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sábado, 11 de agosto de 2018

Piccadilly line a caminho de Heathrow, Londres
Goodbye to all that

Adeus Londres
Estou na passagem final por Londres, a caminho do aeroporto; cheguei ontem de Newcastle e chego hoje a noite no Brasil. Depois da Alemanha, passei por Londres, pedalei até Oxford, Pedalei até Reading e pedalei até Londres novamente. Peguei um trem para Newcastle, fui e voltei no fim de semana  para/de Cragside, e agora ei-me de volta.

Vários posts escritos e semi-escritos, que irei postar no futuro próximo, espero.

Adeus Newcastle (e a melhor comida chinesa da Inglaterra)

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terça-feira, 4 de julho de 2017

United Club, Aeroporto Intercontinental de Houston
Pegando aviões II





Preciso de muito pouca bagagem para viajar. A minha bicicleta dobrável e o meu laptop quase bastam. A caminho de passar o mês de julho inteiro na Inglaterra, mandei, portanto, a dita cuja para a revisão. Foi quando o dito cujo parou de funcionar.

Por razões complicadas demais para expor aqui, a assistência técnica capaz de me ajudar fica em BH. A uma semana da viagem, levei para lá o paciente, e aproveitei para passar o fim de semana com a família. Mas o reparo só foi concluído no sábado, as vésperas da viagem na 2a.

Após examinar e descartar diversas opções com graus crescentes de heterodoxia, consegui construir uma gambiarra multimodal onde o laptop foi trazido pelo técnico até a casa da minha tia, de onde foi levado por meu pai até a casa do irmão da Indhira, que foi de carro até Juiz de Fora, onde cheguei de ônibus para resgatá-lo no domingo a noite. Cheguei em casa em casa as 5 para uma soneca, e no fundão as 8 para aplicar uma prova. O resto do dia foi a correria jejúnica pré-jornada de sempre enquanto eu tentava terminar tudo que havia sido procrastinado antes de embarcar.

A Linha Vermelha - Imagem meramente ilustrativa
A corrida  do Uber foi merecedora do nome. Passando por alguns atalhos desconhecidos pelo Waze para evitar uma linha vermelha quase parada, fiz o checkin as 19:39. Para um vôo as 20:40. Cujo sistema para de aceitar passageiros com menos de uma hora de antecedência.

Andando com pressa para trocar dinheiro, passar pela segurança e fila de passaporte, acabei indo para o portão errado (distante um dígito e 600 metros do correto). Foi quando ouvi meu nome sendo anunciado.

Não foi a primeira vez que passei por isso. Em geral, quem é chamado é o último a embarcar, sob olhares de reprovação da tripulação de terra e transeuntes aeronáuticos locais. Ou perde o avião.

Fui correndo, mochila pesada nas costas, até o portão. Cheguei esbaforido e semi-coerente, e demorei um pouco para notar que uma nutrida fila de passageiros ainda esperando para embarcar. 'Não precisa correr', disse o atendente - 'Eu lhe chamei por uma boa razão. Você ganhou um upgrade.'

Imagem meramente ilustrativa
Não vou dizer que viajar de classe executiva é o meu sonho aeronáutico. O meu sonho aeronáutico é tocar um sinete e anunciar casualmente: 'Jarbas, prepare o jato'. Mas na falta deste ultimo, aceito a classe executiva de bom grado.

Comer uma carne suculenta e um sundae feito sob medida vale a pena. Vale mais a pena dormir em uma superfície horizontal em um vôo de longa distância.

Pousando em Houston (minha conexão para Londres, por razões complexas demais para explicar aqui), fui o primeiro na fila da imigração, onde fui entrevistado por uma simpática policial ('Graças a Deus você ganhou o upgrade'; 'Então existem físicos que acreditam em Deus? A gente aprende uma coisa nova a cada dia'). Menos simpático foi segundo policial, que na saída do saguão de bagagens me mandou bater um papo camarada no secondary screening com terceiro policial, este positivamente antipático.

