Mostrando postagens com marcador UK. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador UK. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de julho de 2015

Casa do Reza, Londres
Na lama em Londres

Pausa para cachimbo
Cheguei em Londres ontem de tarde, depois de uma breve mas produtiva visita aos meus colegas na universidade de Reading. Hoje foi o meu último dia completo por aqui antes de voltar para o Rio amanhã. Obviamente, resolvi fazer algo memoravel e tipicamente Londrino. Chafurdar na lama do tio Tâmisa a procura do lixo produzido pela cidade ao longo das eras se encaixa perfeitamente nesta descrição,  então aceitei o convite do Alastair para uma manhã de mudlarking.

Londres foi fundada pelos romanos pouco antes da era cristã, e o Tâmisa foi sempre a sua principal artéria de transporte, fonte de enguias comestíveis e esgoto. Ao longo dos milênios,  romanos, celtas, saxões, normandos, e finalmente ingleses sob dinastias várias, viveram e morreram ao longo de suas margens. E, sempre que precisavam se livrar de algo, o rio estava convenientemente logo ao lado.

Todo ano, os resíduos destas eras passadas se desgarram de aterros ou são arrastados pela correnteza, e depositados nas margens do rio. Moedas, cerâmica,  balas de mosquete,  ossos de animais domésticos (e o ocasional humano), e os indefectíveis cachimbos de barro. E na maré baixa, um grupo de excêntricos de todos os naipes procura e cataloga avidamente tais relíquias,  o descarte inconsequente das eras passadas. Estas pessoas são conhecidas como 'mudlarks'. O meu amigo Alastair, arqueólogo e quinteseencialmente inglês, é um deles.

A partir do extremo sul da ponte de Londres, rapidamente encontramos uma escada lodosa decendo até a margem. A maré baixa havia exposto um aluvião de cascalho e lodo, irregular e coberto de forma exparsa por lixo mais moderno e de, digamos, menor interesse arqueológico  (e.g. rodas de bicicleta, garrafas de cerveja e uma barbie decapitada). Os objetos realmente antigos não são particularmente notáveis neste contexto, mas o Alastair demonstrou habilidade incomum ao se abaixar repetidamente para pegar algo que aparentava ser um cascalho ordinário, mas era na verdade um cachimbo do século XVII ou um caco de porcelana Tudor.
Mudlarking é um passatempo, mas isto não significa que não seja bem organizado. Existem licenças a serem obtidas, para níveis sucessivos de complexidade e experiência. Iniciantes podem simplesmente pagar algumas libras ao Museu de Londres e obter uma carteirinha e o direito de retirar objetos encontrados sobre a superfície. Cavucar, cavar e usar detectores de metal demandam níveis mais elevados de habilidade demonstrada, e carteirinhas específicas.

Continuamos a nossa procura, inicialmente pela margem sul, e em seguida pela margem norte (onde a cidade foi fundada, e onde formalmente ainda existe exclusivamente, a chamada City of London). O resultado é o que mostra a foto abaixo. Cacos de ceramica de épocas várias,  e diversos cachimbos (vendidos após 1600 já cheios de tabaco, e muitas vezes descartados após um único uso); uma bala de mosquete, dentes de cavalo, um prego e um pedaço de tijolo com um buraco para fixacao. Nada que seja particularmente excitante para um mudlark experiente; mas como foi a minha primeira busca, e algumas destas coisas são quase mais antigas do que o meu país, elas vão comigo para o Brasil.

Depois que maré subiu, nos encontramos com a Sarah, uma amiga portuguesa radicada em Londres, e fomos para um pub em Fleet Street chamado ye Olde Cheshire Cheese, quase tão antigo quanto os tais cachimbos, e aparentemente frequentado pelo Samuel Johnson em eras passadas. Após uma boa refeição, fomos de bicicleta (e metrô,  no caso do Alastair) até Greenwich,  admirar o Cutty Sark e o museu naval. Me despedi de meus amigos e voltei para o norte de Londres, onde estou hospedado. Fiz um stir fry vegetariano para meus anfitriões, e sob o sol poente fizemos um tour a pé da região, por matas ancestrais (algumas das mais antigas destas ilhas) e colinas esculpidas por geleiras paleolíticas. Termino o dia agora, um dia estimulante e talvez excessivamente cheio de atividades; e uma analogia perfeita para esta minha estada na Inglaterra que agora termina.

