segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Vastitas Borealis, Marte
O blues do planeta vermelho

A minha maior fonte de ansiedade no momento é a chegada iminente em Marte de uma sonda sobre rodas que tem o tamanho de um fusca. A Curiosity é a missão de ciência planetária mais ambiciosa das últimas décadas. De fato, nesses tempos de vacas magras, provavelmente todo o futuro do programa de exploração marciana será definido pelo sucesso ou fracasso desta missão.

Historicamente, Marte tem sido um planeta difícil de se explorar. Dificil, e azarado. Os Soviéticos/Russos, que já conseguiram pousar e enviar dados da superfície muito mais hostil de Venus, nunca conseguiram efetuar uma missão completamente bem sucedida por lá. Tiveram alguns sucessos parciais em órbita, e só fracassos na superfície. Os americanos,  embora mais bem sucedidos em ambos os quesitos, também têm um histórico irregular. Em Marte a Lei de Murphy tem pelo menos tanto embasamento empírico quanto a segunda lei da termodinâmica. Quase literalmente tudo que poderia dar errado nas várias missões marcianas, deu. Foguetes explodiram ou colocaram as sondas nas órbitas erradas; erros de programação desorientaram painéis solares; vazamentos de combustível fizeram naves parafusearem fora de controle; baterias se descarregaram. Unidades métricas e imperiais foram confundidas umas com as outras e antenas de alto ganho engastalharam. Algumas sondas simplesmente deixaram de transmitir subitamente, sem explicações ou cartão de despedida.

A exploração marciana robótica começou em 1960, meros três anos após o início da corrida espacial. Com a mesma obstinação férrea e falta de caso com baixas eventuais que os levou à vitória em Estaligrado, os Sovieticos mandaram sonda após sonda para o planeta vermelho ao longo dos anos 60 e 70. E, assim como Dick Vigarista ou Willie E. Coyote, viram cada novo plano ir por água abaixo, pelas mais diferentes razões.

A primeira missão realmente bem sucedida, a Mariner 4 americana (sua gêmea, Mariner 3, se perdeu no lançamento) passou por Marte em 1965. Embora muito limitada tanto em tempo de observação quanto tecnologia, mostrou-se um balde de água fria para os entusiastas dos canais marcianos. Numerosas crateras de impacto, a ausencia de um dipolo magnético sério e cinturões de radiaçao, uma atmosfera com apenas 1% da pressão na superfície terrestre e temperaturas sub-glaciais indicavam um mundo morto, não o agitado Barzoon da ficção pulp ou mesmo o ambiente limitrofe coberto de vegetação sazonal postulado por muitos cientistas. A Mariner 9, em órbita a partir de 1971, mostrou um quadro um pouco mais ambíguo. Verificou-se que, se Marte está morto atualmente, pelo menos esteve vivo no passado. Geologicamente, vulcões extintos e o maior canyon do Sistema Solar (batizado Vales Marineris em homenagem à sonda) atestam uma geologia mais ativa no passado; e aparentes lagos e leitos de rios indicam que, sob uma atmosfera mais densa, agua líquida já existiu no passado (sólida, ela existe atualmente nos polos e sob o solo).

A primeira grande onda de robos exploradores terminou com as Vikings, duas sondas compostas cada uma de um orbitador e um módulo de aterrisagem. Grande parte da massa útil destes últimos era tomado por um conjunto de experimentos para procurar sinais de vida microscópica. Os resultados foram cruelmente irônicos, com três falsos positivos (depois atribuidos aos peróxidos presentes no solo) sendo afinal desenganados pelos instrumentos que atestaram a completa ausência de compostos orgânicos no solo.

