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terça-feira, 24 de março de 2020

Casa, Rio de Janeiro
Social Isolation

Dear Martha,



It is day 10 of social isolation in the village, and we are all losing our minds. Mrs Twofarthings and Mrs Kickinghindshanks have grown tired of calling each other names and now just spend their days glaring at each other across the village green. But it was Rupert who snapped first. He was last seen cackling maniacally atop a mound of toilet paper rolls, before it collapsed under his weight. He now lies buried under a pile of bum-caressing flufiness. The rain turned it into a sooty papier mâché monument. We call it Rupert's Cairn. It is said that some faint moaning can be heard every day at Sainsbury's closing time, but I lack the heart to investigate it any further



 Yours truly, xxx






Para lidar com o isolamento

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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Chez Su, Nashville TN, EUA
O último filho de Krypton voa United



Estou novamente em Nashville, terra da música country, para colaborar com a Su, que após mudar de pais e universidade é agora professora na Vanderbilt. Apesar do frio, estou conseguindo me locomover bem de bicicleta para todo canto, e já estou escolado nas minúcias do preparo do churrasco de porco defumado típico local. Mas para que tudo isto acontecesse, eu primeiro precisava chegar.

Talvez de forma inédita, não cheguei atrasado no aeroporto, e não tive que correr, me locomover por gambiarras multimodais, enfrentar dificuldades de última hora ou recorrer a improvisos para embarcar; não levantei suspeitas em policiais da alfândega nem precisei fazer manutenção de guerrilha na minha bicicleta. Fontes confiáveis me informam que isto é considerado normal nos deslocamentos aéreos da maior parte da humanidade. Tal exotismo me espanta...

O único contratempo foi o não funcionamento do sistema de entretenimento a bordo. O que me deixou mais tempo que o usual para contemplar o aviso luminoso indicando a disponibilidade do banheiro pela presença ou ausência da cruz vermelha sobre um curioso objeto entre duas figuras humanas. Nas laterais, indicações pictóricas de 'proibido fumar', permanentemente acesa, e 'apertem os cintos', ligada intermitentemente.

Inspirado pelo aviso, escrevi o conto que segue (em inglês).

"Are you absolutely sure? Perhaps the quakes will stop after enough energy is released? "

"You revised my calculations yourself, my love. Krypton will cease to be, and soon"

"I know it in my mind; but the mother in me still can't accept it"

"Lara, I understand. Myself, I have felt like two different men barely on speaking terms ever since I found out"

A low-frequency rumble can be heard. At a distance, sirens wail.

"It is time, Jor-El"

"It is. The capsule is ready. But I've been dreading this moment"

"Yes, dreadful. But he needs us, one last time"

The ground shakes heavily and shifts, and sharp rending sounds fill the air as the crust of a dying planet starts to crack.

"Goodbye my son. Their Sun will make you as a God to them..."

"No time for eloquence Jor-El. We will know what God-like feels soon enough, in this chamber you built"

"It was the only way to power the capsule"

"Indeed. But Krypton could have lived for while longer without it"

"To what end? We are a dying people; that could not be changed. You know how much we tried"

"Be it as it may, let's do it now or the sacrifice will be for nought. How do I generate these 'heat rays' you describe? Just concentrate my mind?"

"I believe so. It should feel natural, like opening one's eyes"

Weakly at first, then intensely, red light pulses from the eyes of Jor-El and Lara while they look upon their son for the last time through vaporizing tears. The chamber hums and glows a faint yellow as the energy output of an entire continent is routed though it. A power relay coupling fails, and the yellow dims briefly before a backup comes online. Insulating ceramics crackle and smoke. Hurried footstep are heard from outside, followed by urgents shouts and the sound of something heavy and metallic hitting an unyielding bulkhead. Suddenly, bolts of liquid fire emerge  from two sets of eyes, crossing in the capsule sitting on a pedestal between them. The unnatural matter of the capsule's thin transparent shell absorbs the energy and transmutes it, as space-time starts to shift and bend. Man, woman and capsule are now dark outlines in a sea of red, and the chamber's power surges and fails for one last time.

In his crib, Kal-El smiles and gurgles, contently.

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quarta-feira, 19 de julho de 2017

St. John's College, Oxford
Cidade vs. Beca II

O Uber local

Até dois dias atrás, eu não sabia que tinha uma cozinha.

Yoga de Penrose - procurando quase-simetrias
Quando cheguei aqui só pensava no banho que iria tomar e na cama em que iria deitar. Me identifiquei aos porters do St. John's, e um deles gentilmente me levou até o meu apartamento, a cerca de 50 metros de distância do college. Para visitantes, este número é importante, pois a antiguidade da habitação, e portanto a quantidade e qualidade de confortos modernos, varia em proporção inversa com a distância. Assim, estas oscilam entre monásticos quartinhos literalmente medievais dentro do college, a apartamentos vitorianos logo ao lado, ainda com banheiro e/ou cozinha compartilhados, até apartamentos razoavelmente modernos a uma dúzia de minutos de distância.

Fiquei com a segunda opção. Um prédio honesto com combinações um tanto idiossincráticas de privadas, banheiras e chuveiros distribuídos entre seus três andares, cada um com dois ou três apartamentos.

Perguntei ao meu guia se havia uma cozinha no prédio. Ele disse não ter certeza e, na pressa, deixei por isso mesmo. Sem notar, tomei de forma implícita a possível ausência como um fato estabelecido.

Punting
Ontem, duas semanas depois de chegar, voltei para casa tarde, e notei acesa a luz da janela logo acima da entrada. 'Que curioso', - pensei, - 'o cidadão faz coleção de panelas...'


Enquanto procurava por minhas chaves, finalmente conclui que esta não era, afinal, a explicação mais provável. Subindo as escadas, vi então que a porta correspondente não tinha número, ao contrário de todas as outras que lhe eram nos outros aspectos indistinguíveis. Do outro lado, a cozinha.

Hoje vai ter carbonara...








