sábado, 31 de março de 2007

Casa, Rio
Elemento suspeito portando uma folha de bananeira

. foto Arbyreed

O ar húmido e quente cobre a cidade como uma manta gasta. Uma noite tropical carioca como tantas outras, na qual os desavisados costumam confundir placidez com segurança. Seus habitantes vem e vão, furtivos, rápido demais para deixar mais do que um leve e acre cheiro de medo no ar. Se são bons ou ruins, feios ou bonitos, não importa. A única distinção relevante é entre aqueles que aprendem rápido, e aqueles que contraem uma dor de cabeça de 9 mm e não acordam mais. O nome é Bruno. Bruno Mota, físico e cozinheiro.

O plano era simples. Eles sempre são. Fazer um jantar tailandês para alguns amigos. Arroz aromático, um curry de carne (mais indiano do que propriamente tailandês), e um peixe com leite de coco e erva cidreira, embrulhado em folha de bananeira. O único problema era arranjar uma folha de bananeira.

Já era noite quando saí para comprar os ingredientes, e como sempre estava atrasado. Eu pensava inicialmente em achar alguma bananeira nas margens do canal, mas não só não vi nenhuma como o cheiro da água era um desestimulo sério a qualquer aventura culinária com a flora ciliar local. Sem mais tempo ou ideias, perguntei aos guardas de um condomínio semi-fechado ao lado se eles conheciam alguma bananeira por perto. Depois de verificarem que eu não estava usando um eufemismo obscuro para algum tipo de atentado ao pudor, eles foram até bastante solícitos. A possibilidade de uma poda freelance de uma das várias bananeiras que adornam os jardins das mansões próximas foi rapidamente aventada, e ainda mais rapidamente descartada. Um deles então se lembrou de uma bananeira solitária, em um matinho intersticial próximo a entrada para o tunel Zuzu Angel. Agradecido, subi na minha bicicleta e pus-me a caminho.

O local era de fato um tanto ermo e mal iluminado, ao lado de uma escada de acesso a uma escola municipal, obviamente fechada durante a noite. Era um pequeno triângulo irregular com algumas arvores desmilinguidas. No centro, qual um Ent adormecido, havia um glorioso bananal! Podei duas das folhas menos rasgadas, e comecei a alegremente cortar fora a parte carnuda com meu canivete. Só notei o carro da polícia parando na calçada em frente quando soou o 'WAAAAM' da sirene.

Um policial que vê um indivíduo cortando com uma faca alguma coisa não identificada em um mato ermo tem direito a nutrir alguma desconfiança. Os dois presentes na viatura não pretendiam correr riscos. Sairam do carro com os olhos fixos em mim e mãos firmes nos coldres. Um deles, careca e barrigudo, levava uma lanterna na mão esquerda, mas por algum motivo preferiu não usa-la. Mas foi o seu companheiro mais jovem, com o porte de um lenhador, que falou primeiro:

"O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ?"

Eles provavelmente não se surpreenderiam, e saberiam o que fazer, se eu dissesse 'retalhando a minha esposa', ou 'separando a maconha'. Mas quando eu disse "Cortando uma folha de bananeira", ao mesmo tempo em que deixava o canivete no chão e levantava uma folha, a minha versão tropical do ramo de oliveira, houve uma pequena pausa enquanto eles lidavam com a dissonância cognitiva. O lenhador chegou mais perto e perguntou, ainda agressivo mas com um traço de curiosidade na voz.

"Para quê você quer uma folha de bananeira?"

"Para cozinhar. Vou fazer um jantar hoje"

"Você come a folha?!" -- perguntou o careca, horrorizado, a única coisa que disse durante todo o encontro.

"Não! Eu uso para embrulhar o peixe... E o vapor bla bla bla leite de coco bla bla bla culinária tailandesa, que é bastante distinta da indiana, e bla bla bla" -- fui ficando entusiasmado enquanto descrevia o prato, e o resto do menu, e por pouco não emendo uma análise da situação política na Birmânia e um comentário sobre observação de cometas. Em algum momento do meu monólogo, o careca decidiu que eu era maluco e entediante, mas inofensivo. O lenhador por outro lado foi ficando mais interessado.

"Que comida diferente! E você come com arroz?"