A hibernação pós-apollo da Nasa implicou em um hiato de décadas até a próxima visita (neste interím, os soviéticos tiveram um sucesso parcial em uma missão até Phobos, a maior lua de Marte). Em 1997, finalmente, um pequeno e fotogênico robozinho chamado Pathfinder explorou titubiantemente as redondezas de seu ponto de aterrisagem, após quicar algumas vezes pela superfície, envolto em airbags. Desde então, Marte foi praticamente invadido por robos (nenhum dos quais achou Sarah Connor, porém), enviados em pequenas flotilhas a cada dois anos, o período sinódico de Marte em relação à Terra, que corresponde ao intervalo entre as janelas para lançamento em órbitas de energia mínima. Existem atualmente três satélites operacionais em órbita marciana, que serão usadas para monitorar e retransmitir dados da sonda.

Pois bem. Em menos de uma hora, a Curiosity vai chegar em Marte diretamente para uma reentrada atmosférica, sem nem mesmo a cortesia de uma órbita ou duas para aclimatação. Ela é uma criatura diferente do Pathfinder, que é do tamanho de um carrinho de controle remoto, ou de seus sucessores, Opportunity e Spirit, do tamanho de cortadores de grama. Sem contar o escudo térmico ablativo e todo o aparato de trânsito e aterrisagem (amartisagem?), o Curiosity tem o peso e dimensões aproximados de um fusca? Como, afinal, se coloca um fusca na superfície de outro planeta? Devagar e com jeitinho, segundo a Nasa.

O procedimento de aterrisagem é barroco. Após perder a maior parte dos seus 6 km/s de velocidade por fricção com a atmosfera (protegida por um escudo térmico ablativo), um para-quedas irá se abrir, e dissipará um pouco mais de velocidade. O fundo da capsula então ira se abrir, deixando cair a sonda, presa na parte de baixo de uma plataforma dotada de retrofoguetes. Estes irão frear ainda mais a decida enquanto, próximo ao solo, a sonda é guinchada para baixo até ficar pendurada por três cordas a alguns metros abaixo da plataforma. Esta configuração inusitada irá, se tudo der certo, depositar suas 6 rodas diretamente no solo marciano, após o qual a plataforma pirotecnica cortará os cabos e dará um último salto para se espatifar alhures.

Espero muito que tudo ocorra como descrevi acima. Não só pela ciência (em quantidade e qualidade, a intrumentação no tal fusca marciano é sem precendentes, em alguns casos  por ordens de magnitude), mas também pela satisfação de ver dar certo um plano que poderia ser plausivelmente atribuido ao MacGyver, ao Esquadrao Classe A ou ao Visconde de Sabugosa.

Para quem for sonâmbulo ou penitente, é possível acompanhar a modalidade mais nerd das olimpíadas (aterrisagem de sonda em equipe) no SpaceFlightNow, na NASA mesmo, ou no Twitter (hashtag: #MSL). A própria sonda
twita regularmente, o que pode ser considerado inovador ou perturbador, dependendo da perspectiva de cada um e de quantas vezes assistimos 2001 e o Exterminador do Futuro. 

Agora é só esperar. De  uma forma ou de outra, teremos notícias em breve.



PS: Ainda vou postar mais sobre a Espanha. Onde de fato estive, ao contrário de Marte.

Continue lendo...>>

terça-feira, 31 de julho de 2012

Casa, Rio de Janeiro
Fatos e fotos

Ainda tenho vários posts sobre a viagem para subir, mas fisicamente estou de volta ao Brasil. Enquanto enrolo, coloco aqui as fotos que tirei da viagem, que estão todas no Flickr. Separei as fotos em três categorias: As de Barcelona propriamente dita:




A bicicletada catalúnica pela trilha Ripoll-Olot-Girona-Sant Feliu de Guíxols:




 E, finalmente, as fotos do interlúdio francês, em que fui visitar a cidade murada medieval de Carcassonne e pedalar pelo Canal du Midi:



Continue lendo...>>

domingo, 22 de julho de 2012

Hostel Olot, Olot
Fluência

Estou falando um catalão fluente! Fluente, digo, não necessariamente correto ou mesmo inteligível. Mas é fato que em alguns aspectos esta é uma lingua que se aproxima do português mais do que do castelhano (nunca se referem a língua falada em Madri como espanhol por aqui...). Do tchau à linguiça, algumas palavras aparentemente pularam o recheio entre as costas oeste e leste da península ibérica, e a prosódia do catalão lembra muito, e de fato pode ser confundida a baixo volume com, o português de Portugal, com os matutos locais falando em um estacato de erres dentais explosivos que é, francamente, tão difícil de entender quanto o seu equivalente dos rincões lusitanos.

