quarta-feira, 16 de abril de 2008

LNAC, Rio de Janeiro
Tibet, casseta e planeta

Meus posts sobre o mundo são em geral concebidos como pequenas notas ou comentários pontuais, mas acabam se expandindo em verdadeiros ensaios semi-acadêmicos (ou pseudo-acadêmicos, se vc não gosta do resultado) a medida em que os vou escrevendo. O post anterior é um exemplo deste fenômeno: entre 'new post' e 'publish' ele de alguma forma começou como a simples tradução de um comentário curto que fiz no Harry's Place para se transformar em uma análise da relação entre a historia recente do Tibet, repressão, autocracia light e a legitimidade de sistemas políticos.

O pessoal do Casseta & Planeta, por outro lado, nunca foi acusado de academismo, e resolveu o problema dos protestos contra a tocha olímpica de forma muito mais objetiva:

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quarta-feira, 9 de abril de 2008

LNAC, Rio de Janeiro
Tibet, autocracia e respeitabilidade

Hoje, São Francisco parece tomada por uma estranha campanha publicitária, assim como o foram, na semana passada, Londres e Paris. Em conjunção com a passagem da tocha olímpica, promoters em vestes alaranjadas oferecem um tal de 'Tibet Grátis' à transeuntes e membros da imprensa. Não sei bem se Tibet é acesso à internet, uma marca de ringtones ou algum tipo novo de biscoito; mas o governo chinês, provavelmente ofendido com tal exemplo de crasso comercialismo, obviamente não gostou da promoção...

Poderíamos discutir se o Tibet já foi, ou deve ser, independente, ou se o Dalai Lama é a reencarnação do Buda ou uma versão em robes laranja do Walter Mercado. O que é indiscutível é que a China ocupou, e ocupa, o Tibet, com base na força, e não no consentimento, mesmo que implícito, dos tibetanos. Durante o governo Mao, as táticas para tanto eram bastante, digamos, diretas. Incluíam queimar monastérios, coletivizar a agricultura e matar gente de fome, e matar ou mandar para campos de reeducação quem reclamasse, parecesse que poderia vir a reclamar, ou não demonstrasse o entusiasmo devido pelo projeto civilizatório maoista. Mesmo em 1989, os eventos que culminaram no massacre da Praça da Paz Celestial tiveram sua origem em disturbios (reprimidos com a delicadeza usual) em Lhasa dois anos antes (loonga história).

Nas últimas décadas, a estrategia chinesa tem se tornado mais sutil (mas o entusiasmo por sessões de 'reeducação continua). Por um lado, Pequim promove um crescimento acelerado do Tibet e outras regiões limítrofes, na esperança (bem fundamentada, e até certo ponto louvável) de que a prosperidade crescente esfrie os ânimos separatistas. Por outro, estabelece milhões de colonos han, que formam uma base de poder leal ao governo central, e diluem demograficamente a maioria tibetana etnica. Ao mesmo tempo, promove valores nacionalistas chineses, e denigre a cultura local como atrasada, e o budismo tibetano como superstição (feudalismo e reverência por deuses vivos certamente são ideias anacrônicas; mas ser maoista hoje em dia tampouco é um ato racional).

Os distúrbios recentes no Tibet já foram comentados quase a exaustão blogosfera afora. Noto assim somente dois pontos salientes.

Primeiro: pela primeira vez desde 1959, os protestos dos tibetanos foram violentos; chineses Han (e, em menor medida, Hui, uma grupo muçulmano também minoritário) foram queimados em suas lojas ou espancados de forma brutal. Até recentemente, para o seu eterno crédito, o Dalai Lama manteve seu movimento estritamente não-violento. A violência, aparentemente advinda de uma liderança mais jovem e impaciente, não é ruim somente pela destruição que provoca, mas também porque os tibetanos, se seguirem por este caminho, correm o risco de verem suas aspirações nacionais legitimas (seja por independência, seja por autonomia) submersas pelo mesmo tipo de paroxismo auto-destrutivo que vitimou e vitima e.g., Chechenos, Sérvios e Palestinos.

