quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lareira, Hotel Orotour, Campos do Jordão
Idílio Paleolítico

Estou em Campos do Jordão, para mais um 'Nova Física do Espaço' (o décimo ao todo, e quarto de que participo). Está fazendo um frio glacial, o que torna particularmente agradável a lareira sobre cujo ombreira estão os meus pés. Agora a pouco um grupo de chorinho (quase) exclusivamente feminino, o 'Choro de Saia' estava tocando; uma delas é casada com um pesquisador do Inpe (o Alex, que arranjou algumas das músicas).

Antes da música, eu estava tendo um dia bastante paleolitico. Depois de apresentar o meu trabalho pela manhã (o que transcorreu muito bem), eu e o Reza (o meu colaborador britânico de origem iraniana) passamos as três horas seguintes subindo morros e percorrendo trilhas. De volta ao hotel, depois de trabalhar um pouco, comi quantidades industriais de carne mal passada em um churrasco organizado pelo evento. Reavivei então a lareira com pilhas de lenha e uma afanação vigorosa com programa do Nova Física. Realmente, é um estilo de vida bem neandertal este que consiste em perambular por matos e morros, comer carne quase crua e acender fogos crepitantes*. Eu estava a ponto de tacapear alguma transeunte randômica mais apresentável, quando o chorinho começou. Este teve um profundo efeito civilizatório em mim, e me lembrei o suficiente de 20000 anos de evolução cultural para escrever neste blog.

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* As duas últimas atividades são o que permitiram nossos antepassados (a partir do Homo Erectus, que primeiro fez uso do fogo) terem cérebros grandes e metabolicamente caros; se tivessemos que subsistir da alimentação dos gorilas (sem cozimento, sem carne), precisariamos de passar mais de 12 horas por dia comendo só para não morrer de fome.

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Casa, Rio de Janeiro
Interstícios

"Você não vai pular não, vai?" - me perguntou o segurança assim que a sua cabeça, de onde saltavam dois olhos esbugalhados de medo, surgiu por sobre o parapeito. Não, eu não me sentia particularmente suicida e não tinha a menor intenção de descer os sete andares do CBPF em queda livre, eu assegurei a ele. "Estou só estudando", disse. "Então é melhor você estudar em algum lugar menos visível" -  retrucou o guarda, um tanto aliviado - "Esta caixa d'água é muito exposta, e os vizinhos dos prédios a frente podem se assustar com você ai".

Um visitante ocasional ao prédio do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, na Urca, onde fiz meu doutorado) poderia compreensivelente supor que por lá só existem 6 andares. Todos os gabinetes e salas identificados ficam entre o térreo e o sexto andar, que é até onde vai o elevador. Mas o uso judicioso de certas portas discretas de acesso às escadas de incêndio e, ocasionalmente, de grampos de papel engenhosamente torcidos, permite o acesso a um espaço que é melhor definido pelo que ele não é: o lado de fora pela parte de cima; onde se acomula toda a infra-estrutura (acro-estrutura?) que não poderia propriamente ficar dentro do prédio (antenas, para raios, caixas d'água, etc). Pois uma consequencia inescapável da orientabilidade da geometria do prédio é que, se gabinetes e salas de aula precisam ficar dentro deste último, limitadas acima por um teto, então necessariamente uma superfície horizontal externa deverá existir: um telhado.

O telhado em questão tem uma vista espetacular, interpolando panoramicamente a Praia Vermelha, o Pão de Açucar e a Marina da Glória. Um vista melhor, de fato, do que a de qualquer gabinete. Posso dizer que fiz boa parte do meu doutorado lá em cima, sentado sobre uma toalha mantida na minha sala com este expresso propósito e bebendo coca-colas enquanto lia artigos e fazia contas (ou conchilava). Era uma maneira agradável e produtiva de passar o dia. Mas é compreensivel que uma senhora, ao olhar através da janela de um prédio vizinho, chegasse a conclusões um tanto menos benignas, após me ver no topo de uma caixa d'água de concreto, alternadamente sentado contemplativamente de cabeça baixa, e indo e voltando quase até a beira,a passos lentos e de cenho franzido.

A vista do topo do meu prédio novo em Laranjeiras, embora agradável, é menos espetacular que a do CBPF. Mas pelo menos até agora ainda não fui confundido com um suicida. Mas é um espaço com um(a falta de) propósito idêntico. Tais espaços intersticiais surgem de forma emergente na interface de espaços que tem um propósito; eles não são planejados, mas são inevitáveis. Em lugares enfaticamente não planejados, tais como Londres, tais interstícios, quando marinados em aguns séculos de história, praticamente definem o traçado urbano. Vãos entre prédios se tornam becos, ruelas e ruas; e praças se formam em defeitos topológicos do traçado urbano (que é um palimpseto fóssil muito mais antigo que qualquer estrutura, e que em alguns lugares remonta a tempos romanos).