Imagem meramente ilustrativa
Aparentemente cético a respeito do meu itinerário, ele me interrogou sobre onde ia, de onde vinha, e digitou o equivalente a meia novela russa em seu terminal de segurança. Ficou encucado com meu capacete, apalpou minha bicicleta, revistou minha mochila, e olhou feio para o meu caderno de notas ('Neuronomicon'), e mais feio ainda para sua capa com o pentagrama circundado por neurônios.

Abrindo o caderno, ele examinou cuidadosamente, página a página, cada equação, diagrama, lista de compras e mapa de RPG. 'O que você faz?' - Perguntou. Mas logo abandonou a linha investigativa após ouvir sobre invariância de escala e neuroanatomia comparada.

Cthulhu Ackbar!
Após mais alguns minutos, ele decidiu que eu não apresentava ameaças a nada além da sanidade alheia, e me liberou para vagar por horas pelo aeroporto até embarcar de novo. Me refugiei no United Club (outra vantagem do upgrade), onde tenho internet, sofá, chuveiro e um buffet de café da manhã/lanche. Trabalhei por alguma horas excepcionalmente produtivas (até decidir postar no blog...). O plano amanhã é, chegando cedo em Heathrow, sair pedalando direto para Oxford. Mas esta é outra história



Não seu guarda, este não é um croqui de Camp David...













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domingo, 3 de julho de 2016

Tagholm, Copenhagen
Navegar é preciso



Bolhas se formando na capital financeira da Europa


Um destes instrumentos de navegação não precisa de baterias
Estou em Copenhagen para a FENS 2016. Mas também estou a caminho de pedalar pela Suécia e trabalhar em colaborações na terra do Brexit. Cheguei aqui ontem, mais morto do que vivo, 26 horas após ter partido do Rio. O que não foi de todo ruim...

O meu roteiro de avião tem a forma de um Y. O ponto central fica em Londres, a perna maior começa no Rio e passa por Lisboa, e as duas outras pernas acabam respectivamente em Newcastle e Copenhagen. Fiz portanto uma conexão sem contratempos em Lisboa, e pousei em Londres. O plano original era me encontrar com a Sarah, mas o vôo, o pouso e a alfândega atrasaram, e tive afinal só algumas poucas horas para matar. Fui para a cidade mesmo assim, andar um pouco pela margem sul do Tâmisa, comer algo e fazer um pouco de mudlarking extemporâneo. Voltei com cacos demais e tempo de menos, mas com um pouco de sorte e correria embarquei para a Dinamarca (EU: 'Excuse me, where is the SAS [Counter]?' POLICIAL PIADISTA (!):' You don't want to find the SAS').

Cheguei aqui por volta da meia noite. O meu host de AirBnB estava no aeroporto, preparando-se para embarcar para Creta, e me deu a chave. O apartamento fica a uns 10km pedalados do aeroporto. Mas meu telefone tinha 2% de bateria, e os gentis bagagistas pelo caminho haviam amassado a coroa de modo que a corrente ficava saltando.

Eu me lembro da época em que estar em uma cidade estranha de madrugada, sem navegação eletrônica e sem um meio de transporte funcional, me deixaria bastante estressado. Porém, sem sentimentalismos pelos velhos tempos, simplesmente inverti a bicicleta e usei o meu alicate desempenante, de modo que o que devia mover se movesse, e o que devia ficar parado parasse. Pendurei então a minha bússula no pescoço e prendi o esboço do meu trajeto no guidom. Com a ajuda de transeuntes ocasionais, cheguei a tempo de tomar banho e dormir.


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sábado, 18 de julho de 2015

Casa do Reza, Londres
Na lama em Londres

Pausa para cachimbo
Cheguei em Londres ontem de tarde, depois de uma breve mas produtiva visita aos meus colegas na universidade de Reading. Hoje foi o meu último dia completo por aqui antes de voltar para o Rio amanhã. Obviamente, resolvi fazer algo memoravel e tipicamente Londrino. Chafurdar na lama do tio Tâmisa a procura do lixo produzido pela cidade ao longo das eras se encaixa perfeitamente nesta descrição,  então aceitei o convite do Alastair para uma manhã de mudlarking.

