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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Casa, Rio de Janeiro
Marg bar marmalad

Em homenagem às práticas eleitoras Khameinescas, eu mantive por alguns dias a tagline 'Como se diz marmelada em farsi?' no gtalk. Levando a minha pergunta mais a sério do que eu, eis que hoje me aparece o Batatinha (que saiu da física para virar linguista), e me diz que após intensa pesquisa podia afirmar que no Irã marmelada é marmalad. Ora, o slogan favorito do regime iraniano é 'Morte à America' (ou Israel, ou Salman Rushdie, ou ao Barney, o dinossauro púrpura; depende do ocasião), que rapidamente verifiquei se diz 'Marg bar xxx'. Daí, meu novo tagline se tornou Marg bar marmalad. Morte à marmelada.

Pouco depois, uma amiga que mora em Isfaham (onde também ocorrem protestos imensos, repressão pelos Basij, mas sem presença alguma da imprensa estrangeira) também apareceu, rindo e me perguntando se eu estava aprendendo farsi. Dado o contexto, ela sacou rapidamenet o significado da expressão (embora a associação especifica com o doce tenha talvez permanecido um pouco misteriosa). Virou o nosso slogan particular; a minha humilde contribuição ao léxico politico iraniano.

No Irã, os protestos já há muito trancenderam a disputa politica entre duas vertentes do regime. Há uma proto-revolução no ar (os revolucionarios não sabem ainda que são revolucionarios). Ela não é secular, mas é antitotalitaria. A principio, tudo sugere que está fadada ao fracasso; mas após a votação tudo sugeria que os protestos seriam limitados ao relativamente abastado norte de Teerã; que não durariam mais que um ou dois dias; que seriam esquecidos pelo mundo quando a imprensa internacional fosse impedida de transmiti-los pela televisão; e que seriam superados pelo poder de mobilização da mídia e logística estatais. Mas apesar de tudo, os iranianos continuam marchando. Os protestos continuam, e o regime dá mostras de nervosismo.

De qualquer maneira, tais imponderáveis não importam no cálculo moral. Quando, dia após dia, milhares de pessoas saem às ruas pacificamente para para exigir o direito de escolher seus governantes, correndo os riscos inerentes ao enfrentamene com um regime autoritário, elas merecem apoio, seja sua causa quixotexca ou não.

O papel que a internet, e em particular o Twitter, teve em divulgar os acontecimentos é indiscutível; o seu papel em promove-los é objeto de intensa discussão. Mas eu gostaria de pensar que em algum porão na Birmânia, ou no Zimbabwe, ou no Egito, ou em Cuba, um appartchnik vai estar daqui para frente perdendo o sono com os mais recentes hashtags da oposição.



Para terminar, alguns links úteis para acompanhar o que está acontecendo

Eis um agregador decente das noticiais vindas do Irã, feito por iranianos:
http://raymankojast.blogspot.com/

Uma lista de leitura extensa e bastante diversa:
http://cyrusfarivar.com/blog/?p=2169

A Pirate Bay (renomeada Persian Bay) criou um Forum para discutir/entrar em contato com os iranianos/dar dicas de protesto:
http://iran.whyweprotest.net/

O hashtag do twitter relevante é #iranelection

O blog do Pedro Dória está acompanhando os eventos, com algumas discussões interessantes
http://pedrodoria.com.br/

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domingo, 14 de junho de 2009

Casa, Belo Horizonte
Nunca compre uma rifa de um Aiatolá II

A internet está em polvorosa a respeito da (possivelmente roubada) eleição presidencial Iraniana. O Pedro Dória deve estar se entupindo de benzedrine para ficar fazendo livebloggin sem parar. O debate a respeito da suposta fraude se dá em torno dos resultados desta eleição e das passadas, mas de modo geral os poucos números que aparecem são pescados de um artigo aqui e um blog acolá, sem muita sistematização. O que eu fiz então foi compilar os números das 4 últimas eleições presidenciais: 1997, 2001, 2005 (1o e 2o turnos) e 2009. Os dados foram obtidos no excelente Ifes Election Guide, exceto para 1997, que obtive da Wikipedia*.