Continue lendo...>>

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Saint John's College, Cambridge
Colisões aleatórias

Há algum tempo concluí que a minha vida é bem descrita como uma série de colisóes aleatórias com pessoas interessantes. Foi assim que conheci a Suzana, com quem comecei a trabalhar em neurociència; foi assim que conheci a Yujiang, que interessada neste trabalho, me convidou para visitar o seu grupo na universidade de Newcastle. E foi assim que conheci o Kristian Franze, quando ele foi dar uma palestra em Newcastle na semana em que eu estava lá. Após a palestra, alguém fez uma pergunta sobre o formato do cortex, e ele disse algo do tipo - "Pois é, saiu um paper interessante sobre o assunto na Science na semana passada". Ao que o meu anfitrião respondeu: "Sim, e foi aquele cara ali que escreveu!".

Para resumir uma conversa longa, ele me convidou para dar um seminário. Hoje. Como até ontem eu estava pedalando nos cafundós da Inglaterra sententrional, isto implicou em uma certa costura ferroviária, de Ravenglass a Lancaster, Lancaster a Londres-Euston, Euston a Londres-Finsbury Park, e Finsbury Park a Cambridge. Entre uma conexão e outra, notei um email do Philipe, um estudante brasileiro de doutorado por lá, gentilmente se oferecendo para me mostrar a cidade.

Cheguei no meio da tarde, com o tempo corrido, mas suficiente para um rápido tour pelos colleges oferecido pelo Kristian, que é um Fellow no Saint John´s. É uma existência um tanto Hogwartiana, com casa, comida e roupa lavada em magníficos prédios medievais, famosos por seus pátios internos, capelas, porteiros carrancudos e lautos jantares togados regados a vinho*. Como muitas coisas neste pais, esta universdade não foi exatamente projetada; ela cresceu organicamente partir de sua gênese medieval, e é atualmente um confuso palimpseto de previlégios, regras e tradições (reais ou inventadas), que demandam um impenetrável vocabulário próprio. É uma universidade pública composta de colleges privados com recursos próprios que podem variar por várias ordens de magnitude entre o opulento (e.g. Trinity College) e o esforçado, e de um sistema paralelo de departamentos onde a pesquisa e a maior parte do ensino são de fato efetuados. É muito para absorver em um dia só.

Voltamos ao departamente e, ressussitado pelo poder da cafeina, proferí minha palestra para uma estimulante plateia que incluia físicos, neurocientístas, engenheiros e outras criaturas menos definíveis. Visitei alguns laboratórios e fomos, como era inevitável, para um pub ('the Eagle'). Passamos algumas horas agradáveis bebendo (coca cola, no meu caso), discutindo ciência e desenhando diagramas e equações nas costas de uma cardápio. Após me despedir do Kristian, fui levado pelo meu segundo tour pela cidade, agora da perspectiva de um aluno.
O menu
O verso do menu

O Philipe se mostrou extremamente simpático, e bem versado nas minúcias locais, e acabamos discutindo teorias sobre o curso futuro de Game of Thrones (livros e série), em um nível de detalhamente que talvez seja um pouco além do que é saudável. Nos despedimos já de noite, e vim para o meu alojamento, onde escrevo este post ao invés de fazer o que devia, que era dormir mais cedo.

O meu tempo aqui é curto. Amanhã tomo café e parto para a estação ferroviaría para mais um périplo. Tenho que estar na universidade de Reading para mais uma palestra... A última desta temporada, pelo menos.

________________
* Os fellows se sentam na high table; 10 cm a mais e doses cavalares de pompa e deferência são suficientes para distinguí-los de reles alunos.

