sábado, 12 de novembro de 2011

Mount Vernon Convention Center, Washington DC
Save Ferris

Eu conheci o Anthony quando vim para o SfN em Washington pela primeira vez, a 3 anos atrás. Eu precisava de um lugar para ficar, e enviei meio a esmo um pedido para me hospedar na casa dele logo após criar uma conta no Couch Surfing.

Eu não tinha referências, amigos ou histórico no site, mas por qualquer razão ele aceitou o meu pedido. Ficamos amigos, e neste ano ele veio (foi...) ao Rio, onde eu organizei um coloquio no qual ele ensinou os rudimentos da linguagem de programação R para o povo da biologia. Quando mencionei que iria novamente à Washington para outro congresso, ele me convidou novamente para ficar na casa dele. Novamente, eu aceitei.

O Anthony acaba de comprar um apartamento. O que significa que seu apartamento antigo (alugado) está vago até o final do mes. Estava, porque estou lá instalado, a dois quarteirões do centro de convenção. Nada de um sofá na sala de outrém: Tenho o apartamento só para mim.

No dia em que cheguei, o Anthony também me convidou para jantar na sua nova casa. Conheci lá um colega dele chamado Matthew. Ao ouvir eu mencionar casualmente os meus hábitos ciclísticos, ele prontamente ofereceu sua bicicleta reserva, para eu usar enquanto estivesse aqui. Claro! Fui pegar a bicicleta no dia seguinta, e fiquei sabendo que a sua namorada estava dando uma festa celebrando a chegada de sua nova roomate. Eu não gostaria de ir? Fui, e encontrei diversas pessoas simpáticas e interessantes. Terminei a noite em uma profunda discussão sobre o significado epistemológico das coincidências para a teoria da evolução de Darwin.

Entre apartamentos, bicicletas, jantares e festas, estou com uma sensação um tanto Ferris Bulleresca, com pessoas que vou encontrando fortuitamente tornando a minha vida mais facil e confortável espontaneamente, sem nenhum esforço significativo (ou mesmo pedido) da minha parte. Acho que poderia me acostoumar com isto...

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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Embassy Row Hotel, Washington DC
O número 1 é o sucessor do número 0!

Hoje, as 11:11 do dia 11/11/11, a unicidade do número 1 será comemorada com a leitura dos axiomas de Peano sob a sombra do monumento a Washington.



  • 1. Existe um número natural 0;
  • 2. Todo número n tem um sucessor n' no conjunto dos números naturais (\mathbb{N})
  • 3. Não existe nenhum número natural que tenha como sucessor o número 0;
  • 4. Se n e m forem números naturais, e se n'=m' então n=m ;
  • 5. Se 0 tem uma propriedade e esta propriedade também é possuida pelo sucessor de todos os números naturais que a possuem, então ela é possuída por todos os números naturais.

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Aeroporto Intercontinental (!) George W. Bush, Houston
I love the smell of high fructose corn syrup in the morning

Não sou o primeiro a observar isto, mas o aparato de segurança aérea nos EUA parece considerar o bom senso elementar como uma ameaça mais grave que a Al Qaeda. Entre apalpadelas e raios-x, comentários jocosos e piadas são recebidos não exatamente como hostilidade, mas com a incompreensão impaciente de quem não parece estar familizarizado com o conceito de 'humor'. Alias, o alto-falante repete a cada 2 minutos que piadas sobre a segurança podem levar a prisão do piadista. Suponho que representem uma ameaça clara e imediata à auto-estima dos funcionários. De qualquer forma, talvez seja prudente eu ficar calado.

Fora da área de segurança, a convivencia é mais natural. De fato, impressiona a disposição de americanos randômicos de entabular conversas amigáveis com completos estranhos. É algo que eles têm em comum com nos brasileiros, e que nos distingue ambos da maior parte dos europeus.

PS: Eu poderia saber que estou nos EUA só pelo gosto da Coca Cola. É o tal HFCS usado aqui como substituto (piorado) de açucar de verdade. Uma consequencia dos subsidios agricolas locais, capaz de induzir em mim arroubos agudos de neoliberalismo anti-protecionista.

