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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Casa, Rio de Janeiro
Et tu Galyna?


Se até a enfermeira ucraniana peituda abandonou o Kadafi, o fim realmente deve estar próximo.

Estou meio obsecado com todas estas revoluções no Oriente Médio e adjacencias. Acho que consigo desenhar de cabeça um mapa razoavelmente preciso da Libia no momento, com areas de influencia tribal e oleodutos indicados. Eu só fiquei sabendo que os Oscares sairiam hoje devido a uma chamada no intervalo comercial da CNN.

Seguindo nesta linha, nesta 4a fui em um lugar chamado 'Midrash' para assistir uma palestra sobre 'O Oriente Médio e a revolução egipcia'; informativa, mas atropelada pelas notícias mais recentes vindas da Líbia. O mais interessante, porém, foi a roda de discussão que se formou depois, já na rua, e que incluiu um professor de sociologia, o rabino local, uma senhora cuja família foi expulsa de Alexandria pelo Nasser após a nacionalização do canal, e a Renata Malkes, da editoria internacional dO Globo (que eu só conhecia de Facebook). Nunca subestime o poder da serendipidade...

O fato é que enteder o que está acontecendo já é difícil o bastante; previsões então são pouco mais que meteorologia política. Pode chover, pode fazer sol. Tragam guarda-chuvas. Em relação ao Egito, o esboço histórico mais claro que li é esta monografia. A situação na Líbia é fluida demais para qualquer análise comparável; mas é sempre útil procurar saber, na medida do possível, como andavam as coisas por lá quando o Saif Kadafi ainda parecia são. Para quem não pode esperar, a Mona El Tahawi (egipcia) não dorme, come, ou faz outra coisa que não twitar sobre as revoluções várias; e o Andy Carvin é o curador de tweets Líbios de dentro e fora do pais.


Finalmente, embora a situação por lá seja trágica e esteja longe de ser motivo para piadas, eu acho justo, e talvez até necessário, ridicularizar o jeito Kadafi de ser, e em particular a sua escolha de vestuario.

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domingo, 21 de novembro de 2010

Kelly's & Pam's, Chicago
Orientalismos

O museu do Oriental Institute não é a maior, ou a mais famosa, coleção arqueológica sobre o Oriente Médio. Mas é uma das mais bem cuidadas. São 6 ou 7 salas com temática regional ('Mesopotamia', 'Persia', 'Egito', etc.), além de uma sala extra para exposições temporárias (a história da escrita desta vez; eu perdi o tesouro real de Ur por uma questão de meses). E, seja devido ao foco, o pequeno tamanho, ou a frequente presença dos acadêmicos do instituto (que é um dos grandes centros mundiais de pesquisa na área), a experiência para um nerd de arqueologia como eu é muito mais envolvente.

Eu já havia dado uma volta completa no museu quando notei um senhor com aparência de acadêmico discorrendo animadamente sobre a reciclagem de cobre entre os sumérios para um casal (os sumérios inham pequenas jarras de cerâmica onde colocavam o refugo de cobre, para futura reforja).

Bom, eu obviamente me agreguei ao grupo, e acabei acompanhando uma retrospectiva dos melhores momentos do Oriente Médio, 3000AC-700AC. O guia em questão era muito bem informado, e traçava paralelos interessantes entre o conhecimento arqueológico atual e o conteúdo do velho testamento (que é uma narrativa um tanto enviesada, mas certamente histórica, da antiguidade pré-clássica no Levante). De fato, um dos artefatos mais preciosos da coleção é o chamado prisma hexagonal de Sesnacherib (um poderoso rei Assírio), um bloco de arenito coberto de inscrições detalhando os feitos e obras do dito cujo. De acordo com o nosso guia, uma das passagens do prisma relata, com a falta de modéstia usual dos monarcas da época, como Sesnacherib certa vez ele prendeu um certo 'Hezekiah o Judaita' em sua cidade sagrada. Mas cercos são em geral dispendiosos e demorados, e não eram um expediente a que se recorria quando o propósito era simplesmente assustar os oponentes e limitar temporariamente seus movimentos! De fato, o que o prisma *não* diz é que Sesnacherib conseguiu invadir e saquear a tal cidade. Pois bem; um cerco assírio da cidade de Jerusalem, no reinado de uma tal de Ezequiel, é relatado na Biblia. Segundo a mesma, Deus enviou uma praga contra o exército invasor, que foi assim forçado a levantar o cerco. Embora eu considere condições pouco sanitárias muito mais plausíveis como causa do que a intervenção divina, ainda assim é notável que podemos relacionar historicamente um evento narrado na Biblia. Ao que parece, a narrativa do tal prisma é uma tentativa cara de pau de criar um spin positivo para a história de uma derrota. Algo como a 'Mãe de todas as batalhas' de Saddam Hussein. Pode parecer ridículo, mas na ausência de meios de informação e/ou registros históricos alternativos, e dado a obvia relutância, por uma questão de pura auto-preservaçao, da parte de súditos de apontar a obvia picaratagem para o Sesnacherib (ou para o Saddam), creio que na época o truque pode até ter funcionado.

Falando em alterações do registro histórico, e mantendo o foco no simpático Sesnacherib, veja esta procissão esculpida que figurava na entrada do seu palácio:



A figura na extrema esquerda é o rei (que possivelmente era, na época da escultura, um principe no reinado de seu pai, Sargão II), com sua barba característica, uma joia no pulso que parece um relógio (eram os deuses astronautas!) e faixa na cabeça. Os demais são eunucos, formando algum tipo de guarda de honra. Mas note a segunda figura... Existe uma depressão na pedra, de formato retangular, logo abaixo do seu rosto. Ele claramente era uma figura hirsuta, que foi posteriormente cuidadosamente barbeado. Ele também tinha uma faixa na cabeça, assim como o rei. Além disso, o nome Sesnacherib quer dizer 'Aquele que foi abençoado com irmãos'. Tudo indica que o 'eunuco' era na verdade um jovem príncipe, que foi desaparecido pelo irmão logo antes ou depois de sua acenção ao trono! Algo como os expurgados por Stalin que igualmente desapareciam da fotografias no Pravda...

Hoje eu fiz um jantar para os meus amigos aqui, mas a história vai ter que esperar até o próximo post, que já está tarde. Hoje volto ao Brasil.

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quarta-feira, 2 de julho de 2008

IMPA, Rio de Janeiro
Escrevendo em blog alheio

Eu não sou iraquiano. Nunca estive no Iraq, não falo árabe, não tenho qualquer qualificação torne especialista no Oriente Médio, em estratégia ou em guerra. Nada mais natural, portanto, que eu seja convidado para escrever um post em um blog britânico a respeito da situação atual no Iraque...