Continue lendo...>>

sábado, 11 de julho de 2015

Sandman Signature Hotel, Newcastle
Na sombra do colosso

Da sela de sua montaria, ele avista ao longe o seu objetivo. E agradece sem palavras o mágico intrumento preso a sua cintura, que o guiara até lá sem erro. Mas tal auxílio já não era mais necessário; qualquer um em todo o vale não precisaria de mais do que seus próprios olhos para saber onde encontrar o Colosso.

Ao longe o Colosso se erge, maior que o mais alto dos mortais. Maior que uma casa, maior do que uma árvore. Mas só aos poucos o seu verdadeiro tamanho se revela. Um monte de terra se mostra uma colina,

Não, isto não é fan fiction do clássico jogo Shadow of the Colossus. O protagonista sou eu em Newcastle (onde cheguei ontem a noite), indo visitar uma inusitada escultura situada a alguns quilômetros ao sul da cidade. O chamado Angel of the North saúda os motoristas vindos do sul, e se tornou o cartão-postal extra-oficial da cidade. Normalmente, esculturas antromórficas monumentais se situam entre o intimidador e o ridículo (ou, na Coreia do Norte, simultaneamente nos dois extremos). Mas alguns casos, como o Anjo, ou o Cristo no Rio, no equilíbrio enre abstração e representação, conseguem ser efetivamente reconfortantes.



Passei uma hora agradável lendo sob sua sombra, e voltei para a cidade. Encontrei inesperadamente pelo caminho a estrada de ferro de Tanfield, a mais antiga em existência no mundo (1725!). Seguindo o seu curso, voltei para a cidade, e para o trabalho.

Estou aqui em Newcastle para uma semana um tanto intensa de colaboração científica com a equipe do Marcus Keiser. Vou dar alguns seminários, e vamos discutir maneiras de tornar locais as leis de escala que obtivemos para a girificação dos cérebros de mamíferos. Depois parto de bicicleta para o oeste, seguindo a linha da muralha de Adriano até Ravenglass.

___________
PS: Para quem o primeiro parágrafo deste post é totalmente incomprensível, eis do que eu falo:


Continue lendo...>>

domingo, 15 de dezembro de 2013

Guimarães-Twenhöfel Manor, Edinburgh, UK
Catacumbas

Depois de uma semana produtiva em Londres, e antes de voltar para o Brasil, vim passar o fim de semana em Edimburgo. Vim ver meus amigos André e Antonia, que esperam aqui um bebê que pode nascer a qualquer momento. A previsão do tempo indicava temperaturas de 3-9 graus, chuva intermitente e lufadas de vento ('gale force winds'...), um clima considerado extremamente ameno para a estação por diversos dos meus interlocutores locais.

Entrando no clima, literal e figurativamente, desci do ônibus do aeroporto, montei a bicicleta e fui margeando as colinas de Holyrood até o meu hotel. O frio não incomodava tanto, mas o chuvisco era bem irritante, e os ventos irregulares eram até perigosos (lufadas mais fortes quase me jogaram da bicicleta mais de uma vez).

Cheguei são e salvo, porém, e após um chá e um banho, fui para a casa do André. Conversamos, fomos assistir o Hobbit (o consenso: um exagero auto-indulgente que esconde o germe de uma adaptação interessante) e comer a versão local de churrasco (muito bom).

Os desjejuns escoceses são notoriamente substanciais; o do Salisbury Green é considerado exagerado pelos locais. No dia seguinte (i.e., hoje), após haggis, bacon, torrada, tomate e cogumelo fritos, ovos poché, suco, frutas, croissant, queijos e café, fui (lentamente...) me encontrar com outros amigos na cidade. A parte histórica de Edimburgo tende a agregar naturalmente um certo ar de mistério a lugares a princípio perfeitamente mundanos. A arquitetura elegante mas severa, quase sem cores, sugere sempre algo antigo mas ainda presente; e a dimensão vertical (é uma cidade de colinas irregulares) e a profusão de vielas tortas, alamedas e catacumbas várias adiciona um inevitável ar de mistério. O fato é que esta é uma cidade perfeita para se perambular. Perambulamos.