A versão curta da história política recente iraniana é a seguinte. A revolução Islâmica em 1979 foi seguida dos anos de chumbo da guerra Irã-Iraque e do radicalismo Khomeinista. A partir de 1989, com a eleição do Akbar Hashemi Rafsanjani, um mullah pragmático (ou cleptocrático, uma especie de José Sarney persa, como bem definiu o Anônimo da Persia), as coisas se abriram um pouco. Em 1997, o mullah reformista Mohammad Khatami foi eleito (e reeleito em 2001) por larga margem e com enorme comparecimento, nas costas do entusiasmo pelas reformas liberalizantes que ele prometia. Este entusiasmo foi se exaurindo na medida em que os cléricos não eleitos do conselho dos guardiões e o lider supremo (Ali Khamenei, sucessor do Khomeini) impediram por meios legais e extra-legais que qualquer reforma significativa fosse efetuada. A eleição de 2005 foi caracterizada pela apatia entre os reformistas e um comparecimento relativamente baixo. O ex-prefeito de Teerã Mahmud Ahmadinejad (com uma plataforma reacionária e anti-corrupção) venceu o nosso velho amigo Rafsanjani (atacando de reformista moderado) no 2° turno, e passou os quatro anos seguintes espalhando sua simpatia singular pelo mundo afora. Finalmente, ontem, Ahmadinejad supostamente conseguiu uma reeleição acachapante sobre o reformista Mir-Hossein Mousavi, apesar do renovado entusiasmo pré-eleitoral dos partidários deste último, e do comparecimento récorde (85%!). Fraude, gritaram, e gritam, os reformistas.

Esta eleição pode ser encarada de duas formas: Como o mais recente embate entre conservadores e reformistas, podendo então ser contrastada com as eleições de 1997, 2001 e 2005, e como um referendo a respeito do governo Ahmadinejad (2005 seria então a único pleito comparável). Tanto em um caso quanto no outro, como procuro mostrar abaixo, o apoio ao Ahmadinejad nesta última eleição se situa bastante fora do padrão estabelecido anteriormente.

A métrica disponível mais adequada para quantificar apoio político ao longo do tempo, me parece, é a fração do total dos eleitores (e não a fração dos votantes, ou o número total dos votantes) que a cada eleição vota em um dado candidato ou tendencia.

Para cada uma das eleição, agrupei os votos em dois campos aproximados, conservadores em reformistas. Em 97 e 2001, considerei todos os votos contra o Khatami como 'conservadores' (o que no máximo sobrestima ligeiramente o seu número). Em 2005, no primeiro turno, somei as votações dos 3 candidatos considerados conservadores (o próprio Ahmadinejad, Mohammad Ghalibaf e Ali Larijani). Incluo o Rafsanjani entre os reformistas porque foi assim que ele se promoveu (desta vez ele apoiou o Mousavi). A tabela segue


Ano199720012005(1°)2005(2°)2009
Eleitores
(milhões)
36.438.746.946.946.2
Votantes
(milhões)
29.127.729.428.039.2
Comparecimento
(% dos eleitores)
80,0%71.5%62.7%59.6%84.7%
Reformistas
(milhões de votos)
20.121.718.210.013.2
Reformistas
(% dos votos)
70.0%78.3%61.1%35.9%33.8%
Reformistas
(% dos eleitores)
56.0%56.0%38.0%21.4%28.7%
Conservadores
(milhões de votos)
9.06.011.217.324.5
Conservadores
(% dos votos)
30.0%21.7%38.9%61.7%62.6%
Conservadores
(% dos eleitores)
24.0%15.5%24.4%36.8%53.2%