Punting 2 - quase em linha reta


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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Chez Rafa, Genebra
Gestos nobres

Eu sou um Lorde. Não no sentido de ser super educado e atencioso, mas de ser, de fato, um Lorde. Um aristocrata. Um par do reino. Eleito pelos céus para reger a vida alheia. Destinado a uma vida de luxo e conforto por razões de berço. Um barão assinalado que da ocidental praia Copacabana, sobre mares a muito navegados passou ainda além de Heathrow.

 Pelo menos é o que diz a British Airways. Lord Bruno Mota.

Porém, mesmo defronte a prova irrefutável da minha alta estirpe, os funcionários não me ofereceram um assento na primeira classe, massagem para os pés ou serviçais emprestados. Um acinte.

Apesar da minha altivez ferida pela mesquinharia plebeia, permaneço em meu propósito de, passando por Genebra, ir até Strasburgo na França, terra de meus parentes os Duques de Lorena, e sagrada cidade imperial pelos meus chapas, os Hohenstaufen da Swábia. Lá participarei do MAPS2015, um congresso particularmente interessante por reunir sob o mesmo teto biólogos, físicos, matemáticos e cientistas da computação em convivência amigável.

Passarei então por Zurique para um palestra, e volto por Genebra.






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sábado, 18 de julho de 2015

Casa do Reza, Londres
Na lama em Londres

Pausa para cachimbo
Cheguei em Londres ontem de tarde, depois de uma breve mas produtiva visita aos meus colegas na universidade de Reading. Hoje foi o meu último dia completo por aqui antes de voltar para o Rio amanhã. Obviamente, resolvi fazer algo memoravel e tipicamente Londrino. Chafurdar na lama do tio Tâmisa a procura do lixo produzido pela cidade ao longo das eras se encaixa perfeitamente nesta descrição,  então aceitei o convite do Alastair para uma manhã de mudlarking.

Londres foi fundada pelos romanos pouco antes da era cristã, e o Tâmisa foi sempre a sua principal artéria de transporte, fonte de enguias comestíveis e esgoto. Ao longo dos milênios,  romanos, celtas, saxões, normandos, e finalmente ingleses sob dinastias várias, viveram e morreram ao longo de suas margens. E, sempre que precisavam se livrar de algo, o rio estava convenientemente logo ao lado.

Todo ano, os resíduos destas eras passadas se desgarram de aterros ou são arrastados pela correnteza, e depositados nas margens do rio. Moedas, cerâmica,  balas de mosquete,  ossos de animais domésticos (e o ocasional humano), e os indefectíveis cachimbos de barro. E na maré baixa, um grupo de excêntricos de todos os naipes procura e cataloga avidamente tais relíquias,  o descarte inconsequente das eras passadas. Estas pessoas são conhecidas como 'mudlarks'. O meu amigo Alastair, arqueólogo e quinteseencialmente inglês, é um deles.

A partir do extremo sul da ponte de Londres, rapidamente encontramos uma escada lodosa decendo até a margem. A maré baixa havia exposto um aluvião de cascalho e lodo, irregular e coberto de forma exparsa por lixo mais moderno e de, digamos, menor interesse arqueológico  (e.g. rodas de bicicleta, garrafas de cerveja e uma barbie decapitada). Os objetos realmente antigos não são particularmente notáveis neste contexto, mas o Alastair demonstrou habilidade incomum ao se abaixar repetidamente para pegar algo que aparentava ser um cascalho ordinário, mas era na verdade um cachimbo do século XVII ou um caco de porcelana Tudor.
Mudlarking é um passatempo, mas isto não significa que não seja bem organizado. Existem licenças a serem obtidas, para níveis sucessivos de complexidade e experiência. Iniciantes podem simplesmente pagar algumas libras ao Museu de Londres e obter uma carteirinha e o direito de retirar objetos encontrados sobre a superfície. Cavucar, cavar e usar detectores de metal demandam níveis mais elevados de habilidade demonstrada, e carteirinhas específicas.

Continuamos a nossa procura, inicialmente pela margem sul, e em seguida pela margem norte (onde a cidade foi fundada, e onde formalmente ainda existe exclusivamente, a chamada City of London). O resultado é o que mostra a foto abaixo. Cacos de ceramica de épocas várias,  e diversos cachimbos (vendidos após 1600 já cheios de tabaco, e muitas vezes descartados após um único uso); uma bala de mosquete, dentes de cavalo, um prego e um pedaço de tijolo com um buraco para fixacao. Nada que seja particularmente excitante para um mudlark experiente; mas como foi a minha primeira busca, e algumas destas coisas são quase mais antigas do que o meu país, elas vão comigo para o Brasil.

Depois que maré subiu, nos encontramos com a Sarah, uma amiga portuguesa radicada em Londres, e fomos para um pub em Fleet Street chamado ye Olde Cheshire Cheese, quase tão antigo quanto os tais cachimbos, e aparentemente frequentado pelo Samuel Johnson em eras passadas. Após uma boa refeição, fomos de bicicleta (e metrô,  no caso do Alastair) até Greenwich,  admirar o Cutty Sark e o museu naval. Me despedi de meus amigos e voltei para o norte de Londres, onde estou hospedado. Fiz um stir fry vegetariano para meus anfitriões, e sob o sol poente fizemos um tour a pé da região, por matas ancestrais (algumas das mais antigas destas ilhas) e colinas esculpidas por geleiras paleolíticas. Termino o dia agora, um dia estimulante e talvez excessivamente cheio de atividades; e uma analogia perfeita para esta minha estada na Inglaterra que agora termina.

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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Casa, Belo Horizonte
Educação artística

Eu comecei a dar aulas de física na UFRJ pela grana...

Uma semi-carreira como professor substituto não é, suponho, o que se costuma imaginar como o caminho para a fama e riqueza. Mas, precisando do dinheiro e sabendo que poderia acumular o cargo com minha bolsa de pos-doc se fossem ambos na mesma universidade, me candidatei a uma vaga. Em 2010.