Me despedi dos meus amigos após uma refeição vegetariana um tanto decepcionante (durante a qual agradeci aos céus e a William Wallace pelo café da manhã), e fui conhecer o museu nacional da Escócia.  Talvez o seu artefato mais bizarro seja uma grotesca máscara de couro, com barba e cabelo humano e dentes falsos (?), que era aparentemente usada por um pastor presbiteriano para pregar incógnito em uma época em que o seu secto protestante era, por alguma razão ou outra, ilegal. O que as suas efêmeras congregações achavam dos sermões proferidos por um aparente serial killer não ficou registrado, infelizmente.

Me atendo ao tema, encontrei-me novamente com o André e a Antônia, para visitarmos algumas catacumbas. São várias na cidade, então é preciso ser criterioso. A chamada Gilmerton Cove foi escavada em uma época não determinada no arenito sob uma casa ordinária em uma vila sem distinção. Foi oficialmente descoberta no século 18, quando o dono da dita casa foi preso por usar as catacumbas como pub e vender bebida no domingo. São diversas câmaras e nichos, com mesas de arenito esculpidas na rocha, tuneis misteriosos bloqueados por entulho e a aparência de um local criado para algum propósito bem definido, mas que nos é totalmente misterioso. As
Rola um D20
hipóteses para explicar tal propósito variam do esdrúxulo ao meramente improvável: Locais de missa secreta de dissidentes religiosos, refúgio de cavaleiros templários, antro de vício e covil de bruxos. Nada que me pareça muito convincente.

Acabamos de jantar em um pub fundado em 1380. Daqui a pouco pego o ônibus de volta ao aeroporto. Voo até Londres, passo a madrugada em Heathrow, faço escala em Paris bem cedo pela manhã, e chego no Rio a tarde, mais bagaço do que gente.
 

Continue lendo...>>

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Queen Mary, University of London, Londres
Achados e perdidos

Estou de volta em Londres, por somente uma semana. Vim para uma conferência e para juntar algumas pontas científicas soltas da vinda anterior. Por razões misteriosas, o vôo mais barato* passava por Roma, de onde me conectei por Embraer até o London City Airport, um aeroporto de somente uma pista situado convenientemente a menos de 10 km do college onde estou. Para Londres em dezembro, o clima estava surpreendentemente ameno (i.e., sem chuva), então vim pedalando, margeando o Tâmisa até chegar (ironicamente) ao East End vindo do leste. É uma região de aparência nova e um tanto holandesa, com um teleférico que liga ambas as margens do rio e grandes prédios multifacetados de vidro com propósito vago. Naquelas circunstâncias e clima, me pareceu bastante agradável.

Cheguei ao Queen Mary cedo demais para pegar as chaves do meu alojamento, então fui diretamente até o prédio da escola de ciências matemáticas, comprei meia dúzia de pacotinhos de um ristretto do juizo final, me fiz um duplo com a consistência de mingau e a potência de Red Bull concentrado, e subi até a sala dos visitantes. E eis que, em meio a diversos e silenciosos acadêmicos, vejo a minha antiga mesa, desocupada. Sobre ela, uma pequena caixa preta.

Logan, a mosca
É preciso fazer agora uma pequena digressão. Na minha última visita, durante o verão local, estava eu certo dia sentado nesta mesma mesa, quando uma enorme mosca começou a me orbitar. De forma quase instintiva, estabeleci logo um diálogo entre filos por meio de uma cacetada com um bloco de anotações enrolado. A mosca se estatelou no chão, e por lá ficou. Fim da história, pensei eu. 

Porém, alguns minutos depois, vejo que ela ainda se mexe debilmente. Em menos de uma hora ela já agitava as pernas de forma mais coordenada. Pouco depois, ela se pôs de pé, e começou a alisar as asas, e logo em seguida já me orbitava novamente.

A cacetada seguinte fez todos na sala, e na vizinha, pararem o trabalho e esticarem o pescoço para ver o que estava acontecendo. Sobrancelhas foram levantadas. O corpo da mosca já não se via mais, presumivelmente desintegrado.

Logan e sua vítima
No dia seguinte, ao chegar, a encontro bem viva sobre o bloco de anotações com o qual eu tentara matá-la. Se era um aviso ou sinal de perdão eu não sei, mas achei melhor não insistir. A mosca, agora apelidada de Logan devido ao seu fator de cura, me orbitou por mais algum tempo, e depois sumiu.

