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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Casa, Rio de Janeiro
De volta


Estou de volta ao Rio. A viagem de volta passou por três continentes e cruzou dois oceanos. Entre o vôo vindo de Amsterdam e o indo para São Paulo, passei 12 horas mofando no aeroporto em Washington. Mas, entre livros, WiFi, a lojinha do Smithsonian e um Mexicano decente com refil de coca, até que foi uma espera agradável. Até consegui descansar um pouco.

O encontro de Amsterdam (a FENS) foi cientificamente decepcionante, em alguns aspectos. Achei as plenárias e as paralelas bastante menos interessantes (e de interesse bem mais restrito) do que as suas equivalentes nos encontros da SfN (nos EUA). Por outro lado, as sessões de posteres foram animadas e instigantes; e a organização foi impecável.

"Você usa anticorpos?" - me perguntou a representante comercial
"Só os que o meu sistema imunológico produz" - respondi

As feirinhas das editoras e fabricantes de equipamentos em congressos dirigidos às ciências biológicas são sempre um evento a parte. Se por um lado a distribuição de brindes foi menos liberal do que em outros encontros, por outro as bocas-livres, petiscos e chocolates eram muito mais numerosas e de melhor qualidade do que em eventos nos EUA. Outro destaque ficou por conta das anticorpetes, um grupo de vendedoras de anticorpos embaladas a vacuo em uniformes estilo Formula-1; sinceramente, elas estavam meio incongruentes em meio aos microscópios cofocais e os implantes craniais para ratos; e dada a demografia destes encontros, imagino que elas fariam mais sucesso em um encontro de física...

Um último comentário: Em sempre gostei de Rembrandt, mas nunca tinha prestado muita atenção nas suas gravuras (i.e., impressões em papel a partir de uma placa de cobre riscada). No seu primeiro a FENS só começava de tarde, então dei uma volta por alguns museus, incluindo o museu judaico e a Gassam Diamonds. Na antiga casa do pintor (sobre cujo conteúdo na época sabemos bastante, graças ao detalhado inventário produzido quando Rembrandt foi a falência e teve que leiloar todas as suas posses), eu estava subindo as escadas quando ouvi que uma demonstração das técnicas de gravura comecaria dentro de instantes. E, em frente a uma prensa manual, uma artista de verdade foi nos conduzindo passo a passo pelo processo: Das três técnicas de riscar o cobre, a maneira de se aplicar e retirar a tinta, até a impressão propriamente dita. E foi só assim que eu começei realmente a apreciar e prestar atenção nas gravuras (e suas matrizes).

As tais gravuras são impressionantes, em particular no uso e representação da luz e sombra. É muito interessante, para quem gosta de quadrinhos, notar o quanto o tipode traço ou risco usado determina a ênfase, o movimento e a forma de uma figura. Além disso, como Rembrandt nunca fora à Itália, o seu contato com os mestres da renascença se deu através de gravura; o seu entendimento do chiaroscuro deve tanto ao buril quanto ao pincel; de fato, tive a impressão de que a gravura para ele era uma forma de arte muito mais ínitma e pessoal do que a pintura. Assim, as suas gravuras ajudam um pouco a entender o restante de sua obra.







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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Aeroporto Schipol, Amsterdam
Você é o passageiro mais interessante que eu entrevistei hoje - ...

... foi o que me disse o policial após a entrevista de segurança pré embarque. De fato, a minha passagem pela segurança deste aeroporto foi um evento social: Conversei amigavelmente sobre o jogo contra a Holanda com o guarda que me revistou, e sobre ciclismo em Amsterdam com o operador do raio-X. Mas foi com o entrevistador que o papo rendeu mais.

Ele começou me perguntando o usual ('Você fez as próprias malas?'; 'Você recebeu algum pacote de estranhos?'), deu sequência com perguntas sobre meu itinerário ('porquê você vai fazer escala em Washington?'). Ao responder esta pergunta, eu obiviamente mencionei que estava viajando para participar de congressos científicos. De neurociência, esclareci. E ele engatou um papo bastante animado sobre as implicações éticas da possibilidade de alterar a personalidade por meio de terapia genética ou drogas. Ficamos uns 10 minutos conversando, enquanto a fila atrás aumentava, e a representante no local da United Airlines olhava o bate papo com crescente impaciencia.

