sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Casa, Belo Horizonte
A vida em duas rodas


Não esteja lá quando chove; é um dos lugares em que mais caem raios no mundo

BH vista do Morro do Cachimbo


Quando ainda morava em Belo Horizonte, antes de me mudar para o Rio, eu não era ciclista. Mesmo após começar a andar por todo o lado  de bicicleta, no Rio e mundo afora, eu achava que BH tinha morros demais para uma vida em duas rodas. Eu pedalava ocasionalmente até o Belvedere, mas era o que eu considerava no limite do agradável em termos de rugosidade.

Alguns meses de pandemia, a ida ao Belvedere já havia se convertido em passeio semi-diário na minha bike dobrável de viagem. Seis meses de vírus, e estávamos a família toda com mountain bikes novas, participando de grupos de ciclismo e tratando automóveis como um recurso a ser utilizado in extremis em condições de clima inclemente. Um ano, e eu arrastava a bike por picadas aleatórias a procura de trechos pedaláveis.

Não era que os morros não me incomodavam. Eu mal os notava mais.

E é por isso que é tão frustrante que, quase dois anos convivendo com o COVID; indo pegar a BR para subir até o Retiro das Pedras; pronto para pegar uma trilha de chão farofento e um trecho de caminhada sobre pedras escorregadias; e a procura de ruínas portuguesas e cachoeiras ermas... Eu fui ser atropelado pela primeira vez na vida na Bandeirantes, a mais tranquila e bike-friendly avenida da cidade, e a pouco mais que um grito de distância da minha casa.

Fui abalroado por uma moto por trás, no curto trecho entre o final da ciclovia e a praça Alasca. A bike empinou, e voei por cima dela até um encontro com o asfalto mediado pelo meu antebraço esquerdo (quebrado), ombro direito (deslocado) e pé esquerdo (aparentemente torcido; mas mais sobre isso mais tarde).


Eu estava mais vestido e usando capacete, porém
 

Eu não notei a extensão do dano imediatamente. Um mero toco, pensei; é só uma questão de montar de novo e sair pedalando, até a dor passar. Fui demovido pelo ângulo pouco natural do meu braço, e pela impossibilidade de sair da posição de Gaulês Moribundo em que me encontrava.

Me saí melhor que o supracitado gaulês, porém. Vivi o meu sonho infantil de passear de ambulância, fui drogado e operado no braço, e voltei para casa, e uma temporada na cadeira de rodas. Um mês depois, descobri*  que o meu pé esquerdo não estava meramente torcido; o seu osso calcâneo estava em pedaços (pouco dolorosos, porém, para surpresa para os médicos e alívio para mim).

Fui novamente drogado, operado e enviado de volta à casa. Com recomendações estritas de só voltar a andar em Janeiro de 2022.

A minha vida continua em duas rodas, porém. Me tornei hábil com a cadeira de rodas e imito de forma passável o Saci Pererê; faço fisioterapia e assisto The Witcher pedalando a ergométrica. Estou aprendendo arco e flecha, e vou desenvolvendo habilidades de tiro Parta. Cozinho, com ajuda do Gabriel, e fico dando voltas no pilotís ouvindo podcasts.

A vida continua, e ano que vêm estou de volta pedalando minha bicicleta.

Agora só preciso de coquinhos



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* Graças à ressonância magnética, refutando quem acredita que física e representações irredutíveis de SU(2) nunca foram úteis para ninguém




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terça-feira, 24 de março de 2020

Casa, Rio de Janeiro
Social Isolation

Dear Martha,



It is day 10 of social isolation in the village, and we are all losing our minds. Mrs Twofarthings and Mrs Kickinghindshanks have grown tired of calling each other names and now just spend their days glaring at each other across the village green. But it was Rupert who snapped first. He was last seen cackling maniacally atop a mound of toilet paper rolls, before it collapsed under his weight. He now lies buried under a pile of bum-caressing flufiness. The rain turned it into a sooty papier mâché monument. We call it Rupert's Cairn. It is said that some faint moaning can be heard every day at Sainsbury's closing time, but I lack the heart to investigate it any further



 Yours truly, xxx






Para lidar com o isolamento

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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Pousada da Sra xxx, 강정보., Coreia do Sul
Manutenção posventiva

Estou na Coreia. Do sul. Para um congresso, o IBRO 2019, em Daegu. Para chegar aqui, fiz uma parada não programada em Adis Abeba, na Etiópia. Mas a história desta série de contratempos, e do turismo improvisacional daí advindo, vai ter que ficar para um post quando eu tomar vergonha na cara em relação a este blog.