No dia seguinte, no batente externo da janela, vejo um pombo morto. Ao seu lado, Logan. Me lembrei de Mario Puzzo e Francis Ford Coppola, e resolvi definitivamente deixar a mosca em paz pelo resto da minha estada em Londres.

A caixa que encontrei ontem continha um par de óculos escuros. O *meu* par de óculos escuros, que eu havia concluído por exclusão terem sido perdidos no Museu Britânico. Não sei como foram parar na minha mesa, pois me lembro de os haver procurado, sem sucesso, no dia em que fui embora. Quero crer, porém, que o seu reaparecimento foi um gesto de reciprocidade.

Ainda não vi o meu amigo díptero desta vez. É dezembro, afinal, e faz frio. Porém, se existe um inseto capaz de sobreviver ao inverno londrino, é Logan, a mosca.




_________________
* Alitalia, que supostamente era uma sigla para 'Arrived late in Turin, all luggage in Arezzo', mas que se mostrou bastante decente.

Continue lendo...>>

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Gate A19, Terminal 5, Heathrow Airport, Londres
Fotos do fim do mundo

Complementando o post de ontem, eis um slide show com as fotos de Orkney:



Created with flickr slideshow.


As fotos podem ser vistas diretamente no Flickr aqui.

Continue lendo...>>

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Queen Mary, University of London, Londres
Até o fim do mundo


Aqui em Londres, a Escócia é considerada um lugar remoto, setentrional, e um tanto exótico e selvagem. Em Edimburgo dizem o mesmo a respeito das Terras Altas. Em Inverness, a principal cidade da região, os condados de Sutherland e Caithness, no extremo peninsular nordeste do pais, são vistos como ermos e ignoráveis, uma espécie de Acre local. Pois bem; ao nordeste de Caithness, do outro lado de uma nesga do mar do norte, fica Orkney, um arquipélago de ilhas varridas pelo vento cujos 20.000 habitantes mal se consideram escoceses (Escócia é o que se encontra do outro lado do canal, eles dizem). Para eles Edimburgo é uma metrópole sulista remota, Londres é um rumor distante e a Europa continental um mito perdido nas brumas.

 Foi para lá que eu fui.

Orkney também é uma das regiões de habitação continuada mais antigas da Europa. A cinco milênios, o clima era ameno e a terra, fértil. O vento quase constante implicava na ausência de árvores, porém, o que fez com que os habitantes locais, neolíticos e posteriores, usassem o arenito local (que se quebra naturalmente em convenientes lajes) como o principal material de construção. O resultado é um dos maiores e mais bem preservados conjuntos de ruínas neolíticas do mundo. Em um pequeno trecho que corta a ilha através de um istmo entre dois lochs (o Ness of Brodgar), é possível visitar a tumba de Maes Howe, uma colina oca que de dentro parece uma catedral de pedra, os círculos de pedras de Stennes e Brodgar, e encontrar o mar na baia de Skaill, onde a antiga mas bem preservada vila de Skara Brae ainda guarda um pouco do flinstoniano charme rural de 3180 AC.

Foi lendo sobre Skara Brae em um história de ficção científica que primeiro tive vontade de visitar Orkney, duas décadas atrás.
Skara Brae foi abandonada 600 anos depois de sua construção. Não se sabe o que aconteceu com seus habitantes. Posteriormente, os pictos e depois os vikings se estabeleceram nas ilhas. Longe de ser um lugar remoto, durante o período viking Orkney se situava na confluência das rotas de comercio e pirataria nórdicas (a única diferença entre um e outra é se as transações eram voluntárias ou não), entre a noruega e as ilhas birtânicas, e com acesso direto para a Islândia e Groenlândia. Até o século XIII o arquipelago era parte do reino da Noruega. Em Maes Howe ainda se vê o grafite rúnico de visitantes vikings.