UPDATE: No avião agora. A Continental me deu um upgrade, então tenho que escolher entre um omelete de cogumelos e cereal. Não tenho certeza, mas talvez esta seja a primeira refeição decente em um avião que terei nos EUA.

UPDATE2: Ué, até que foi bom este café da manhã aéreo. Comi o tal omelete de cogumelo, alguma coisa feita de batata e creme de espinafre bastante respeitável, presunto grelhado, mini-hamburguer, salada de fruta, iogurte e um bagel. Café e suco de laranja de verdade servidos em copos de verdade. Por mais que meus instintos demóticos protestem, não tenho muita vontade de regressar a hói poloi da classe econômica...

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro

Estou a caminho de Washington, DC, para mais um neuroscience. Não posso escrever muito, porque a Continental está chamando os assentos em ordem decrescente, e o meu está no próximo grupo. Para variar, até que a fila formada não foi uma vergonha nacional. Em Houston escrevo mais.

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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sala dos Profs. 1BR2 e Pará, UFSJ/CAP, Ouro Branco
Neurônios, círculos no céu e zumbinos

O campus do Alto Paraopeba da UFSJ é um agradável prédio de 2 1/2 andares em uma colina de onde se descortina panoramicamente a serra de Ouro Branco e redondezas. O seu departamento de física, por outro lado, é populado por uma turba desinibidamente insana de nerds talentosos, muitos dos quais são meus ex-colegas de UFMG. Estou aqui, desde ontem de manhã e até hoje a noite para dar duas palestras: A primeira sobre o meu trabalho em neurociência e a segunda sobre o meu trabalho com cosmologia. Um conjunto eclético de temas, eu diria, onde eu era ora um cosmólogo falando sobre neurônios, ora um psquisador em um laboratório de neuroanatomia comparada discutindo topologia cósmica. Mas entre uma e outra palestra, acabamos discutindo também o meu modelo de dinâmica populacional de zumbis, e postulamos a existência do zumbino, o parceiro supersimétrico do zumbi, necessário para que os diagramas de Feynmann das interações humanos-zumbis façam sentido*. Um dia produtivo...

Como já afirmei anteriormente, passar tempo com meus colegas físicos é como voltar para casa, em vários aspectos. Pessoalmente, é muito bom cozinhar, brincar com os filhos e explorar a natureza local com meus amigos. Cientificamente, por mais confortável que eu me sinta entre os biólogos, sou culturalmente, por inclinação e por formação, um físico, e é com eles que me comunico na minha lingua científica materna.

De fato, somos uma profissão um tanto hermética, e isto leva a um certo tribalismo exarcebado. Suponho que a minha sensação quase instantânea de conforto quando estou de volta ao convívio com minha tribo esteja em proporção direta com o desconforto, ou pelo menos estranheza, sentidos por quem com ela convive sem fazer dela parte. Não me refiro somente a barreiras culturais obvias, com as inúmeras piadas de Heisenberg ou as reminicências sobre antigos professores; penso também na nossa capacidade emendar todo tipo de assunto em uma conversa usando os ganchos mais estapafúrdios como tecido conjuntivo retórico, ou o nosso talento para improvisar modelos qualtitativos, em conversas de botequim ou assemelhadas, sobre qualquer que seja o objeto do nosso interesse no momento: da formação de costelas em estradas de terra à dinâmica auto-emergente dos garçons. Nos pensamos de forma diferente da maior parte das pessoas, e temos orgulho disso.

De qualquer forma, pretendo voltar. Ainda temos muito o que discutir a respeito dos zumbis, e também quero subir a serra de Ouro Branco de bicicleta.



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* O modelo em questão é clássico, mas caminhamos na direção de uma quantização...