"É! Se você conseguir achar, fica melhor com arroz de jasmim"

"Hmmm... Acho que vou pedir para minha mulher cozinhar isso um dia"

"Excelente ideia! Aqui, leve a receita para ela, que em casa eu imprimo outra"

Ele hesitou por alguns instantes, como se indeciso entre pedir a receita do curry ou me convidar para o jantar; mas talvez lembrando-se das circunstâncias do nosso diálogo, simplesmente se despediu amigavelmente. Ele voltou então para o carro, para o alívio do seu colega, que provavelmente agradecia aos céus por minha idoneidade aparente, que o desobrigava de ir até a delegacia mais próxima ouvido a respeito dos méritos das especiarias ou sobre as várias maneiras de se cozinhar um peixe. Eles desapareceram na noite, tocando a sirene para avançar no transito ainda arrastado.

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terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Enquanto isso, na Terra Média

"Alguem tem uma poção de cura?"


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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Casa, BH
Post reciclado

Parafraseando William Shatner. Tenho que... Ir DORMIR. agooora.

Então me limito a reciclar dois comentários que fiz no blog do Pedro Dória, sobre Islã, Islamismo e suicídios pessoais e nacionais.

Semana passada um mané se explodiu em uma padaria em Eilat, Israel, matando três pessoas que estavam no local. Israel desta vez preferiu não reagir (já que no momento os grupos terroristas palestinos parecem perfeitamente capazes de se matar mutuamente sem ajuda externa). Na internet porém o pau (como sempre) comeu solto, com os argumentos de sempre. Alguns destes argumentos eu já lí, em várias variações e permutações, inúmeras vezes, e sempre me incomodaram; não só porque acho que estão errados, mas porque se baseiam em premissas que eu considero um tanto repelentes.

Sempre me irrito quando alguem afirma (ou parece afirmar) que bombardeios suicidas são uma consequência lógica da opressão ou ocupação do povo do suicida pelo povo das vítimas. O problema aí não é necessariamente que a opressão/ocupação não exista, mas sim que não há um raciocínio lógico ou imperativo estratégico que comece com 'estou sendo oprimido' e termine com 'logo, vou matar algumas pessoas randômicas'.

Isto me lembra um episodio do South Park. Ume pedófilo é preso pela polícia e começa a falar de todas as supostas virtudes do amor entre homens e meninos, e porque ele não devia ir preso, que seus sentimentos eram puros, etc. E o Kyle responde ´Vcs fazem sexo com crianças!´. O cara continua a falar da pureza dos seus sentimentos, que ele sofreu abuso quando era criança, etc. E o Kyle retruca: ´Vcs. Fazem. Sexo. Com. Crianças.´

Semana passada um cara entrou em uma padaria e se explodiu, matando três pessoas aleatórias. É só isso. Alguns anos atrás um tal de Baruch Goldstein entrou em uma mesquita em Hebron e metralhou duzias de palestinos enquanto rezavam. Tenho certeza que em algum lugar da internet existem longas justificativas, desculpas e tengiversações sobre o ato, que mencionam o Holocausto, o massacre de 1929 e o terrorismo palestino. E daí? As atrocidades cometidas pelos dois montes de estrume supracitados não são a conseqüência inescapável do seu suposto sofrimento, mas sim o resultado de escolhas concientes, inspiradas por ideologias doentias que tem tanto a ver com o Islã ou o Judaismo quanto queimar bruxas ou cometer genocidio industrial são característica intrinsecamente cristãs ou alemãs.

No caso palestino, a ocupação certamente torna o ambiente mais propício para atos violentos, mas por sí só isto não é explicação nem suficiente nem estritamente necessária para os bombardeiros suicidas. Os palestinos viveram por 30 anos sob ocupação e sem suicidas explosivos. De fato, a maior parte dos povos que vivem sob ocupação ou são oprimidos nunca fez uso desta tática. Só quando entra em cena o islamismo radical (ou seus equivalentes) é que maximizar vítimas civis do outro lado se torna ao mesmo tempo tática e objetivo. Viver sobre ocupação certamente torna tais ideologias mais atraentes, mas não era este o caso dos ataques no metrô de Londres (no ano passado), ou em uma mesquita Xiita no Paquistão (na semana passada), ou até mesmo, estritamente falando, deste ultimo ataque palestino.

Cometer atrocidades é sempre uma escolha, que pode até parecer mais tentadora, mas não ser explicada (ou pior, justificada) pelos atos dos outros. Ataques suicidas contra civis são escolhas conscientes baseados em ideologias doentias. Afinal de contas, qual ocupação explica o que o Baruch Goldstein fez?