Este alias vai ser outro daqueles posts cronológicamente invertidos. Hoje de manhã, com uma das minhas mochilas cada um, eu e o Graham pedalamos nossas bicicletas até aqui. É um passeio interessante (de uns 15-20 km no total, ao sul da cidade), com um cenário um tanto diferente da caminho que percorri para o norte em meu outro passeio de bicicleta pela região em volta de Amsterdam (e sobre o qual eu ainda não postei nada). No final, simplesmente dobrei a bicicleta, coloquei na sacola e fui viajar.

Ontem foi o jogo Holanda X Uruguai. Assisti, com a Su e a Gabi, em uma churrascaria argentina, onde um pequeno grupo de Uruguaios se refugiou. Como a churrascaria fica ao lado da praça Rembrant, onde jovens holandeses em diversos graus e tipos de intoxicação se congregam em dias normais, o barulho quando o time local tocava na bola era ensurdecedor. Acho que pessoas como eu (e a Su, e a Mari), que normalmente só acompanham futebol em jogos da seleção na copa, são muito mal acostumadas. Mesmo quando a seleção vai mal, os jogadores do Brasil tendem a ser bastante habilidosos. Então ficavamos curiosos com a demora de holandeses e uruguaios em decidir o que fazer com a bola quando esta chegava aos seus pés. Não posso dizer que fiquei impressionado com qualquer um dos dois times.

Ao final do jogo, os locais comemoraram, com vuvuzelas, bandeiras e baseados, como se tivessem ganhado a copa. A policia olhava, em peso e atenta, mas tolerante, enquanto os celebrantes jogavam uma quantidade prodigiosa de lixo na rua, transformavam carros de bombeiro em carros alegóricos improvisados, e em geral faziam barulho como se possuídos por cacodemônios. Mas era uma bagunça amistosa, bem holandesa.

No dia do jogo, pela manhã, apresentei o meu poster. Inicialmente, achei que estava na Sibéria científica local, em uma seção meio erma do salão, na manhã seguinte à festa ('Jump de FENS') que entrou madrugada a fora. Mas aos poucos, os interessados foram aparecendo, e um mini-engarrafamento foi se formando enquanto eu agitava os braços maniacamente (é o que acontece quando eu fico entusiasmado) e explicava como calcular as massas médias dos neurônios. Fiz alguns contatos interessantes; em particular, um professor polonês me convidou para passar um tempo em Varsóvia (ele tem uma coleçao respeitavel de insetívoros leste-europeus). Inspirado pelo 'Wronski' do meu email, ele me contou uma história interessante sobre o Banach, outro matemático polonês excentrico: Aparentemente, ele e seus colegas se reuniam em um café local para discutir matemática. Infelizmente, após a ressaca inevitável, eles esqueciam muitas das demonstrações brilhantes que havia obtido quando seus cérebros estavam bem lubrificados pela vodka. A solução foi convocar a esposa de um deles, que passou a manter um livro com o registro das soluções para problemas já resolvidos, e os prêmios propostos para os problemas em aberto. Recentemente, um alemão resolveu um destes últimos, e ganhou o ganso vivo estipulado do governo polonês em cerimônia solene.

Tenho que ir. Vou sentir saudades desta cidade, que combina bastante comigo.




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sábado, 3 de julho de 2010

RAI Convention Centre, Amsterdam
Laranjas azedas

Estou aqui em Amsterdam desde 5a. Já fiz um extenso tour a pé pela cidade (em particular, pela arquitetura moderna na região do porto), e um tour ainda mais extenso de bicicleta, através da região ao norte da cidade, e suas vilas piturescas. Fiz ambas as coisas com o Graham, o meu host muito gente fina no CouchSurfing.

Mas hoje eu vou postar sobre o jogo de ontem...

Eu sai de casa sem saber muito bem onde assistiria o jogo. Eu queria a compania de outros brasileiros, e não somente por temer por minha integridade física se o Brasil ganhasse. Passei por inúmeros bares e resturantes decorados de laranja do chão até o teto; mas não vi nenhum verde e amerelo. Exceto por estes últimos, Amsterdam tinha aquela aparência de cidade fantasma a que estamos acostumados no Brasil em dia de jogo da seleção. Os holandeses levam o futebol a sério.

Alguns museus depois, eu estava no museu local de ciência ('Nemo'), e jogo começaria em 45 minutos. Comentei casualmente com a atendente da bilheteria que os funcionarios do Nemo deviam ser os únicos holandeses vestidos de amarelo (é o uniforme do museu). "Sim! Eu queria estar vestindo LARANJA hoje!!' - ela respondeu, enfática. Eu tive que mencionar a minha nacionalidade nesta hora, ao que ela respondeu com um 'boa sorte!' um tanto envergonhado, mas aparentemente sincero.