Passei 5 dias pedalando em Orkney. Visitei sitios arqueológicos, museus idiossincráticos fundados por habitantes locais e entrei em uma linda capela construída por prisioneiros de guerra italianos durante a IIa Guerra Mundial; conversei com os locais e fiquei amigo de meus hosts de couchsurfing; comi um queijo local que é indistinguível de queijo minas; visitei a quase selvagem ilha de Hoy, e entrei em uma tumba esculpida diretamente em um bloco de pedra e caminhei ao lado de paredões vertiginosos erodidos pelo Mar do Norte.

Este último ponto é importante. Toda esta beleza costeira se deve em grande parte a um arenito local relativamente frágil e um Mar do Norte dado a humores violentos. Ao longo dos séculos, o litoral destas ilhas vem sido rapidamente erodido. Skara Brae foi construída a alguma centenas de metros da costa, mas graças à erosão e a elevação do nível do mar pós-glacial, hoje se encontra quase na praia. É possível que em algumas décadas as ruínas sejam levadas pelo oceano, como provavelmente o foram inúmeros outros sítios semelhantes. A coluna de pedra que surge dramaticamente do oceano, o Old Man of Hoy, já foi um arco, e um dia talvez não muito distante será uma pilha de entulho. Isto talvez tenha criado uma certa urgência subconsciente para a minha ida; eu não sei. O fato é que após ter estado por lá, me sinto mais, e não menos, atraído por este fim de mundo que quero muito visitar novamente.

Continue lendo...>>

domingo, 11 de agosto de 2013

Queen Mary, University of London, Londres
O culto do Elfo da Segurança

O Elfo da segurança ataca novamente!
Saúde e segurança são duas coisas inegavelmente boas. A ausência de uma ou ambas é sempre razão para ansiedade. Mas aqui na Inglaterra existe a aparente ilusão de que todos os riscos podem ser mitigados, todos os perigos debelados, todos os acidentes evitados, se uma quantidade suficiente de pentelhação for imposta ao público. Imagine algo como o teatrinho sobre os procedimentos de segurança que ocorre antes da decolagem, mas que continue durante todo o voo. Seriamos informados não só sobre a localização das portas de emergência e sobre o funcionamento das máscaras de oxigênio, mas também receberíamos aviso sobre como café quente pode queimar, o que fazer no caso de um infarto, e como proceder durante um ataque de marimbondos. É assim que me sinto atualmente em Londres.

Health and Safety é o nome genérico deste culto de segurança, ocasionalmente pronunciado 'elf an' safety. O Elfo da segurança é invocado sempre que alguma construção ocorre sem o envolvimento de dúzias de agências estatais e para-estatais, em conformidade com resmas de regras e procedimentos obrigatórios. Quadros de aviso, corredores, ruas e metrôs são cobertos por proibições, conselhos e informativos, que podem ser banais ou importantes, paranoicos ou pertinentes; mas que pelo seu próprio excesso, são quase completamente ignorados. 

Boris Johnson
Só como exemplo: Estou alojado em um apartamento no próprio college. Ele tem banheiro, quarto e escritório. Todos ligados por portas corta-fogo ("Fire door keep shut") a uma ante-sala que não tem muito propósito. Esta por sua vez é ligada a um corredor externo, por outra porta corta-fogo, e o corredor é ligado ao átrio do elevador por, adivinhem, uma porta corta-fogo! Todas as portas são pesadas e se fecham automaticamente por meio de um sistema de pistões e molas. No caso da cozinha (dotada obviamente de extintor de incêndio, cobertor térmico e inúmeros adesivos com informação sobre segurança), um alarme é acionado sempre que a porta fica aberta por mais que alguns segundos.

Obviamente, se ocorrer um incêndio na cozinha, apesar de todos os avisos, e se este não for apagável pelo extintor e manta térmica disponíveis, então deve ser um alívio ser capaz de se colocar a quatro portas corta-fogo de distância do fogo. Mas eu não consigo não achar que este nível de proteção, provavelmente maior do que o de muitos paióis, é um tanto excessivo...

Continue lendo...>>

terça-feira, 30 de julho de 2013

Distrito de Sutherland, Escócia
Salve o Grande Duque!