Também me incomodam generalizações histéricas sobre uma suposta propensão ao terrorismo do Islã em geral. Não só porque as acho incorretas, mas também porque são injustas para com todos os muçulmanos que eu já conheci pessoalmente, que são gente boa ou ruim, chata ou interessante, na mesma proporção que qualquer outro grupo de seres humanos, e não merecem ser tratados como potenciais psicopatas devido a religião que praticam.

Os assassinos, uma seita bizarra que vivia nas montanhas da Síria na época das cruzadas, costumam ser apontados como uma inspiração para os terroristas islâmicos atuais. Mas os Hashishin eram a dissidência da dissidência (ismaelita) da dissidência (xiita). Os seus ataques suicidas foram um fenómeno isolado na historia islâmica, até recentemente, e eram vistos com horror pelos muçulmanos da época. O islã tem sim uma longa tradição de celebrar o martírio (e.g. o festival da Ashura que está rolando entre os xiitas hoje), mas que é entendido como morrer lutando em nome da fé. Suicídio e vingança indiscriminada são adições posteriores.

O fundamentalismo atual, apesar do nome, é uma invenção moderna, assim como o é o concomitante culto da morte (a morte como sacramento) que dá origem aos homens-bomba. A Al Qaeda é uma combinação do atavismo Wahabi (e dobandi, ambos datando do século XVIII) com a militância anti-ocidental do Qutb e do Banna (respectivamente inspirador e fundador da Irmandade Muçulmana) surgida no inicio do Sec. XX. O fundamentalismo xiita se baseia no governo por jurisprudência criado pelo Khomeini, e no messianismo que espera o retorno do Mahdi a qualquer momento. Ambos os movimentos importaram do ocidente o conceito de governo totalitário e o anti semitismo do estilo Protocolos dos Sábios de Sião.

Obviamente a maior parte dos muçulmanos tem mais o que fazer. Os fundamentalistas tem conseguido avanços importantes nos anos recentes entre os muçulmanos, mas é errado tratar uma patologia ideológica de origem relativamente recente (e comparável à patologias semelhantes em outras religiões ou culturas) como algo intrínsico ao Islã.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
Józej Maria Hoene-Wroński, vida e obra


Eu já escrevi sobre a maravilhosa capacidade da internet de conectar pessoas que fisicamente estão nos mais diversos cantos do mundo, mas tem interesses em comum. Obviamente o fenômeno em sí não é novo, só a sua amplitude geográfica. Não é incomum, afinal de contas, ficar amigo dos frequentadores habituais de nossos sebos ou bares favoritos. Mas a internet também tem o equivalente ao esbarrão acidental que gera um pedido de desculpas que acaba virando um papo agradável.

O prenome do meu email é wronski. Não sou descendente de poloneses, ou obcecado por Anna Karenina. Simplesmente decidi criar uma conta de webmail grátis, vários anos atrás, e descobri que meu nome, sobrenomes e apelidos, em todas as permutações razoáveis, já tinham dono. Em desespero, e sem querer me tornar o bmota74, me lembrei das aulas de Calculo II (eu havia acabado de terminar o segundo periodo), e de um objeto matemático chamado Wronskiano*, descoberto no século XIX por Józej Maria Hoene-Wroński, um obscuro matemático polonês. No auge do meu solipicismo lusófono, pensei: 'brunos existem vários, mas wronski não deve ter nenhum'. E de fato não havia. Hoje, nove anos e dois provedores depois, continuo wronski (a alternativa, que considerei por um breve instante, era frobenius).

Um efeito colateral da minha alcunha peculiar é que ocasionalmente recebo emails em polonês por engano. Não é o mesmo que ter o numero de telefone a um digito de distância da telepizza, mas é quase. Já passaram pela minha inbox um orçamento de conserto de carro, mensagens natalinas, e o que parecia ser uma destas correntes irritantes ('envie para 10 dos seus amigos para que Deus/Buda/Cthulhu/Flying Spagetti Monster lhe dê saúde e dinheiro'). Estou supondo obviamente, baseado na formatação, já que o conteúdo é para mim indistinguível da lista de compras do Lech Wallesa.

