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segunda-feira, 10 de março de 2008

Casa, Rio de Janeiro
Fla-Flu ideológico


Estou muito atolado com a neuroanatomia para postar muito; para não deixar o blog parado demais, vou recauchutando comentários que deixo em blogs alheios. Recentemente, o Pedro Dória escreveu um bom texto sobre os embates retóricos entre esquerda e direita, e sua tendência a se transformar em um fla flu ideológico que não acrescenta nada. Pessoalmente, eu não faço questão de me definir como ‘de esquerda’, ou 'de direita', ou de qualquer outra quiralidade envolvendo dimensões superiores.

Esquerda e direita só fazem sentido como conjuntos de premissas; balizas éticas para entender o mundo. Mas quando toda uma manada de pessoas que se definem como esquerdistas ou direitistas chega exatamente às mesmas conclusões, e quando qualquer desvio se torna heresia, não estamos mais diante de indivíduos ideologicamente próximos tentando entender o mundo que os cerca; mas sim do abandono coletivo da razão em favor de um consenso sectário, invariavelmente burro e simplista.

O simplismo tem suas vantagens. Não é preciso pensar muito, e o mundo se divide em vilões de motivos torpes a serem combatidos, e heróis abnegados a serem celebrados. O ungulado ideológico se sente confortável cercado de pessoas que pensam exatamente da mesma forma que ele, e que não cansam de confirmar que sim, eles estão certos, corretíssimos, são puros e corajosos donos daquela verdade cristalina que torna simples toda a complexidade do mundo, e extermina qualquer ambiguidade moral.

Para este tipo de gente, teorias de conspiração são uma nescessidade fundamental para manter a consistência entre suas crenças e a realidade. O que eles seguem de fato é uma forma mutante de gnosticismo, segundo a qual o mundo empírico é uma ilusão, e que somente aqueles que conhecem a Verdade Oculta (pouco importa se contida no Capital, no Corão, na Bíblia ou no Guia do Caroneiro das Galáxias) podem entender a realidade subjacente que explica Tudo.

Há quem passe a vida neste casulo ideológico. Alguns se tornam colunistas, guerrilheiros, ou guardiões auto-declarados de alguma pureza nacional ou religiosa. Outros se tornam comentaristas em blogs.

Mas fora destes casulos, o mundo é um lugar complicado. Exceto como uma banalidade pseudo-gandiana, ser pró-Israel é estúpido. Assim como o é ser pró-Palestino. Ou pró-EUA, ou anti-EUA. Tais rótulos não explicam nada, obscurecem muito, e reduzem situações irredutivelmente complexas a slogans.

Existem alguns princípios que são ou deviam ser consensuais: a inviolabilidade da dignidade humana, igualdade perante à lei, os direitos fundamentais à livre expressão e associação, etc.

Além destes princípios, é de se esperar que pessoas razoáveis tenham discordâncias. Não estou postulando aqui alguma equivalência moral entre todas as formulações; mas não surpreende que seres humanos imperfeitos, dispondo de informação incompleta sobre um mundo complexo cheguem a diferentes conclusões. No que se refere à direita e à esquerda, tais divergências são centradas na tensão inerente entre direitos individuais e responsabilidades coletivas. Não tenho a pretensão de resolve-las em um parágrafo…

Mas o que em geral ocorre na prática é que para fazer parte das ortodoxias da esquerda ou direita que chamei de unguladas, hoje em dia, é preciso esquecer ou aplicar de forma inconsistente os princípios que deviam ser comuns. O conservadorismo atavístico foi a falência em 1914, ou em 1945; a esquerda hard core, forçando muito a barra, em 1989. O mundo hoje é (e provavelmente sempre foi) muito complicado e variado para que qualquer um destes dois ‘extremos’ seja muito útil para entende-lo, quanto mais para reformulá-lo.

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quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
A meu saco...

A melhor síntese da controvérsia criada pelo discurso do Ratzinger/B16/Palpatine é a de um cara chamado Waleed Aly:

“[A] provocative gesture triggers an overblown response of surreal imbecility”

Só para deixar claro minha opinião, reposto aqui algo que escrevi em outro lugar:


[Eu] não me importo com o que o Papa diz; acho que é prerrogativa dele dar a opinião sobre o que quer que seja (direito que extendo postumamente ao Manoel Paleologos). Considero algumas outras opiniões dele muito mais ofensivas, e com consequencias mais tangíveis (sobre contracepção, homosexualismo, primazia da igreja, etc), e mesmo assim não me arvoro do direito de sair quebrando igrejas ou clamando o direito de não ser ofendido. Acho ainda que opiniões muito mais ofensivas (e inicitação direta de violência) são manifestadas diariamente de todos os lados sem criar esta celeuma toda. Considero também que algumas lideranças de 5a categoria no mundo muçulmano ‘escolheram’ ficar revoltadas, assim como no futuro podem escolher se ofender com as palavras do Jerry Falwell, ou do Jerry Seinfeld, ou do Jerry, o rato; e não acho justo ou razoável que o mundo seja refem da ofensa inferida por grupos hipersensiveis ou hiperhipócritas a partir das declarações de quem quer que seja.

Também acho, repetindo, que a maior parte dos muçulmanos tem mais o que fazer.


PS: A carta do Manoel Paleólogos citada pelo B16 fazia parte de um diálogo com um erudito persa. A resposta, onde suponho o tal persa faz uma defesa vigorosa do Islã, se perdeu. Mas um outro erudito persa escreveu uma análise devastadora da fala do Papa (e do MP) que vale a pena ler:

The Pope, the Emperor and the Persian Preacher
Amir Taheri

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domingo, 31 de outubro de 2004

Bruno & Ceci bed & breakfast, Rio de Janeiro

Tenho uma confissão a fazer. Estou obcecado com a eleição americana...

Como o resto do mundo civilizado, eu acho o GWB uma desgraça. O que eu não consigo entender é porque metade dos EUA não compartilha desta opinião. Talvez porque eles achem que ADM foram achadas no Iraque, que o Saddam é responsavel pelo 11 de set., que o mundo ama o Bush e que o Bush apoia o tratado de Quioto e a Corte internacional de justiça (sério! Parece que não é só a mente de GWB que tem um contato tênue com a realidade.)

Se o problema se limitasse a um presidente imbecil que levou as finanças de seu pais para um buraco e rebaixou o nivel do discurso politico para o subsolo, eu poderia me limitar a uma certa simpatia abstrata pelos EUA (algo como um Zimbabwe gigante). Infelizmente, por ação ou inação, as decisões do dito imbecil afetam o mundo todo. E quase tudo o que ele fez ou deixou de fazer contribuiu para tornar o mundo inteiro menos seguro e mais violento. Eu não tenho dúvida que GWB e OBL se odeiam com todas as forças (não importa o que o Micheal Moore diga). Mas a verdade é que eles vivem em simbiose. Bush não seria mais que um acidente eleitoral de mandato único se não fosse OBL. E OBL não seria visto por muitas das suas vítimas em potencial os como um ´defensor dos [insira seu grupo de muçulmanos oprimidos favorito]´ se Bush não usasse sua presidencia para sublimar seus traumas de infância.

A tragedia é que o mundo realmente precisa combater o totalitarismo islâmico e seus representantes. Mas, chame isto de guerra ou não, o campo de batalhas deste conflito é o das ideias. E para ganharmos, muita gente (e não só nos EUA e no mundo islâmico) vai ter que parar de repetir slogans vazios e efetivamente começar a pensar por conta própria.

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