predios em volta. Podemos andar por entre contrucoes de vidro ultra-modernas, mas seguimos ruas e ruelas que sao usadas a varios seculos. Evidencia disso sao nomes como Charing cross (que ficava em um antigo pasto, ao lado da igreja de St. Martin in the Fields), Temple (em referencia a igreja/banco dos templarios), Marble Arch (derrubado a seculos), e os varios xxx-gate (os antigos portoes nas muralhas da cidade). Ontem passei por uma tal de Wrestlers Alley (alameda dos lutadores). Duvido que os encontre hoje em dia, mas em alguma epoca a porrada comia solta.

Para finalizar, fui para Covent Garden (nao fica mais turistico do que isso), e andei ate' o Soho. Acabei jantando em um dos inumeros restaurantes chineses la'. Pedi uma prato a base de nadadeiras de pato (aquela pelinha entre os dedos do pe). De fato, vieram varios pes de pato *inteiros* com arroz e um molho a base de soja. O garcon tentou me explicar como comer aquilo com um garfo e hashi, mas era complicado demais. Depois de alguns minutos de pastelao involuntario, apelei, peguei os dito cujos com a mao e comecei a comer. Pedi uma cuia com agua e limao, e uma pilha de guardanapos de papel, e fui lentamente, pe' ante pe', comendo. O garcon ficou todo animado com a ideia, e me mantinha bem suprido de guardanapos enquanto tirava o cemiterio com os ossinhos. No final, ja tinha desenvolvido uma tecnica sofisticada de come/lava/enxuga/bebe. Acho que mostrei aos chineses que a tecnica brasileira de comer pes de pato tambem e' eficiente.

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segunda-feira, 5 de julho de 2004

QM, Londres

A regiao do norte de Londres e' interessante. A cerca de 1 km da casa do Reza fica uma colina, com um tal de Alexandra Palace no topo (Ali Pali no dialeto local). Do alto, da para ver quase toda a cidade. Em volta da colina, existe um anel quase initerrupto de parques (alguns ligados por pontes cobertas de arvores). Nao sao parques tipo o Hyde park, com jardins e gramados bem cuidados. Alguns sao verdadeiras florestas, com caminhos de terra.
Na verdade, Londres e' uma cidade muito singular; em qualquer outra grande cidade que eu conheco vc ve grandes conjuntos de predios ligados por avenidas largas. Em Londres, nao so' quase tudo e' horizontal (na maior parte da cidade as torres das igrejas sao os pontos mais altos), mas tambem as ruas sao estreitas e meio erraticas; e a cidade e' interrompida por uma profusao de parques e jardins. De noite isto e' ainda mais evidente evidente, ao inves de conjuntos geometricos de janelinhas ligadas por linhas bem definidas de luzes de sodio, aqui so se veem fiapos de luz se espalhando entre janelinhas de todo tipo, entrecortados pelas manchas pretas formadas pelos parques.Parece algo organico.

Domingo fomos conhecer estes tais parques junto com um ex-estudante portugues do Reza. Passamos por uma feira de agricultores. Varias coisas interessantes, queijos e tal. Tinha um cara que fazia (e vendia) Biltong (um tipo de carne seca ao vento sul-africana, temperada usualmente com pimenta, sal e coentro). Este tipo de mercado e' uma das melhores maneiras de conhecer um pais. Fui em algo parecido (uma pouco mais urbano porem) em Paris, e no mercado de Ajaccio. Nenhum deles e' o mercado central de BH, mas sao bastante interessantes, e muito diferentes entres si.
O Reza cozinhou o almoco (e jantar). Comida vegetariana bem natureba, mas muito gostosa. So' sinto falta de coca cola... Uma garrafinha aqui custa o equivalente a uns R$ 10, entao estou tomando agua (quem diria!). De tarde fui passear no centro, conhecer algumas das coisas que mudaram por aqui desde minha ultima visita. Fui no british Museum, onde eles reformaram totalmente o reading room. Colocaram um teto de vidro com suportes geodesicos que achei muito bonito. Apesar do toque moderno,combina bastante com o resto do museu. O ceu azul tb ajudou bastante. Fui descendo por Charing cross road (varias livrarias aparentemente fecharam, mas ainda ha' bastante coisa) ate' Trafalgar square. Eles ligaram a praca diretamente a National gallery. Fui andando ate' o rio, passei por uma nova ponte de pedestres bastante elegante, e cheguei na London eye (a roda gigante). Nao subi (vou fazer isso qdo tiver mais tempo). Fui ate' o metro e voltei para casa a tempo de assistir ao jogo.

Na casa do Reza, quem gosta de futebol e' a Emma (a mulher dele). Assim como meu pai, ela e' daquelas que fica reclamando dos jogadores e xingando o juiz. Estavamos todos torcendo por portugal, mas os gregos, na maior reviravolta desde as guerras persas, acabaram ganhando.