Olot é a menor e mais pacata das cidades que vou visitar. Além de uma um tanto lúgubre igreja local, e de um punhado de prédios modernistas (abaixo) ela tem nas redondezas um grade número de vulcões inativos, um dos quais subi hoje mais cedo. Existe uma pequena abadia no topo, de onde tremula a bandeira da catalunia da foto acima. Supostamente, e se me lembro bem, a bandeira representa as marcas deixada em um estandarte (amarelo, suponho) pelos dedos sangrentos  de um martir nacional mortalmente ferido, cujo nome me escapa. Fora a bandeira e a abadia, havia uma animada velha que entabulava conversas aleatórias com transeúntes randômicos. Eu não entendia bem a discussão, mas pela reação dos tais transeúntes ela parecia estar descrevendo seu plano para aterrisar discos voadores na antiga  cratera do vulcão.

Falando em fluxos piroclásticos, os diversos e deliciosos queijos e embutidos dos quais consistiu a minha dieta até então resolveram escolher esta hora para clamar vingança. Desci lépido o cone basáltico, pedalei célere até o hostel, e assumi prontamente uma posição mais, digamos, contemplativa pelas horas subsequentes. Agora estou melhor, mas parto para Girona bem mais tarde que o planejado.










  

Continue lendo...>>

sábado, 21 de julho de 2012

Hostal del Ripolles, Ripoll
Um Cântico para Vilfredo

Começos são sempre arbitrários. São necessários, porém, para se contar uma história. A da Catalunia, podemos convencionar, começa no século IX, com os esforços de um potentado local para repopular e unificar a devastada região de fronteira entre os reinos mouros e o imperio carolingeo. Vilfredo, conhecido em proporções desconhecidos de afeto e sarcasmo, como 'o Cabeludo' (Guifré el Pilós), era um nobre de modestas posses quando foi nomeado conde de Barcelona e carcanias. O imperio de Carlo Magno se fragmentava, os mouros se retraiam, e ele viu ai a sua chance.

Ripoll se situa no ângulo entre dois rios de margens abruptas. A combinação de acessibilidade  e defensibilidade certamente figuraram no cálculo mental do hirsuto conde, que aqui fundou o monastério de Santa Maria de Ripoll. Em uma época iletrada e politicamente fragmentada, onde o tráfico de bens e informação era difícil e perigoso, e a Pax Romana era uma memória distante já assumindo ares de mito, um monstério era muito mais do que um retiro espiritual (como qualquer um que tenha lido 'Um Cantico para Leibowitz' sabe). Como o único repositório do saber escrito da região, o monastério adquiriu um poder muito maior e mais duradouro do que o advindo de qualquer exército feudal; não um poder sobre pessoas ou territórios, mas sobre informação.