No rio, tais interstícios publicos e fosseis urbanísticos são mais sutis, mas me afetam as vezes até de maneira inconciente. Estou gostando muito do meu novo apartamento, e bairro. Tanto, de fato, que comecei a me perguntar porque. Em ambos os casos, a resposta parcial é que o espaço parece menos tolhido. No nucleo duro da zona sul, em Ipanema, Leblon e (principalmente) Copacabana, tudo parece brigar por espaço, tentando colocar mais gente e mais coisas no mesmo espaço limitado. Com mais ou menos primor, os prédios se expremem como passageiros no metro de Tóquio; a visada nunca consegue chegar muito longe sem ser interrompida. E este expremer constante não deixa lugar para história: construções, traçados e interstícios antigos não duram muito em tal ecosistema, e são rapidamente absorvidos por vizinhos em expansão ou novas construções, de modo que nem mesmo a sua memória é preservada.

Laranjeiras tem mais história e menos pressão.  A agua potável do rio Carioca atraiu os portugueses, que se estabeleceram por aqui antes mesmo de fundarem a cidade do Rio de Janeiro e quando Copa era um mangue remoto. De certa forma, embora ele esteja quase todo canalizado, o Carioca ainda define muito do traçado do bairro. Desta história  interstícios como o Parque Guinle, a General Glicério e o Largo do Boticário surgiram e foram preservados, assim como diversas ruelas de curioso traçado e predios interessantes.  Os prédios não são necessariamente maiores, mas são mais... espaçosos. É como se eles tivessem sido criados soltos, ao contrário dos prédios de cativeiro de Copa e redondezas.


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sábado, 11 de junho de 2011

Hotel Amerian, Puerto Iguazu
Érre xê


Ontem, terminado o congresso, eu e a Mari (da Física/UFMG) alugamos um carro para uma excurção mercosúlica. A ideia era passar por várias ruinas Jesuitas, na Argentina e Paraguay, e voltar hoje. Para uma viagem organizada as pressas, consegui elaborar um roteiro bastante detalhado, e li bastante sobre a história das missões jesuítas. A única coisa que não fiz foi verificar quais os procedimentos de entrada na Argentina. Mercosul, pais irmão e tal, me lembro de decidir levar só a carteira de motorista, e não o passaporte ('levo a carteira de motorista, e corro menos risco no Paraguai...' - pensei). Depois de uma pequena celeuma desinteressante com a administração do hotel do congresso, fomos ao aeroporto e pegamos o carro. Tudo verificado, atravessamos a fronteira. Para dirigir além de Puerto Iguazu, me informaram, era preciso solicitar um 'permisso' na alfândega. Solicitei, portanto, o permisso. Entreguei os documentos do carro e minha carteira de motorista. "Ond essta seu érre xê?" - me perguntou a policial argentina. "Na parte de baixo do documento em suas mãos" - respondi. "Naao, carteera de mótorissta naao vale. Só o érre xê". Alguma iterações deste discussão depois, finalmente consegui entender que, sem meu documento de RG ou meu passaporte, eu não poderia ir além de Puerto Iguazu. Saco. Saco ao quadrado. Saco^Saco. Eu tenho que dizer que passei algum tempo me sentindo (e agindo) como uma criança para quem o natal não veio.

No final, o dia se acertou. Trombamos com outros três colegas expatriados na churrascaria em que almoçamos, e fomos todos juntos nas cataratas do lado argentino, onde eu passei de barco (e me enxarquei) praticamente embaixo das quedas d'água. (dois dias antes eu já havia ido a margem brasileira). São dois passeios que valem a pena; no lado Brasileiro pela vista (pense na vista do Rio, a partir de Niteroi), e do lado Argentino pela proximidade quase visceral com a torrente de água, de cima e de baixo.



O barco parte de uma pequena e tranquila praia fluvial, no final de uma trilha pela selva. Inicialmente ele vai muito rápido, desviando de eventuais rochas semi-submersas, em um rio canalizado entre dois barrancos tão altos quanto ele é largo. As cataratas começam com um murmúrio, que vai ficando mais alto enquanto elas primeiro aparecem, distantes a frente, e depois crescem e continuam a crescer impossivelmente altas e barulhentas. Quando formam um paredão de agua e pedra ao nosso lado, o barco começa a ter dificuldades em vencer a correnteza. Na entrada da garganta, o gradiente da superfície líquida já é notável; o barco tem que praticamente subir uma colina de agua escoente. Lá dentro, estamos imersos em uma chuva estacionária lançada pelos gaisers produzidos pela água que cai espalhafatosamente sobre as pedras e sobre o rio. Subimos e descemos em cima de ondas um tanto incoerentes, que se propagam de um lado para outro, indecisas*.