Londres foi fundada pelos romanos pouco antes da era cristã, e o Tâmisa foi sempre a sua principal artéria de transporte, fonte de enguias comestíveis e esgoto. Ao longo dos milênios,  romanos, celtas, saxões, normandos, e finalmente ingleses sob dinastias várias, viveram e morreram ao longo de suas margens. E, sempre que precisavam se livrar de algo, o rio estava convenientemente logo ao lado.

Todo ano, os resíduos destas eras passadas se desgarram de aterros ou são arrastados pela correnteza, e depositados nas margens do rio. Moedas, cerâmica,  balas de mosquete,  ossos de animais domésticos (e o ocasional humano), e os indefectíveis cachimbos de barro. E na maré baixa, um grupo de excêntricos de todos os naipes procura e cataloga avidamente tais relíquias,  o descarte inconsequente das eras passadas. Estas pessoas são conhecidas como 'mudlarks'. O meu amigo Alastair, arqueólogo e quinteseencialmente inglês, é um deles.

A partir do extremo sul da ponte de Londres, rapidamente encontramos uma escada lodosa decendo até a margem. A maré baixa havia exposto um aluvião de cascalho e lodo, irregular e coberto de forma exparsa por lixo mais moderno e de, digamos, menor interesse arqueológico  (e.g. rodas de bicicleta, garrafas de cerveja e uma barbie decapitada). Os objetos realmente antigos não são particularmente notáveis neste contexto, mas o Alastair demonstrou habilidade incomum ao se abaixar repetidamente para pegar algo que aparentava ser um cascalho ordinário, mas era na verdade um cachimbo do século XVII ou um caco de porcelana Tudor.
Mudlarking é um passatempo, mas isto não significa que não seja bem organizado. Existem licenças a serem obtidas, para níveis sucessivos de complexidade e experiência. Iniciantes podem simplesmente pagar algumas libras ao Museu de Londres e obter uma carteirinha e o direito de retirar objetos encontrados sobre a superfície. Cavucar, cavar e usar detectores de metal demandam níveis mais elevados de habilidade demonstrada, e carteirinhas específicas.

Continuamos a nossa procura, inicialmente pela margem sul, e em seguida pela margem norte (onde a cidade foi fundada, e onde formalmente ainda existe exclusivamente, a chamada City of London). O resultado é o que mostra a foto abaixo. Cacos de ceramica de épocas várias,  e diversos cachimbos (vendidos após 1600 já cheios de tabaco, e muitas vezes descartados após um único uso); uma bala de mosquete, dentes de cavalo, um prego e um pedaço de tijolo com um buraco para fixacao. Nada que seja particularmente excitante para um mudlark experiente; mas como foi a minha primeira busca, e algumas destas coisas são quase mais antigas do que o meu país, elas vão comigo para o Brasil.

Depois que maré subiu, nos encontramos com a Sarah, uma amiga portuguesa radicada em Londres, e fomos para um pub em Fleet Street chamado ye Olde Cheshire Cheese, quase tão antigo quanto os tais cachimbos, e aparentemente frequentado pelo Samuel Johnson em eras passadas. Após uma boa refeição, fomos de bicicleta (e metrô,  no caso do Alastair) até Greenwich,  admirar o Cutty Sark e o museu naval. Me despedi de meus amigos e voltei para o norte de Londres, onde estou hospedado. Fiz um stir fry vegetariano para meus anfitriões, e sob o sol poente fizemos um tour a pé da região, por matas ancestrais (algumas das mais antigas destas ilhas) e colinas esculpidas por geleiras paleolíticas. Termino o dia agora, um dia estimulante e talvez excessivamente cheio de atividades; e uma analogia perfeita para esta minha estada na Inglaterra que agora termina.

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sexta-feira, 3 de julho de 2015

chez Chantal, St. Mary Cray, perto de Londres
Dobras, fissuras e tectônica de provas


Infinita diversidade, mas só em algumas combinações
Estamos, eu e minha bicicleta, novamente a caminho de Londres e arredores para colaborações científicas várias. Estamos também, porém, no final do semestre, com a concomitante pilha de provas e relatórios para corrigir. Ao longo da semana, a medida em que as turmas iam fazendo suas provas a pilha aumentava; a minha caneta vermelha só lentamente erodindo o monte que se formava.