Mesmo sem qualquer experiência didática digna de nota, fui aprovado. Sinceramente, não esperava gostar de dar aulas; seria apenas uma obrigação, a ser cumprida diligentemente mas sem particular entusiasmo.

Literalmente o primeiro tópico que abordei foram as leis de Kepler. Acho que o primeiro comentário que ouvi dos meus primeiros alunos foi um pedido para falar mais devagar. Alguns deles devem estar até hoje se perguntando o que aquele maluco achava de tão interessante em elipses e hipérboles.

Eu descobri que lecionar era não só agradável, mas entusiasmante. Preparar uma aula é, notei, uma excelente e fecunda maneira de reencontrar a física básica com uma perspectiva ortogonal a de um estudante que encara a matéria pela primeira vez. O que me parecia contingente, arbitrário ou irrelevante agora *faz todo sentido*! As conexões que se apresentam com outros tópicos e áreas são tão numerosas e interessantes, que a preparação acaba se tornando em grande parte uma questão de poda temática. A aula em si é uma ocasião para tentar transmitir parte deste entusiasmo para os alunos.

Fui contratado em carater efetivo em 2013, e continuei lecionando. A dois semestres ensino Física Moderna, um curso introdutório de mecânica quântica.

Obviamente, entusiasmo é uma faca de dois gumes. Meus alunos correm menos o risco de cair no sono, mas eu me arrisco a sair por tangentes aleatórias ou a, em arroubos de excesivo entusiasmo, transformar a sala de aula em uma versão científica de um culto evangélico (´E a quantização de Planck tocou a estatísitca de Maxwell-Boltzmann, e o demônio da catástrofe ultravioleta foi banida para todo o sempre! Aleluia!'). Mas tento me controlar.

Uma outra dificuldade é saber o quanto do que foi dito foi efetivamente entendido. O que é óbvio e ululante para o professor pode ser um exoterismo quase opaco para os alunos. E extrair um 'Não entendi!' destes últimos, mesmo daqueles com olhos arregalados e expressóes de terror após alguns passes matemáticos mais ousados, pode ser mais difícil que espremer leite de pedra.

É por isso que procuro sempre (nem sempre com sucesso) me enxergar da perspectiva deles. E é por isso que achei tão fenomenal que uma talentosa aluna de biofísica que frequentou meu curso este semestre, a Eduarda Morsch, tenha me desenhado enquanto eu ensinava a Teoria da Relatividade restrita. Alguns puristas podem levantar objeções ao modelito bermuda-e-havaianas, mas acho que o desenho também captura um pouco da intensidade maníaca nos meus olhos quando falo sobre quadrivetores e invariantes de Lorentz...

Mais bem vestidos estão os três cavaleiros abaixo. Schrodinger, com seu gato meio vivo-meio morto, Einsten e seus trens e relógios em uma dança quadridimensional, e Planck e o espectro da radiação de corpo negro que a incipiente teoria quântica conseguiu explicar. Um resumo de metade do meu curso melhor do que qualquer apostila que eu conseguiria produzir.


Ensinar é uma via de mão dupla.


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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Queen Mary, University of London, Londres
Achados e perdidos

Estou de volta em Londres, por somente uma semana. Vim para uma conferência e para juntar algumas pontas científicas soltas da vinda anterior. Por razões misteriosas, o vôo mais barato* passava por Roma, de onde me conectei por Embraer até o London City Airport, um aeroporto de somente uma pista situado convenientemente a menos de 10 km do college onde estou. Para Londres em dezembro, o clima estava surpreendentemente ameno (i.e., sem chuva), então vim pedalando, margeando o Tâmisa até chegar (ironicamente) ao East End vindo do leste. É uma região de aparência nova e um tanto holandesa, com um teleférico que liga ambas as margens do rio e grandes prédios multifacetados de vidro com propósito vago. Naquelas circunstâncias e clima, me pareceu bastante agradável.

Cheguei ao Queen Mary cedo demais para pegar as chaves do meu alojamento, então fui diretamente até o prédio da escola de ciências matemáticas, comprei meia dúzia de pacotinhos de um ristretto do juizo final, me fiz um duplo com a consistência de mingau e a potência de Red Bull concentrado, e subi até a sala dos visitantes. E eis que, em meio a diversos e silenciosos acadêmicos, vejo a minha antiga mesa, desocupada. Sobre ela, uma pequena caixa preta.

Logan, a mosca
É preciso fazer agora uma pequena digressão. Na minha última visita, durante o verão local, estava eu certo dia sentado nesta mesma mesa, quando uma enorme mosca começou a me orbitar. De forma quase instintiva, estabeleci logo um diálogo entre filos por meio de uma cacetada com um bloco de anotações enrolado. A mosca se estatelou no chão, e por lá ficou. Fim da história, pensei eu. 

Porém, alguns minutos depois, vejo que ela ainda se mexe debilmente. Em menos de uma hora ela já agitava as pernas de forma mais coordenada. Pouco depois, ela se pôs de pé, e começou a alisar as asas, e logo em seguida já me orbitava novamente.

A cacetada seguinte fez todos na sala, e na vizinha, pararem o trabalho e esticarem o pescoço para ver o que estava acontecendo. Sobrancelhas foram levantadas. O corpo da mosca já não se via mais, presumivelmente desintegrado.

Logan e sua vítima
No dia seguinte, ao chegar, a encontro bem viva sobre o bloco de anotações com o qual eu tentara matá-la. Se era um aviso ou sinal de perdão eu não sei, mas achei melhor não insistir. A mosca, agora apelidada de Logan devido ao seu fator de cura, me orbitou por mais algum tempo, e depois sumiu.

No dia seguinte, no batente externo da janela, vejo um pombo morto. Ao seu lado, Logan. Me lembrei de Mario Puzzo e Francis Ford Coppola, e resolvi definitivamente deixar a mosca em paz pelo resto da minha estada em Londres.