Depois de um espaço de tempo indefinível, eu estava em outro cais, enxarcado até os ossos, e com uma trilha a minha frente levando até o topo das cataratas, onde reencontrei meus amigos. Saimos do parque a noite; eu e Mariana para caçar algum lugar para ficar em Puerto Iguazu (e não em Santo Ignacio...), e os outros de volta para o Brasil.

Foi, no final das contas, uma viagem interessante, principalmente pelas companhias, planejadas e extemporâneas. Mas da próxima vez que eu vier a Foz, farei o meu roteiro jesuita. Com meu érre xê.




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* Repare que o volume da agua não tem dificulde em encontrar o seu caminho para sair da garganta. É o momento linear transmitido pelas ondas, ou pelo menos aquele associado aos seus comprimentos de onda mais longos, que têm dificuldade de enxergar a saida.

PS: Todas as fotos estão no flickr.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Centro de Convenções Rafain, Foz do Iguaçu
Barreiras culturais



Físicos e biólogos, mesmo quando discutem o mesmo assunto, parecem não só pertencer a disciplinas distintas como habitar planetas diferentes. Em se tratando de modelos que procuram explicar fenômenos biológicos, físicos procuram obter grandes sínteses e elaboram teorias matematicamente elegantes mas de aplicabilidade as vezes dúbia; enquanto biólogos analizam detalhadamente cada sistema e produzem classificações e taxonomias barrocamente detalhadas de seus componentes, que descrevem muito mas prevêem muito pouco.

O parágrafo acima é o começo do anúncio de uma palestras que dei no departamento de física da UFMG na sexta passada, para um plateia mixta de físicos e biólogos. O que mostra que eu não hesito em reciclar textos usados, ou possivelmente ofender a minha audiencia. Mas o que é ofensivo nem sempre é falso; de fato, o contrário é provavelmente mais comum. As diferentes atitudes das duas comunidades científicas referentes a sistematização do conhecimento vêm, obviamente, das diferenças entre seus respectivos objetos de estudo, e o reconhecimento pragmático daquilo que historicamente foi bem sucedido. Mas eu sou um físico trabalhando entre biólogos. Mesmo quem mora no estrangeiro a anos ainda se surpreende com os hábitos locais ocasionalmente. Da mesma forma, para mim, o choque cultural ainda é algo sempre presente. Eu falo a lingua deles com mais desenvoltura agora, mas nunca vou perder o meu sotaque.

No primeiros seminários que dei na biologia, o choque cultural foi mútuo. Da primeira vez, fui falar sobre leis de escala e invariância por escala. 'Vamos começar com uma matemática levinha' - pensei - 'assim eles vão se acostumando'. Na segunda equação, a minha plateia já trocava olhares assustados; alguns slides depois, os olhares se dividiam entre semi-catatônicos e exasperados. Eu demorei algum tempo até conseguir explicar alguns dos conceitos que eu acho tão fascinantes de forma que eles ao mesmo tempo entedessem, e considerassem relevante. Ao mesmo tempo eu não sabia nada de biologia. Eu conhecia diversos termos, claro, e era até bastante familiar com alguns dos conceitos centrais. Mas era preciso me levar pela mão para que eu fosse capaz de produzir algo aplicável. Eu era uma espécie de artilharia de sítio matemática, a ser empurrado até os muros de algum bastião inimigo mais problemático para abrir caminho para tropas amigas.

As poucos a comunicação foi ficando mai fácil; assim como duas espécies acopladas biologicamente, o físico e os biólogos evoluiram até se adaptarem uns aos outros. A minha matemática, se não é completamente entendida, pelo menos é mais bem aceita; trabalho agora com dois alunos de biologia que não só são extremamente proficientes em programaçao, mas também me acompanham em minhas elocubrações sobre redes neuronais. E quando peguei a minha chefe rabiscando equações no caderno durante uma palestra que (supostamente) assistíamos, quase pensei 'my task here is complete'.

Em vista disto, dar uma palestra na física foi quase como voltar para casa. Uma audiência que não acha que matriz simétrica é um filme com o Keanu Reeves. Pessoas que encaravam equações como algo natural; ocasionalmente eu ficava reflexivamente esperando uma reação adversa perante alguma manipulação matricial menos trivial... E ninguem parecia particularmente alarmado! Por outro lado, eu já havia me acostumado a falar sobre axônios, oligodendrócitos e colunas funcionais corticais sem ter que dar maiores explicação; mas desta vez tinha que me dar conta que a minha nova audiência talvez nunca tivesse ouvido estes termos.