Era soterrado pela correção de provas que eu me encontrava em minha sala, correndo contra o relógio no dia em que iria embarcar. E a caneta riscava e cortava, enquanto eu grunhia em reprovação aos erros desnecessários e tentava decifrar caligrafias hieroglíficas, quando meu celular e meu computador começaram a apitar em unissono. A atividade no meu Facebook, por alguma razão, estava pululando com pedidos de amizade de completos desconhecidos, menções a meu nome e avisos de postagem. Demorei um pouco para entender que isto tudo era a consequência do interesse gerado por um paper que escrevi com a Suzana, e que havia há pouco minutos sido publicado online na Science.

A pouco mais de uma ano, eu e a Suzana estamos trabalhando em um projeto para tentar entender como o cortex cerebral dos mamíferos se dobram. É cada um do seu jeito? Existem padrões comuns entre diferentes grupos? Ou há um padrão universal? Questões de óbvio interesse biológico, certamente, mas porque isto seria de interesse para um físico? Acontece que regularidades, mesmo aproximada, entre objetos que a princípio deviam ser díspares (tal como o espectro da radiação emitida por corpos diversos quando aquecido) muitas vezes são consequencia de algum principio fundamental ainda não explicitado.  Física nova, na acepção mais ampla do termo. A tal radiação térmica era evidência da natureza fundamentalmente quântica da matéria e energia em pequenas escalas. Quais novos princípios físicos um entendimento teórico da neurociência poderiam inspirar? Eu não sei, mas gostaria muito de descobrir...

Cada ponto é uma espécie diferente. Se você é um
mamífero, está em algum lugar desta reta
Bom, de volta ao cortex. O que conseguimos mostrar foi que, se levarmos em conta somente a maneira como a expansão do cortex alonga os axônios, e que a superfície cortical não pode se auto-interceptar (seria preciso rasgar o cortex para isso), é possível encontrar uma relação entre a área total do cortex, sua área exposta e espessura, que vale (como verificamos) para todos os mamíferos. É como se os axônios tentassem enrugar o cortex mais e mais e o contato entre pedaços diferentes da superfície tivesse o efeito contrário. A configuração real dos cortices é exatamente aquela em que estas duas tendências estão em equilíbrio. Não importa se o seu cérebro é liso, como em um camundongo, ou dobrado, como o nosso. A regra é a mesma, a física é a mesma.


Além disso, a forma exata da relação implica em que a única escala de tamanho que define se e o quanto o córtex será dobrado é a sua espessura. Isto significa que, se usarmos a espessura como nossa régua, então existe uma área crítica (medida em múltiplos da espessura ao quadrado); abaixo dela o cortex não se dobra. Acima, ele se dobra.

Existe outro sistema físico que pode ser entendido como uma superfície de espessura finita auto-evitante sob compressão, e cuja escala de tamanho característica é dada pela espessura. Um sistema físico amplamente disponível nos quais experimentos são muito mais simples do que no cérebro. Bolinhas de papel...



Papel, de fato, era o que eu tinha em mente naquele dia. Uma pilha interminável de papeis, cobertos pelos alunos com fórmulas, números e gráficos. Na minha usual afobação para chegar a tempo do vôo sem esquecer nada de essencial, tive que levar um maço de provas para corrigir no avião. Assim que terminar, envio a pilha por correio de volta ao Brasil. Me desejem sorte. E aos meu alunos também...

PS: Alguns artigos de divulgação interessantes sobre o artigo aqui, aqui e aqui. 