O segundo ponto de certa maneira ajuda a entender o primeiro: Fora de Lhasa (a capital), praticamente todos os distúrbios ocorreram não na chamada 'região autônoma do Tibet', mas sim nas áreas que foram desmembradas do Tibet histórico e incorporadas às províncias vizinhas pelo governo de Pequim. São regiões que, embora historicamente populadas por Tibetanos, têm hoje maiorias da etnia Han (majoritaria na China). Em Lhasa, os Han detem a maior parte do poder econômico, e a quase totalidade do poder político. Pelas razões apresentadas acima, cultural e demograficamente, a nação tibetana corre o risco de desaparecer em uma ou duas gerações, exceto como uma atração turística pitoresca. A violência anti-Han ocorreu exatamente onde este processo está mais avançado.

Por pior que seja esta situação para o Tibet, porém, os instrumentos usados pelo governo para controlar a população não são substancialmente diferentes daqueles usados no resto da China. Ao contrário dos anos de chumbo (chumbo é pouco, matéria degenerada de neutrons é um nome mais adequado para o auge da revolução cultural), existe hoje na China algum nível de liberdade de opinião e religião; desde que aquela não questione o sistema vigente ou cause-lhe algum embaraço, e esta seja absolutamente apolítica e subserviente ao estado. Quando os objetivos da população e do governo estão razoavelmente alinhados (i.e., ganhar dinheiro), como é o caso da maior parte nos grandes centros no leste do pais, esta liberdade-potemkim não cria grandes atritos. Mas quando as aspirações de um grupo se chocam frontalmente com o que determina o governo, ela se torna paródia da coisa real, e só cria mais instabilidade.

O que me parece claro com isto tudo é que o problema da China não é simplesmente a falta de liberdade no Tibet. É falta de liberdade na China inteira, incluindo, mas não limitada ao, Tibet. Neste sentido, as Olimpiadas em Pequim tem como propósito de servir como um 'baile de debutante', (re)apresentando a China à comunidade das nações. O partido comunista chines quer que a China seja reconhecida como uma grande potência, o que é razoável. Mas também busca a anuência tácita de que seu sistema político é tão legítimo quanto a democracia representativa

De fato, está é uma questão que transcende até a própria China. Ditadores e autocratas pelo mundo afora adorariam se a repressão sutil (com a ameaça implícita de que o bicho pega se as coisas saírem do controle), combinada com parâmetros do debate permissível cuidadosamente circunscritos, se tornasse uma forma 'respeitável de se governar um pais. De fato, na própria América Latina, há quem prefira regimes onde há mais ordem e ação, e menos discussão e politicagem, tais como (supostamente, e dependendo de preferências ideológicas) o Chile de Pinochet ('Uma economia moderna! Nenhum governo eleito seria capaz de implementar as reformas necessárias'), ou a Cuba de Fidel ('Saúde pública de qualidade! As elites locais nunca permitiriam isto em uma democracia burguesa'). Curiosamente, os dois grupos, por razões diferentes, apontam a China como um exemplo bem sucedido de uma autocracia esclarecida.

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quinta-feira, 3 de abril de 2008

Casa, Rio de Janeiro
Você sabe que está na biologia quando...

... entra na sala do almoxarifado para pegar um aparelho de ar condicionado novo, e se depara com pratelheiras cheias de pilhas e pilhas de ossos humanos, cuidadosamente organizadas e etiquetadas: 'femures', 'falages distais', 'tíbias', etc.

O ar condicionado, incidentalmente, nós mesmos instalamos, o que envolveu serrar a esquadria da janela, retirar o vidro, remover o aparelho antigo e colocar o novo. Prova de que, após alguns meses sem refrigeraçao, até pacatos acadêmicos se tornam McGuyvers. Até agora não tivemos problemas com nosso serviço profissa de instalação, exceto pelo surgimento de um pequeno grupo de pinguins nidificantes.