O post obviamente é em inglês, e não tenho paciência agora para traduzí-lo.

The thesis up front: I believe that the most important dynamic in Iraq today is not the fight between Americans and insurgents. It hasn’t been for a long time. For a while it was sectarian conflict, and it nearly destroyed the country. Although the latter dynamic remains significant, it is now secondary to the conflict between parties currently ‘inside’ the structures of power of the Iraqi state and those totally or partially outside who want in. How this tension is resolved will largely determine whether Iraq will move toward a decent outcome or return to civil war.

Insurgent attacks will probably continue for a long time (albeit at a much lower rate than before); but the insurgency has failed strategically and has been largely defeated tactically, and is no longer very significant. Some of the groups previously involved in it still have a significant role to play, but in a different context.

The Sunni nationalist insurgency’s strategic goal was to suppress the resurgent Shia, restore Sunni hegemony, and expel the Americans. The Sunnis lost the civil war to the Shia, no longer hope to rule Iraq alone, and increasingly turn toward the Americans for protection against the ‘Persians’. Most of them flipped sides or went home, with the remainder gravitating towards the Al Qaeda in Iraq (AQI, which incidentally shares the ideology but is only loosely associated with AQ itself).

AQI’s strategic goal went a bit beyond Iraq’s borders, and included inspiring an Afghan-style jihad to expel the Americans (thus making them useful allies to the Sunni nationalists), and leveraging this victory into turning the Sunni parts of Iraq into a proto-caliphate (the Islamic State of Iraq, declared in late 2006, which their erstwhile local allies were less keen on). AQI nearly succeeded when the Samarra bombing and other atrocities deliberately ignited a bloody ethnic war that nearly destroyed (or finished destroying) the country. Eventually, however, it lost too. Significantly, its defeat is due in large measure to the rejection, in Anbar and elsewhere, of its ideology by what was supposed to be its core constituency: conservative Sunni Arabs under American occupation.

Although totally opposed to the American presence, the heterogeneous Mehdi army (or Jaysh al Mahdi, JAM for short) was never primarily, or consistenly, a proper Shia insurgency. After staging two uprising in 2004, which the Americans put down after some hard (if lopsided) fighting, direct confrontations subsided. JAM insurgent activity was minor compared to attacks by Sunni groups until late 2007, which is also when the EFP started appearing in greater numbers. Indeed, most of JAM spent most of its time either ethnically cleansing Sunnis in eastern Baghdad or running various criminal enterprises, rather than fighting the US. Mind you, the Sadrists are extremely nationalistic and no friends of the Americans (their rank and file are also far more anti-Iranian than, say, Badr cadres). But it is a different dynamic from that of Sunni insurgents. First, JAM has more of a return address, or at least has arrestable public faces and some physical infrastructure. Second, they have a constituency which demands protection from AQI tender mercies and goodies from their patronage network. Thirdly, they are or were in the government.
[Leia o resto aqui]


No final do post, deixei uma lista de sites que considero interessantes sobre o assunto. A dita cuja segue abaixo.

___________________________
There is a wealth of information and opinion every aspect of the
Iraq war floating around the internet. The sites listed below provide,
in my humble idiosyncratic opinion, a reasonably wide variety of news,
opinions and points of view by people who either are or where in Iraq,
or have studied it extensively.


Abu Muqawama
is a collective blog "dedicated to following issues related to contemporary insurgencies as well as counterinsurgency tactics and strategy". Not surprisingly, Iraq comes up a lot, usually in an insightful manner. I specially recommend the comment threads.

Small Wars Journal is self-explanatory. More academic and less bloggy, it features
interesting analyzes and case studies about Iraq, Afghanistan and elsewhere

Abu Aardvark is Mark Lynch, an American academic who focus on Iraq and the Arab media

Nir Rosen is a freelance writer who has thaught himself Arabic, and has traveled extensively around Iraq, and has unequaled access to JAM members

Reidar Visser is a Norwegian academic who knows a great deal about the shiia and southern Iraq

Eye Raki is Haider al Khoei, who is the son of the murdered Abdul Majid al-Khoei (see above). He lives in London and has just returned from a visit to Iraq and Iran. As far as shiia clerical politics are concerned, you won't find a better insider, unless Muqtada himself starts blogging.

Talisman Gate is Nibras Kazimi, an unabashed neocon Iraqi exile. He is extremely well-informed, and his analyzes are usually readable despite the thick ideological coloring. Has the annoying habit of launching wild tirades against commentators he doesn't like

Missing Links' author, one 'Badger' living in Canada, was separated from NK at birth, and now translates articles from the Arab media into English that portray the Americans as evil, bumbling or failing. He is sometimes informative, more often just plain annoying.

Arabic Media Shack I just found out about this site (from a commentator on AM). It is like missing Links without the bile and conspirazoid silliness.

The Long War Journal provides straightforward military analysis from a US military perspective. It avoid hohaa-isms, but tends to report the US official line uncritically. It also compiles detailed Iraqi and Afghan orders of battle, and follow closely the progress of the listed units, down to battalion level.

Iraqi media doesn't have a large English language presence, but you can check Aswat al Iraq or Azzaman, for instance.

Not much is happening in the Iraqi bloggosphere; many of the best bloggers have left the country (and one, Blogiraq, was murdered). The Iraq Blogger Central provides a decent roundup of Iraq bloggers of all persuasions, punctuated by the occasional off-color comment.

There are plenty of American milblogs. Some just blabber inane hohaa-ism, but there are plenty that are well-written and informative. A good roundup can be found in mudville. A couple of highlights: Army of Dude was in Iraq in 2006, and took part in the cleaning of Baqubah in 2006(Micheal Yon was reporting on the same events from a different perspective). Check his archives for insight on combat from the ground level, and on the difficulties of working with the the former insurgencent of the 'sons of Iraq (nee 1920 Revolution Brigades). AoD is firmly against the war, which leads to some interesting (and surprisingly polite) comment threads. Acute Politics was part of a Explosive Ordinance Disposal (EOD) team in Anbar around 2006/2007.

For some hard data, check Iraq Coalition Casualties, which tallies coalition and Iraqi deaths,
and along with a good up to date selection of news stories. Both the American Department of Defense and the Special Inspector General for Iraq Reconstruction (SIGIR) provide congress with quarterly reports with lots of useful tables. Congress also has its own report-producing
shop
, the General Accountability Office The Saban Center for Middle East Policy does something similar.