Na semana passada recebi um destes emails, remetido por uma pessoa chamada 'Abi'. Como sempre faço, respondi com uma curta mensagem em inglês sugerindo que o destinatário não era eu. Recebi de volta um email efusivo, que pedia mil desculpas, e obviamente perguntava de onde diabos vinha o meu nome polonês. Eu então contei a historinha acima, e começamos a conversar. A Agnieszka fez mestrado em direito, mora em Varsóvia, e está programando uma viagem de esqui nos alpes italianos. E eu descobri que físicos são considerados criaturas exóticas até mesmo na Polônia, e que o Józej Maria Hoene também desenvolveu uma doutrina filosófica bastante popular no século XIX, e ainda hoje é razoavelmente famoso no pais natal. Wronski é um pseudônimo que ele assumiu após a morte da mãe, para tentar fugir da influencia do pai.

Não vou dizer que o papo mudou a minha vida, mas eu gostei de conhecer uma pessoa gente fina de forma tão randômica a partir de um mero esbarrão. Não há nada de excepcional nisto, exceto que os esbarrantes estão a 10.000 Km um do outro.

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Continuando no tema 'amizades improváveis mediadas por TCP/IP', o Doug, um capitão americano em Kabul com quem costumo discutir séries de animação japonesa, está pedindo votos para o seu blog ('Afghanistan Without a Clue') em um concurso pela internet. O cara é gente fina**, e o blog dele é interessante, então se alguém aqui gostar deste tipo de coisa, eu sugiro que vote nele.

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* Um determinante gerado a partir das soluções de uma equação diferencial ordinária e suas derivadas, usado para verificar a sua (in)dependência linear.
** Ele é da força aérea, mas o trabalho atual dele é ensinar as tropas de logística afegãs a descarregar a carga de aviões e transporta-la em comboios para o resto do país. E ele *gostou* de Ghost in the Shell.

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sábado, 6 de janeiro de 2007

Casa, Rio de Janeiro
A nova guerra fria

A expressão 'crise no Oriente Médio' parece quase um pleonasmo, mas é na verdade inexata na maior parte das vezes em que é empregada. Uma região de grande importância estratégica e significado histórico, encruzilhada de religiões, civilizações e etnias, o Oriente Médio está em conflito semi-permanente desde (escolha a data) a) 1917; b) 1947 ou c) 3000 A.C. E alguns dos seus conflitos se incluem entre os mais badalados, renitentes e fascinantes da história recente.

Mas uma crise é um desvio agudo da normalidade, com o potencial de uma ruptura permanente. Sob certas circunstancias, a violência (efetiva ou como ameaça) pode se tornar o status quo, e não necessariamente implica em uma crise.

Com o preâmbulo acima em mente, eu digo agora que o Oriente Médio está em crise. Não porque bombas explodem e ameaças são feitas, mas porque está em curso um realinhamento estratégico que pode dividir a região em dois grupos mutuamente hostis de países, encabeçados pelo Irã de uma lado, e a Arábia Saudita de outro, e porque a própria coesão nacional da maior parte destes países está ameaçada.

O Irã está em ascensão. Os seus inimigos tradicionais foram destruídos, no caso da União Soviética e de Saddam Hussein, ou fragilizados, no caso dos americanos (devido ao atoleiro no Iraque e a impopularidade dos EUA entre os Árabes). Embalado pelos altos preços do petróleo, e com sua influencia ressurgente na Asia Central, no Líbano, no Afeganistão e principalmente no Iraque (com agradecimentos ao colapso soviético pelo primeiro e aos americanos pelos dois últimos), os mulahs acreditam que a hora deles é agora para tornar o Irã a potência dominante no Oriente Médio.

Mas por baixo de toda esta força aparente, o Irã esconde suas fragilidades. A sua população é jovem, mas a rápida queda da natalidade nas últimas duas décadas vai em outras tantas torna-lo um pais de velhos. Embora seja solidamente xiita, a população iraniana consiste de uma estreia maioria dominante persa, e uma série de minorias cujo tratamento varia entre o racismo negligente (azeris), repressão violenta (baluchis) e perseguição religiosa (bahais).