Sob a primeira perspectiva, a eleição como um embate entre conservadores e reformistas, creio que o correto é comparar os resultados dos primeiros-turnos (o segundo turno em 2001 foi também em grande parte um referendo sobre corrupção e o ex-presidente Rafsanjani). A fração dos eleitores que se deram ao trabalho de sair de casa para votar nos conservadores permaneceu relativamente estável entre 1997 e 2005 (24%, 16% e 24%), mas mas dobrou (supostamente) em 2009, para 53%. Não me parece haver evidência do recente renacimento do conservadorimo iraniano que estes números indicam. Se por um lado a fração de eleitores que votou nos reformistas caiu bastante desde a presidência Khatami (56%, 56%, 38%), isto parece ser mais uma função da desilusão com a perspectiva de reformas do que uma mudança de opinião a respeito da nescessidade de reformas. Há um consenso entre os comentaristas de que na reta final da campanha os reformistas haviam recuperado o seu entusiasmo. Mas apesar disso, no final uma fração ainda menor deles (28.7%) se dignou a votar. Este número é um pouco maior do que a fração (21.4%) de eleitores que apoiou Rafsanjani no 2° turno de 2005; mas este último, assim como seu análogo maranhense, não pode ser plausivelmente considerado um ícone reformista ou um agente de mudanças profundas.

Vendo a eleição como um referendo sobre Ahmadinejad, o correto é comparar o seu desempenho no 2° turno de 2005 com o de ontem (no 1° turno de 2005 ele obteve meros 19.5% dos votos, mas era relativamente desconhecido e competia com outros candidatos conservadores). Neste caso, precisamos acreditar que um presidente em exercício em meio a uma crise econômica severa (em parte, aparentemente, piorada por sua atuação), viu o seu apoio crescer de 36.8% para 53.2% dos eleitores, um aumento de 49%!

Note ainda que em termos absolutos, o número de votantes aumentou muito desde 1997, devido ao baby-boom pós revolucionário. Isto significa que, para ter obtido 63% dos votos, Amahdinejad terá que ter atraido muitos votos dentre os jovens nascidos depois da revolução. Mas tudo indica que esta é exatamente a fração menos tradicionalista e liberalizante da população.

Em suma, devemos acreditar que, apesar do seu entusiasmo aparente, os reformistas decidaram ficar em casa ou mudaram de lado, enquanto os conservadores recrutaram com sucesso a juventude do pais e compareceram em massa pela primeira vez desde 1997. Ou devemos supor que os iranianos consideram o governo Ahmadinejad um sucesso estrondoso, e não sentem um necessidade preemente de reformas liberalizantes.

Novamente, nada disso prova a fraude. Na falta de dados para uma análise estatística apurada, estamos limitados a conjecturar a respeito da plausibilidade dos cenários acima. Mas pelo pouco que sei sobre o Irã, acho ambas bastante difíceis de aceitar.

EDIT: A % de eleitores dos conservadores em 2001 estava errada (como apontou o Paulinho) e foi corrigida.

EDIT2: Os números do comparecimento em 2009 são agora oficiais. O número de eleitores registrados de fato diminuiu de 2005 para 2009. Aparentemente o conselho dos guardiões (agindo como orgão de supervisão eleitoral) eliminou das listas de votação quase 5 milhões de nomes. Quantos destes eram fantasmas e quantos são eleitores de verdade (supostamente na sua maioria apoiadores da oposição) eu não sei.

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* A partir de Abrahamian, Ervand, History of Modern Iran, Columbia University Press, 2008, p.186)

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Casa, Belo Horizonte
Nunca compre uma rifa de um Aiatolá

O governo iraniano anunciou que o Ahmadinejad ganhou a eleição ontem com quase o dobro de votos de seu oponente mais próximo, o reformista Mousavi. A oposição, e inúmeros blogueiros e analistas acusaram fraude, e enquanto escrevo o pau come solto nas ruas de Teerã. São três as principais evidências citadas de pilantragem:

1 - A comissão eleitoral supostamente teria dito à campanha do Mousavi que ele ganhara a eleição, mas que ele não deveria anunciar a vitória até o comunicado oficial após todos os trâmites oficiais