Uma 'idade das trevas' não surge porque os recursos humanos e físicos nescessários para uma civilização coesa deixaram de existir, mas sim porque eles deixaram de ser aplicados de forma coordenada. A ausência de normas culturais e tradições em comum que simplificam e tornam seguros o comércio e o intercambio de ideias transforma vizinhos em estranhos, e atrofia o universo mental a aquilo que é delimitado pelo horizonte e por laços de sangue. Este processo de fragmentação vinha ocorrendo na Europa em geral, e na Catalúnia em particular, desde que os romanos penduraram as chuteiras. Em graus variados de desagregação sob os vários reinos sucessores, dos vândalos, godos e francos, a região era como um conjunto de redes, cada um operando sob os seus próprios protocolos, mas mal se comunicando entre sí. O monastério foi o TCP/IP que unificou todas as redes, o nodo central de um eventual backbone que a partir dele se propagou como pequenos esporos monásticos até povilhar a região de um rede interligada monastérios e conventos. Esta rede criou uma lingua franca cultural baseada no cristianismo monástico ancorado no poder da língua escrita, e protegida por grossas paredes e o braço peludo de um poder secular mais esclarecido. Registros dinásticos eram mantidos, transações comerciais eram registradas e tradições eram propagadas. Aos poucos, a Catalúnia voltou a vida. 

Tenho que terminar aqui porquê preciso desocupar o quarto do hotel antes que a proprietária ponha a porta abaixo. Daqui parto para Olot, cidade conhecida pelas dezenas de vulcões inativos nas redondezas. Chego lá através de Sant Joan de la Abadessa, onde fica um convento fundado pela formidável filha de Vilfredo, o peludo (Santa Emma), e por um passe montanhoso a 1070m de altitude chamado Coll de Santigossa.

Continue lendo...>>

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Casa de Javi, Raquel e Aridt, Barcelona
Hiato


"Nos, que somos tão bons quanto você,  juramos a você, que não é melhor que nós, que lhe aceitaremos como nosso rei e senhor soberano, contando que você respeite todas as nossas leis e costumes. Se não, não."

Este é o juramento que os catalões (e aragoneses) juravam para a coroa espanhola em Madri. É um exemplo representativo do sentimento de independência e excepcionalismo local que caracterizava e caracteriza a catalúnia, e a chave para entender a sua história. Muito precocemente, no século XIII, os catalões formaram um proto-governo representativo, cujo orgão deliberativo era  por uma centena da cidadãos de todas as classes sociais, nomeados pelo potentado local, os 'Cent' na língua local (que soa bastante como português de Portugal). A noção de um governo cujo poder deriva do consentimento dos governados, e não da vontade divina, é  profundamente arraigada na cultura local, razão pela qual a Catalúnia, e sua capital Barcelona em particular, sempre foram baluartes do sentimento republicano, anarquista e outros -istas.

Toda esta digressão histórica é para dizer que estou bem hospedado em uma casa de amigos situada na Praça del Cent, em rua homônima. Estou aqui para participar de mais um congresso de neurociência (a FENS, falando sobre redes neuronais desta vez).  Passei 2 3 4 dias sem postar não por falta do que dizer, mas por falta de tempo para dize-lo: Essencialmente, quando não estou no congresso assistindo a algo interessante, estou na cidade pedalando por, fotografando ou visitando algum ponto local de interesse. A combinação de um congresso instigante, uma cidade que parece infinitamente fascinante, e os hábitos noturnos dos locais (e, por consequência, de seus estabelecimentos comerciais) me deixa muito pouco tempo para dormir, quanto mais postar no blog.

Continue lendo...>>

sábado, 14 de julho de 2012

Vôo AA112, em algum lugar sobre o Atlântico Norte

Existem duas '2nd Street' em Miami. Uma SW e outra SE. Passei um bom tempo procurando em uma por um hotel que na verdade ficava na outra. Graças a isto, quase, muito quase, perdi o avião. Depois de uma corrida de taxi que teria sido frenética no Rio, mas em Miami foi apenas um pouco mais dinâmica, e depois de negociar um tanto violentamente com uma extorsiva (US$ 5) e renitente máquina de carrinhos de carga, cheguei no balcão da American. Consegui angariar suficiente simpatia da gestora local da fila para ser passado para a frente, mas o tempo era exíguo. As atendentes (que não manifestaram nenhum interesse em particular por minha mala), prestativas, ficavam me informando quanto tempo eu ainda tinha para conseguir embarcar. 'Você tem 8 minutos para fazer o check-in!'... 'Você precisa chegar na sala de embarque em 5 minutos!'... No final cheguei. E para não dizer que chegar atrasado não tem suas vantagens, me descobri na classe executiva.