Chave de corrente. Nunca saia de casa sem ela

Após o congresso, o plano (como sempre) era pedalar rapidamente de uma cidade a outra antes de voar para o Brasil. A Coreia recentemente construiu uma série de ciclovias, cruzando todo o pais. Resolvi seguir pela que acompanha o rio Nakdonggang, de Daegu até Busan.
 
Mal sabia eu que, assim como os norte-coreanos em 1950, o meu avanço até Busan seria detido de forma inesperada.

E a Coreia é linda! As paisagens rurais são genuinamente de cair o queixo; e eu ia apreciando a minha sorte e as belezas locais quando, após 40km idílicos, em uma subida mais íngreme, eu sinto uma travada súbita na corrente da bicicleta, seguida do ruído de algo sendo triturado que doeu no fundo da minha alma. O algo era o câmbio traseiro, cuja parte inferior havia se quebrado, se enroscando na corrente e engruvinhando no cassete. Após proferir algumas lições extemporâneas de português escatológico para os transeuntes locais, fui a procura de ajuda.
 
Na própria ciclovia havia uma estação de manutenção não muito distante. Mas eles não podiam resolver meu problema.

Imagem meramente ilustrativa

O simpático mecânico, velhinho e monoglota,  então me levou até a loja de bicicletas da cidade local. O dono da loja olhou e cutucou, mas concluiu também que não podia fazer nada. Foi então a procura de uma hospedaria. Inquirido, o atendente de uma loja de aluguel de patinetes me levou até o 4o andar de um prédio ordinário até uma senhora de roupão. Inesperadamente, ela *não* me ofereceu um cookie e discutiu cripticamente o meu futuro, mas simplesmente me mostrou um quarto de hóspedes tradicional coreano, com futon, mesa baixa, porta de correr e senha de wifi. Paguei pela estadia e fui contemplar as minhas opções.

Retroceder nunca, render-se jamais é um péssimo filme mas uma excelente filosofia para andar de bicicleta. Passei as duas horas seguintes em cirurgia, desengajando o câmbio e montando e desmontando a corrente. A ideia era achar um número de elos correspondendo de forma aproximadamente à uma corrente esticada em alguma marcha específica. Depois de algumas tentativas consegui transformar uma bicicleta de 7 marchas quebrada em uma de 1 marcha que roda. Ela guincha como um guaxinim enfurecido e não tenho muita fé na longevidade da corrente, forçada a um grau de torção pouco saudável. Mas amanhã vou tentar dar uma de Ayrton Senna e ver se consigo completar o trecho de hoje na 3a marcha.
 
Antes... (7 marchas)
... e depois (ersatz-fixie)

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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Chez Su, Nashville TN, EUA
O último filho de Krypton voa United



Estou novamente em Nashville, terra da música country, para colaborar com a Su, que após mudar de pais e universidade é agora professora na Vanderbilt. Apesar do frio, estou conseguindo me locomover bem de bicicleta para todo canto, e já estou escolado nas minúcias do preparo do churrasco de porco defumado típico local. Mas para que tudo isto acontecesse, eu primeiro precisava chegar.

Talvez de forma inédita, não cheguei atrasado no aeroporto, e não tive que correr, me locomover por gambiarras multimodais, enfrentar dificuldades de última hora ou recorrer a improvisos para embarcar; não levantei suspeitas em policiais da alfândega nem precisei fazer manutenção de guerrilha na minha bicicleta. Fontes confiáveis me informam que isto é considerado normal nos deslocamentos aéreos da maior parte da humanidade. Tal exotismo me espanta...

O único contratempo foi o não funcionamento do sistema de entretenimento a bordo. O que me deixou mais tempo que o usual para contemplar o aviso luminoso indicando a disponibilidade do banheiro pela presença ou ausência da cruz vermelha sobre um curioso objeto entre duas figuras humanas. Nas laterais, indicações pictóricas de 'proibido fumar', permanentemente acesa, e 'apertem os cintos', ligada intermitentemente.

Inspirado pelo aviso, escrevi o conto que segue (em inglês).

"Are you absolutely sure? Perhaps the quakes will stop after enough energy is released? "

"You revised my calculations yourself, my love. Krypton will cease to be, and soon"

"I know it in my mind; but the mother in me still can't accept it"

"Lara, I understand. Myself, I have felt like two different men barely on speaking terms ever since I found out"

A low-frequency rumble can be heard. At a distance, sirens wail.