2 - Horas depois, e atropelando o processo normal de validação da eleição, o supremo lider, Aialtolá Khamenei, anunciou Ahmadinejad como vencedor, com base em 80% dos votos contados, por uma margem muito maior que a esperada

3 - Em cada um dos comunicados com os totais parciais dos votos, a razão entre o número de votos dos dois candidatos permaneceu quase exatamente constante, ao contrário do que aconteceu em eleições passadas. A preferencia por um e outro (e, de forma mais geral, pela reforma ou pelo status-quo) é aparentemente bastante divergente entre as diferentes províncias, e entre iranianos urbanos e rurais. A comparação direta entre os resultados regionais parece mostrar a mesma razão constante de votos.



É a respeito de (3) (veja o gráfico acima) que o pau come solto na internet atualmente. Entre supostas provas e refutações (da prova, não da fraude), eu escrevi o seguinte (em inglês mesmo porquê não vou traduzir isto tudo as 2 das manhã):

Neither the proof nor the refutation of fraud are proper statistical analyses. The near-constant ratio between the candidate's vote totals would make sense only if the votes in each partial result were approximately an representative sample of the total vote. Which would mean that either:


a) Iranian precincts or districts count and report votes at approximately the same rate.

or

b) For each partial result the tallied vote ratios just happen to coincide with those of the complete result, because reporting places which are more pro-opposition than average just happen to balance out pro-government places

or

c) There is a reporting bias, i.e., some kinds of precints/voting sites/districts count and report votes at different rates*, but voting patterns are approximately the same across the country and between cities and countryside.

Now, a) is conceivable in theory, but from what I read reporting was not uniform. b) requires a series of unlikely coincidences, and c) would mean voting patterns have changed significantly (and congruently) between past elections and the last one.

None of this proves fraud, but certainly seem to suggest it. A proper statistical analysis would take as the null hypothesis the non-existence of fraud, and try to quantify how unlikely that would be. It would be virtually impossible to disguise massive fraud from a full statistical analysis of voting patterns, if detailed results were available. For some reason, I suspect they won't be. But even with coarser data, one could

- Prove or disprove a) by simple inspection of the places included in each partial tally

- Prove or disprove b) by inspecting subtotal in each tally

- Test c) by comparing reported voting patterns (as a function of region, urbanization and whatnot) in this election with those of past elections.

The catch is that, while we can in principle exclude a) and b), we can at most say about c) that 'Either there was fraud, or voting patterns changes in such-and-such way'. One is then left with the somewhat subjective task of estimating the likelihood of such a change. This is what Iranian experts are for, and this is where the debate should occur. Of course, were we to be told that, for instance, the ratio between Obama and McCain votes wa the same in both Illinois and Arizona, we would be pretty sure there was something wrong with the results. From the fragmentary reports I've read, which seem to be based as of yet on very incomplete data, the reported voting patterns in Iran seem equally implausible. We should not rush to judgment, but my preliminary impression is that this election does indeed look fishy.


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* E.g. smaller rural precincts count quicker than big urban ones, or eastern regions count earlier than western because most people vote before sunset

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sábado, 6 de janeiro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
A nova guerra fria

A expressão 'crise no Oriente Médio' parece quase um pleonasmo, mas é na verdade inexata na maior parte das vezes em que é empregada. Uma região de grande importância estratégica e significado histórico, encruzilhada de religiões, civilizações e etnias, o Oriente Médio está em conflito semi-permanente desde (escolha a data) a) 1917; b) 1947 ou c) 3000 A.C. E alguns dos seus conflitos se incluem entre os mais badalados, renitentes e fascinantes da história recente.

Mas uma crise é um desvio agudo da normalidade, com o potencial de uma ruptura permanente. Sob certas circunstancias, a violência (efetiva ou como ameaça) pode se tornar o status quo, e não necessariamente implica em uma crise.