De qualquer forma, a palestra correu bem (a menos de um ligeiro estouro do tempo e um final de seminário dito no estilo Eneas). É uma familia interessante de modelos neuronais. Em um deles, eu faço uma soma de todos os caminhos fechados que passam por cada neurônio, associando uma fase a cada ciclo de modo que ciclos sîncronos sejam somados construtivamente.

Estou agora em Foz do Iguaçu, usando o meu chapeu de cosmólogo. Esta ocorrendo uma espécie de congresso de congressos das várias áreas da física brasileira. O encontro está sendo excelente, bem organizado e com trabalhos muito interessantes. Depois escrevo mais; estou com planos para um excursão paraguaia um tanto inortodoxo.

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terça-feira, 5 de abril de 2011

Casa, Belo Horizonte
José Alencar e eu

Os tópicos dos quais trato neste blog são bastante diversos; mas tenho que reconhecer que obituários de políticos não são exatamente a minha linha. Mesmo assim, enfim, é fato que o José Alencar, ex-vice do Lula, morreu. Ele me parecia uma cara decente, e fico feliz que tenha conseguido completar o mandato. Porém, um post dedicado somente a tecer banalidades sobre alguém que eu conhecia só superficialmente seria um exemplo clássico do tipo de irrelevância auto-indulgente pela qual a internet é notória. Mas existe uma conexão, tênue mas não-trivial, entre o José Alencar e eu.

Eu criei o seu verbete na Wikipedia...

Repito: Nunca encontrei o falecido, ou tive por ele qualquer curiosidade excepcional. Mas em 2004, quando a wikipedia era novidade, eu queria fazer um experimento: estudar, em tempo real, como um verbete evolui, da sua criação até a maturidade. Como eu escrevi aqui na época:

[Eu] queria algo que fosse

a) Curto: Eram 3 da manhã e não queria ter mais que 2 minutos de trabalho
b) Fácil: Não queria pensar muito; um pequeno artigo factual não controverso
c) Útil: Um verbete curto só seria útil se fosse sobre um tema pontual e obscuro (para os leitores da Wikipedia). Algo que vc poderia ler mencionado em uma página na rede, e se perguntar o que é.

Decidi então escrever um paragrafo curto sobre... José Alencar! Nosso vice-presidente... Não tenho nenhum interesse especial pelo cara, nem sabia muito sobre ele. Mas ele se encaixava em todos os criterios: Uma micro-biografia é simples, incontroversa, e um carinha randômico lendo o NYT acharia o verbete útil (pq ele só que saber quem é José Alencar, não ler José Alencar: Vida e Obra). Fiz uma pesquisa de 1 minuto, e escrevi o texto. A lógica é bizarra, mas consistente...
O texto que escrevi era curto, com somente cinco frases factuais e não controversas:

José Alencar Gomes da Silva is the vice president of Brazil since 2002, under president Luis Inácio Lula da Silva. Born in Muriaé, in the inland state of Minas Gerais in October 17th 1931, he became a successful businesman, and was elected for the Senate in 1998. In 2001 he was selected as Lula´s running mate, in an effort to assuage worries about the then candidate´s supposed anti-business bias.

In office Alencar has often criticized his own goverment for failing to lower interest rates. In November 2004 he was sworn in as defence minister, following the resignation of José Viegas.

Ao longo dos anos, eu acompanhei a evolução do artigo com ares paternais. A primeira edição veio quase um mês depois, colocando em bold o nome do verbete e adicionando uma bandeirinha para indicar que o artigo tratava do Brasil. As ediçoes foram então se acumulando gradualmente, adicionando detalhes, formatação, uma simpática foto, e bibliografia. Em 2008, o verbete tinha 5 paragrafos e cerca de 4000 bytes (contra os 600 originais). Após a morte de Alencar, o crescimento foi mais rápido: o artigo ganhou corpo, dividiu-se em seções, e triplicou de tamanho. Mas em momento algum um pretendente a biógrafo ou enciclopedista se sentou em frente ao computador para escrever ab initio o verbete definitivo após longa pesquisa, a mãe de todos os verbetes, sobre o José Alencar. Pelo contrário, na melhor tradição da wikipedia, o razoavelmente completo artigo atual é o resultado de quase 500 pequenas contribuições, que coletivamente conseguiram compor um texto genuinamente digno de uma enciclopedia.