Well, this pretty much covers it. I hope that, whatever your opinions on the Iraq war are, you will find this list useful.

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quinta-feira, 15 de maio de 2008

Casa, Rio de Janeiro
|Líbano Vive> + |Líbano Kaput>

Estamos no ano 2008 depois de Cristo. Todo o Líbano foi dominado pelo Hizbollah e seus aliados... Todo? Não! Uma montanha habitado por irredutíveis Drusos resiste ainda e sempre ao invasor.
A situação no Líbano está ainda mais confusa que o habitual. A vitória militar do Hizbollah e aliados foi rápida e (quase! veja abaixo) completa. Mas as consequências políticas ainda permanecem bastante obscuras. Por um lado, ganha peso a teoria segundo a qual o Hizbollah (e seus patronos sírios e iranianos) agora pode ditar os termos que quiserem para o governo e que, na sua variação mais extrema, afirma ainda que o Líbano como uma comunidade multiconfessional cosmopolita está acabado: o seu futuro consistiria em alguma combinação de guerra civil intermitente, tutela e rapinagem sírias, e ação livre para os iranianos.

Por outro lado, alguns partidários do 14 de Março afirmam que a vitória do Hizbollah é (de novo) oca. Os sunitas, maronitas e drusos agora estariam unidos em seu ódio profundo ao partido de Deus (e, por extensão, xiitas em geral), e o mito da resistência heróica legítima que Nasrallah e cia construíram em torno de si estaria definitivamente desacreditado. Mas agora que o Hizbollah provou que pode se impor pela força, e os Sírios parecem estar voltando, munidos de carros-bomba e agentes secretos e não-tão-secretos, será que o que a maioria pensa ou sente ainda importa?

Neste contexto, a confusão em torno do resultado da batalha travada entre os drusos[1] habitantes do Shouf[2] (situado nas estratégicas encostas do Monte Líbano), e o Hizbollah e aliados é não só emblemática da dificuldade que existe em entender a situação no Líbano, mas pode ainda indicar se a oposição a combinação de poder de fogo do Hizbollah e a infiltração síria ainda é factível.

Na quinta feira, as forças de um líder druso aliado ao Hizbollah, Talal Arslan, foram enviadas para o Shouf com o objetivo aparente de desalojar os partidários de Jumblatt. Ao invés disso, os homens de Arslan (alguns? a maioria? todos?) mudaram de lado... O Hizbollah então enviou os seus cadres, bem armados e com a experiencia de lutar pau a pau com os israelenses, shouf acima. Por três dias os dois lados lutaram as batalhas mais intensas desta última crise. E os drusos, mal armados e sem nenhum apoio externo, deram uma surra nos hizbolas que não será esquecida tão cedo!

Daí em diante, as coisas começam a ficar obscuras. Jumblatt, no que foi interpretado alternadamente por diferentes observadores como uma admissão humilhante de fraqueza, ou um brilhante embuste para aparentar fraqueza e atrair Nasrallah para uma armadilha, ordenou que seus seguidores cessassem a luta, obedecessem as ordens de Arslan, e entregassem suas armas para o exército. A imprensa noticiou que vilas estratégicas no Chouf já eram controladas pelo Hizbollah/Arslan.

Porém, outros observadores libaneses, incluindo aparentemente drusos com contatos no local, afirmam que nenhuma vila caiu, e que tudo não passa de desiformação do Hizbolla. Os drusos resistem agora e sempre, ao invasor. Ou, pelo menos, assim dizem alguns.

Eu não sei, e não conheço quem saiba, que lado controla o quê atualmente no Shouf. Mas sei o seguinte: nas encostas do Monte Líbano os drusos fincaram o pé e disseram 'não passarão!'. E que, por três dias pelo menos, o Hizbollah não passou. Comparações históricas são sempre enganosas (e as Termópilas são um protótipo tão improvável quanto Asterix); mas se os libaneses que marcharam em 14 de Março de 2005 seguirem o exemplo dos drusos, e mostrarem-se dispostos novamente a não se render sem luta, por mais improvável que pareçam as chances de sucesso, então talvez o Líbano ainda tenha futuro.


[1] Os Drusos são um povo peculiar (c.f. discussões no Pedro Dória aqui e aqui, além deste interessante site dedicado à drusofilia.). Uma dissidência sincrética do xiismo, cheia de segredos, espalhados entre a Síria, Israel e Líbano, têm neste último país um peso político muito maior do que sua implica sua participação demográfica (cerca de 5% da população). Seu líder mais importante, Walid Jumblatt, é um camaleão politico que atualmente é o mais feroz crítico libanês do Hizbollah e da Síria.

[2] A maior parte dos drusos libaneses moram em um distrito chamado al Shouf, nas encostas ocidentais do Monte Líbano e a sudeste de Beirute. Um ponto que separa e mantém disjuntos os três principais territórios de maioria xiita controlados pelo Hizbollah: O sul, o vale de Beeka, e os subúrbios de Beirute.

PS: Não, não me esqueci da normalização. Mas como coloco 1/Sqrt(2) em html? Se os blogs fossem editados em LaTex...

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sábado, 10 de maio de 2008

Casa, Rio de Janeiro
O Líbano caiu do telhado


O Hizbollah e aliados controlam Beirute ocidental. A maior parte da luta ficou por conta dos milicianos do Amal e do 'Partido Social-Nacionalista Sírio'*, lutando contra membros do 'Movimento (do? para? de volta para o?) Futuro', sunita e liderado pelo Hariri jr. O exército libanês, que havia antes tomado uma postura solomonica de não se envolver na briga, parece agora estar ajudando timidamente o 8 de Março, desarmando milicianos sunitas e negociando a rendição de seus redutos.

A coisa toda esta cada vez mais parecida com um golpe de estado, planejado e executado com a competência típica do Hizbollah. Milicianos xiitas rapidamente assumiram o controle das principais vias de acesso à capital(e, em particular, da estrada para o aeroporto de Beirute). Jornais e estações de TV ligados ao governo (e em particular, aos Hariri) foram invadidos (e, em pelo menos dois casos, queimados) e colocadas fora do ar ou circulação. Edifícios do governo e as residências de alguns dos lideres do 14 de Março foram cercadas. Os Sírios demonstram seu talento cômico ao afirmar que os eventos no Líbano são um 'assunto interno' (assunto interno sírio é provavelmente o que eles têm em mente), enquanto o Irã obviamente culpa Israel e os EUA. Os apoiadores do 14 de Março, por outro lado, não parecem estar dispostos a tomar uma atitude mais enérgica em favor de seus protegidos, se estes não parecem dispostos a fazer o mesmo. Deste modo, as reações até agora foram confusas, se resumindo em geral a obviedades diplomáticas e piedosas homilias em favor da paz e reconciliação.