A caixa que encontrei ontem continha um par de óculos escuros. O *meu* par de óculos escuros, que eu havia concluído por exclusão terem sido perdidos no Museu Britânico. Não sei como foram parar na minha mesa, pois me lembro de os haver procurado, sem sucesso, no dia em que fui embora. Quero crer, porém, que o seu reaparecimento foi um gesto de reciprocidade.

Ainda não vi o meu amigo díptero desta vez. É dezembro, afinal, e faz frio. Porém, se existe um inseto capaz de sobreviver ao inverno londrino, é Logan, a mosca.




_________________
* Alitalia, que supostamente era uma sigla para 'Arrived late in Turin, all luggage in Arezzo', mas que se mostrou bastante decente.

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domingo, 11 de agosto de 2013

Queen Mary, University of London, Londres
O culto do Elfo da Segurança

O Elfo da segurança ataca novamente!
Saúde e segurança são duas coisas inegavelmente boas. A ausência de uma ou ambas é sempre razão para ansiedade. Mas aqui na Inglaterra existe a aparente ilusão de que todos os riscos podem ser mitigados, todos os perigos debelados, todos os acidentes evitados, se uma quantidade suficiente de pentelhação for imposta ao público. Imagine algo como o teatrinho sobre os procedimentos de segurança que ocorre antes da decolagem, mas que continue durante todo o voo. Seriamos informados não só sobre a localização das portas de emergência e sobre o funcionamento das máscaras de oxigênio, mas também receberíamos aviso sobre como café quente pode queimar, o que fazer no caso de um infarto, e como proceder durante um ataque de marimbondos. É assim que me sinto atualmente em Londres.

Health and Safety é o nome genérico deste culto de segurança, ocasionalmente pronunciado 'elf an' safety. O Elfo da segurança é invocado sempre que alguma construção ocorre sem o envolvimento de dúzias de agências estatais e para-estatais, em conformidade com resmas de regras e procedimentos obrigatórios. Quadros de aviso, corredores, ruas e metrôs são cobertos por proibições, conselhos e informativos, que podem ser banais ou importantes, paranoicos ou pertinentes; mas que pelo seu próprio excesso, são quase completamente ignorados. 

Boris Johnson
Só como exemplo: Estou alojado em um apartamento no próprio college. Ele tem banheiro, quarto e escritório. Todos ligados por portas corta-fogo ("Fire door keep shut") a uma ante-sala que não tem muito propósito. Esta por sua vez é ligada a um corredor externo, por outra porta corta-fogo, e o corredor é ligado ao átrio do elevador por, adivinhem, uma porta corta-fogo! Todas as portas são pesadas e se fecham automaticamente por meio de um sistema de pistões e molas. No caso da cozinha (dotada obviamente de extintor de incêndio, cobertor térmico e inúmeros adesivos com informação sobre segurança), um alarme é acionado sempre que a porta fica aberta por mais que alguns segundos.

Obviamente, se ocorrer um incêndio na cozinha, apesar de todos os avisos, e se este não for apagável pelo extintor e manta térmica disponíveis, então deve ser um alívio ser capaz de se colocar a quatro portas corta-fogo de distância do fogo. Mas eu não consigo não achar que este nível de proteção, provavelmente maior do que o de muitos paióis, é um tanto excessivo...

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domingo, 4 de novembro de 2012

Aeroporto de Tucomen, cidade do Panama
Intersticial

Existem poucos lugares mais intersticiais do que o Panamá, que é quase axiomaticamente definido como o local onde o Atlântico e o Pacífico se encontram na marra. O aeroporto local (simpático e coalhado de duty frees) é o hub da Copa Airlines, então fico aqui intersticialmente em conexão no terminal, esperando meu vôo para Cancun. As três horas que estou passando aqui são o bastante para dizer que estou, e não simplesmente passei por, aqui; mas não são o suficiente para sair do aeroporto, conhecer o canal e voltar em tempo hábil. Isto significa que não passarei pela alfândega local ou terei meu passaporte carimbado. Para as autoridades panamenhas, eu não estou no pais deles. Como eu já sai oficialmente do Brasil, mas ainda não entrei no México, do ponto de vista diplomatico eu estou em lugar nenhum.

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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Limbo onírico, meu cérebro
O horror, o horror

São 5 da manhã e finalmente vou tentar dormir. Os meus padrões de sono estão uma zona; Alguns dias eu tenho a impressão que eu nem adormeci nem fiquei acordado totalmente hora nenhuma. Hoje foi um destes dias. O dia inteiro passou, o Gabriel chegou da escola e a Ceci do trabalho, e eu sem conseguir produzir. Até que apelei, sai para pedalar as 9 da noite, andei 45km, e voltei para casa. Tomei um banho, me sentei na minha cadeira vestido somente com uma toalha, e finalmente consegui trabalhar, ouvindo alternadamente Muse e três versões diferentes das variações de Goldberg (de JS Bach)*, enquanto tropeçava no Bilbo e enchia o quadro de equações. Me sinto como o próprio Kurtz** aqui dentro deste Congo neuronal.


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* As gravações do Glenn Gould de 1955, 1980, e esta nova versão, de Kimiko Ishizawa, disponibilizada gratuitamente na rede. Não confundir com a conjectura de Goldbach.
** I.e, o Marlon Brando no Apocalipse Now.

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domingo, 22 de julho de 2012

Hostel Olot, Olot
Fluência

Estou falando um catalão fluente! Fluente, digo, não necessariamente correto ou mesmo inteligível. Mas é fato que em alguns aspectos esta é uma lingua que se aproxima do português mais do que do castelhano (nunca se referem a língua falada em Madri como espanhol por aqui...). Do tchau à linguiça, algumas palavras aparentemente pularam o recheio entre as costas oeste e leste da península ibérica, e a prosódia do catalão lembra muito, e de fato pode ser confundida a baixo volume com, o português de Portugal, com os matutos locais falando em um estacato de erres dentais explosivos que é, francamente, tão difícil de entender quanto o seu equivalente dos rincões lusitanos.