No nivel molecular, a evolução biológica é extremamente conservadora. Estruturas desenvolvidas para uma função e situação específicas são adaptadas e readaptadas para os mais diversos fins; o notório ciclo de Krebs preserva em seus cantos mais recôndidos uma série de reações que aconteciam expontaneamente nos mares primordiais, cooptadas em um ciclo metabolico cujas ideosicrasias nos contam sua história. Analogamente, na Wikipedia o desenvolvimento de cada verbete tem mais em comum com a evolução de uma bacteria a partir de uma sopa bioquímica primordial do que com a construção de um prédio. Ao longo da evolução de um verbete, eu gostaria de estudar se, e como, eram preservados as evidências fosseis de sua origem.

De fato, das cinco frases que compunham o meu verbete original, nada menos que quatro estão presentes na versão atual, com pequenas modificações. Ao longo dos anos elas mudaram de lugar e de ordem; antes juntas, foram separadas por frases e paragrafos novos. Mas José Alencar continua nascido em ´Muriaé, in the inland state of Minas Gerais´. Se em 2004 ele foi ´selected as Lula´s running mate, in an effort to assuage worries about the then candidate´s supposed anti-business bias´, hoje dizemos que ele ´was tapped to be Lula's running mate, in an effort to assuage worries about the candidate's alleged anti-business bias´. E se antes ele ´has often criticized his own goverment for failing to lower interest rates´, mais recentemente ele ´often criticized his own administration for failing to lower the Central Bank's base interest rates´.

É claro que qualquer verbete mais completo incluiria a informação contida nas frases acima. Existem porém incontáveis maneiras concebíveis de se expressar tais ideias; mas foram as estruturas e termos que eu circunstancialmente escolhi em 2004 que continuam a ser usadas. O texto atual, muito mais extenso e complexo, preserva a linguagem fossil primordial, que em maior ou menor medida ainda guia o seu desenvolvimento. Assim como as mitocôndrias no interior de nossas células preservam e em grande parte se definem pelos azares pré-cambrianos de sua evolução.

Não só na Wikipedia e na bioquímica o estado atual é, mais que um consequencia, um registro de sua história. Sistemas que evoluem ao invés de serem criados costumam apresentar esta propriedade. Unidades angulares, constelações e relatos mitológicos sumérios foram (e são) usados milênios depois de que a civilização que as originou havia sido esquecida. As circunstâncias específicas, geografia e história de uma península montanhosa as margens do Egeu e de uma cidade de origens conturbadas fundada sobre sete colinas beirando o Tibre determinam não só a nossa terminologia política, mas em certa medida ainda moldam nossas ideias idem. A internet hoje também é o resultado das circunstâncias da origem de seus vários componentes. Do uso do caracter ´@´ aos protocolos abertos, passando pela neutralidade de rede, a separação em camadas entre conteudo e a sua transmissão, e o ethos confrontativo e anárquico da Usenet, tudo poderia ter surgido de forma diferente. Mas agora que a rede se tornou o sistema nervoso mundial, é muito dificil mudar os seus fundamentos. Algo que foi criado quase sem supervisão ´adulta´ ou hierarquia definida pela subcultura nerd de uma sociedade liberal, conseguiu se tornar ubíqua e imprecindível antes que o mundo se desse conta das consequencias deste fato. Tivemos, creio, muita sorte.

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domingo, 20 de março de 2011

Pousada dos Gravatás, Buzios
De Buzios a Benghazi



Estou em Buzios com a Ceci, para o fim de semana; estou de ferias da usina de Fukushima, dos protestos em Bahrain, Yemen e Siria, e da guerra civil Líbia. Mas mesmo daqui da beira-praia, a realidade insiste em continuar acontecendo.

No Japão, após uma série concatenada de falhas e explosões, as coisas parecem estar se acalmando na usina nuclear de Fukushima. Todos os reatores estão sendo resfriados de uma forma ou de outra, e aos poucos vão sendo ligados à rede elétrica. A situação das barras de combustível "gastas" é mais séria. Como em boa parte dos reatores no mundo (incluindo Angra I e II), tais barras eram armazenadas nos próprio prédios dos reatores, cobertas de, e resfriadas por, agua circulante em grandes piscinas*. Sem energia elétrica, a agua não circula, e é aquecida pelos resíduos de fissão mais ativos. Após algumas semanas, a agua evaporaria, e as barras ficariam expostas ao ar. A combinação de oxigênio e barras superaquecidas poderia então produzir um incendio, que espalharia fumaça contendo Césio-137, Estrôncio-90 e Plutônio-239 por onde o vento a carregasse.


É um cenário potencialmente catastrófico. Felizmente, haveria ainda bastante tempo para agir antes que as barras ficassem descobertas. A não ser, obviamente, se as piscinas fossem danificadas de alguma forma. Por um terremoto, por exemplo.