O museu é dirigido principalmente para crianças e adolecentes; mas a coleção é muito bem bolada. A parte dedicada à educação sexual é (como poderiamos esperar na Holanda) particularmente direta. Uma série de bonequinhos de madeira demonstra posições sexuais descritas no Kama Sutra; uma caixa com duas marionetes cônicas vermelhas permite aos atendentes simular um beijo de língua gigante; e um desenho animado estilo XKCD mostra de forma cronológica as mudanças nos corpos feminino e masculino entre a infância e a idade adulta. Para as crianças, havia uma apresentação sobre o princípio de causa e efeito. Enquanto uma apresentadora hiperativa (de avental branco, obviamente; mas usando um faixa laranja na cabeça) explicava o que estava acontecendo, uma complicada série de mecanismos iam se ativando em cadeia: Uma série de dominós solta uma bola que empurra uma alanca que libera um bondinho que furava um balão que deixava cair um peso em uma balança, que... No final, um foguete era lançado, fixando nas impressionáveis mentes infantis presentes a ideia de que o desenho do Papa-Léguas é um documentário.

Saindo do museu a poucos minutos do inicio do jogo, ainda sem ideia de onde ir, a atendente patriótica com quem havia conversado anteriormente me chamou de volta. Após uma breve conferência com a colega do lado, ela simpaticamente me informou que um bar a algumas quadras do museu estava decorado com bandeiras brasileiras (e holandesas), e que um turbulento grupo de brasileiros era esperado por lá. Após profusos agradecimentos, me dirigi ao local indicado. Eu ouvi os brasileiros muito antes de os ver.

Cerca de 100 dos meu compatriotas gritavam, tocavam vuvuzelas, ou produziam ruido de formas mais criativas. Eram acompanhados de duas emplumadas e sacolejantes morenas, uma barraquinha vendendo churrasquinho, e um grupo de percussionistas. Me senti o próprio estereótipo nacional. Um grupo consideravel (mas minoritário) de holandeses alaranjados completava o grupo. Apesar dos cliches e da proximidade com o 'inimigo', o clima era relaxado e bastante agradável. Gritos de 'Brasil!' e 'Holland' e jingles improvisados ('A laranja! foi chupada! A Holanda vai para casa!') se alternavam; mas a disparidade em números e hábitos culturais, e a presença dos tambores tornavam esta disputa uma que os holandeses não tinham a menor chance de vencer. Pelo menos até o final do segundo tempo...

Não tenho muito a dizer a respeito do jogo. Comentários pós-jogos, em mesas redondas e similares, são famosas por serem (até mais do que blogs) exercícios fúteis de teleologia. Mas, para o crédito dos brasileiros, a batucada continuou quase sem interrupção após o jogo, enquanto algumas holandesas mais aventurosas dançavam releituras (digamos) criativas do samba.

O resto do dia (museu Van Gogh, uma soneca no parque vizinho, torta de maça na praça) trasnscorreu agradavelmente. A única coisa difíl de aguentar eram os bandos de celebrantes, alaranjados e com níveis variados de alcool no sangue, assoviando em coro 'Aquarela do Brasil'.


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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sala de embarque, aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro em trânsito ou no trânsito

Estou embarcando hoje para Washington; passo uma semana lá em um congresso de neurocoisas, e depois vou direito para Amsterdam (para outro congresso). Em Washington, a organização vai me pagar a hospedagem, então pela primeira vez desde a Argentina (e, antes disso, sei lá quando), vou ficar em um hotel em uma viagem internacional.

A minha escolja de transporte urbano, por outro lado, continua um tanto inortodoxa. Pretendo comprar uma bicicleta dobrável em Washington*; embaraca-la para Amsterdam, usáa-la por lá, e traze-la de volta para o Rio, para ser o meu meio de transporte dedicado entre a biologia e a física na UFRJ.

A razão pela qual estou teclando isto é que o vôo está atrasado. Está atrasado porque a tripulação ficou presa no transito infernal da linha vermelha. Estão na altura do fundão, segundo me informaram. Para ver que isto não acontece só comigo...

___________
* O encontro será no museu nacional de patologia clínica, em uma ´cidade satélite´ de Washington chamada Silver Spring; as ciclovias e parques abundam por lá.