Olot é a menor e mais pacata das cidades que vou visitar. Além de uma um tanto lúgubre igreja local, e de um punhado de prédios modernistas (abaixo) ela tem nas redondezas um grade número de vulcões inativos, um dos quais subi hoje mais cedo. Existe uma pequena abadia no topo, de onde tremula a bandeira da catalunia da foto acima. Supostamente, e se me lembro bem, a bandeira representa as marcas deixada em um estandarte (amarelo, suponho) pelos dedos sangrentos  de um martir nacional mortalmente ferido, cujo nome me escapa. Fora a bandeira e a abadia, havia uma animada velha que entabulava conversas aleatórias com transeúntes randômicos. Eu não entendia bem a discussão, mas pela reação dos tais transeúntes ela parecia estar descrevendo seu plano para aterrisar discos voadores na antiga  cratera do vulcão.

Falando em fluxos piroclásticos, os diversos e deliciosos queijos e embutidos dos quais consistiu a minha dieta até então resolveram escolher esta hora para clamar vingança. Desci lépido o cone basáltico, pedalei célere até o hostel, e assumi prontamente uma posição mais, digamos, contemplativa pelas horas subsequentes. Agora estou melhor, mas parto para Girona bem mais tarde que o planejado.










  

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sábado, 14 de julho de 2012

Vôo AA112, em algum lugar sobre o Atlântico Norte

Existem duas '2nd Street' em Miami. Uma SW e outra SE. Passei um bom tempo procurando em uma por um hotel que na verdade ficava na outra. Graças a isto, quase, muito quase, perdi o avião. Depois de uma corrida de taxi que teria sido frenética no Rio, mas em Miami foi apenas um pouco mais dinâmica, e depois de negociar um tanto violentamente com uma extorsiva (US$ 5) e renitente máquina de carrinhos de carga, cheguei no balcão da American. Consegui angariar suficiente simpatia da gestora local da fila para ser passado para a frente, mas o tempo era exíguo. As atendentes (que não manifestaram nenhum interesse em particular por minha mala), prestativas, ficavam me informando quanto tempo eu ainda tinha para conseguir embarcar. 'Você tem 8 minutos para fazer o check-in!'... 'Você precisa chegar na sala de embarque em 5 minutos!'... No final cheguei. E para não dizer que chegar atrasado não tem suas vantagens, me descobri na classe executiva.

Suponho que standbys vários já tivessem sido chamados, e uma das atendentes cronometrantes me colocou no último assento disponível. Provavelmente o pior assento da classe, no meio da última fileira. Mas mesmo assim muito além que qualquer coisa disponível para a hoi poloi nos fundos do avião. Uma análise pseudo-marxista de botequim afirmaria que o meu propósito, como recém-elevado membro da classe executiva, interposto física e socialmente entre a 1a classe e o proletariado aéreo, seria  lutar até meu último folego para preservar os previlégios dos primeiros, cujos maneirismos procuro imitar, contra arroubos revolucionários dos segundos, de quem procuro me distinguir.

Achei portanto mais útil assisitir o filme de bordo (sobre robos lutadores de boxe) e escrever este post do tecer análises pseudo-marxistas de botequim.

PS: Estou subindo o post de um bar comandado e frequentado por Tchecos, e onde mesmo assim fui servido um lauto lanche espanhol. Cheguei na casa dos meus simpáticos anfitriões (um casal com um filho de 2 anos) depois de pedalar do aeroporto até aqui. Andar na estrada não é muito complicado, devido ao acostamento. A única parte mais sinistra foi um elevado, sem aconstamente, que percorri por engano ao errar uma interseção.

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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Courtyard Merriot Downtown
Roubando a minha própria bicicleta

O cadeado da minha bicicleta foi arrebentado hoje, em Key Biscayne. O responsável saiu pedalando com ela até sumir no horizonte. Felizmente, já existe um suspeito. É um físico brasileiro em trânsito que trouxe a chave do cadeado errado. Eu cheguei aqui em Miami para uma visita relâmpago. Estou em trânsito, na verdade, por 14 horas entre o Rio e Barcelona. Vim encontrar um amigo meu (e usar o hotel dele como base de operações), pegar um celular novo (Galaxy III; mudou minha vida...) e andar um pouco pela cidade. Que conheço de quando vim em excursão Dísnica quando tinha 11 anos e a minha fraseologia em inglês se limitava a 'Coke, no ice'.

 Cheguei muito cedo, e fui andar de bicicleta até um parque estadual que fica na ponta da Key Biscayne, Passeio agradável por uma série alternada de ilhotas e pontes, com parada para pastel de goiabada e guarapa. Cheguei no tal parque, prendi a minha bicicleta, e fui para a praia...
Miami 2012 013
O mar por lá é calmo, limpo e morno. Fiz por algumas horas o usual que se faz em praias (ou que pelo menos eu usualmente faço). Mas nuvens de chuva se aproximavam, e era hora de ir embora. Exceto que, como reconheci quase imediatamente quando a saquei, a chave que havia trazido era do cadeado de outra bicicleta...
Miami 2012 009
O ranger do parque não demonstrou muita simpatia. Não, ele não dispunha de um alicate ou assemelhado. Não, não havia nada que ele pudesse fazer. Sucks being you, see ya. Resolvi fazer justiça com minhas próprias mãos.

O meu canivete Leatherman tem várias funções, das quais a faca e o alicate com cortador de fio têm particular relevância para a presente história. O meu cadeado consistia de um fio de tecido guiando um trança de cinco feixes de cabos de aço, que por sua vez são envolvidos por uma mangueira de plástico. Comecei cortando uma seção da mangueira, e em seguida comecei a atacar os fios, um a um. Isto ocorria no meio de uma passarela de madeira por onde circulavam transeuntes vários, que poderiam plausivelmente questionar o meu respeito ao conceito de propriedade alheia. Nenhum policial surgiu gritando 'Step away from the bike and put away that multitool!'. Mas a paranoia era tanta que, ao ver um casal de velhinhos me olhando com curiosidade, confessei preemptivamente o que fazia e expliquei a situação. Longe de tentarem se afastar de alguém que não só era manifestadamente ladrão com também louco, eles manifestaram simpatia pela minha situação, e curiosidade sobre como eu havia parado ali. "Eu tenho ferramentas no carro" - disse o homem. - "Vou ajudá-lo!".
Miami 2012 014
Com uma combinação de um alicate de bico mais nutrido, um martelo, força bruta e paciência, cortamos finalmente o cabo. Me despedi do simpático casal*, e me pus a caminho. Almocei com o Kirby em um restaurante indonésio, e vou só fazer algumas compras e voltar ao aeroporto. Chego em Barcelona, se tudo der certo, amanhã de manhã.
Miami 2012 015

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* A senhora era de Maryland, e o senhor é um cidadão americano, ex-turco e ex-imigrante ilegal nascido as margens do mar negro.