A maior parte da atividade frenética nos últimos dias em Fukushima consistiu de tentativas de colocar mais água nas piscinas dos reatores #3 e #4. Por helicóptero, por mangueiras de alta pressão ou por qualquer outro meio a ser inventado pela criatividade nipônica. Ao que parece, o pior foi evitado. Quando a energia elétrica for restaurada nos reatores, poderemos repetir esta última frase com mais convicção.

Na Líbia, a guerra civil grassou a semana inteira, com as tropas leais ao Gadhafi indo zenga zenga atrás dos rebeldes. Várias cidades controladas pelos rebeldes foram caindo em rápida sucessão. Com tanques a menos de 200km de Benghazi (capital rebelde), e com Misrata cercada, a nova revolução Líbia parecia natimorta. Porém, após uma enérgica e belicosa ação diplomática francesa (!), um apelo por uma zona de exclusão aérea por parte da liga árabe (!!) e um rápido e decisivo debate no conselho de segurança (!!!), uma resolução foi aprovada (permitindo o uso de todos os meios para proteger civis) que na prática colocou uma coalizão de paises ocidentais e árabes (!x4) em guerra com as forças Gadháficas. Ataques aéreos limitados já ocorreram, e é ainda mais difícil que o usual tentar adivinhar aonde isto vai parar. Então não vou nem tentar, porque quero aproveitar a praia em Búzios, não em Tripoli.

Finalmente, inspirados pelas revoluções e protestos que sacodem o mundo árabe, e iterando a sequência já reprisada alhures de protestos - repressão - criação de martires, grandes distúrbios estão ocorrendo na cidade de Daraa, ns Síria**, que está aparentemente cercada por tanques leais ao governo. Como a Síria tem um dos regimes mais fechados e de sinistra reputação da região (um feito impressionante), o potencial para uma segunda Líbia é alto. Esta é uma notícia relativamente nova, então não tecerei maiores comentários, até pelo menos eu estar de volta ao Rio de Janeiro. Um bom lugar para acompanhar a situação, porém, é no blog com o nome talvez inevitável de 'The Road to Damascus'.



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* Tais piscinas costumam ser o ponto alto de qualquer visita a uma instalação nuclear. As párticulas subatômicas irradiadas, ao se moverem mais rápidamente que a velocidade da luz no meio (agua), geram o equivalente eletromagnético da onda cônica de choque produzida por aviões supersônicos: a chamada radiação Cherenkov, que vemos como um brilho azul fantasmagórico bastante memorável.

** Note que, juntamente com a Argelia, a Síria votou contra a resolução da liga árabe pedindo uma zona de exclusão aérea. Devido a sua história de família, o presidente Assad obviamente não fica muito confortável com o precendente assim aberto.


As ondas da mudança se aproximam do Oriente médio...

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domingo, 13 de março de 2011

Casa, Rio de Janeiro
De Angra a Fukushima


Os prédios contendo dois reatores em Fukushima explodiram; uma quantidade (e qualidade) não especificada de 'radiação' escapou, e os técnicos no local parecem incapazes de impedir o aquecimento descontrolado dos reatores. Por mais terriveis que sejam o terremoto e tsunami concomitante que atingiram o Japão, com um numero de mortos confirmados muito maior do que a mais pessimista estimativa plausível para a quantidade de eventuais vítimas fatais por radiação, é o espectro da catastrofe nuclear, mesmo que vagamente definida, que assusta.

Primeiro, uma digressão técnica: Os isótopos de urânio e plutonio usados como combustíveis nucleares tem uma propriedade inusitada: Ao serem atingidos por um neutron, o seus núcleos se partem em dois isótopos instáveis, que vão se subdividindo em uma cascata de fissões expontâneas. O resultado final é uma quantidade prodigiosa de energia liberada, alguns resíduos radioativos menos instáveis (e.g. Césio-137), e um certo número de neutrons livres, que podem por sua vez fissionar núcleos vizinhos. Tal reação em cadeia é o segredo da fissão nuclear. Se a fissão de um núcleo gerar em média mais do que uma fissão de núcleos vizinhos, o numero de reações vai aumentar a cada passo, até o combustivel se exaurir e o terreno em volta adquirir uma aparência vitrificada suavemente fosforecente. Mas se em média exatamente um neutron gerado por cada fissão ocasionar uma nova fissão, temos uma reação (dita crítica) pelo menos momentaneamente estável. Uma reação que gostaríamos que fosse controlável, e passível de usos menos explosivos.