O próximo passo do Hizbollah, segundo a cartilha dos golpes em republiquetas de bananas, seria obviamente assumir o controle do governo, em nome da 'salvação nacional', e começar a prender ou calar seus oponentes. As coisas porém não são tão simples, já que Nasrallah não controla e provavelmente não tem como controlar as áreas maronitas, druzas e sunitas fora de Beirute; e juntas estas isolam os xiitas em três enclaves disjuntos (sul, Beirute ocidental e vale de Bekaa).

O mais curso provável dos acontecimentos daqui em diante, me parece, é um recuo humilhante por parte do 14 de Março em relação aos estopins da crise (movimento já ensaiado ontem por Hariri e Jumblatt), seguido da eleição do General Michel Suleiman* para presidência, e a formação de um governo 'de união nacional' liderados por alguém maleável, e onde o Hizbollah e aliados tenham poder de veto. O governo cessaria a cooperação com o tribunal da ONU que investiga a morte de Hariri, libertaria os quatro generais presos pelo crime (todos com fortes ligações sírias). O Líbano voltaria, em essência, a ser um protetorado de Damasco, onde o Hizbollah poderia fazer o que bem entendesse.

Obviamente, a situação ainda está em fluxo, e tudo pode acontecer (para parafrasear os prognósticos da típica mesa redonda de futebol). Mas se o 14 de Março quer ter alguma influencia no resultado final, é bom que parem de esperar que o resto do mundo envie a cavalaria, e tomem uma atitude (eles poderiam, no mínimo, seguir meus conselhos ;-))

Acredito que a guerra entre Israel e Hizbollah em 2006 deve ser entendida no contexto da briga de poder dentro do Líbano. Instigar seu belicoso vizinho ao sul é uma maneira que o Hizbollah tem de justificar a sua própria existência como uma milicia/partido político/ONG/entreposto persa além do controle ou sanção do estado Libanês. Visto desta forma, o golpe que ocorreu nestes últimos dias é simplesmente a culminação do conflito entre esta visão e o ideal do Líbano como um estado-nação de verdade, regido por leis e protegido por um exército nacional. Se vencer esta batalha, poderemos dizer finalmente que o Hizbollah ganhou a guerra. O Líbano, novamente, terá perdido.


* Um grupo de inspiração nazista que defende a ideia de uma 'Grande Síria', que incluiria o Líbano, a Jordânia, Israel, Palestina, o Sinai (no Egito) e a região em volta de Iskederum (na Turquia). Eles têm a mania de pendurar posteres do Assad jr. (oculista e presidente da Síria nas horas vagas) por onde passam.

** O atual comandante do exército libanês; ele havia sido proposto pelo próprio 14 de Março como um candidato a presidência 'de consenso' (o que no caso queria dizer aceitável para a Síria e o Hizbollah). O 8 de Março bloqueou sua nomeação porque queria também direito a nomear um número suficiente de ministros para ser capaz de bloquear qualquer decisão do governo. Os eventos recentes, porém, aparentemente mostram que Suleiman, mais do que simplesmente 'aceitável', está totalmente do lado da Síria.

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quinta-feira, 8 de maio de 2008

LNAC, Rio de Janeiro
O Líbano subiu no telhado


O Líbano está agora em um estado incipiente de guerra civil. O conflito, inicialmente entre o governo e o Hizbollah, já começou a degenerar em alguns subúrbios de Beirute em conflito sectário entre xiitas e sunitas, mediado por tiros e RPGs (do tipo que se lança, não do que se joga).

Recapitulando muito rapidamente (veja mais aqui): Desde a última guerra entre Israel e Hizbollah, vem crescendo a tensão entre este último e seus aliados (conhecidos coletivamente como '8 de Março, e apoiados pela Siria e Irã) e o governo do primeiro ministro Siniora e agregados (i.e. 14 de março, apoiado pela Arábia Saudita, EUA e França). No ano passado, o mandato do então presidente Emille Lahoud acabou, e os dois lados foram incapazes de chegar em um consenso sobre um novo nome (em grande parte devido à pressão síria). O cargo está vago desde então. Pairando sobre tudo isto, fica o espectro do ex-primeiro ministro Hafik Hariri, que muito provavelmente foi assassinado pela Síria em 2005. O crime levou aos protestos e contraprotestos nos dias respectivos, das coalizões que se cristalizaram nas facções oposta de 8 de Março (xiitas e parte dos maronitas) e 14 de Março (sunitas, druzos e os demais maronitas). Como eu já disse algumas vezes antes por aqui, a própria guerra de 2006 contra Israel se insere neste contexto, no qual o Hizbollah tenta proteger seu status atual de estado-dentro-do-estado armado até os dentes, instigando guerrinhas que mantenham viva a ameaça israelense, justificando assim a continuidade da sua 'resistência'. De forma mais ampla, as duas facções libanesas se alinham em lados opostos na nova guerra fria emergente no Oriente Médio.

Mais recentemente, as lideranças do 14 de Março (e, em particular, o líder druzo Walid Jumblatt) começaram a pressionar o poder paralelo do Hizbollah. O estopim desta mais recente briga foi a demissão do chefe de segurança do aeroporto de Beirute, um aliado do Hizbollah que atende por General Wafik Shoukair; e a tentativa por parte do governo de assumir o controle de uma rede paralela de comunicações (fibra otica e WiMax, alto nível) mantida pelo Hizbollah.

A reação foi rápida. Em um discurso furibundo, o Nasrallah (lider do Hizbollah) acusou Israel, EUA, França, Arábia Saudita, e a mãe Joana, de conspirarem contra a resistência, e afirmou que as ações do governo (que ele chamou de 'governo Jumblatt') eram uma 'declaração de guerra'. Quase imediatamente, membros armados do Hizbollah e Amal (outra milicia xiita) surgiram nas ruas de Beirute, e bloquearam a estrada para o aeroporto. Fontes locais afirmarm que uma emissora controlada pelos Hariri foi tirada do ar, a sede de um jornal pró-governo e anti-sírio foi queimada, e a casa de um parlamentar proeminente da situação foi cercada por milicianos. Por toda Beirute, membros do Hizbollah e Amal trocam tiros e foguetes com uma melange de grupos sunitas, maronitas e drusos.