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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Queen Mary, University of London, Londres
Achados e perdidos

Estou de volta em Londres, por somente uma semana. Vim para uma conferência e para juntar algumas pontas científicas soltas da vinda anterior. Por razões misteriosas, o vôo mais barato* passava por Roma, de onde me conectei por Embraer até o London City Airport, um aeroporto de somente uma pista situado convenientemente a menos de 10 km do college onde estou. Para Londres em dezembro, o clima estava surpreendentemente ameno (i.e., sem chuva), então vim pedalando, margeando o Tâmisa até chegar (ironicamente) ao East End vindo do leste. É uma região de aparência nova e um tanto holandesa, com um teleférico que liga ambas as margens do rio e grandes prédios multifacetados de vidro com propósito vago. Naquelas circunstâncias e clima, me pareceu bastante agradável.

Cheguei ao Queen Mary cedo demais para pegar as chaves do meu alojamento, então fui diretamente até o prédio da escola de ciências matemáticas, comprei meia dúzia de pacotinhos de um ristretto do juizo final, me fiz um duplo com a consistência de mingau e a potência de Red Bull concentrado, e subi até a sala dos visitantes. E eis que, em meio a diversos e silenciosos acadêmicos, vejo a minha antiga mesa, desocupada. Sobre ela, uma pequena caixa preta.

Logan, a mosca
É preciso fazer agora uma pequena digressão. Na minha última visita, durante o verão local, estava eu certo dia sentado nesta mesma mesa, quando uma enorme mosca começou a me orbitar. De forma quase instintiva, estabeleci logo um diálogo entre filos por meio de uma cacetada com um bloco de anotações enrolado. A mosca se estatelou no chão, e por lá ficou. Fim da história, pensei eu. 

Porém, alguns minutos depois, vejo que ela ainda se mexe debilmente. Em menos de uma hora ela já agitava as pernas de forma mais coordenada. Pouco depois, ela se pôs de pé, e começou a alisar as asas, e logo em seguida já me orbitava novamente.

A cacetada seguinte fez todos na sala, e na vizinha, pararem o trabalho e esticarem o pescoço para ver o que estava acontecendo. Sobrancelhas foram levantadas. O corpo da mosca já não se via mais, presumivelmente desintegrado.

Logan e sua vítima
No dia seguinte, ao chegar, a encontro bem viva sobre o bloco de anotações com o qual eu tentara matá-la. Se era um aviso ou sinal de perdão eu não sei, mas achei melhor não insistir. A mosca, agora apelidada de Logan devido ao seu fator de cura, me orbitou por mais algum tempo, e depois sumiu.

No dia seguinte, no batente externo da janela, vejo um pombo morto. Ao seu lado, Logan. Me lembrei de Mario Puzzo e Francis Ford Coppola, e resolvi definitivamente deixar a mosca em paz pelo resto da minha estada em Londres.

A caixa que encontrei ontem continha um par de óculos escuros. O *meu* par de óculos escuros, que eu havia concluído por exclusão terem sido perdidos no Museu Britânico. Não sei como foram parar na minha mesa, pois me lembro de os haver procurado, sem sucesso, no dia em que fui embora. Quero crer, porém, que o seu reaparecimento foi um gesto de reciprocidade.

Ainda não vi o meu amigo díptero desta vez. É dezembro, afinal, e faz frio. Porém, se existe um inseto capaz de sobreviver ao inverno londrino, é Logan, a mosca.




_________________
* Alitalia, que supostamente era uma sigla para 'Arrived late in Turin, all luggage in Arezzo', mas que se mostrou bastante decente.

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Apessoinha Bed & Breakfast, Paris
Adieu London, hello Paris

Os dias foram movimentados em Londres, e continuei com o meu novo hobby de caminhadas noturnas. Na 5a me encontrei com a Rima, e fizemos um tour a pé pela parte chique (posh) da cidade: Sloane Square, Chelsea, Kensington, etc. Sob muitos aspectos, caminhadas são uma maneira muito mais interessante de reencontrar amigos do que refeições em restaurantes. A experiencia é muito mais memorável, não ficamos presos ao ritmo imposto pelo serviço do restaurante (pedido/comida/sobremesa/conta), e é possível haver pausas na conversasão sem desconforto (e, reciprocamente, não existe a nescessidade de preencher cada minuto de silêncio com palavras); pausas não-desconfortáveis são um sinal de entendimento real entre duas pessoas (só em relações superficiais a conversa nunca para), mas é preciso algum tempo até achar o ritmo certo se estas não se vêem há muito tempo. Depois da extremamente agradável caminhada, me despedi da Rima e fui andando ao longo do Tâmisa a partir da ponte Chelsea, passando por uma usina termoelétrica fora de funcionamento (muito feia, mas por alguma razão tombada), e por uma monstruosidade em forma de pirâmide asteca, em frente à ponte de Vauxhall. Passei pelo parlamento e adjacências (habilmente iluminados, o que produziu em mim certos impulsos homicidas em relação a carregadores de bagagem holandeses), e finalmente peguei o metro em Embankment (ligando a trajetória do passeio com a da noite anterior)