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Casa, Rio de Janeiro
Perdido na tradução

Enquanto continuo enrolando para escrever algo mais substancioso sobre as eleições no Iraque, me lembrei de uma série de fotos que tirei na Europa ano passado de algumas logomarcas, palavras de ordem, lemas e correlatos, que por alguma razão eram incongruentes ou simplesmente interessantes; ou que, digamos, tivessem pseudo-traduções um tanto embaraçosas em português.

Uma agencia de viagens. Acho. Espero... [Paris, Julho 2009]


Você deixaria o seu dinheiro neste cofrinho? [Amsterdam, Julho 2009]


Você navegaria neste barco? [Paris, Julho 2009]


A caminho do dêmanchè [Giverny, Julho 2009]


Não sei se existe o conceito de contrabando ilegal na Holanda. Al Capone ficaria desempregado [Amsterdam, Julho 2009]


A vingança de Montezuma na maré vazante [Mont Saint-Michel, Julho 2009]


Porque Alan Moore é melhor que L. Ron Hubbard [Londres, Julho 2009]


Prioridades nacionais [Paris, Julho 2009]

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sexta-feira, 10 de julho de 2009

France House - QMUL, Londres
Holandando

Paris é monumental, construida para impressionar com suas grandes panorâmicas, mas transparecendo um certo artificialismo. Tudo é muito grande, muito espetacular. É preciso resistir a tentação de correr em estado de frenesí fotográfico de um monumento até o outro, ou de uma ala de seus cavernosos museus para outra, em uma tentativa fútil de 'ver tudo'. Mesmo sendo mais auto-referente e menos aberta que Londres ou Nova York, Paris é mais capáz de inspirar nos visitantes a sensação de reverência ressentida que o provincial estereotipicamente sente em relação à metrópole. O efeito provavelmente é intencional; Londres, Nova York se tornaram com o tempo cidades imperiais; a Paris atual foi projetada como tal.

Amsterdam é uma cidade em escala humana, construida compacta e sensatamente em volta de três canais. Não tem obras monumentais, mas impressiona pelo conjunto. Amsterdam é conhecível em um dia. Foi o que eu fiz com a Ana Júlia. Uma passeio agradável e sem pressa com paradas não programadas quando necessário para comida, bebida, cafeina ou descanso. Passeio este que fomos esticando gradualmente, de uma voltinha durante a tarde até uma caminhada pela madrugada.

A nossa primeira parada exemplifica bem o que eu quero dizer. O museu dedicado ao Van Gogh é pequeno, agradável e direto ao ponto. Seguimos a evolução de seu estilo desde seus primóridios através de pinturas colocadas em ordem cronológica, bem contextualizadas na vida artística e familiar do pintor, e acompanhadas de alguns objetos de interesse e salpicadas de obras de contemporâneos e colegas. Não há um destaque em particular para as obras mais famosas, que chegam meio sorrateiras e são muito mais marcantes por isto (talvez devido a seu uso da textura, Van Gogh no final da vida é muito impressionante ao vivo). Uma ou duas horas depois de entrar, já estavamos na rua, satisfeitos, a procura de um lugar para um almoço tardio (indiano, no caso).

O mais interessante da cidade são os detalhes, arquitetonicos e de outros tipos. Não há muito espaço livre, e cada pedaço foi usado e reutilizado diversas vezes: Das casas estreitas tombadas em angulos insólitos até o baluarte das muralhas da cidade que já foi casa de lastro, prisão, centro de dissecção e hoje é um café. Os canais são parte fundamental da rede de transporte local, e também são moradia para um número considerável de habitantes de barcos.

O lendário distrito da luz vermelha, por outro lado, é uma decepção. Em qualquer outro lugar do mundo, passear na zona depois de meia noite assume ares de uma atividade um tanto sórdida, e possivelmente arriscada. Em Amsterdam, isto significa desviar de musicos de rua jamaicanos e evitar as massas compactas de velhinhos em excursão. Qualquer ilusão de interagir com o lado B da cidade de alguma forma significativa, ou de trocar palavras amigaveis com alguma prostituta em pausa para cafezinho é destroçada pela Disneylandia sexual com que nos deparamos, organizada com a habitual eficiência tranquila dos holandeses. As prostitutas ficam segregadas em suas vitrines profissionalmente iluminadas falando ao telefone e demonstrando a mesma combinação de atenção profissional e desinteresse pessoal em relação a seus clientes em potencial que uma caixa de supermecado tem em relação a suas compras