Com o preâmbulo acima em mente, eu digo agora que o Oriente Médio está em crise. Não porque bombas explodem e ameaças são feitas, mas porque está em curso um realinhamento estratégico que pode dividir a região em dois grupos mutuamente hostis de países, encabeçados pelo Irã de uma lado, e a Arábia Saudita de outro, e porque a própria coesão nacional da maior parte destes países está ameaçada.

O Irã está em ascensão. Os seus inimigos tradicionais foram destruídos, no caso da União Soviética e de Saddam Hussein, ou fragilizados, no caso dos americanos (devido ao atoleiro no Iraque e a impopularidade dos EUA entre os Árabes). Embalado pelos altos preços do petróleo, e com sua influencia ressurgente na Asia Central, no Líbano, no Afeganistão e principalmente no Iraque (com agradecimentos ao colapso soviético pelo primeiro e aos americanos pelos dois últimos), os mulahs acreditam que a hora deles é agora para tornar o Irã a potência dominante no Oriente Médio.

Mas por baixo de toda esta força aparente, o Irã esconde suas fragilidades. A sua população é jovem, mas a rápida queda da natalidade nas últimas duas décadas vai em outras tantas torna-lo um pais de velhos. Embora seja solidamente xiita, a população iraniana consiste de uma estreia maioria dominante persa, e uma série de minorias cujo tratamento varia entre o racismo negligente (azeris), repressão violenta (baluchis) e perseguição religiosa (bahais).

Produz-se menos petróleo (a base da economia) hoje do que em 1979, e com a demanda interna crescendo rapidamente, alguns analistas estimam que o Irã poderá deixar de ser um pais exportador em alguns anos. Além disso, vinte anos de revolução islâmica deixaram o espírito revolucionário dos Iranianos um tanto embotado (principalmente nos grandes centros urbanos). A tal vitória divina do Hizbollah foi recebida com júbilo nas ruas de Cairo e Damasco, mas com indiferença em Teerã (cujos habitantes sabem muito bem quem vai pagar a conta). E embora gritar 'morte à América' e 'morte à Israel' ainda seja parte do currículo escolar, até hoje eu não encontrei nenhum iraniano que tivesse qualquer entusiasmo pela ideia.

A crescente influencia iraniana (persa e xiita!) é vista com alarme pelas ditaduras dominadas por sunitas. Muitas possuem minorias (ou, no caso de Bahrein, maioria) xiitas que são tratadas de forma tipicamente atroz, e partilham de um medo (infundado ou não, mas centenário) de dominação persa. Mas nenhum pais tem mais a perder com a ascendência iraniana que a Arábia Saudita.

O reino saudita é o melhor exemplo do que alguém denominou 'uma tribo com uma bandeira'. Após a primeira guerra mundial, um clã liderado por um certo Ibn Saud, inspirado por um tipo de puritanismo revisionista islâmico criado por um tal de Wahab, conseguiu aos poucos conquistar a maior parte da península arábica, e expulsar os Hashemitas das cidades santas de Meca e Medina. Nadando nas maiores reservas petrolíferas do mundo, e ainda hoje controlada de forma absoluta pelos milhares de príncipes descendentes do fecundo Ibn Saud, a Arábia Saudita se considera não só guardiã das cidades santas, mas da própria ortodoxia islâmica.

Infelizmente para a Arábia Saudita, assim como o Irã a sua posição é frágil por baixo de toda a riqueza ostentada. A sociedade ainda é profundamente tribal, e, mais do que frágeis, as instituições modernas são praticamente não-existentes. A maior parte do trabalho é feita por estrangeiros, da prospecção de poços ao trabalho doméstico, e os Sauditas dependem totalmente da renda (enorme!) do petróleo. A maior parte do petróleo saudita porém se situa no leste do pais, habitado por xiitas, que o Wahabismo considera (e trata) como hereges da pior espécie.

Assim, ao mesmo tempo que são impelidos para o conflito pelo que consideram seus respectivos destinos manifestos, Irã e Arábia Saudita encaram um ao outro, devido às suas próprias fraquezas internas, como uma ameaça grave.