Suponho que standbys vários já tivessem sido chamados, e uma das atendentes cronometrantes me colocou no último assento disponível. Provavelmente o pior assento da classe, no meio da última fileira. Mas mesmo assim muito além que qualquer coisa disponível para a hoi poloi nos fundos do avião. Uma análise pseudo-marxista de botequim afirmaria que o meu propósito, como recém-elevado membro da classe executiva, interposto física e socialmente entre a 1a classe e o proletariado aéreo, seria  lutar até meu último folego para preservar os previlégios dos primeiros, cujos maneirismos procuro imitar, contra arroubos revolucionários dos segundos, de quem procuro me distinguir.

Achei portanto mais útil assisitir o filme de bordo (sobre robos lutadores de boxe) e escrever este post do tecer análises pseudo-marxistas de botequim.

PS: Estou subindo o post de um bar comandado e frequentado por Tchecos, e onde mesmo assim fui servido um lauto lanche espanhol. Cheguei na casa dos meus simpáticos anfitriões (um casal com um filho de 2 anos) depois de pedalar do aeroporto até aqui. Andar na estrada não é muito complicado, devido ao acostamento. A única parte mais sinistra foi um elevado, sem aconstamente, que percorri por engano ao errar uma interseção.

Continue lendo...>>

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Courtyard Merriot Downtown
Roubando a minha própria bicicleta

O cadeado da minha bicicleta foi arrebentado hoje, em Key Biscayne. O responsável saiu pedalando com ela até sumir no horizonte. Felizmente, já existe um suspeito. É um físico brasileiro em trânsito que trouxe a chave do cadeado errado. Eu cheguei aqui em Miami para uma visita relâmpago. Estou em trânsito, na verdade, por 14 horas entre o Rio e Barcelona. Vim encontrar um amigo meu (e usar o hotel dele como base de operações), pegar um celular novo (Galaxy III; mudou minha vida...) e andar um pouco pela cidade. Que conheço de quando vim em excursão Dísnica quando tinha 11 anos e a minha fraseologia em inglês se limitava a 'Coke, no ice'.

 Cheguei muito cedo, e fui andar de bicicleta até um parque estadual que fica na ponta da Key Biscayne, Passeio agradável por uma série alternada de ilhotas e pontes, com parada para pastel de goiabada e guarapa. Cheguei no tal parque, prendi a minha bicicleta, e fui para a praia...
Miami 2012 013
O mar por lá é calmo, limpo e morno. Fiz por algumas horas o usual que se faz em praias (ou que pelo menos eu usualmente faço). Mas nuvens de chuva se aproximavam, e era hora de ir embora. Exceto que, como reconheci quase imediatamente quando a saquei, a chave que havia trazido era do cadeado de outra bicicleta...
Miami 2012 009
O ranger do parque não demonstrou muita simpatia. Não, ele não dispunha de um alicate ou assemelhado. Não, não havia nada que ele pudesse fazer. Sucks being you, see ya. Resolvi fazer justiça com minhas próprias mãos.