Produz-se menos petróleo (a base da economia) hoje do que em 1979, e com a demanda interna crescendo rapidamente, alguns analistas estimam que o Irã poderá deixar de ser um pais exportador em alguns anos. Além disso, vinte anos de revolução islâmica deixaram o espírito revolucionário dos Iranianos um tanto embotado (principalmente nos grandes centros urbanos). A tal vitória divina do Hizbollah foi recebida com júbilo nas ruas de Cairo e Damasco, mas com indiferença em Teerã (cujos habitantes sabem muito bem quem vai pagar a conta). E embora gritar 'morte à América' e 'morte à Israel' ainda seja parte do currículo escolar, até hoje eu não encontrei nenhum iraniano que tivesse qualquer entusiasmo pela ideia.

A crescente influencia iraniana (persa e xiita!) é vista com alarme pelas ditaduras dominadas por sunitas. Muitas possuem minorias (ou, no caso de Bahrein, maioria) xiitas que são tratadas de forma tipicamente atroz, e partilham de um medo (infundado ou não, mas centenário) de dominação persa. Mas nenhum pais tem mais a perder com a ascendência iraniana que a Arábia Saudita.

O reino saudita é o melhor exemplo do que alguém denominou 'uma tribo com uma bandeira'. Após a primeira guerra mundial, um clã liderado por um certo Ibn Saud, inspirado por um tipo de puritanismo revisionista islâmico criado por um tal de Wahab, conseguiu aos poucos conquistar a maior parte da península arábica, e expulsar os Hashemitas das cidades santas de Meca e Medina. Nadando nas maiores reservas petrolíferas do mundo, e ainda hoje controlada de forma absoluta pelos milhares de príncipes descendentes do fecundo Ibn Saud, a Arábia Saudita se considera não só guardiã das cidades santas, mas da própria ortodoxia islâmica.

Infelizmente para a Arábia Saudita, assim como o Irã a sua posição é frágil por baixo de toda a riqueza ostentada. A sociedade ainda é profundamente tribal, e, mais do que frágeis, as instituições modernas são praticamente não-existentes. A maior parte do trabalho é feita por estrangeiros, da prospecção de poços ao trabalho doméstico, e os Sauditas dependem totalmente da renda (enorme!) do petróleo. A maior parte do petróleo saudita porém se situa no leste do pais, habitado por xiitas, que o Wahabismo considera (e trata) como hereges da pior espécie.

Assim, ao mesmo tempo que são impelidos para o conflito pelo que consideram seus respectivos destinos manifestos, Irã e Arábia Saudita encaram um ao outro, devido às suas próprias fraquezas internas, como uma ameaça grave.

O que porém transformou hostilidade em guerra fria, e forçou os demais países árabes a tomar partido, foi a invasão americana do Iraque. George W. Bush criou de fato um novo Oriente Médio, embora provavelmente não o que ele tinha em mente. A invasão liberou (mas não criou) tensões entre xiitas e sunitas, e é este conflito, mais do que a luta entre americanos e insurgentes, que cada vez mais vai destruindo o Iraque. Todos os países vizinhos vêem tensões semelhantes dentro de suas próprias fronteiras. Se o lado 'errado' ganhar no Iraque, alguns deles temem que seus conterrâneos que compartilham etnia ou religião com os vitoriosos também se levantem.

Os países e grupos sunitas vêem os temidos persas se tornando o poder mais influente no que era até a pouco o grande bastião sunita contra a revolução islâmica iraniana, reforçando a sua aliança com a Síria, e extendendo sua influencia no Líbano e em Gaza. Temem uma conspiração para impor a hegemonia iraniana na região. Assim, Arábia Saudita, Jordânia, os sunitas Libaneses (liderados pelo Saed Hariri, filho do ex-premiê morto pelos Sírios, aliados dos iranianos...), e o Fatah de Mahmod Abbas na Palestina, se aliam para enfrenta-los.

Todos os conflitos recentes na região são ou tem o potencial de se tornarem guerras por procuração entre os dois lados. No Líbano, Israel recebeu inicialmente o surpreendente apoio velado dos demais paises sunitas contra o Hizbollah, que no pós guerra devolve o favor e luta para derrubar o premiê sunita apoiado por Hariri e, por extensão, pelos sauditas. Os palestinos estão a beira de uma guerra civil entre o Hamas, financiado com dinheiro Iraniano e com a liderança em Damasco, e o Fatah, que recebe o apoio Jordaniano e Egipcio.