O que porém transformou hostilidade em guerra fria, e forçou os demais países árabes a tomar partido, foi a invasão americana do Iraque. George W. Bush criou de fato um novo Oriente Médio, embora provavelmente não o que ele tinha em mente. A invasão liberou (mas não criou) tensões entre xiitas e sunitas, e é este conflito, mais do que a luta entre americanos e insurgentes, que cada vez mais vai destruindo o Iraque. Todos os países vizinhos vêem tensões semelhantes dentro de suas próprias fronteiras. Se o lado 'errado' ganhar no Iraque, alguns deles temem que seus conterrâneos que compartilham etnia ou religião com os vitoriosos também se levantem.

Os países e grupos sunitas vêem os temidos persas se tornando o poder mais influente no que era até a pouco o grande bastião sunita contra a revolução islâmica iraniana, reforçando a sua aliança com a Síria, e extendendo sua influencia no Líbano e em Gaza. Temem uma conspiração para impor a hegemonia iraniana na região. Assim, Arábia Saudita, Jordânia, os sunitas Libaneses (liderados pelo Saed Hariri, filho do ex-premiê morto pelos Sírios, aliados dos iranianos...), e o Fatah de Mahmod Abbas na Palestina, se aliam para enfrenta-los.

Todos os conflitos recentes na região são ou tem o potencial de se tornarem guerras por procuração entre os dois lados. No Líbano, Israel recebeu inicialmente o surpreendente apoio velado dos demais paises sunitas contra o Hizbollah, que no pós guerra devolve o favor e luta para derrubar o premiê sunita apoiado por Hariri e, por extensão, pelos sauditas. Os palestinos estão a beira de uma guerra civil entre o Hamas, financiado com dinheiro Iraniano e com a liderança em Damasco, e o Fatah, que recebe o apoio Jordaniano e Egipcio.

No Iraque a situação é mais complicada, devido a presença dos americanos. Temendo serem o próximo alvo de uma mudança de regime, os Sírios apoiam qualquer um que torne a vida dos americanos difícil (ou mais curta), coerente com a sua política de apoiar no exterior grupos que são reprimidos ferozmente em casa, sejam eles fundamentalistas sunitas em geral, a Irmandade Muçulmana ou separatistas curdos. Os iranianos
por outro lado claramente procuram (com considerável sucesso) criar um governo iraquiano que possam controlar ou pelo menos influenciar. Mas os Sauditas já enviaram o recado: Eles não permitirão que os sunitas iraquianos sejam marginalizados. A retirada americana é uma questão de tempo; o que virá em seguida é difícil de prever, mas algum tipo de guerra por procuração parece provável.

Além de assumir o controle no Iraque, a estratégia iraniana para se tornar a potência regional dominante parece ter duas vertentes. A primeira é o programa nuclear, que eles insistem tem fins puramente pacificos. Só digo que, se o objetivo é realmente este, o entusiasmo de Amahdinejah pela energia nuclear é contagiante, porque Egito, Arábia Saudita e um consorcio de países do Golfo (além de Marrocos) manifestaram recentemente um súbito interesse em construir reatores nucleares, para fins igualmente pacíficos. Uma bomba atômica é um seguro anti-marines aparentemente eficiente, e historicamente tem sido o símbolo de status que distingue os grandes dos pequenos na ONU.

A segunda vertente é consequência do fato de os xiitas serem uma minoria em quase todos os países da região. Os iranianos precisam portanto de algo que atraia pelo menos alguns sunitas para o seu lado, algo que por exemplo atraia um ódio tão profundo que transcenda divisões confessionais ou étnicas. Não foi preciso ir longe para achar um objeto de repulsa apropriado. A cola que mantinha unidas as várias versões do pan-arabismo, a desculpa para todos os fracassos e a suposta fonte de todos os problemas do Oriente Médio: Israel.