O meu canivete Leatherman tem várias funções, das quais a faca e o alicate com cortador de fio têm particular relevância para a presente história. O meu cadeado consistia de um fio de tecido guiando um trança de cinco feixes de cabos de aço, que por sua vez são envolvidos por uma mangueira de plástico. Comecei cortando uma seção da mangueira, e em seguida comecei a atacar os fios, um a um. Isto ocorria no meio de uma passarela de madeira por onde circulavam transeuntes vários, que poderiam plausivelmente questionar o meu respeito ao conceito de propriedade alheia. Nenhum policial surgiu gritando 'Step away from the bike and put away that multitool!'. Mas a paranoia era tanta que, ao ver um casal de velhinhos me olhando com curiosidade, confessei preemptivamente o que fazia e expliquei a situação. Longe de tentarem se afastar de alguém que não só era manifestadamente ladrão com também louco, eles manifestaram simpatia pela minha situação, e curiosidade sobre como eu havia parado ali. "Eu tenho ferramentas no carro" - disse o homem. - "Vou ajudá-lo!".
Miami 2012 014
Com uma combinação de um alicate de bico mais nutrido, um martelo, força bruta e paciência, cortamos finalmente o cabo. Me despedi do simpático casal*, e me pus a caminho. Almocei com o Kirby em um restaurante indonésio, e vou só fazer algumas compras e voltar ao aeroporto. Chego em Barcelona, se tudo der certo, amanhã de manhã.
Miami 2012 015

_______________
* A senhora era de Maryland, e o senhor é um cidadão americano, ex-turco e ex-imigrante ilegal nascido as margens do mar negro.

Continue lendo...>>

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Terminal 8J, Aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro
You can check in anytime you like...

misc 178 


"Isto ai na mala é uma bicicleta?"

Fiquei alarmado com a pergunta do responsável pelo check in da American Airlines. Explico. Dois anos atras, levei a mesma bicicleta dobrável em um vôo da United, entre Washington e Amsterdam. A atendente, impassível sob uma grossa crosta de maquiagem, estava a ponto de processar a mala da bicicleta sem nenhum comentário, quando eu cometi o erro de pedir por um adesivo de 'frágil'. "Frágil porque?  O que tem ai dentro?" - Ela perguntou -  "Ora, minha bicicleta dobrável", respondi. "Aaaahhh... Mas a companhia cobra uma taxa de U$200 dolares por bicicleta", ela me informou em triunfo. Eu havia de fato lido as regras de bagagem da United. A taxa existia, mas se referia somente a bicicletas de tamanho normal, encaixotadas. Bicicletas que coubessem dentro de uma mala regulamentar eram isentas.  Eu sabia disso, ela não. Nem sua supervisora. Elas exigiam saber onde, no site da United, estaria escrito esta regra. Eu não me lembrava da URL...

Algumas iterações deste debate estéril depois, a fila atras de mim se alongava, e o horário do meu vôo se aproximava. As duas atendentes provavelmente eram sinceras na sua ignorância, mas absolutamente irredutíveis na sua obtusidade. Afinal, se a mala com conteúdo ignorado seria despachada sem problemas, como a informação sobre a presença da bicicleta alteraria a situação? Ocasionando o colapso da sua função de onda?

Acabei pagando a taxa, cuspindo cobras e lagartos. Chegando em Amsterdam, escrevi para todo e qualquer email da United que consegui achar. Após alguns dias sem resposta, encontrei em algum lugar o email do presidente da companhia. A resposta não foi escrita ou assinada por ele, mas foi quase imediata. O meu correspondente (que sempre vou imaginar como a versão carne-e-osso do Smithers...) confirmou a isenção das bicicletas dobráveis. Alguns email, meses  e resmas de legalês depois, um acordo foi acertado em que eles me devolveriam o dinheiro na forma de crédito para compras futuras.

Desta vez, a curiosidade na hora do checkin era mais benigna. O atendente certamente tinha uma atituda um tanto mais positiva a respeito de viagens bicicletas dobráveis. Quanto custava? Quantas marchas tinha? Onde comprar? Acabamos batendo um papo animado, embora eu não creia que o resto da fila tenha compartilhado do nosso entusiasmo.



Agora embarco. O plano é passar algumas horas em Miami, comprar finalmente um celular, encontrar com amigo fuzileiro naval que trabalha por perto e pedalar até a ponta da Flórida. Depois sigo para Barcelona e o concomitante congresso de neurociência (a FENS 2012), e terminando por uma bicicletada rápida pelos Pirineus, um pulinho na cidade murada de Carcassone, e uma visita relâmpago a Paris.

Continue lendo...>>