"It is time, Jor-El"

"It is. The capsule is ready. But I've been dreading this moment"

"Yes, dreadful. But he needs us, one last time"

The ground shakes heavily and shifts, and sharp rending sounds fill the air as the crust of a dying planet starts to crack.

"Goodbye my son. Their Sun will make you as a God to them..."

"No time for eloquence Jor-El. We will know what God-like feels soon enough, in this chamber you built"

"It was the only way to power the capsule"

"Indeed. But Krypton could have lived for while longer without it"

"To what end? We are a dying people; that could not be changed. You know how much we tried"

"Be it as it may, let's do it now or the sacrifice will be for nought. How do I generate these 'heat rays' you describe? Just concentrate my mind?"

"I believe so. It should feel natural, like opening one's eyes"

Weakly at first, then intensely, red light pulses from the eyes of Jor-El and Lara while they look upon their son for the last time through vaporizing tears. The chamber hums and glows a faint yellow as the energy output of an entire continent is routed though it. A power relay coupling fails, and the yellow dims briefly before a backup comes online. Insulating ceramics crackle and smoke. Hurried footstep are heard from outside, followed by urgents shouts and the sound of something heavy and metallic hitting an unyielding bulkhead. Suddenly, bolts of liquid fire emerge  from two sets of eyes, crossing in the capsule sitting on a pedestal between them. The unnatural matter of the capsule's thin transparent shell absorbs the energy and transmutes it, as space-time starts to shift and bend. Man, woman and capsule are now dark outlines in a sea of red, and the chamber's power surges and fails for one last time.

In his crib, Kal-El smiles and gurgles, contently.

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sábado, 11 de agosto de 2018

Piccadilly line a caminho de Heathrow, Londres
Goodbye to all that

Adeus Londres
Estou na passagem final por Londres, a caminho do aeroporto; cheguei ontem de Newcastle e chego hoje a noite no Brasil. Depois da Alemanha, passei por Londres, pedalei até Oxford, Pedalei até Reading e pedalei até Londres novamente. Peguei um trem para Newcastle, fui e voltei no fim de semana  para/de Cragside, e agora ei-me de volta.

Vários posts escritos e semi-escritos, que irei postar no futuro próximo, espero.

Adeus Newcastle (e a melhor comida chinesa da Inglaterra)

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sexta-feira, 20 de julho de 2018

RE3, entre Züssow e Berlim
A última Fritz Cola em Berlim



Entre uma conferência e outra, eu pedalo. Depois da FENS em Berlim e antes da Sociedade Anatômica em Oxford, pedalei entre Berlim e uma ilha no mar Báltico chamada Usedom. Passei por florestas densas, pântanos cheios de aves, parques eólicos e cidades da ex-Alemanha Oriental onde Trabrants ainda são dirigidos de forma não-irônica. Passei brevemente pela Polônia, na nesga oriental da ilha, a caminho da parada final em Peenemünde, onde Werner Von Braun et al. projetaram, testaram e construíram os foguetes V2 que choveram sobre Londres e Antuerpia nos meses finais da 2a Guerra.

Foram 327km e troco no total. Entre rodovias, trilhas asfaltadas e ladrilhadas, e picadas cascalhosas e arenosas de liquefazer a espinha, cheguei sem maiores transtornos.

Nos últimos anos a minha assiduidade neste blog tem sido patética; o que é uma pena, pois fiz algumas viagens bem interessantes. Eu começava escrevendo um post entre um trecho e outro, mas acabava o meu tempo ou ânimo, e eu não escrevia sobre os trechos subsequentes porque tinha ainda a intenção de terminar o anterior. O resultado foi um ou dois posts esparsos por viagem, se tanto, e uma penca de rascunhos espalhados por diretórios vários.

Desta vez, resolvi esboçar rapidamente um post a cada par de dias. No final (já no trem), escrevo um meta-post amarrando tudo, e vou então publicando um post por dia em ordem cronológica. Vamos ver se funciona...

De qualquer forma, estas são as horas derradeiras da minha primeira visita à Alemanha. No trem, passo na volta pelas cidades por onde passei na ida, de forma um tanto mais laboriosa. Conheci muita gente legal, reencontrei amigos que moram por aqui, e me enturmei com graus variados de desenvoltura linguística com ciclistas pelo caminho. Vou procurar por algo para fazer na cidade, em seguida pedalar até o aeroporto de Tegel, e de lá voar até a Inglaterra. Refaço, portanto, o caminho dos V2 de Peenemünde até Londres, embora (espero) fazendo menos estrago.





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