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segunda-feira, 24 de março de 2008

Casa, BH
Estandofe Mexicano



Estou aqui em BH, na casa dos meus pais, para o feriado. Na sexta, eu e a Gabriela decidimos cozinhar um jantar Mexicano. Claro, disse para minha mãe que fariamos o jantar, mas esqueci de avisar que seriamos 15...

Fizemos as compras no mercado central durante a tarde, e viemos para cá cozinhar durante a noite. A Gabi sabe fazer um guacamole excelente; eu adicionei uma receita minha de pimentão recheado, e fomos adivinhando o resto. Talvez surpreendentemente, ficou tudo muito gostoso. Na foto acima, da esquerda para a direita, temos o Guacamole, molho de pimenta, tacos, nachos (err, doritos...) com feijão batido, tortillas, cheddar ralado, pimentões assados (recheados com carne moida, arroz, castanha de caju e especiarias), frango com coentro e páprica, e pica de galo.

O Fernando (de forma absolutamente típica) tirou inúmeras fotos, que estão no Flickr da criatura, e algumas das quais incluo aqui. Eu gostei da ideia de um jantar temático; podemos fazer um tailandês da próxima vez, que pode ser até aqui na casa dos meus pais, se prometermos não deixar novamente a cozinha parecendo Dresden depois de uma visita da RAF. Mas por mais gostosa que estivesse a comida, o melhor da noite foi encontrar este povo todo. E o Gabriel e a Ceci, que eu não via a quase uma semana.

A cozinha é o melhor lugar da casa


Picando pimentas


Garotas fazendo guacamole


Garotas sendo garotas


PF


Como gafanhotos...

Em nossa defesa, na última foto, devo dizer que já passava das 11 da noite e canibalismo já era discutido abertamente. Mas sobrevivemos todos.

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quarta-feira, 19 de março de 2008

LNAC, Rio de Janeiro
The truth, as always, will be far stranger

O brave new world,

That has such people in't!

Quando eu era pequeno, com uns 10 ou 11 anos, só existiam (na minha presunçosa mente infantil) dois autores que valiam a pena serem lidos: Isaac Asimov e Arthur C. Clarke (Tolkien viria alguns anos depois). De fato, eu era tão conhecido na minha escola por passar meu tempo livre com a cara enfiada em livros de um ou de outro, que quando o Asimov morreu, vários dos meus colegas me ligaram para me dar os pêsames.

Ninguem me ligou até agora para prestar condolências pela morte, ontem, de Arthur C. Clarke. Mas a sensação esquisita, de perder um velho amigo com quem nunca perdi realmente o contato, é a mesma.

Clarke, assim como Asimov, não era um autor dado a criar personagens psicologicamente densos, e sua prosa era direta e funcional. O que o tornava único era sua capacidade de recriar de forma extremamente plausível lugares e situações alienígenas (na acepção mais geral do termo), ao mesmo tempo em que sugeria que tudo aquilo seria apenas uma pequena amostra dos novos e maravilhosos mundos a serem explorados, situados logo além do horizonte. Não sabemos realmente o que são e para que servem Rama, ou os monolitos negros de 2001. Mas acreditamos piamente que eles foram criados para algum propósito, sobre o qual podemos conjecturar, mas não somos ainda capazes de determinar.

Neste sentido, talvez o seu livro mais característico, embora não o mais famoso ou necessariamente o melhor, seja 'Encontro com Rama'. A premissa é simples e direta: Sem explicações, uma estrutura cilíndrica entra no Sistema Solar, em trajetória hiperbólica. A tripulação de uma nave enviada para investiga-la descobre que a estrutura, batizada de Rama, é oca, e passam a explorar o seu peculiar interior.