O exército libanês, com medo de se fraturar, prefere ficar quieto e fingir que não tem nada a ver com o assunto, e a liderança do 14 de Março faz discursos chorosos pela unidade nacional e age como o Sir Robin. Aparentemente o Hizbollah já controla boa parte da cidade. O premiê Siniora tomou chá de sumiço, e tanto Hariri Jr. (Saed, filho do assassinado Rafik) quanto Jumblatt agora estão tentando sem muito sucesso por panos quentes e aplacar Nasrallah.

Com a vaca fixando residência e criando família no brejo, a situação no Líbano hoje lembra muito os primórdios da guerra civil, em meados da década de 70. A lealdade ao clã/secto/etnia é mais importante do que a lealdade ao estado (o Líbano como estado nação sempre foi em grande parte uma farsa consensual, e só funcionou na medida em que a todos os lados interessava manter a fachada), o que leva as várias facções a preferirem encontrar aliados e patronos externos a resolverem internamente suas disputas. Mas se por um lado isto é assustador, por outro a própria lembrança do cataclismo passado provavelmente é um excelente dissuasivo para que os vários lados não o repitam no futuro.

A curto prazo, o Hizbollah parece estar a ponto de controlar Beirute, e a intimidar ou mesmo derrubar o governo. Mas a longo prazo, se o 14 de Março não emular a estratégia francesa em 1940, é bem possível que Nasrallah tenha novamente mordido mais do que consegue mastigar. Depois dos eventos dos últimos três dias, é improvável que os libaneses não-xiitas voltem a ver o Hizbollah como uma força de resistência legítima (a legitimidade foi conquistada após o 'partido de Deus' ter forçado a retirada israelense do sul do pais, em 2000), ainda mais agora que a promessa tantas vezes repetida de jamais voltar as armas da 'resistência' contra os outros libaneses foi quebrada. E como a história da guerra civil demonstra, dominar os redutos druzos e maronitas que cercam Beirute e separam as zonas de maioria xiita no sul e no vale de Bekka vai ser muito mais difícil do controlar (a maior parte de) Beirute (c.f. esta entrevista de um Walid Jumblatt que parece ter reencontrado seus testículos). De qualquer maneira, a situação ainda é incerta demais para enterdermos o que exatamente está acontecendo; ficar fazendo previsões a longo prazo então é um exercício de euachismo na mesma categoria de futilidade que mesas redondas de futebol.


Para as notícias mais recentes, recomendo o Naharnet (um jornal) e o Blacksmiths (um blog). Para comentários, veja os blogs dos dois Abus, Kais e Maqawama.

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sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Dia da independência

Hoje, muito ironicamente, é o dia da independencia do Líbano. É irônico porque o país nunca conseguiu escapar da sina de ser joguete e campo de batalha por procuração de seus vizinhos e quase-vizinhos. Hoje ele se encontra em uma encruzilhada, que pode leva-lo de volta ao, ou livrá-lo de vez do, sufocante abraço da Siria.

O bicho está pegando por lá. Essencialmente, os dois lados em que o pais se dividiu, conhecidos como 14 de Março (apoiados pelos EUA, França e Arabia Saudita) e 8 de Março (apoiado pelo Irã e pela Siria) não se entendem sobre a eleição do presidente do pais. O atual, Emille Lahoud, é um pau mandado sírio, e foi a extensão do seu mandato passando por cima da constituição local, que levou o ex-premiê Hafik Hariri a romper com Damasco. Os sirios controlavam o pais então, e não gostaram muito da ideia. Rafik Hariri foi vaporizado em uma enorme explosão no centro de Beirute poucos meses depois. Credito extra para quem adivinhar por quem.

O atentado galvanizou o pais. Uma mobilização popular sem precendentes (com alguma ajuda dos amigos*) pegou os sírios de surpresa, e os forçou a retirar suas tropas de ocupação. Desde então, para encurtar (e simplificar quase ao ponto de fábula) a história, o pais se dividiu entre anti-sirios e pró-sirios. Esta divisão, e todas as ramificações bizantinas dela decorrentes, é a mola mestra da historia recente do Líbano. A guerra do Hizbollah contra Israel, por exemplo, faz muito mais sentido neste contexto do que puramente no contexto do conflito arabe-israelense (c.f. meus posts anteriores sobre o assunto).

Algum dia Amanhã eu termino este post.
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* Em particular os americanos, cuja presença no vizinho Iraque, armados até os dentes e liderados por um presidente com fama de psicopata, provavelmente fez os baathistas em Damasco meditarem sobre o destino dos baathistas em Bagdá. Os sauditas, principais aliados dos Hariris, também não ficaram muito felizes, e ninguem gosta de irritar os sauditas.

PS: Caralho! Mataram a Benazir Bhutto!

RAWALPINDI, Pakistan (CNN) -- Former Pakistan Prime Minister Benazir Bhutto was assassinated Thursday outside a large gathering of her supporters where a suicide bomber also killed at least 14 of her supporters, doctors and a spokesman for her party said.

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quinta-feira, 14 de junho de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Suicídio nacional

O único conflito no Oriente Médio no qual uma vitória completa é absolutamente necessária é o do meio contra os extremos. É um conflito que existe dentro de Israel, da Palestina, do Iraque e do Líbano. Em Israel e no Líbano, o ‘meio’ ainda tem alguma chance, mas na Palestina e no Iraque os extremos estão levando todas. No final das contas, ficar discutindo de quem é a culpa em um detalhismo barroco é o menos importante. Uma condição necessária para o surgimento de uma Palestina independente é a existência um projeto nacional, com uma liderança capaz de resolver diferenças internas por meios outros que não a tiros, e com a capacidade de governar um país. Ao invés disso temos uma guerra entre gangsters do Fatah e psicopatas do Hamas, foguetinhos e imbecis autodetonantes usados como um meio de obter apoio interno (terror populista?), a ausencia de qualquer liderança plausível capaz de agir com os interesses nacionais palestinos em mente, e a erosão, contínua e provavelmente intencional, de todas as instituições que poderiam servir de arcabouço para construir uma Palestina independente.

Condições necessárias e suficientes para uma Palestina independente são i) projeto nacional, ii) paz com Israel e o iii) fim da ocupação. O item i), se já existiu, agora é uma piada de mal gosto. O item ii) é uma perspectiva cada vez mais distante, ao qual o Hamas se opõe sob quaisquer circunstâncias razoáveis, o que torna iii) uma causa perdida. Podemos ficar discutindo qual parcela de culpa cabe a Israel, aos EUA, a Siria ou aos Klingons, mas só os palestinos podem cometer suicídio nacional, e é aparentemente o que eles estão fazendo com grande entusiasmo.