No Iraque a situação é mais complicada, devido a presença dos americanos. Temendo serem o próximo alvo de uma mudança de regime, os Sírios apoiam qualquer um que torne a vida dos americanos difícil (ou mais curta), coerente com a sua política de apoiar no exterior grupos que são reprimidos ferozmente em casa, sejam eles fundamentalistas sunitas em geral, a Irmandade Muçulmana ou separatistas curdos. Os iranianos
por outro lado claramente procuram (com considerável sucesso) criar um governo iraquiano que possam controlar ou pelo menos influenciar. Mas os Sauditas já enviaram o recado: Eles não permitirão que os sunitas iraquianos sejam marginalizados. A retirada americana é uma questão de tempo; o que virá em seguida é difícil de prever, mas algum tipo de guerra por procuração parece provável.

Além de assumir o controle no Iraque, a estratégia iraniana para se tornar a potência regional dominante parece ter duas vertentes. A primeira é o programa nuclear, que eles insistem tem fins puramente pacificos. Só digo que, se o objetivo é realmente este, o entusiasmo de Amahdinejah pela energia nuclear é contagiante, porque Egito, Arábia Saudita e um consorcio de países do Golfo (além de Marrocos) manifestaram recentemente um súbito interesse em construir reatores nucleares, para fins igualmente pacíficos. Uma bomba atômica é um seguro anti-marines aparentemente eficiente, e historicamente tem sido o símbolo de status que distingue os grandes dos pequenos na ONU.

A segunda vertente é consequência do fato de os xiitas serem uma minoria em quase todos os países da região. Os iranianos precisam portanto de algo que atraia pelo menos alguns sunitas para o seu lado, algo que por exemplo atraia um ódio tão profundo que transcenda divisões confessionais ou étnicas. Não foi preciso ir longe para achar um objeto de repulsa apropriado. A cola que mantinha unidas as várias versões do pan-arabismo, a desculpa para todos os fracassos e a suposta fonte de todos os problemas do Oriente Médio: Israel.

Todas as conferências e concursos de cartoons sobre o Holocausto e os discursos inflamandos sobre varrer Israel das páginas da história podem ser um reflexo da imbecilidade do presidente Iraniano, mas também servem a um propósito estratégico. O Irã está se posicionando como *o* centro de resistência anti-sionista, uma posição que atrai amplas simpatias no mundo árabe. Assim, o Irã e a Síria financiam e apoiam todos os grupos que continuam na luta armada contra Israel e rejeitam o princípio de trocar terra por paz, sejam eles sunitas ou xiitas. Durante a última guerra no Líbano, a tal vitória divina tornou o Nasrallah provavelmente o líder árabe mais popular atualmente, para xiitas e sunitas (exceto obviamente entre os sunitas libaneses). Ao separar as massas árabes de seus líderes (nenhum dos quais é eleito democraticamente), o Irã restringe a margem de manobra de seus adversários. No limite, esta situação pode até mesmo causar a queda de alguns dos déspotas pró-americanos dispostos a uma acomodação com Israel, para serem substituídos, suponho, por déspotas pró-iranianos dispostos a uma guerra interminável com Israel. Egito e Jordânia em particular podem sucumbir a pressão, o que inverteria totalmente o balanço de forças.

Os sunitas obviamente não estão parados. A Arábia Saudita é o único grande produtor de petróleo capaz de aumentar significativamente sua produção a médio prazo. A baixa resultante nos preços seria danosa aos sauditas, mas um calamidade para os iranianos. Veremos nas próximas reuniões da OPEP se os sauditas aceitam cortar a produção ou se vão permitir que os preços continuem baixando. Juntos com a Jordânia e o Egito, os sauditas também redobraram os esforços para conseguir algum tipo de solução pacífica para o conflito entre palestinos e israelenses. Embora louváveis (mesmo que a motivação não seja o desejo de paz na terra e harmonia entre os homens), tais iniciativas infelizmente não tem sucesso garantido. Uma aposta mais líquida e certa, por outro lado, é a crescente demonização dos 'persas' na mídia árabe, onde eles são cada vez mais alvo da paranóia xenofóbica que tradicionalmente sempre foi reservada aos judeus. É quase uma corrida para ver quem é mais odiado, se os persas ou os judeus.