É um livro em que todos os fundamentos tradicionalmente considerados essenciais para um romance respeitável estão ausentes. Os personagens são bidimensionais, não muito dados à introspecção, com relações interpessoais esquemáticas, e não sofrem qualquer tipo de evolução psicológica notável ao longo do livro. O seu propósito na trama se resume a servir como os olhos e ouvidos dos leitores enquanto exploram Rama, e como sua caixa de ressonância emocional quando se deparam com seus mistérios. A trama de fato nada mais é que uma série de situações nas quais os personagens (e, por extensão, os leitores) se defrontam com o inusitado, e tentam (e falham) em entende-lo. No final, Rama e a humanidade seguem seus caminhos divergentes, e nenhum dos dois parece ter sido muito afetado pelo encontro. Muito é sugerido, mas nada é explicado.

É brilhante!

Imagine-se um leitor por volta de 1800, lendo um livro sobre um naturalista que viaja pelo mundo em um navio a vela, e um dia aporta em um peculiar arquipélago onde vivem várias especies únicas e fascinantes de animais. Após diversas aventuras, nosso herói começa a entender que existe um padrão para a diversidade dos animais, e que estes parecem particularmente adaptados ao seu meio, mas ao mesmo tempo evidenciam traços de uma descendência em comum. Mas, antes que possa formular um teoria completa, o naturalista embarca novamente, e parte de volta para casa.

Clarke é bastante evocativo na sua descrição de Rama, que nos parece um lugar tão real e tão misterioso, quanto as Ilhas Galápagos. E como Darwin observando tartarugas (ou Pasteur debruçado sobre um microscópio, ou ainda Hubble revelando chapas fotográficas no Monte Palomar), os céleres exploradores humanos em 'Encontro com Rama' parecem sempre no limiar de entender o que diabos está acontecendo.

Mas Clarke é esperto demais para atravessar o limiar*. Habilmente, ele nos leva até lá, e sugere que logo adiante, se dermos mais um passo, se juntarmos todas as peças do quebra-cabeça, existe algo novo, fascinante como só a verdadeira descoberta consegue ser, um entendimento mais profundo com o qual tudo passará a fazer sentido. David Bowman deu o passo seguinte, mas nós, por enquanto, não podemos segui-lo.

Em seus outros livros este processo de descoberta nem sempre é tão central, ou é apresentado de forma tão clara. Mas a essência da literatura de Arthur C. Clarke é, creio, como descrevi acima. Em última instância, o seu tema fundamental é a transcendência. Não através da fé cega ou de um epifania espiritual; mas a sim pela exploração do mundo natural, levando à descoberta do novo. Seguindo um pouco no tema de meu post anterior, quem quiser entender porque ciência é mais viciante do que qualquer droga, faria bem em começar, como eu comecei, com os escritos do velhinho acima na cadeira de rodas.

Para terminar, os livros que na minha opinião melhor resumem Arthur C. Clarke



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* Na verdade, muitos anos depois, ele tentou fazer exatamente isto em duas continuações pavorosas de 'Rama', e falhou miseravelmente

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sexta-feira, 14 de março de 2008

Laboratório de Neuroanatomia Comparada da UFRJ, Rio de Janeiro
Dia de falar como um físico

Nós físicos temos um dialeto próprio. Para quem não é da área, as vezes é altamente não-trivial entender o que estamos falando. E não me refiro a efeitos de ordem superior desprezíveis, tais como a mania de engolir letras, palavras ou fragmentos de frases, ou o olhar homicida quando nos perguntam qual o nosso signo. O fato é que, por afinidade natural e por educação, temos uma forma bastante não-canônica de ver o mundo, e de nos comunicar. Todo mundo se lembra de, ou já foi, uma daquelas crianças que perguntam 'Por que?' para tudo. Para as quais cada resposta, ao invés de satisfazer, só aguça mais a curiosidade, e dá origem à uma série recursiva de Por ques, como se naquela ponto do espaço-tempo a criança procurasse um conjunto completo de axiomas que explicasse o Universo.