Devido à geografia de seu pais, os Holandeses se tornaram um povo comercial (assim como, por exemplo, os fenícios), voltado para fora; prático, apto a adotar costumes estrangeiros, e (dentro do razoável), bastante tolerante. Não se incomodam em absoluto em falar inglês (e falam muito bem, condutores de bonde inclusos). Não encontrei nenhuma manifestação daquele narcisismo das pequenas diferenças que parece caracterizar seus vizinhos maiores; porém também senti falta de alguma idiosicrasia nacional que os caracterizasse como holandeses, e não como cidadãos do mundo que residem na holanda. Tenho certeza que tais coisas existem, e se tornariam obvias para um viajante que passasse mais do que um dia na cidade. Mas eu não tinha tempo.

Fisicamente, tanto Amsterdam em particular quanto a Holanda como um todo são lugares inventados. A cidade começou com uma barragem no rio Amstel (Amstel-dam!), onde hoje é a praça Dam e o centro mais velho da cidade; o pais foi em grande parte reconquistado do mar através de extensas obras de bombeamento e drenagem. De fato, há muito pouca natureza 'selvagem' em evidência por onde andei. Os agradáveis parques, por exemplo, ficam em polderes nas redondezas da cidade. Os Holandeses vivem onde e como escolheram viver, e não simplesmente onde o destino os colocou. Talvez por isto se ressintam tanto de imposições externas que os obriguem a alterar este modo de vida. Seja a invasão nazista em 1940, ou o prospecto da mudança climática, ou o radicalismo islâmico.

Eu sei porém que moraria em Amsterdam sem problemas. É uma cidade acolhedora, pequena mas não provinciana. Onde todos andam de bicicleta. Ou barco. Eu certamente gostaria de voltar lá, para um passeio mais extenso. Não ví o museu dos grandes mestres, nem interagi com holandeses de forma significativa. Por outro lado, posso dizer que andei por toda a cidade. Antes de pegar o bonde de volta para casa, nos alojamos em puffs macios em um parque da cidade para descansar um pouco e rever as fotografias que eu tirei (impulsos homicidas tomam conta de mim quando escrevo estas palavras; imagino carregadores de bagagem holandeses sendo torturados boschianamente). Dentro do curto tempo que tinha, conheci bem a cidade fisicamente. Mas nem cheguei perto de assimilar a textura histórica associada aos pequenos detalhes, dos quais gostei muito mas entendi muito pouco.

São Miguel Arcanjo (?)...

E um dragão/demonio...

e um elefante?

Eu definitivamente preciso voltar em Amsterdam para entender esta cidade direito.

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domingo, 5 de julho de 2009

Varanda da casa da Ana Júlia, Amsterdam
Conversas aleatórias II


Eu quase perdi o onibus para Amsterdam. Normal. Tive um viagem um tanto surreal também. Igualmente normal. Mas acho que exagerei um pouco, no dois casos.

Estavamos no churrasco na casa dos pais do Sylvain, a 40km de Paris. O menu consistia em macarrão de pepino com molho curry (bom!), tabule, bolinhos de Gruyere e churrasco de peito de pato (muito bom!!). Mas começava a ficar tarde, e o meu onibus sairia de Paris as 11 da noite. O Sylvain, para seu eterno crédito cármico, decidiu então me levar para a estação de onde sairia o ônibus. Chegamos na Porte de Bagnolet as 10:52, sem saber onde exatamente era a garagem. A passagem especificava um check-in com 30min de antecedencia, com passagem impressa em mãos. Eu estava na vizinhança genérica do ônibus com 8 minutos de antecedencia e a passagem em um .pdf aberto na tela do meu laptop. Depois de alguma perguntas freneticas em frenglish aos locais, consegui finalmente descobrir onde era a tal Eurolines (dentro da estação de metro Gallieni), e fui correndo até o guichê. Cheguei as 10:58, e o guichê de 'Amsterdam' estava vazio. Pedi ajuda ao atendente no guichê ao lado, mas ele, sem levantar os olhos, me disse simplesmente para esperar alguem aparecer. Finalmente, um bigodudo apareceu e tranquilamente verificou minha passagem (na tela) e passaporte, e me indicou a direção do onibus. Cheguei lá esbaforido, junto com uma igualmente esbaforida moça com um sotaque que se revelou sul-africano. A Fathima trabalha de au pair em Rotherdam, e está no momento tentando evitar que sua mãe lhe encontre um jovem de boa família e índole para casar ('Você conhece o Xulambis Beltramis? . Os Beltramis são uma família respeitável. O Xulambis é boa pinta. Advogado. Ganha bem. Ele vem almoçar aqui com a gente hoje a noite....'.