PS: O post acima é uma adaptação de um comentário que escrevi no blog do Pedro Doria. Estou sem tempo para blogar decentemente. Mas para confirmar que desgraça gosta de companhia, pelo menos no Oriente Médio, noto de passagem que islamistas (provavelmente controlados ou estimulados pela Siria) em um campo de refugiados palestinos no norte do Líbano estão lutando faz 3 semanas contra o exército libanês; enquanto isso um outro parlamentar anti-síria foi assassinado (junto com outras 9 pessoas) ontem em Beirute. No Iraque, alguém (provavelmente Al Qaeda) explodiu os minaretes da mesquita em Samarra (onde estão enterrados dois dos imãs xiitas), cuja destruição parcial ano passado iniciou a pior onda de violência sectária no Iraque desde a invasão americana. Uma guerra entre Siria e Israel parece provável neste verão, e a Turquia ameaça invadir o norte do Iraque depois do recrudescimento dos ataques terroristas do PKK. Irã e EUA continuam se encarando no golfo pérsico.

PS: Eis um blog de um jornalista que está em Gaza [não o Alan Johntson ;-) ]
PS2: Why there is no Palestine
PS3: A análise da situação por meu amigo palestino no Canadá.
PS4: Uma reporter israelense em Ramallah (na Cisjordânia)

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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Casa, BH
Post reciclado

Parafraseando William Shatner. Tenho que... Ir DORMIR. agooora.

Então me limito a reciclar dois comentários que fiz no blog do Pedro Dória, sobre Islã, Islamismo e suicídios pessoais e nacionais.

Semana passada um mané se explodiu em uma padaria em Eilat, Israel, matando três pessoas que estavam no local. Israel desta vez preferiu não reagir (já que no momento os grupos terroristas palestinos parecem perfeitamente capazes de se matar mutuamente sem ajuda externa). Na internet porém o pau (como sempre) comeu solto, com os argumentos de sempre. Alguns destes argumentos eu já lí, em várias variações e permutações, inúmeras vezes, e sempre me incomodaram; não só porque acho que estão errados, mas porque se baseiam em premissas que eu considero um tanto repelentes.

Sempre me irrito quando alguem afirma (ou parece afirmar) que bombardeios suicidas são uma consequência lógica da opressão ou ocupação do povo do suicida pelo povo das vítimas. O problema aí não é necessariamente que a opressão/ocupação não exista, mas sim que não há um raciocínio lógico ou imperativo estratégico que comece com 'estou sendo oprimido' e termine com 'logo, vou matar algumas pessoas randômicas'.

Isto me lembra um episodio do South Park. Ume pedófilo é preso pela polícia e começa a falar de todas as supostas virtudes do amor entre homens e meninos, e porque ele não devia ir preso, que seus sentimentos eram puros, etc. E o Kyle responde ´Vcs fazem sexo com crianças!´. O cara continua a falar da pureza dos seus sentimentos, que ele sofreu abuso quando era criança, etc. E o Kyle retruca: ´Vcs. Fazem. Sexo. Com. Crianças.´

Semana passada um cara entrou em uma padaria e se explodiu, matando três pessoas aleatórias. É só isso. Alguns anos atrás um tal de Baruch Goldstein entrou em uma mesquita em Hebron e metralhou duzias de palestinos enquanto rezavam. Tenho certeza que em algum lugar da internet existem longas justificativas, desculpas e tengiversações sobre o ato, que mencionam o Holocausto, o massacre de 1929 e o terrorismo palestino. E daí? As atrocidades cometidas pelos dois montes de estrume supracitados não são a conseqüência inescapável do seu suposto sofrimento, mas sim o resultado de escolhas concientes, inspiradas por ideologias doentias que tem tanto a ver com o Islã ou o Judaismo quanto queimar bruxas ou cometer genocidio industrial são característica intrinsecamente cristãs ou alemãs.

No caso palestino, a ocupação certamente torna o ambiente mais propício para atos violentos, mas por sí só isto não é explicação nem suficiente nem estritamente necessária para os bombardeiros suicidas. Os palestinos viveram por 30 anos sob ocupação e sem suicidas explosivos. De fato, a maior parte dos povos que vivem sob ocupação ou são oprimidos nunca fez uso desta tática. Só quando entra em cena o islamismo radical (ou seus equivalentes) é que maximizar vítimas civis do outro lado se torna ao mesmo tempo tática e objetivo. Viver sobre ocupação certamente torna tais ideologias mais atraentes, mas não era este o caso dos ataques no metrô de Londres (no ano passado), ou em uma mesquita Xiita no Paquistão (na semana passada), ou até mesmo, estritamente falando, deste ultimo ataque palestino.

Cometer atrocidades é sempre uma escolha, que pode até parecer mais tentadora, mas não ser explicada (ou pior, justificada) pelos atos dos outros. Ataques suicidas contra civis são escolhas conscientes baseados em ideologias doentias. Afinal de contas, qual ocupação explica o que o Baruch Goldstein fez?


Também me incomodam generalizações histéricas sobre uma suposta propensão ao terrorismo do Islã em geral. Não só porque as acho incorretas, mas também porque são injustas para com todos os muçulmanos que eu já conheci pessoalmente, que são gente boa ou ruim, chata ou interessante, na mesma proporção que qualquer outro grupo de seres humanos, e não merecem ser tratados como potenciais psicopatas devido a religião que praticam.

Os assassinos, uma seita bizarra que vivia nas montanhas da Síria na época das cruzadas, costumam ser apontados como uma inspiração para os terroristas islâmicos atuais. Mas os Hashishin eram a dissidência da dissidência (ismaelita) da dissidência (xiita). Os seus ataques suicidas foram um fenómeno isolado na historia islâmica, até recentemente, e eram vistos com horror pelos muçulmanos da época. O islã tem sim uma longa tradição de celebrar o martírio (e.g. o festival da Ashura que está rolando entre os xiitas hoje), mas que é entendido como morrer lutando em nome da fé. Suicídio e vingança indiscriminada são adições posteriores.

O fundamentalismo atual, apesar do nome, é uma invenção moderna, assim como o é o concomitante culto da morte (a morte como sacramento) que dá origem aos homens-bomba. A Al Qaeda é uma combinação do atavismo Wahabi (e dobandi, ambos datando do século XVIII) com a militância anti-ocidental do Qutb e do Banna (respectivamente inspirador e fundador da Irmandade Muçulmana) surgida no inicio do Sec. XX. O fundamentalismo xiita se baseia no governo por jurisprudência criado pelo Khomeini, e no messianismo que espera o retorno do Mahdi a qualquer momento. Ambos os movimentos importaram do ocidente o conceito de governo totalitário e o anti semitismo do estilo Protocolos dos Sábios de Sião.