Um reator nuclear é, por definição, um local onde uma reação nuclear controlada acontece. E as principais variáveis a serem controladas são duas: A velocidade com que a reação ocorre, e a temperatura do nucleo do reator. A velocidade de reação, que determina a potência sendo gerada, é regulada pelo controle dos neutrons, através da variável disposição de materias que ora absorvem, ora desaceleram, ora refletem estes últimos. A energia térmica assim gerada é dissipada por meio da troca de calor mediada por fluidos em uma série de ciclos fechados (a natureza, quantidade e disposição destes ciclos em grande parte definem o modelo de reator em questão). Se a reação em cadeia fugir do controle, ou o ciclo de trocas térmicas não funcionar a contento, a temperatura do núcleo do reator sobe, até que este último sofra um derretimento, total ou parcial, com resultados total ou parcialmente catastróficos.

Uma lição a ser tomada disto tudo é que um reator nuclear precisa gastar energia para funcionar, bombeando fluidos e movendo elementos de controle de neutrons. Obviamente, em condições normais, mais energia é gerada do que consumida. Mas, crucialmente, isto implica também que um gerador precisa de uma fonte externa de energia para ser desligado.

Normalmente os mecanismos de controle de um reator nuclear são conectados diretamente à rede elétrica externa. Se a rede cai, por medida de segurança um sistema de backup de geradores a diesel é acionado, e o reator é desativado automaticamente (mas não instantaneamente).

Aparentemente, após o terremoto, o desligamento automático de emergência de todos os reatores de Fukushima ocorreu sem transtornos. Isto significa que a reação em cadeia de fissão não está mais ocorrendo (i.e., sem síndrome da China ou, mais propriamente, do Brasil, já que a antípoda de lá é por aqui); mas alguns isótopos instáveis, produzidos anteriormente pela reação em cadeia, continuam por lá, produzindo uma quantidade ainda significativa de calor com seu decaimento. Imediatamente os geradores a diesel foram ligados, e estavam funcionando normalmente, permitindo que o ciclo de água não pressurizada resfriasse o núcleo. Foi então que o tsunami chegou.

O tsunami destruiu os geradores a diesel. Por algumas horas um conjunto de baterias, o backup do backup, manteve as bombas de resfriamento funcionando. Mas quando a carga acabou o sistema de bombeamento parou de trabalhar; a temperatura começou a subir, fora de controle. No reator #1, algumas das barras de combustível começaram a se desfazer, gerando entre outras coisas hidrogênio, que foi liberado juntamente com vapor d'água para aliviar a pressão interna, e explodiu em contato com o oxigênio no interior da estrutura de contenção externa. Sem mais alternativas, os japoneses se viram forçados a bombear agua do mar para o interior do reator, o que finalmente conseguiu resfriar o núcleo. Algo parecido parece estar ocorrendo com o reator #3.

A boa noticia é que o projeto dos reatores em questão é intrinsecamente mais seguro que o malfadado reator # 4 de Chernobyl*. Os sarcófagos de contenção dos núcleos sobreviveram intactos ao terremoto, ao tsunami e às explosões subsequentes (feito de engenharia por si só bastante impressionante, tudo o que falta agora é um Godzilla em fúria), e é improvável que uma quantidade significativa de radioatividade escape para o ambiente. A má noticia é que a situação ainda não está totalmente controlada, e uma pequena quantidade de resíduos radioativos escapou junto com o gás ventilado, o que implica que a integridade física de pelo menos uma das barras de combustível foi comprometida. E a noticia bizarra é que eu já testemunhei pessoalmente o desligamento emergencial de um reator nuclear a partir da sala de controle. E, pelo menos em termos dramáticos (i.e., se estivássemos em um filme) ou supersticiosos (i.e., se não acreditássemos em coincidencias), a causa fui eu.

Exatamente 12 anos antes do terremoto, no dia 11 de março de 1999, eu, estudante de graduação de física, estava no complexo nuclear de Angra dos Reis. Era uma visita guiada bastante detalhada, na qual conheci cada canto de Angra I e Angra II (então em construção). Para o grande finale, fui levado para a sala de controle de Angra I. Me vi em meio a incontáveis indicadores analogicos, dials e botões, faixas indicadoras no chão exclusivas para operadores de plantão, e funcionários cujo trabalho era ficar sentado monitorando seus intrumentos, exceto no caso de emergencias. Um simpático engenheiro, o encarregado do turno se não me engano, me explicava pacientemente o que fazia cada painel (eu tinha muitas perguntas). Finalmente, chegamos em frente ao painel referente ao status do gerador a diesel de backup. "Para que uma usina nuclear precisa de um gerador a diesel?" - perguntei, inocentemente. Ele me deu exatamente a mesma explicação que reproduzo mais acima no presente texto. Naturalmente, a minha próxima pergunta foi: "Mas este gerador já teve que entrar em funcionamento alguma vez?". Instantes após eu formular a pergunta ("algumas vezes...", ele começou a responder), um klaxon, daqueles que se vêem em filmes de submarino, começou a soar. Luzes vermelhas se acenderam. Os contemplativos plantonistas saltaram de suas cadeiras e puseram em prática seus anos de treinamento. Os leds do painel de controle do backup elétrico piscavam furiosamente, e ao fundo eu podia ouvir o ruido inconfundível de um gerador a diesel entrando em funcionamento.