PS Falando em gregos, o tal Ajax que da nome a cidade de Ajaccio era um dos herois gregos da Illiada. Ele lutou contra o Heitor, mas varios pentametros iambricos depois nenhum dos dois conseguiu matar o outro. Decidiram entao por uma tregua; em sinal de respeito, Heitor recebeu um cinto cravejado de pedras de Ajax, e Ajax uma adaga +1 of Hydra Slaying (mais ou menos...). Ironicamente, Aquiles usou o tal cinto para amarrar o corpo de Heitor na sua biga, e arrasta-lo em volta das muralhas de Troia. E Ajax se matou coma faca, quando ficou decidido que Ulisses, e nao ele, receberia a armadura do entao recem falecido Aquiles (morto por uma flechada no calcanhar homonimo, cortesia de Paris, irmao de Heitor). Com este imbroglio o Homero consegue demontrar ao mesmo tempo a estupidez, honra e tragedia da guerra (e frescura, no caso de Ajax se-nao-me-derem-a-armadura-eu-choro).

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Queen mary college, Londres

Estou em Londres. Cheguei sabado de noite na casa do Reza. hoje (segunda) de manha vim com minhas mochila para o college. Peguei o onibus erradopara variar e fui para em um cafundo no final da zona quatra (estava lendo, uns 40 minuto depois). Andei um bocado ate uma estacaode metro, e passei o resto do dia me instalando. ja tenho conta, chaves e um quarto (excelente, com banheiro, varandinha e vista para um canal aqui do lado). Amanha vou ter meu cubiculo.

So para completar, na ultima vez que postei ainda estava na corsega, na madrugada de 5a para 6a. Na sexta tivemos somente uma sessao de apresentacoes pela manha, e uma dicussao geral no final. Apos o almoco, fui ate Cargese, para ver se conseguia falar com a Ceci. Estava tudo fechado (siesta!), e como eu tinha que voltar ate as 1500 (para a discussao) decidi dubir uma das tais torres de vigia, em uma colina ao lado da cidade. Ao contrario da outra, havia um caminho pelos maquis, e cheguei sem problemas. A torre esta' relativamente bem conservada. E' redonda,com uma secao ligeiramente conica. Tem uns 5 metros de altura, e acho que e' quase macica. Nao ha' portas ou janelas, so' algum buracos retangulares. Escalei a torre (nao e' dificil). O topo e' plano, sem amurada, com mato crescendo. Existe um pequeno buraco quadrado que leva a uma galeria sem janelas. A vista e' ainda melhor que da outra torre.Consegui tirar umas fotos. Acho que o topo plano era usado para acender fogueiras (que podiam ser vistas facilmente das outras torres)
Consegui voltar a tempo para a discussao, que foi interessante (depois tenho que falar da minha apresentacao). No geral, o encontro muito bom academicamente. Haviam muitos picaretas, e a organizacao tb deixou a desejar. Mas fiz alguns contatos interessantes, algumas palestras foram muito boas, e o lugar era fantastico. A experiencia de acampar em uma conferencia foi otima. Ao invez de ir e vir de cargese todos os dias, como quase todo mundo, eu simplesmente saia da minha barraca com vista para o mar e andava 20 metros. Sem enchecao de saco, barulho ou burocracia.
Esta e' a torre

A vista da cidade. A outra torre fica na colina a esquerda. O porto fica a direita. No sec XVII (acho) os genoveses trouxeram varios refugiados gregos para a cidade. Apos alguns conflitos com os catolicos locais, uma igreja ortodoxa foi contruida logo emfrente a catolica. Hoje, um padre ortodoxo com uma licenca especial do vaticano celebra missa nas duas, o que e' unico no mundo.


No dia seguinte saimos as 8 para o aeroporto. Eu e o Venceslau.ru (aka Slaba) compramos umas linguicas de asno, e fizemos uma lanche com o que sobrou do meu queijo (que ficou mais saboroso apos maturar por uma semana; usei a tradicinal tecnica corsa de pendurar o dito cujo emum saco plastico embaixo de uma arvore). Cheguei em Paris, e peguei o metro para trocar de aeroporto. Conheci um sujeito que mora na Nova Caledonia. O cara e' engenheiro, mudou-se para la a 20 anos e nao pensa em voltar. Se alguma vez eu for para aquelas bandas, ja tenho onde ficar, segundo ele. Peguei meu voo para Londres. Apos uma semana na Franca, foi um alivio poder entender o que as pessoas diziam na rua. Cheguei na casa do Reza, deixei minhas coisas e fui dar uma andada.

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quinta-feira, 24 de junho de 2004

Em casa, Rio de Janeiro

A ideia deste blog e´ enviar noticias sobre a minha viagem pela Europa. Ou qualquer outra coisa que me venha a cabeça.

O Plano:

Hoje saio do Rio, e chego amanhã em paris, onde passo um dia na casa da Charlotte. No sabado vou para Ajaccio, na Corsega, e pego um onibus para Cargèse, onde é o Friedman. No dia 3 de julho vou para Londres, onde devo passar duas semanas trabalhando com o Reza Tavakol (no Queen Mary). E no dia 17 vou para Dublin, para o (GR17 ). Volto para o Brasil no dia 22

Bom, é isso. Amanhã escrevo mais

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