Obviamente a maior parte dos muçulmanos tem mais o que fazer. Os fundamentalistas tem conseguido avanços importantes nos anos recentes entre os muçulmanos, mas é errado tratar uma patologia ideológica de origem relativamente recente (e comparável à patologias semelhantes em outras religiões ou culturas) como algo intrínsico ao Islã.

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sábado, 6 de janeiro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
A nova guerra fria

A expressão 'crise no Oriente Médio' parece quase um pleonasmo, mas é na verdade inexata na maior parte das vezes em que é empregada. Uma região de grande importância estratégica e significado histórico, encruzilhada de religiões, civilizações e etnias, o Oriente Médio está em conflito semi-permanente desde (escolha a data) a) 1917; b) 1947 ou c) 3000 A.C. E alguns dos seus conflitos se incluem entre os mais badalados, renitentes e fascinantes da história recente.

Mas uma crise é um desvio agudo da normalidade, com o potencial de uma ruptura permanente. Sob certas circunstancias, a violência (efetiva ou como ameaça) pode se tornar o status quo, e não necessariamente implica em uma crise.

Com o preâmbulo acima em mente, eu digo agora que o Oriente Médio está em crise. Não porque bombas explodem e ameaças são feitas, mas porque está em curso um realinhamento estratégico que pode dividir a região em dois grupos mutuamente hostis de países, encabeçados pelo Irã de uma lado, e a Arábia Saudita de outro, e porque a própria coesão nacional da maior parte destes países está ameaçada.

O Irã está em ascensão. Os seus inimigos tradicionais foram destruídos, no caso da União Soviética e de Saddam Hussein, ou fragilizados, no caso dos americanos (devido ao atoleiro no Iraque e a impopularidade dos EUA entre os Árabes). Embalado pelos altos preços do petróleo, e com sua influencia ressurgente na Asia Central, no Líbano, no Afeganistão e principalmente no Iraque (com agradecimentos ao colapso soviético pelo primeiro e aos americanos pelos dois últimos), os mulahs acreditam que a hora deles é agora para tornar o Irã a potência dominante no Oriente Médio.

Mas por baixo de toda esta força aparente, o Irã esconde suas fragilidades. A sua população é jovem, mas a rápida queda da natalidade nas últimas duas décadas vai em outras tantas torna-lo um pais de velhos. Embora seja solidamente xiita, a população iraniana consiste de uma estreia maioria dominante persa, e uma série de minorias cujo tratamento varia entre o racismo negligente (azeris), repressão violenta (baluchis) e perseguição religiosa (bahais).

Produz-se menos petróleo (a base da economia) hoje do que em 1979, e com a demanda interna crescendo rapidamente, alguns analistas estimam que o Irã poderá deixar de ser um pais exportador em alguns anos. Além disso, vinte anos de revolução islâmica deixaram o espírito revolucionário dos Iranianos um tanto embotado (principalmente nos grandes centros urbanos). A tal vitória divina do Hizbollah foi recebida com júbilo nas ruas de Cairo e Damasco, mas com indiferença em Teerã (cujos habitantes sabem muito bem quem vai pagar a conta). E embora gritar 'morte à América' e 'morte à Israel' ainda seja parte do currículo escolar, até hoje eu não encontrei nenhum iraniano que tivesse qualquer entusiasmo pela ideia.

A crescente influencia iraniana (persa e xiita!) é vista com alarme pelas ditaduras dominadas por sunitas. Muitas possuem minorias (ou, no caso de Bahrein, maioria) xiitas que são tratadas de forma tipicamente atroz, e partilham de um medo (infundado ou não, mas centenário) de dominação persa. Mas nenhum pais tem mais a perder com a ascendência iraniana que a Arábia Saudita.

O reino saudita é o melhor exemplo do que alguém denominou 'uma tribo com uma bandeira'. Após a primeira guerra mundial, um clã liderado por um certo Ibn Saud, inspirado por um tipo de puritanismo revisionista islâmico criado por um tal de Wahab, conseguiu aos poucos conquistar a maior parte da península arábica, e expulsar os Hashemitas das cidades santas de Meca e Medina. Nadando nas maiores reservas petrolíferas do mundo, e ainda hoje controlada de forma absoluta pelos milhares de príncipes descendentes do fecundo Ibn Saud, a Arábia Saudita se considera não só guardiã das cidades santas, mas da própria ortodoxia islâmica.

Infelizmente para a Arábia Saudita, assim como o Irã a sua posição é frágil por baixo de toda a riqueza ostentada. A sociedade ainda é profundamente tribal, e, mais do que frágeis, as instituições modernas são praticamente não-existentes. A maior parte do trabalho é feita por estrangeiros, da prospecção de poços ao trabalho doméstico, e os Sauditas dependem totalmente da renda (enorme!) do petróleo. A maior parte do petróleo saudita porém se situa no leste do pais, habitado por xiitas, que o Wahabismo considera (e trata) como hereges da pior espécie.

Assim, ao mesmo tempo que são impelidos para o conflito pelo que consideram seus respectivos destinos manifestos, Irã e Arábia Saudita encaram um ao outro, devido às suas próprias fraquezas internas, como uma ameaça grave.

O que porém transformou hostilidade em guerra fria, e forçou os demais países árabes a tomar partido, foi a invasão americana do Iraque. George W. Bush criou de fato um novo Oriente Médio, embora provavelmente não o que ele tinha em mente. A invasão liberou (mas não criou) tensões entre xiitas e sunitas, e é este conflito, mais do que a luta entre americanos e insurgentes, que cada vez mais vai destruindo o Iraque. Todos os países vizinhos vêem tensões semelhantes dentro de suas próprias fronteiras. Se o lado 'errado' ganhar no Iraque, alguns deles temem que seus conterrâneos que compartilham etnia ou religião com os vitoriosos também se levantem.

Os países e grupos sunitas vêem os temidos persas se tornando o poder mais influente no que era até a pouco o grande bastião sunita contra a revolução islâmica iraniana, reforçando a sua aliança com a Síria, e extendendo sua influencia no Líbano e em Gaza. Temem uma conspiração para impor a hegemonia iraniana na região. Assim, Arábia Saudita, Jordânia, os sunitas Libaneses (liderados pelo Saed Hariri, filho do ex-premiê morto pelos Sírios, aliados dos iranianos...), e o Fatah de Mahmod Abbas na Palestina, se aliam para enfrenta-los.