Pois bem. Imagine esta mesma atitude, reforçada em várias ordens de grandeza por anos de estudo e/ou pesquisa e intenso treinamento matemático, e nutrida por uma certa tendência endogâmica de conversar e conviver com criaturas semelhantes. Pronto; pelo menos como uma aproximação em primeira ordem, o que você tem em mente é um físico.

Hoje é o dia do Pi (3.14 de 2008, na notação americana). Também é o aniversário do Einstein. Nada mais justo, portanto, que seja também o 'Dia de Falar como um Físico'
Então, se você já passou horas contemplando uma pilha de areia a procura da criticalidade auto-organizada, calculou a meia-vida de uma nota de R$10 esquecida na calçada, conta piadas de Heisenberg, fala do Jackson ou do Reed-Simon como outros discutem o Atlético ou o Palmeiras, e acha xkcd o melhor webcomic do mundo, então este é o seu dia. Estime o potencial engordativo da comida em eletron-volts, e não (kilo) Calorias; ao invés de se estressar com a instabilidade no Oriente Médio, externe suas preocupações a respeito da estabilidade do vácuo; calcule o tempo de viagem de seu ônibus usando uma integral de caminho.

Se, por outro lado, o parágrafo acima é grego para você (supondo obviamente um leitor não-helênico), aproveite a oportunidade para entender melhor esta estranha espécie com a qual você as vezes esbarra. Aprenda um pouco do seu vocabulário (em níveis básico, intermediário e avançado). Tente, pelo menos hoje, se imaginar na mente de alguem assim, que vê o mundo não como algo que simplesmente existe, mas sim como um quebra-cabeça que precisa ser montado. Não garanto que a experiência fará bem à sua sanidade; mas talvez por isso mesmo, você provavelmente irá ver o Universo com outros olhos.

Para terminar, alguns blogs de físicos ou que tratam de física:

Efeito Azaron, onde fiquei sabendo do DdFCuF
n-dimensional, que fez o cartaz
Utmost Xaos, o ocultista das forças especiais, que faz astrofísica nas horas vagas
Pará no Havai, que não está no Havaí, nem tampouco no Pará
Talk like a physicist; o nome já diz tudo
Humor na ciência
It's equal, but it's different, um excelente blog científico (razoavelmente) sério escrito por um físico brasileiro
Cosmic Variance
Imaginary Potential

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quarta-feira, 12 de março de 2008

Casa, Rio de Janeiro
Como enlouquecer uma mulher na cama

Algumas técnicas para quem quer deixar a patroa doidona no leito conjugal:

1 - I see dead people

Quando ela acordar, ignore totalmente a sua presença. Carregue consigo uma foto dela, e fique choramingando em volta da cama: 'Alice*, porque você morreu? Eu não consigo aceitar que você se foi, meu amor, é quase como se você ainda estivesse aqui comigo no quarto. Brrr, que frio!'

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* Supomos aqui para fins ilustrativos que ela se chama Alice e você, Bob

2 - Deu tilt em Gmn=-8piG/c^4Tmn

Com superbonder, cole todos os moveis do quarto no teto. Quando ela acordar, diga que um pseudo-vácuo meta-estável decaiu, e que a gravidade agora é uma força repulsiva.