Sexta fui em um jantar Iraniano, cozinhada pela simpática irmã do Reza (o meu colaborador em Londres, professor no QMUL). Discutir a situação no Irã com pessoas que nasceram e viveram lá é bem diferente do que debater o assunto com outros nerds de plantão na internet. É mais informativo também.

Sábado almocei com o João Guilherme e a Dani, primos meus que estão na Inglaterra (os Mota são uma especie adaptável). No caminho para o restaurante (estritamente falando, no caminho oposto ao caminho para o metro, porque confundi a direção devido a insistencia do sol neste hemisfério de andar do lado errado do ceu), passei por uma pequena mas animada manifestação contra a Igreja da Cientologia, uma picaretagem inventada por um escritor de ficção científica mediocre. Simpáticos os manifestantes. Alias, qualquer grupoque consiga combinar o meu desprezo pela Cientologia com o meu apreço pelos quadrinhos do Alan Moore merece aplausos (pessoas com mascaras de Guy Fawkes em Londres! Da próxima vez que estiver em Nova York vou procurar pelo doutor Manhattan).

Comprei ainda uma nova câmera (uhu!), e cheguei no aeroporto com uma antecedencia incomum. Minha bagagem foi revistada em detalhes, e eu não pude não explicar para o guarda o funcionamento do sextante de navegação que comprei em uma feirinha de antiguidades em uma igreja (st. James) em Piccadilly.

Cheguei em Paris, vim para a casa da Mariana e do Sylvain, dormi, e tive um domingo relativamente light; me registrei no congresso, participei inadvertidamente de uma missa maronita, e comprei o meu almoço em uma mercearia grega, onde discuti brevemente Tucídides com o vendedor (originario da Tessália) em franglês (o assunto surgiu quando ele me perguntou se eu conhecia a Grécia, e eu respondi que sim, mas só através de livros, e mencionei o dito cujo como exemplo). Não entendi direito se ele me disse que na época da guerra do Paloponeso a Tessália era uma terra bárbara, ou se ele reclamou que o Tucídides fazia parecer injustamente que era este o caso. Em ambos os casos, uma conversa interessante. Passei também mais de duas horas na Sainte-Chapelle, que ainda considero uma das coisas mais bonitas criadas pelo ser humano (os vitrais...). Se tiver tempo, escrevo um post dedicado a respeito; mas as fotos já estão no flickr.

Hoje fiz minha apresentação (que foi muito bem), e cozinhei um jantar para a Mariana, o Sylvain e o André: Salada de pepino, tomate, azeitonas e queijo fetá, com molho de iogurte; endívias recheadas de alho poró e cogumelo, e risoto de presunto espanhol, pera e cogumelos (inventei hoje, ficou gostoso). Falei com o Gabriel e a Ceci por Skype, li alguns emails, visitei alguns blogs, bloguei, etc. Por algum estranho efeito relativístico são agora 4:40 da manhã. Talvez eu devesse ir dormir...

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

France House - QMUL, Londres
Vida noturna


Estou aqui em Londres já a dois dias, habitando um excelente alojamento dentro do Queen Mary College enquanto colaboro com o Reza (professor aqui) e o Marcelo em um paper. A minha camera foi roubada da mala que despachei em Amsterdam, então não tenho fotos daqui por enquanto. Eu tive um dia extraordinário em Amsterdam, com e graças a Ana Júlia, que me hospedou e serviu de guia.