Obviamente fomentar conflitos sectários não costuma ser uma política sensata, e a longo prazo as consequências tendem a ser ruins para todos os lados envolvidos, quando o ódio toma vida própria e se auto-perpetua muito além da sua utilidade momentânea. Quase todos os países da região escondem sob a superfície tensões semelhantes às do Iraque (em parte devido às fronteiras artificiais impostas por britânicos e franceses quando os estados nacionais modernos foram criados por lá, mas é difícil imaginar fronteiras que eliminassem tais tensões completamente). Sem identidades nacionais totalmente consolidadas, os povos da região se dividem em um palimpseto de identidades
étnicas, religiosas e tribais muitas vezes contraditórias, que se tornam mais importantes em tempos de instabilidade. Se pressões externas criarem um conflito entre as várias identidades sobrepostas, quase todos estes paises tem o potencial de se desintegrar violentamente.

Mas o Oriente Médio não está chegou à situação atual por ter um excesso de lideranças sensatas...

Precedentes históricos certamente existem. A guerra Irã-Iraque, a mais mortal da história recente do Oriente Médio, também foi um conflito entre xiitas e sunitas, e árabes e persas. Mas foi um conflito que permaneceu limitado aos países beligerantes. A possibilidade agora existe de uma conflagração em toda a região. Na história europeia, a Ia Guerra Mundial, e (talvez mais apropriadamente) a Guerra dos 30 Anos vem a mente.

Obviamente um conflito generalizado, embora cada vez mais provável, permanece somente uma possibilidade. Talvez a carnificina no Iraque convença os dois lados a iniciar algum tipo de détente, ou talvez um acordo de paz na Terra Santa, ou um colapso nos preços do petróleo, ou um aumento do QI da liderança americana, adie as pretensões iranianas ou acalme a paranóia sunita. Sinceramente, é difícil saber pelo que torcer, quanto mais o que esperar, mas os próximos anos no Oriente Médio certamente serão interessantes.

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quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Pensamentos canônicos

Existe uma nova guerra fria no Oriente Médio, precipitada pela guerra no Iraque. Grosso modo, é um conflito entre xiitas e sunitas, mas vista de perto a coisa é um pouco mais complicada. O embate central do conflito é entre Arábia Saudita e Irã, ambos abarrotados de petrodolares, e que nunca se deram muito bem. Mas como nenhum dos lados quer por enquanto um confronto direto, a briga se dá na periferia, entre os seus respectivos agentes e aliados locais. Assim, os recentes eventos no Líbano e na Palestina, e em menor medida, no Iraque*; me parecem ser em grande parte conflitos por procuração entre estes dois lados.

Mas não estou com saco para falar sobre isso agora. O canon de Pechelbel é uma obra barroca muito agradável, embora um tanto manjada. Achei esta versão interessante.



E isso aqui é hilário.



Existe uma nova guerra fria no Oriente Médio, precipitada pela guerra no Iraque. Depois posto mais sobre isto.
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*A Arábia Saudita avisou o Cheney que se os EUA se retirarem precipitadamente ela irá começar a apoiar os Sunitas iraquianos

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domingo, 10 de dezembro de 2006

Casa, Rio de Janeiro
Taiko!

Metade da humanidade, incluindo a totalidade dos brasileiros, acha que sabe batucar. Combinar alguns poucos ritmos simples está de fato ao alcance de muita gente, e os brasileiros parecem ter talento para a coisa. Mas combinar vários ritmos, com transições suaves e pausas nas horas certas, já é bem mais difícil. E fazer isto tudo harmoniosamente com um grupo, com instrumentos e partituras diferentes, é altamente não-trivial.

Hoje houve uma exibição de Taiko na Dias Ferreira. Para quem não sabe, taiko é a arte de percussão japonesa. Individualmente, em duplas ou grupos, os percussionistas batem com bastões em tambores de madeira cobertos de couro altamente tensionado (o que torna o som mais barítono do que baixo).

Pois bem. Fui, e gostei muito. Até hoje eu só havia visto taiko pela televisão, e me surpreendi com a intensidade da experiência de assistir ao vivo. Se o primeiro impulso de quem ouve a bateria de um escola de samba é começar a dançar ou batucar junto, no taiko a vontade é de gritar no final de cada seqüência (os músicos gritavam palavras em japones que tenho certeza tinham um significado profundo e trancendente; mas eu me contentaria com um Gaaaaaahhhh paleolítico).