3 - O médico falou para não contrariar

Sem que ela acorde, leve-a até a cama de um vizinho/cúmplice. Quando ela acordar, e perguntar onde está, o vizinho deve sorrir amigavelmente como se já tivesse ouvido a mesma pergunta várias vezes, e dizer que não conheçe nenhum Bob, e que o nome dela não é Alice, mas sim Eva; e que o Dr. Schor virá mais a tarde para mudar sua medicação.
BONUS: Ache um comparsa estrangeiro, que fale com ela em sua lingua nativa, mas que ela seja capaz de entender ('Nein! Sind Sie frau Eva')

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segunda-feira, 10 de março de 2008

Casa, Rio de Janeiro
Fla-Flu ideológico


Estou muito atolado com a neuroanatomia para postar muito; para não deixar o blog parado demais, vou recauchutando comentários que deixo em blogs alheios. Recentemente, o Pedro Dória escreveu um bom texto sobre os embates retóricos entre esquerda e direita, e sua tendência a se transformar em um fla flu ideológico que não acrescenta nada. Pessoalmente, eu não faço questão de me definir como ‘de esquerda’, ou 'de direita', ou de qualquer outra quiralidade envolvendo dimensões superiores.

Esquerda e direita só fazem sentido como conjuntos de premissas; balizas éticas para entender o mundo. Mas quando toda uma manada de pessoas que se definem como esquerdistas ou direitistas chega exatamente às mesmas conclusões, e quando qualquer desvio se torna heresia, não estamos mais diante de indivíduos ideologicamente próximos tentando entender o mundo que os cerca; mas sim do abandono coletivo da razão em favor de um consenso sectário, invariavelmente burro e simplista.

O simplismo tem suas vantagens. Não é preciso pensar muito, e o mundo se divide em vilões de motivos torpes a serem combatidos, e heróis abnegados a serem celebrados. O ungulado ideológico se sente confortável cercado de pessoas que pensam exatamente da mesma forma que ele, e que não cansam de confirmar que sim, eles estão certos, corretíssimos, são puros e corajosos donos daquela verdade cristalina que torna simples toda a complexidade do mundo, e extermina qualquer ambiguidade moral.

Para este tipo de gente, teorias de conspiração são uma nescessidade fundamental para manter a consistência entre suas crenças e a realidade. O que eles seguem de fato é uma forma mutante de gnosticismo, segundo a qual o mundo empírico é uma ilusão, e que somente aqueles que conhecem a Verdade Oculta (pouco importa se contida no Capital, no Corão, na Bíblia ou no Guia do Caroneiro das Galáxias) podem entender a realidade subjacente que explica Tudo.

Há quem passe a vida neste casulo ideológico. Alguns se tornam colunistas, guerrilheiros, ou guardiões auto-declarados de alguma pureza nacional ou religiosa. Outros se tornam comentaristas em blogs.

Mas fora destes casulos, o mundo é um lugar complicado. Exceto como uma banalidade pseudo-gandiana, ser pró-Israel é estúpido. Assim como o é ser pró-Palestino. Ou pró-EUA, ou anti-EUA. Tais rótulos não explicam nada, obscurecem muito, e reduzem situações irredutivelmente complexas a slogans.

Existem alguns princípios que são ou deviam ser consensuais: a inviolabilidade da dignidade humana, igualdade perante à lei, os direitos fundamentais à livre expressão e associação, etc.

Além destes princípios, é de se esperar que pessoas razoáveis tenham discordâncias. Não estou postulando aqui alguma equivalência moral entre todas as formulações; mas não surpreende que seres humanos imperfeitos, dispondo de informação incompleta sobre um mundo complexo cheguem a diferentes conclusões. No que se refere à direita e à esquerda, tais divergências são centradas na tensão inerente entre direitos individuais e responsabilidades coletivas. Não tenho a pretensão de resolve-las em um parágrafo…

Mas o que em geral ocorre na prática é que para fazer parte das ortodoxias da esquerda ou direita que chamei de unguladas, hoje em dia, é preciso esquecer ou aplicar de forma inconsistente os princípios que deviam ser comuns. O conservadorismo atavístico foi a falência em 1914, ou em 1945; a esquerda hard core, forçando muito a barra, em 1989. O mundo hoje é (e provavelmente sempre foi) muito complicado e variado para que qualquer um destes dois ‘extremos’ seja muito útil para entende-lo, quanto mais para reformulá-lo.

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