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sábado, 9 de junho de 2012

Pousada da Serrinha, Ouro Preto
Convergência teleológica e etnografia Jeca-Tatúica

Ferias 2010-11 103 

É uma vergonha que este blog tenha estado parado por mais de seis meses. Por outro lado, é igualmente uma vergonha que a minha vida não tenha, por razões várias, andado muito para frente no mesmo período. No esforço de induzir algum tipo de convergência teleológica entre os dois, eis que escrevo um post novo, que sera tamen.

Em geral as viagens que inspiram os meus posts descrevem lugares que visito pela primeira vez, ou pelo menos se referem a coisas novas e (presumo) interessantes que fiz em lugares já visitados. Desta vez, estamos eu e a Ceci em Ouro Preto por alguns dias, para essencialmente ficar na mesma pousada, visitar os mesmos lugares, comer nos mesmos restaurantes e fazer as mesmas coisas que fizemos/ficamos/comemos/visitamos em passagens anteriores. As vezes este tipo de viagem também é necessária...

Não é que eu não tenha nada para dizer sobre Ouro Preto; mas eu teria que escrever muito para dizer algo verdadeiramente interessante, e como não quero me esteder aqui, não direi nada. Mas menciono brevemente um lugar peculiar, a meio caminho entre BH e Ouro Preto, que visitamos no ano passado.

Imagine que arqueólogos do futuro escavassem cuidadosamente as ruinas de Belo Horizonte, a mítica Belzonte de outrora, até encontrarem a camada estratigráfica referente aos anos 70. Sem enteder o seu propósito, eles seguem uma longa e ilustra tradição na arqueologia e atribuem um significado ritual a diversos items de uso corrente na época, tais como máquinas de escrever e secadores de cabelo. Por outro lado, a profusão de pequenos discos de resina plástica preta com um padrão espiral de ranhuras sugeriria o seu uso na construção civil, possivelmente para a calafetação dos interiores das primitivas habitações da época. Finalmente, embora sem ainda conhecer os detalhes da cultura e religião dos antigos Belzontinos, nossos futuros estudiosos provavelmente concluirão que eles cultuavam uma estranha divindade sorridente, com longos cabelos negros, e normalmente representada vestido de branco, ou usando intricados medalhões carregados de um profundo mas oculto simbolismo.

O diorama em exposição no Museu Etnográfico de Tychograd tentando explicar tais achados provavelmente se pareceria muito com o Museu do Jeca Tatú.

O local é quase literalmente indescritível: Ele parece ser o fruto do alcolizado cruzamento entre um brechó e uma casa de fazenda mais rústica, que decidiu ganhar a vida vendendo pasteis de angú. É um passeio interessante (e os pasteis são bem decentes), obviamente o amoroso trabalho de uma vida. É um lugar de que gosto bastante, mas não posso dizer que entendo. De qualquer forma, seguem algumas fotos, do MdJT e de Ouro Preto.

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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Embassy Row Hotel, Washington DC
O número 1 é o sucessor do número 0!

Hoje, as 11:11 do dia 11/11/11, a unicidade do número 1 será comemorada com a leitura dos axiomas de Peano sob a sombra do monumento a Washington.



  • 1. Existe um número natural 0;
  • 2. Todo número n tem um sucessor n' no conjunto dos números naturais (\mathbb{N})
  • 3. Não existe nenhum número natural que tenha como sucessor o número 0;
  • 4. Se n e m forem números naturais, e se n'=m' então n=m ;
  • 5. Se 0 tem uma propriedade e esta propriedade também é possuida pelo sucessor de todos os números naturais que a possuem, então ela é possuída por todos os números naturais.

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Aeroporto Intercontinental (!) George W. Bush, Houston
I love the smell of high fructose corn syrup in the morning

Não sou o primeiro a observar isto, mas o aparato de segurança aérea nos EUA parece considerar o bom senso elementar como uma ameaça mais grave que a Al Qaeda. Entre apalpadelas e raios-x, comentários jocosos e piadas são recebidos não exatamente como hostilidade, mas com a incompreensão impaciente de quem não parece estar familizarizado com o conceito de 'humor'. Alias, o alto-falante repete a cada 2 minutos que piadas sobre a segurança podem levar a prisão do piadista. Suponho que representem uma ameaça clara e imediata à auto-estima dos funcionários. De qualquer forma, talvez seja prudente eu ficar calado.

Fora da área de segurança, a convivencia é mais natural. De fato, impressiona a disposição de americanos randômicos de entabular conversas amigáveis com completos estranhos. É algo que eles têm em comum com nos brasileiros, e que nos distingue ambos da maior parte dos europeus.

PS: Eu poderia saber que estou nos EUA só pelo gosto da Coca Cola. É o tal HFCS usado aqui como substituto (piorado) de açucar de verdade. Uma consequencia dos subsidios agricolas locais, capaz de induzir em mim arroubos agudos de neoliberalismo anti-protecionista.

UPDATE: No avião agora. A Continental me deu um upgrade, então tenho que escolher entre um omelete de cogumelos e cereal. Não tenho certeza, mas talvez esta seja a primeira refeição decente em um avião que terei nos EUA.