A viagem foi tranquila, e enquanto perocorriamos os velhos campos de batalha da 1a guerra mundial eu ia praticando o kabuki de me entalar em uma posição diferente a cada 15 minutos para conseguir 5 de sono. O ônibus não tinha o elan e o senso de aventura de uma viagem da Cometa em estradas brasileiras, mas consegui não morrer de tédio. Já dentro da Holanda, fomos parados pela policia para controle de passaporte. Entreguei o meu, e este me foi devolvido após breve verificação. Mas o meu vizinho de banco, um sueco, estava sem passaporte. E sem documentos. E quase sem dinheiro. Ele havia sido roubado em Barcelona - disse aos policiais - enquanto dormia na praia. Havia colocado documentos, dinheiro e computador no fundo de seu saco de dormir. Acordou sem eles, com o fundo do saco e os bolsos abertos a faca. Ele havia prestado queixa na policia? Não! Estava tentando voltar para a Suecia de ônibus, sem se preocupar com tais tecnicalidaes. Os policiais não acreditaram muito na história, e o levaram para fora do ônibus para averiguação. Milagrosamente, 20 minutos depois, ele voltou (onde metade dos acordados parecia considerá-lo um meliante perigoso, a julgar pelos olhares); havia convencido os policiais de que a sua história era pelo menos plausível, e que a maneira mais eficiente de resolver a situação seria deixa-lo voltar para seu pais.

Depois disso, começamos a conversar. Contei da vez em que quase fui preso em Bruxelas ao cuidar de uma mala (dentro da qual havia uma caixa de metal impermeavel à raio-x), pertecente à uma esquecida velhinha argentina que simplesmente saiu do aeroporto e foi para casa. O Sebastian (o nome do elemento suspeito sueco, foto ao lado) vive de hip-hop e de fazer mágicas de baralho (ele é bom!). Ficamos conversando com a Fathima (que já levou um tiro de raspão e foi esfaqueada, trabalhando no sistema de justiça sul-africano), até ela descer em Rotherdam e nos em Amsterdam. Sebastian e eu pegamos o metrô em direção à estação central. Metro este em que todos os passageiros, a excessão de nos dois, estavam vestidos de branco. Obviamente existe uma explicação racional para isto (uma festa, aparentemente), mas por um momento pairou aquele clima de Além da Imaginação que seria o cliffhanger ideal se minha vida fosse uma série de televisão.

Chegando na estação central, me despedi do Sebastain (a procura de um café onde esperar o seu ônibus para Copenhagen), e fui procurar alguma informação sobre o bonde para a casa da Ana Júlia. Mal andei dois passos, e comecei a ouvir uma animada conversa em português. Um dos participantes, o Vanderly, prontamente se ofereceu para me levar até o ponto. Ele é de Belo Horizonte também, fez eletrônica no Cefet e passou o pão que o diabo amassou em Portugal antes de se arrumar em Amsterdam, onde é DJ e mora com um grupo de maranhenses.

Já no ponto, estavamos determinando o meu itenerário e conversando quando uma velhinha holandesa, sentada no banco, se oferece em excelente inglês para me ajudar. Ela me indicou a estação, bonde e horario corretos, e (obviamente) começamos a conversar. A Anka conheceu o marido inglês em um festival de Jazz em Amsterdam, e viveu em Londres por vários anos, só recentemente (com a morte do dito cujo) retornando à Holanda. Ela pegou o mesmo bonde que eu, e fui fazendo uma city tour guiado por ela até eu chegar no meu destino.

Os Holandeses são muito simpáticos, e falam excelente inglês. Mas pelo menos onde a Ana Júlia mora, eles usam uma noção generalisada do conceito de rua um tanto confusa, que inclui ramos laterais quase fractais e numeração semi-sequencial (um pouco como o departamente do física da UFMG). Mas depois de andar um pouco, consegui percolar até aqui, para dormir um pouco porque toda esta interação com pessoas randômicas é exaustiva. Hoje vou conhecer o que puder de Amsterdam, antes de embarcar amanhã de manhã para Londres. Vamos ver quem eu vou encontrar desta vez.

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