Todos os conflitos recentes na região são ou tem o potencial de se tornarem guerras por procuração entre os dois lados. No Líbano, Israel recebeu inicialmente o surpreendente apoio velado dos demais paises sunitas contra o Hizbollah, que no pós guerra devolve o favor e luta para derrubar o premiê sunita apoiado por Hariri e, por extensão, pelos sauditas. Os palestinos estão a beira de uma guerra civil entre o Hamas, financiado com dinheiro Iraniano e com a liderança em Damasco, e o Fatah, que recebe o apoio Jordaniano e Egipcio.

No Iraque a situação é mais complicada, devido a presença dos americanos. Temendo serem o próximo alvo de uma mudança de regime, os Sírios apoiam qualquer um que torne a vida dos americanos difícil (ou mais curta), coerente com a sua política de apoiar no exterior grupos que são reprimidos ferozmente em casa, sejam eles fundamentalistas sunitas em geral, a Irmandade Muçulmana ou separatistas curdos. Os iranianos
por outro lado claramente procuram (com considerável sucesso) criar um governo iraquiano que possam controlar ou pelo menos influenciar. Mas os Sauditas já enviaram o recado: Eles não permitirão que os sunitas iraquianos sejam marginalizados. A retirada americana é uma questão de tempo; o que virá em seguida é difícil de prever, mas algum tipo de guerra por procuração parece provável.

Além de assumir o controle no Iraque, a estratégia iraniana para se tornar a potência regional dominante parece ter duas vertentes. A primeira é o programa nuclear, que eles insistem tem fins puramente pacificos. Só digo que, se o objetivo é realmente este, o entusiasmo de Amahdinejah pela energia nuclear é contagiante, porque Egito, Arábia Saudita e um consorcio de países do Golfo (além de Marrocos) manifestaram recentemente um súbito interesse em construir reatores nucleares, para fins igualmente pacíficos. Uma bomba atômica é um seguro anti-marines aparentemente eficiente, e historicamente tem sido o símbolo de status que distingue os grandes dos pequenos na ONU.

A segunda vertente é consequência do fato de os xiitas serem uma minoria em quase todos os países da região. Os iranianos precisam portanto de algo que atraia pelo menos alguns sunitas para o seu lado, algo que por exemplo atraia um ódio tão profundo que transcenda divisões confessionais ou étnicas. Não foi preciso ir longe para achar um objeto de repulsa apropriado. A cola que mantinha unidas as várias versões do pan-arabismo, a desculpa para todos os fracassos e a suposta fonte de todos os problemas do Oriente Médio: Israel.

Todas as conferências e concursos de cartoons sobre o Holocausto e os discursos inflamandos sobre varrer Israel das páginas da história podem ser um reflexo da imbecilidade do presidente Iraniano, mas também servem a um propósito estratégico. O Irã está se posicionando como *o* centro de resistência anti-sionista, uma posição que atrai amplas simpatias no mundo árabe. Assim, o Irã e a Síria financiam e apoiam todos os grupos que continuam na luta armada contra Israel e rejeitam o princípio de trocar terra por paz, sejam eles sunitas ou xiitas. Durante a última guerra no Líbano, a tal vitória divina tornou o Nasrallah provavelmente o líder árabe mais popular atualmente, para xiitas e sunitas (exceto obviamente entre os sunitas libaneses). Ao separar as massas árabes de seus líderes (nenhum dos quais é eleito democraticamente), o Irã restringe a margem de manobra de seus adversários. No limite, esta situação pode até mesmo causar a queda de alguns dos déspotas pró-americanos dispostos a uma acomodação com Israel, para serem substituídos, suponho, por déspotas pró-iranianos dispostos a uma guerra interminável com Israel. Egito e Jordânia em particular podem sucumbir a pressão, o que inverteria totalmente o balanço de forças.

Os sunitas obviamente não estão parados. A Arábia Saudita é o único grande produtor de petróleo capaz de aumentar significativamente sua produção a médio prazo. A baixa resultante nos preços seria danosa aos sauditas, mas um calamidade para os iranianos. Veremos nas próximas reuniões da OPEP se os sauditas aceitam cortar a produção ou se vão permitir que os preços continuem baixando. Juntos com a Jordânia e o Egito, os sauditas também redobraram os esforços para conseguir algum tipo de solução pacífica para o conflito entre palestinos e israelenses. Embora louváveis (mesmo que a motivação não seja o desejo de paz na terra e harmonia entre os homens), tais iniciativas infelizmente não tem sucesso garantido. Uma aposta mais líquida e certa, por outro lado, é a crescente demonização dos 'persas' na mídia árabe, onde eles são cada vez mais alvo da paranóia xenofóbica que tradicionalmente sempre foi reservada aos judeus. É quase uma corrida para ver quem é mais odiado, se os persas ou os judeus.

Obviamente fomentar conflitos sectários não costuma ser uma política sensata, e a longo prazo as consequências tendem a ser ruins para todos os lados envolvidos, quando o ódio toma vida própria e se auto-perpetua muito além da sua utilidade momentânea. Quase todos os países da região escondem sob a superfície tensões semelhantes às do Iraque (em parte devido às fronteiras artificiais impostas por britânicos e franceses quando os estados nacionais modernos foram criados por lá, mas é difícil imaginar fronteiras que eliminassem tais tensões completamente). Sem identidades nacionais totalmente consolidadas, os povos da região se dividem em um palimpseto de identidades
étnicas, religiosas e tribais muitas vezes contraditórias, que se tornam mais importantes em tempos de instabilidade. Se pressões externas criarem um conflito entre as várias identidades sobrepostas, quase todos estes paises tem o potencial de se desintegrar violentamente.

Mas o Oriente Médio não está chegou à situação atual por ter um excesso de lideranças sensatas...

Precedentes históricos certamente existem. A guerra Irã-Iraque, a mais mortal da história recente do Oriente Médio, também foi um conflito entre xiitas e sunitas, e árabes e persas. Mas foi um conflito que permaneceu limitado aos países beligerantes. A possibilidade agora existe de uma conflagração em toda a região. Na história europeia, a Ia Guerra Mundial, e (talvez mais apropriadamente) a Guerra dos 30 Anos vem a mente.

Obviamente um conflito generalizado, embora cada vez mais provável, permanece somente uma possibilidade. Talvez a carnificina no Iraque convença os dois lados a iniciar algum tipo de détente, ou talvez um acordo de paz na Terra Santa, ou um colapso nos preços do petróleo, ou um aumento do QI da liderança americana, adie as pretensões iranianas ou acalme a paranóia sunita. Sinceramente, é difícil saber pelo que torcer, quanto mais o que esperar, mas os próximos anos no Oriente Médio certamente serão interessantes.

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