UPDATE2: Ué, até que foi bom este café da manhã aéreo. Comi o tal omelete de cogumelo, alguma coisa feita de batata e creme de espinafre bastante respeitável, presunto grelhado, mini-hamburguer, salada de fruta, iogurte e um bagel. Café e suco de laranja de verdade servidos em copos de verdade. Por mais que meus instintos demóticos protestem, não tenho muita vontade de regressar a hói poloi da classe econômica...

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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Van do Senhor Volante, Rio de Janeiro
Road rage



Andar de van no Rio de Janeiro pode ser cansativo e demorado, mas raramente é entediante. Digo isto por experiência própria, já que estou dentro de uma as 19:20 da noite, em um engarrafamente que se estende para dentro da universidade. Ao que parece uma carreta virou na linha vermelha.

Existem somente duas saidas para carros do fundão, mas as maneiras de chegar até elas só são limitadas pela criatividade do motorista. O meu atual condutor resolveu passar em frente ao quartel dos bombeiros e avançar celerado pela contra-mão até a saida do Hospital Universitário, confiando na aplicação generosa de sua buzina para limpar o caminho a frente. Buzina que alias é dotada de um sintetizador de voz, e emite frases simpáticas como ´Sai da frente!´ e ´Ô coisa feia!´.

Saindo finalmente pelo portão, seguimos inicialmente rumo à Ilha do Governador, saltamos por cima do canteiro que divide as pistas, e estamos agora a caminho de ´Laranjeiras, prefeitura, Copacabana´, como afirma o sempre prestativo sintetizador de voz da van.

Como um exemplo do emprendedorismo informal local, as vans são tão variadas quanto os cariocas. Algumas são geridas como uma operação de guerra, se movendo taticamente para ficar logo a frente dos ônibus e pegar os pontos cheios; e se coordenando por Nextel para evitar blitzes e encontrar caminhos menos congestionados. Outras tem um clima mais relaxado, com motoristas loquazes seguindo uma rota que vai sendo negociada em tempo real com os passageiros. E existem aquelas que bem poderiam ser versões do Pecquod em quatro rodas, com um Ahab taciturno na direção imbuido de uma pressa monomaníaca (para chegar mais cedo no seu encontro fatídico com uma baleia branca, suponho), e que claramente toma a presença dos demais carros na pista como um insulto pessoal.


Não digo isto para dar a entender que os ônibus aqui são tranquilos e previsíveis. Os motoristas do 485 (Pça. General Osório - Fundão - Penha) dirigem como candidatos a peões de rodeio, são notoriamente criativos na escolha das rotas, e tem como lema o altivo brado ´ALGUÉM VAI FICAR NO CATUMBI?!´. Mas só em uma van carioca é possível encontrar um aviso que diz

"Se você sentir um rato ou barata subindo na sua perna, não entre em pânico. Ele está ai devido aos restos de comida que você deixou cair no chão"

PS: Cheguei em casa. A vantagem da demora no trânsito foi que consegui escrever quase o post todo sem distrações.

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Hotel Tivoli Oriente, Lisboa
Tauromaquia televisiva

Estou agora assistindo uma tourada portuguesa na televisão. Por mais carnivoro que eu seja, eu não gosto da ideia de torturar um animal até a morte como forma de entretenimento. Mas a tourada portuguesa parece ser um pouco diferente da espanhola. As roupas são menos espalhafatosas, e, evitando o crochê colante em cores berrantes dos espanhois, o toureiro luso se veste como um figurante manuelino em uma versão de ´O Conde de Monte-Cristo´. Ao entrar na arena, a cavalo e anunciado por um corneteiro, ele inicialmente declama algumas amabilidades para um rapariga vestida a carater cuja função exata me escapa, mas que parece ser mais que meramente decorativa. Ele então começa a picar o touro, ainda a cavalo, com bandeirolas coloridas dotadas de um espeto de metal na ponta. E, tenho que dizer, cavalo e cavaleiro são excepcionais. O cavalo anda de frente, de lado, de costas. Trota até o touro e sapateia em sua volta, até que este último, completamente confuso e com um número crecente de bandeirolas fincadas nas costas, parte em fútil perseguição. O toureiro controla as redeas com uma das mãos (a outra segura a bandeirola), enquanto vai produzindo ruidos um tanto guturais na garganta; não sei se para irritar o touro ou orientar o cavalo.

Depois que o touro foi suficientemente espetado, entrou na arena um grupo de homens com uniformes marrom-ocre. Inicialmente não entendi bem o que pretendiam. Eles se aproximavam do touro cuidadosamente, desarmados, mas rapidamente saltavam o alambrado se este demonstrava um pouco mais de entusiasmo. Aos poucos, manobraram o bovino até um extremo da arena, enquanto formavam uma fila indiana no lado diametralmente oposto. O primeiro homem da fila (e mais próximo do touro) sacou e vestiu então um gorro verde que deve ter ganhado em algum estágio na oficina do papai noel, e começou a gritar TOIROTOIRTOTOIROTOIRO. O toiro, vendo finalmente humanos sem instrumentos pontiagudos, capas ou meios de fuga equinos, resolve sem muita dificuldade brincar de boliche humano, e arremete na direção do grupo. O homem do gorro verde então salta *para cima do animal* e agarra os chifres , enquanto seus colegas se empilham a sua volta e um deles segura o rabo. O objetivo, parece, é imobilizar o touro usando somente a força humana e doses maciças de insensatez. Ao contrário dos toureiros, que são profissionais, estes grupos de agarra-bois são amadores. O primeiro que assisti precisou de quatro tentativas para imobilizar o bicho. A cada tentativa, o homem do gorro era jogado ao solo, e ia ficando mais estropiado e com a roupa mais amassada. Eventualmente, já sangrando profusmente, conseguiu de alguma forma se manter estatelado sobre a testa do touro por tempo suficiente para que seus colegas o imobilizassem. Por mais maluco que seja este passatempo, pelo menos o únicos que podem se machucar são aqueles que escolheram correr o risco, e não o pobre touro que não tem a menor ideia do que está acontecendo.