Todas as conferências e concursos de cartoons sobre o Holocausto e os discursos inflamandos sobre varrer Israel das páginas da história podem ser um reflexo da imbecilidade do presidente Iraniano, mas também servem a um propósito estratégico. O Irã está se posicionando como *o* centro de resistência anti-sionista, uma posição que atrai amplas simpatias no mundo árabe. Assim, o Irã e a Síria financiam e apoiam todos os grupos que continuam na luta armada contra Israel e rejeitam o princípio de trocar terra por paz, sejam eles sunitas ou xiitas. Durante a última guerra no Líbano, a tal vitória divina tornou o Nasrallah provavelmente o líder árabe mais popular atualmente, para xiitas e sunitas (exceto obviamente entre os sunitas libaneses). Ao separar as massas árabes de seus líderes (nenhum dos quais é eleito democraticamente), o Irã restringe a margem de manobra de seus adversários. No limite, esta situação pode até mesmo causar a queda de alguns dos déspotas pró-americanos dispostos a uma acomodação com Israel, para serem substituídos, suponho, por déspotas pró-iranianos dispostos a uma guerra interminável com Israel. Egito e Jordânia em particular podem sucumbir a pressão, o que inverteria totalmente o balanço de forças.

Os sunitas obviamente não estão parados. A Arábia Saudita é o único grande produtor de petróleo capaz de aumentar significativamente sua produção a médio prazo. A baixa resultante nos preços seria danosa aos sauditas, mas um calamidade para os iranianos. Veremos nas próximas reuniões da OPEP se os sauditas aceitam cortar a produção ou se vão permitir que os preços continuem baixando. Juntos com a Jordânia e o Egito, os sauditas também redobraram os esforços para conseguir algum tipo de solução pacífica para o conflito entre palestinos e israelenses. Embora louváveis (mesmo que a motivação não seja o desejo de paz na terra e harmonia entre os homens), tais iniciativas infelizmente não tem sucesso garantido. Uma aposta mais líquida e certa, por outro lado, é a crescente demonização dos 'persas' na mídia árabe, onde eles são cada vez mais alvo da paranóia xenofóbica que tradicionalmente sempre foi reservada aos judeus. É quase uma corrida para ver quem é mais odiado, se os persas ou os judeus.

Obviamente fomentar conflitos sectários não costuma ser uma política sensata, e a longo prazo as consequências tendem a ser ruins para todos os lados envolvidos, quando o ódio toma vida própria e se auto-perpetua muito além da sua utilidade momentânea. Quase todos os países da região escondem sob a superfície tensões semelhantes às do Iraque (em parte devido às fronteiras artificiais impostas por britânicos e franceses quando os estados nacionais modernos foram criados por lá, mas é difícil imaginar fronteiras que eliminassem tais tensões completamente). Sem identidades nacionais totalmente consolidadas, os povos da região se dividem em um palimpseto de identidades
étnicas, religiosas e tribais muitas vezes contraditórias, que se tornam mais importantes em tempos de instabilidade. Se pressões externas criarem um conflito entre as várias identidades sobrepostas, quase todos estes paises tem o potencial de se desintegrar violentamente.

Mas o Oriente Médio não está chegou à situação atual por ter um excesso de lideranças sensatas...

Precedentes históricos certamente existem. A guerra Irã-Iraque, a mais mortal da história recente do Oriente Médio, também foi um conflito entre xiitas e sunitas, e árabes e persas. Mas foi um conflito que permaneceu limitado aos países beligerantes. A possibilidade agora existe de uma conflagração em toda a região. Na história europeia, a Ia Guerra Mundial, e (talvez mais apropriadamente) a Guerra dos 30 Anos vem a mente.

Obviamente um conflito generalizado, embora cada vez mais provável, permanece somente uma possibilidade. Talvez a carnificina no Iraque convença os dois lados a iniciar algum tipo de détente, ou talvez um acordo de paz na Terra Santa, ou um colapso nos preços do petróleo, ou um aumento do QI da liderança americana, adie as pretensões iranianas ou acalme a paranóia sunita. Sinceramente, é difícil saber pelo que torcer, quanto mais o que esperar, mas os próximos anos no Oriente Médio certamente serão interessantes.

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