Amsterdam merece um post separado, que não vou escrever agora porque são 5:43 da manhã e ainda não fui dormir. Não fui dormir porque só cheguei no alojamento meia hora atrás. Cheguei tão tarde (ou cedo) porque ontem saí daqui as 9:30 da noite e fui andando pela cidade. Segui pela Mile End Road, White Chapel, Brick Lane, e inúmeras ruelas e becos do East End com nomes inusitados. Passei pela estação ferroviaria de Liverpool Street (que em sua incarnação moderna data dos anos 60, mas que eu acho extremamente charmosa), a ponte do milenium, a ponte Blackfriars e o simpático pub arte deco com o mesmo nome logo em frente, Chancery Lane, Holborn e Oxford Street. Já era mais de 11 da noite, o sol tinha acabado de se por, e eu estava com fome. Continuei portanto até Leicester square, o único lugar onde achava que poderia encontrar algum restaurante aberto.

Após comer uma pizza mediana, o metro já havia encerrado as operações. Desci então até Trafalgar Square (Charing Cross no mapa), onde algum artista maluco organizou um maratona de 100 dias de ocupação initerrupta do quarto pedestal da praça, o único no momento desprovido de estátua. Milhares de voluntários estão se alternando, passando cada um 1 hora no topo fazendo o que lhe vier a cabeça. Sem metrô, e sem um onibus noturno direto, resolvi descansar um pouco e esperar o sol nascer de novo. Periodicamente os voluntários iam se sucedendo (por meio de uma plataforma extensível) no pedestal. Um deles leu um livro, outro cortou o próprio cabelo, e outro ainda protestou contra o fechamento de algum curso de línguas no King's College. Mas o mais interessante foi um prefessor de educação artística de segundo grau, que engravatado e com presença de espírito e de palco, deu uma aula de arte aos gritos, com ajuda de uma série de cópias de pinturas distribuidas por sua assistente. 'O que voces vêem' - ele perguntava. A aula terminou com uma discussão informal (ele ficou feliz em saber a respeito do Brughel que vi hoje na Sotehrby's (outra estória...)). Passei mais uma ou duas horas lendo na praça (muito apropriadamente para um caminhante solitário, um livro novo do Paul Theroux onde ele repete, 30 anos depois, sua viagem solitária de trem através da Europa e Asia), sendo periodicamente interrompido por um bêbado um tanto paranóico chamado Cameron, que inicialmente presumiu que eu fosse um muçulmano lendo o Corão (a barba...), e depois queria saber o que um grupo de barulhentos Italianos estava cantando ao lado.

Em hora nenhuma a praça ficou vazia; inicialmente bandos de turistas passavam apressados, como bandos de aves migratórias, tirando fotos e rindo alto (italianos e brasileiros eram sempre ouvidos antes de serem vistos). Aos poucos, grupos de mendigos foram se formando educadamente nos bancos da praça, preparando-se para dormir. Todos tinham seu equipamento mendigal customizado, e tratavam todo o processo com uma naturalidade desconcertante. Por último, vieram os jovens, pinguços e farreiros a procura de transporte para casa, vindos de incontaveis casas noturnas e festas particulares nas redondezas. Garotas de minissaia e maquiagem borrada, totalmente bebadas, chapinhavam nas fontes e gritavam palavrões. Seus companheiros masculinos urravam selvagemente e encarnavam o papel dos romanos no rapto das sabinas, carregando-as de um lado para o outro nos ombros. Alheios a tudo isso, os amadores no pedestal e suas inevitáveis claques de família e amigos prosseguiam na sua performace.

Com o ceu azul-escuro, peguei finalmente um onibus noturno até Liverpool Street. O McDonalds ao lado da estação dava a impressão de ser o único estabelecimento comercial aberto na cidade, e naquele momento me parecia um lugar extremamente acolhedor, com a perspectiva de um chocolate quente. Um chocolate e mais um ônibus depois, e após uma curta caminhada ao longo do canal, finalmente voltei, saudoso e com 7 horas de atraso, para a minha cama macia e meu chuveiro quente.

Update: O post, agora em português!

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