Após um café da manhã antecipado, sai de Inverness em um ônibus para o norte (sempre para o norte), até John O'Groats, de onde uma balsa me levará até as ilhas Orcadas. Fomos contornando a costa nordeste da escócia, uma paisagem quase vazia de gente, com estreitas e rasgadas baias de origem glacial ('firths), colinas negras onduladas e pastagens de ovelhas cercadas por muros de pedra seca.

O distrito de Sutherland possui 13.000 habitantes e 150.000 ovelhas. A razão desta proporção se deve em grande parte ao potentado local, o 1o duque de Sutherland, um dos mais entusiásticos participantes das chamadas highland clearances, na qual inquilinos de pequenas fazendas nas terras altas escocesas foram expulsos para dar lugar àprodução de lã, mais lucrativa. O duque era um dos maiores proprietários rurais da Europa na época (o seu castelo, com 190 quartos, é habitado até hoje por seus decendentes), tão rico em terras quanto pobre em senso de ironia. Antes de morrer, este Kim Jong Il de kilt encomendou a construção de uma enorme estátua de si mesmo encimando um monte local, onde se lê a inscrição'Ao Duque de Sutherland, um senhorio liberal e justo, de seus agradecidos inquilinos'. É plausível supor que os inquilinos (e ex-inquilinos) não ficaram tão agradecidos quanto supunha o duque, dada a quantidade de planos descobertos ao longo dos anos para remover a estátua por meios extra-oficiais usando marretas e dinamite.

Ainda no tema das clearences: No distrito adjacente ao norte, Caithness, alguns dos camponeses expulsos foram assentados em um promotório ermo varrido por ventos de intensidade comparável a furacões. Em dias ruins, animais domésticos e crianças precisavam ser amarrados a cordas de segurança para não serem levados. Eventualmente toda a vila emigrou para a Nova Zelândia

PS: Estou postando fora de ordem porque não consegui ainda terminar os posts sobre a travessia do Great Glen

PS2: Alguns Fatos notáveis:

- Não há tomadas nas lojas Tesco
- 'Red Squirels', anuncia uma placa em Inverness, sob um enorme ponto de exclamação. Devem ser esquilos subversivos.
- Não me lembro de ter visto um único policial em toda a Escócia

Continue lendo...>>

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Bank House B&B, Fort Augustus, Escócia
Para o Norte!

Não existe um trecho plano nas highlands. Pelo menos não que eu tenha visto. O caminho ontem não tinha grandes morros, mas consistia de pequenos morrinhos concatenados. O macete é tomar um gás na decida em marcha alta (ao invés de simplesmente deixar a gravidade fazer o seu trabalho), e baixar a marcha uma a uma na subida a medida que a velocidade vai diminuindo, tentando manter o esforço aproximadamente constante ao longo de todo o ciclo. Assim ainda é mais cansativo que um terreno plano, mas pelo menos não é extenuante. Saindo de Fort William (onde cheguei de ônibus, vindo de Glasgow), fui subindo o Great Glen margeando o canal caledônio, até o primeiro dos grandes e compridos Lochs (Loch Lochy) do vale. O tal canal foi uma das maravilhas da engenharia vitoriana, e liga os vários lochs do Great Glen entre si e ao Atlântico e Mar do Norte por meio de uma série de eclusas (incluindo oito em rápida sucessão logo no inicio, apelidadas de escada de Netuno), de modo que, no futuro, posso refazer o meu trajeto de caiaque.

A estrada na metade inicial desta etapa era quase uma metáfora do meu trajeto como um todo, ficando progressivamente mais alta, mas rústica e mas setentrional. Comecei margeando uma auto-estrada, virei em uma estrada secundária, peguei uma vicinal de uma faixa com asfalto mambembe e, passando uma porteira, segui por uma  estrada de terra, transformada pela chuva em um semi-lamaçal.