Um apagão, geograficamente restrito de inicio, derrubara a rede elétrica do Rio de Janeiro. O sistema de emergência havia sido acionado, e Angra I estava sendo desligada.

Fiquei na sala de controle por mais algum tempo, esquecido em meio ao caos organizado. Resgatado por meu guia, fui embora pouco depois, e não voltei desde então. Sei, porém, que adquiri uma certa fama. O meu irmão, fazendo um estágio por lá no ano seguinte, foi saudado ao chegar como o 'irmão daquele cara que parou a usina'. Sei que, objetivamente, eu não tive nada a ver com o incidente; mas a irracional sensação de que a lei de Murphy operava através de mim por meios sutis é inescapável. No mesmo dia, um apagão ainda maior deixou as escuras boa parte do territorio nacional. A explicação oficial é que um raio causou uma reação em cadeia, derrubando uma rede já operando no seu limite. Mas eu estava lá, em Angra. E sei que, se foi esta a causa, os raios cairam em dupla. Parece implausível, embora em visto do ocorrido eu não me sinta muito a vontade para falar de implausibilidades. Só posso dizer que, em minha defesa, eu não estava no Japão quando ocorreu o terremoto. Só perto de sua antípoda.

PS: A cobertura na imprensa está sendo um tanto histérica. O NY Times está se mostrando melhor que a média, e o seu gráfico interativo sobre o incidente é bastante informativo. Para uma discussão interessante entre quem parece entender melhor do assunto (i.e., ex-tripulantes de submarinos nucleares), veja aqui. Uma tentativa de acalmar os animos pode ser encontrada aqui, e noticias em geral com um viés nuclear, aqui.



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*Se os sovieticos projetassem carros como projetavam reatores, andariam em monociclos motorizados movidos a nitroglicerina. E se dirigissem os primeiros como administravam os últimos, tentariam ajustar a altura do banco e a estação de rádio simultaneamente enquanto ultrapassavam retardatários pela contramão.


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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Casa, Rio de Janeiro
Et tu Galyna?


Se até a enfermeira ucraniana peituda abandonou o Kadafi, o fim realmente deve estar próximo.

Estou meio obsecado com todas estas revoluções no Oriente Médio e adjacencias. Acho que consigo desenhar de cabeça um mapa razoavelmente preciso da Libia no momento, com areas de influencia tribal e oleodutos indicados. Eu só fiquei sabendo que os Oscares sairiam hoje devido a uma chamada no intervalo comercial da CNN.

Seguindo nesta linha, nesta 4a fui em um lugar chamado 'Midrash' para assistir uma palestra sobre 'O Oriente Médio e a revolução egipcia'; informativa, mas atropelada pelas notícias mais recentes vindas da Líbia. O mais interessante, porém, foi a roda de discussão que se formou depois, já na rua, e que incluiu um professor de sociologia, o rabino local, uma senhora cuja família foi expulsa de Alexandria pelo Nasser após a nacionalização do canal, e a Renata Malkes, da editoria internacional dO Globo (que eu só conhecia de Facebook). Nunca subestime o poder da serendipidade...

O fato é que enteder o que está acontecendo já é difícil o bastante; previsões então são pouco mais que meteorologia política. Pode chover, pode fazer sol. Tragam guarda-chuvas. Em relação ao Egito, o esboço histórico mais claro que li é esta monografia. A situação na Líbia é fluida demais para qualquer análise comparável; mas é sempre útil procurar saber, na medida do possível, como andavam as coisas por lá quando o Saif Kadafi ainda parecia são. Para quem não pode esperar, a Mona El Tahawi (egipcia) não dorme, come, ou faz outra coisa que não twitar sobre as revoluções várias; e o Andy Carvin é o curador de tweets Líbios de dentro e fora do pais.


Finalmente, embora a situação por lá seja trágica e esteja longe de ser motivo para piadas, eu acho justo, e talvez até necessário, ridicularizar o jeito Kadafi de ser, e em particular a sua escolha de vestuario.

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