No final das contas, os touros foram picados, agarrados e imobilizados, mas não mortos (pelo menos não em frente às cameras; se viraram churrasco depois eu não posso dizer). Não sei se esta é uma peculiaridade de todas as touradas portuguesas, mas isto certamente tornou esta tourada que acabou mais facil de assistir que as açouguices dos espanhois.

PS: O último toureiro espetou duas bandeirolas simultneamente no touro, um com cada mão, enquanto controlava o cavalo com o joelhos. Impressionante.

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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Ponto de ônibus, Colle Val d´Elsa
Como ser persuasivo sem elevar a voz

Estou me sentindo perigoso... Hoje, para variar, demorei para acordar, corri para arrumar as minhas coisas e pedalei furiosamente até a estação de ônibus, sobressaltando diversos pombos e transeuntes ocasionais. Acabei chegando quase meia hora antes do horário de partida do ônibus que faria o primeiro trecho do meu périplo até Lisboa (Volterra -> Colle Val d´Elsa), o que me permitiu tomar um café com leite (o leite daqui é muito bom!) rápido e escrever o último e apressado post. Mas entrei no ônibus ainda com fome...

Alguns minutos depois, em alguma cidade perdida no meio da Toscana, o ônibus para, e nele subiu um adolecente que provavelmente é a fonte do verbete ´revoltado´ na wikipedia: Gel de cabelo suficiente para paralisar um urso, headphones descomunhais ligados em um ipod com capa púrpura, e uma cara de ´life is pain´ de dar pena. Ele estava ouvindo algum tipo de música techno repetitiva que parecia ser gerado por uma daquelas maquininhas de Tetris vendidas por camelôs, em um volume alto o suficiente para incomodar, sentado como estava na janela oposta a minha. Não querendo ter uma cansativa discussão em uma língua que eu não falo (´por faviore pogna echo catzo musica un picolo ma piano´?!) com um idiota que provavelmente já estava meio surdo, eu simplesmente liguei o meu próprio ipod, em um volume mais civilizado e com uma música melhor.

Meia hora depois, a fome apertava. Tirei então da mala o meu saco de mantimentos: pecorino curado, linguiça de javali, creme de tartufo e um pão que havia emprestado do restaurante em que jantara na noite anterior. Abri então meu canivete, com a intenção de fazer o que geralmente faço com um canivete: cortar o queijo, fatiar a linguiça e passar creme de tartufo no pão, etc. Mas o meu co-viajante imediatamente olhou para mim, olhou para o canivete (que, admito, tem uma lâmina um tanto ameaçadora), olhou para mim novamente, e rapidamente abaixou o volume do seu ipod e adquiriu um súbito interesse pela paisagem que passava. Comi o meu lanche em bem-vindo silêncio.

Juro que não era esta a minha intenção, mas foi uma maneira efetiva de impor civilidade...

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terça-feira, 12 de julho de 2011

Casa, Rio de Janeiro
Zumbizando poesia vogon

Estou indo para a Itália amanhã. Hoje. Já que são quatro da manhã. O propósito da viagem é

i) Apresentar em um encontro em Florença um trabalho sobre como calcular a massa média de neurônios e glias no cérebros (e subestruturas) de diversas espécies de primatas e roedores, baseado no fato de que as células gliais apresentam uma simpática uniformidade, não importando muito onde ou em que bicho elas se situam.

ii) Fazer um passeio de bicicleta (dobrável!) por algumas cidades da Toscana; um tour de 4 dias subindo e decendo uns 60km de morro com míseras 7 marchas por dia, no estilo 'O que não te mata te deixa mais forte'

iii) Fazer um tour por Portugal e o oeste espanhol, de carro, com a minha família, que encontro em Lisboa no final do mes.

É uma viagem eclética, e deveras promissora. O único problema é que, no meu estado atual, acho que vou passar uma semana na Itália só dormindo. Explico...

O final deste semestre lembrou muito um engavetamento em alta velocidade: É muita coisa tentando acontecer em pouco tempo e pouco espaço; colisões imprevistas levam à acomodações que são tão desajeitadas quanto são desconfortaveis; e você só se da conta da gravidade da situação quando já está no meio dela. O numero de coisas que precisavam ser resolvidas antes da viagem parecia se resetar sempre que aproximava do zero. As provas e relatórios e notas de quatro turmas de Física Experimental... Três papers para terminar de redigir, um deles com um prazo... Um relatório para pedir renovação da minha bolsa... o Poster que vou apresntar... os preparativos da viagem.

O resultado é que faz quase uma semana em que durmo 2 - 3 horas por umas duas noites consecutivas, entro em colapso morphético no terçeiro, e recomeço o ciclo. Agora, a 8 horas da minha viagem, só falta fazer a mala, cortar o cabelo, entregar o relatório e terminar um paper. Facil. Ou então a parte do meu cortex pré-frontal responsável pelo bom senso já foi desligada.

Na minha situação atual, consigo trabalhar em condições quase normais; mas ocasionalmente eu sofro um piripaque e faço coisas estranhas. Como escrever este post. Ou escrever o epitáfio de um irritante mosquito que matei após várias picadas e palmas anti-aereas:

Warm blood flows in her proboscis, can't stop now. A wall of flesh approaches; infinitely slow, and yet inescapable. Blood heavy, she accepts fate. Savor one last bite; and in the brief moment before being crushed, think deeper and more sublime thoughts than ever conceived by a mammalian mind. Oh, the warm, salty tang of irony!
Como bem disse o Catão, "E esse foi o tema do primeiro (e único) sarau de poesia Vogon da Galáxia. Trechos do evento ainda são utilizados ocasionalmente em presídios e guerras civis especialmente violentas". No facebook, foi capaz de unir israelenses e palestinos, dispostos a esquecer suas diferenças e unir forças para não ter que ouvir/ler mais coisas do tipo. O que obviamente me sugeriu escrever uma sequência... Pois palmas não são a única, ou a mais elegante, maneira de se matar um mosquito.


Oh Laser, photonic foe! Why do your bosons excite my leptons so?

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