Sempre com um Loch a minha direita e um morro a esquerda, fui pedalando sob a chuva fina. Os escoceses, para manter a própria sanidade, aprenderam a não se importar com um pouco de chuva, o 'pouco' sendo definido de forma um tanto elástica. Além disso, mesmo em dias teoricamente secos, sol e chuva podem se alternar de forma um tanto espasmódica. Assim, em situações que no Brasil são ocasião para sessões de filmes sob as cobertas e intermináveis jogos de buraco são aqui oportunidades para praticar atividades ao ar livre, que podem incluir caminhadas ecológicas sob guarda chuva ou futebol de galochas. Para uma fração mais hardcore dos locais, porém, nem galochas nem guarda-chuvas são necessários, e estes andam/correm/fazem compras a descoberto, considerando ficar molhado um estado tão ou mais natural do que permanecer seco. Inspirado por estes últimos, e incomodado mais pelo calor gerado pelo esforço físico (a lama suga os pneus como um tapete de ventosas) do que pela chuva fina, fui removendo um a um os vários apetrechos anti-dilúvio que fui intimado a trazer por amigos britânicos (sulistas) e abritizados a quem mencionei meus planos. Capa de chuva, casaco hidrofóbico, coberturas para pés, todos voltaram para o pannier para virar lastro. Deixei Loch Lochy e a estrada de terra para trás, e passei por Loch Oich já no asfalto, até finalmente avistar Loch Ness adiante. Cheguei em Fort Augustus molhado, mas não totalmente encharcado.

Fort Augustus é uma pequena e agradável vila na estremidade sudoeste de Loch Ness. Após check in e banho em um agradável Bed and Breakfast que ocupa uma agência bancária convertida, fiz um city tour completo em 10 minutos, e notei um restaurante um pouco mais aprumado chamado 'The Lovat'. Lord Lovat, me lembro bem, era um comandante dos comandos durante a 2a guerra mundial, e foi marchando, acompanhado de seu gaiteiro de foles, da praia de desembarque até a ponte Pegasus, estratégica*. Não precisei de mais referências. A comida era de fato excelente e, bem alimentado e seco, fui dormir pensando na subida de 400 metros que enfrentaria no dia seguinte.


_______________
* O surpresos defensores desta última, sob pesado contra-ataque alemão, provavelmente se sentiram como extras em 'Braveheart 2 - a Missão' quando ouviram, e depois viram gaitero, Lord Lovat e concomitantes comandos se aproximando.

Continue lendo...>>

domingo, 28 de julho de 2013

Casa do Schneider, Glasgow
Chovendo no molhado


O dia amanheceu em Glasgow cinza chumbo, com nuvens que podem ser cortadas a faca. A chuva, incerta mas persistente, não para de cair desde a madrugada. Se o Djavam estivesse aqui, ele iria querer ler um livro. E eu me preparo para pedalar 54 kilometros hoje a tarde.



Prestando homenagem ao Grande Lider
Cheguei na casa do Schneider ontem de noite (mas ainda com sol). Já há algum tempo é mais comum eu cozinhar quando vou visitar alguém do que o contrário, então fiquei feliz em somente apreciar a comida para variar. Hoje acordamos cedo para fazer um breve passeio a pé. A chuva não para; de fato, piora. Mas andamos até a universidade, aqui perto, o que se nota pelos nomes locais. A estação de metrô é a Kelvin Hall, homônima ao ginásio de esportes, próximas da rua Kelvin, a praça Kelvin, o museu Kelvin, o parque Kelvin, a ponte Kelvin, o prédio da física ('Kelvin Building'). A imponente estátua do dito cujo
completa a impressão de estarmos em uma Pyonyang temodinâmica com concomitante culto de personalidade; mas na verdade Kelvin é o nome do rio que passa aqui perto. Quando William Thomson foi nomeado Baronete, escolheu o título de 'Lord Kelvin'.


0 Kelvin
Daqui a pouco sairemos novamente para tomar o reforçado café da manhã local (bacon, ovos, black pudding, etc). Depois pego um ônibus até Fort William, onde começo a pedalar no começo da tarde, faça chuva ou faça sol.

Termino o dia em Fort Augustus, na extremidade sul de Loch Ness. Enquanto isso, continuo escrutinando os padrões nos mapas climáticos locais como um adivinho examinando folhas de chá.



Continue lendo...>>