Originalmente o taiko surgiu para motivar e coordenar tropas em campos de batalha. Estas raizes implicam, em primeiro lugar, que o som é ALTO (uma batalha entre japoneses e os escoceses e suas gaitas de foles provavelmente deixaria metade dos participantes surdos). Em segundo lugar, como a ideia não era fazer o soldados cairem na dança, mas sim estimula-los a lutar e ag ir de forma coordenada, o taiko parece (ou pelo menos me pareceu) uma massagem sonora, ou uma palestra motivacional não verbal.

O som produzido não cria exatamente uma melodia ritmica, na acepção bum-eskibum-bum-bum do termo, mas sim vai construindo a partir dos vários tambores um ritmo único, que vai crecendo em intensidade até terminar subitamente em uma pausa prolongada (as pausas são muito importantes).

Os percussionistas eram homens e mulheres, de todas as idades e tamanhos (e aparencia perfeitamente normal, mas depois de ve-los espancar os tambores com potentes bastonadas por 20 minutos, decidi que seria sensato não contraria-los). Eram seis pessoas (acho), mais um sensei/mestre da bateria, que no inicio do show emergiu do restaurante (o show foi patrocinado por um restaurante japones, incidentamente) saltitando faunicamente usando uma mascara de demônio, e começou a puxar o ritmo batendo em uma cumbuquinha de metal. Eram três os tipos de tambores: um do tamanho de uma panela, usado para marcar o rítmo; quatro médios, dois dos quais faziam a 'base' (com uma baqueta) enquanto os outros dois 'solavam' (com duas baquetas); o último tambor parecia um grande barril, e soava como um diplodocus marchando.
(este parágrafo precisa urgentemente de uma infusão da terminologia correta)


Solando


Note o tambor diplodocus no centro, e o marcador de ritmo atrás

Quem quiser ouvir e ver um pouco do que eu estou falando, veja os vídeos aqui. Mas eu acho que taiko precisa ser experimentado ao vivo para ser apreciado.

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terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Limbo, Aeroporto de Confins


Vim para BH no domingo, de sopetão, para ficar com o meu pai, que sofreu um descolamento de retina no sábado (ele está se recuperando bem). Deveria voltar hoje, e de forma pouco caracteristica cheguei aqui no aeroporto de Confins com quase 40 minutos de antecedencia. Só para descobrir que nenhum avião decolou ou pousou nesta birosca desde 12:00 dia. Supostamente um raio caiu no Cindacta, e paralisou todo o trafego aéreo do sudeste. Sei. Imagino que os raios queiram um aumento, afinal descargas elétricas atmosféricas cumprem um papel inportante na natureza.

Aparentemente o CINDACTA1 está de pé novamente. Pousos e decolagens estão novamente autorizados em todo o pais, e os aviões que estão no solo já começaram a decolar. O aparelho em que eu deveria voar faria Rio-Vitória-BH-Rio. Ele ainda está no Rio, então mesmo com o Homer Simpson fora do CINDACTA as minhas perspectivas ainda não são boas. Estou pensando seriamente em voltar à civilização e pegar um ônibus para o Rio. A não ser que um raio tenha caido na policia rodoviária ou algo assim.

UPDATE1 [18:01]: As decolagens estão autorizadas somente com intervalos de 20 minutos (e não os usuais 5). A historia do raio parece ser só boato, a causa oficial é uma pane não-especificada.

UPDATE2 [18:13] Todos os aviões que já estavam aqui no solo ja decolaram. Mas ainda não há perspectiva de pouso (quanto mais decolagem) para os demais. Argh!! Acho que vou para a rodoviaria mesmo. Segundo minhas estimativas, devem ter pelo menos uns 10 voos atrasados no Rio antes do meu. Mesmo se a etapa de Vitória for cancelada, com 20 minutos entre decolagens isto corresponde a 3 horas de espera no Rio, 1 hora de vôo até BH e 1 hora até o Rio. Total de 5 horas...

UPDATE3 [18:39] Vou para a rodoviária comprar passagem. No Rio um vôo que deveria sair as 10:15 ainda não decolou.

UPDATE4 [19:58 do dia seguinte] Estou no Rio, depois de viajar a noite toda de onibus. Acho que fiz a escolha certa, já que os vôos continuam atrasando e os passageiros já começaram a apelar para o canimbalismo. As autoridades já trabalham para sanar o problema, e redefiniram 'atraso' como sendo algo que ocorre mais de 1.5 horas depois do horario previsto. Eu sinto orgulho do incrível talento Brasileiro para criar soluções semânticas para problemas concretos.

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