PS: Abaixo, os resumos dos seminários




Como construir um cérebro: Alometria, leis de escala e universalidade em cérebros de mamíferos
Bruno Coelho César Mota
Laboratório de Neuroanatomia Comparada – ICB/UFRJ

Cérebros, humanos ou não, são provavelmente as estruturas mais complexas conhecidas. Mesmo se nos restringirmos somente aos mamíferos, encontramos cérebros cuja massa varia entre alguns décimos de gramas até vários quilogramas, regendo o comportamento de uma enorme variedade de animais com histórias evolutivas, habitats e dietas radicalmente divergentes. Mas todos estes cérebros compartilham a mesma bioquímica, e são compostos pelos mesmos tipos de células organizadas em estruturas fisiológicas substancialmente análogas. Desta forma, cabe a pergunta: Existem regras universais quantitativas que descrevem a estrutura cerebral entre as várias espécies? Qual é a abrangência destas regras, e qual é a sua forma matemática? Afinal, de quantos graus de liberdade a seleção natural dispõe para moldar cérebro de cada espécie às suas circunstâncias únicas? O cérebro humano é único de alguma forma, ou é o que esperariamos encontrar na cabeça de um primata com a nossa massa corporal e dieta?

Eu sou um físico por formação, e trabalho atualmente no Laboratório de Neuroanatomia Comparada do ICB/UFRJ. Eu e meus colegas biólogos procuramos verificar a existência de tais regras baseados nos dados experimentais obtidos no próprio laboratório. Queremos usar técnicas e métodos desenvolvidos originalmente para as ciências exatas para entender a origem destas regras de escala biológicas, e usa-las para tentar explicar um pouco sobre o funcionalmento, desenvolvimento e evolução do cérebro.

Neste seminário, pretendo mostrar que as relações matemáticas observadas quando comparamos as várias quantidades mensuráveis nos cérebros de diferentes mamíferos (número de neurônios, massa, áreas superficial), válidas separadamente para cada ordem (e.g. primatas e roedores) e estrutura analisada, tomam uma forma matemática bem específica, chamada lei de potência, por razões que podemos obter de forma simples a partir de primeiros princípios. Tais relações entre quantidades conhecidas podem ser usadas, lançando mão de algumas hipóteses simples e biologicamente plausíveis, para derivar as relações equivalentes entre quantidades que não somos capazes de medir diretamente (e.g. o comprimento e calibre médios dos axônios, as fibras neuronais que enviam sinais para outros neurônios). Tomadas em conjunto, todas estas regras de escala explicam grande parte da variabilidade observada entre os diferentes cérebros, e sugerem uma explicação para as variações no grau de convolução das superfícies de córtices cerebrais. Finalmente, veremos que, a partir das regras de escala a princípio diferentes aplicáveis a diferentes ordens e estruturas, podemos deduzir a existência de uma quase invariância no tamanho celular médio e fração de massa correspondentes às células não neuronais, que parece ser universal na construção de cérebros mamíferos. Usamos esta universalidade para calcular, pela primeira vez até onde sabemos a massa média dos neurônios para os cortices e demais estruturas de todas as espécies que estudamos.

A forma (local) do Universo: Detecção e detectabilidade da topologia cósmica e a procura pelos círculos no céu.
Bruno Coelho César Mota
NACO - ICB/UFRJ

Nas últimas décadas, a cosmologia baseada na hipótese de um Big Bang quente com sua dinâmica dada pela teoria da relatividade geral tem sido extremamente bem-sucedida em explicar precisamente uma grande quantidade de observações. O surgimento da chamada cosmologia de precisão, em particular a observação das anisotropias da radiação cósmica de fundo, só fez confirmar os fundamentos deste modelo, com uma acuidade sem precedentes. Mas isto não é suficiente para determinar completamente a forma do Universo. A  relatividade geral  é um teoria local, que especifica localmente a geometria do espaço-tempo, e não determina (embora restrinja) a topologia do espaço. Supondo homogeniedade e isotropia espaciais (locais), a geometria das sessões espaciais do Universo (i.e., folheamentos para tempo comóvel constante) em grandes escalas é totalmente caracterizada por uma curvatura gaussiana constante, cujo valor e sinal depende da densidade média de matéria-energia. Mas, seja para curvatura positiva, negativa ou nula, existe uma infinidade de 3-variedades com diferentes topologias permissíveis, só uma das quais em cada caso é simplesmente conexa. Como não existe atualmente uma teoria bem aceita que  determine qual a topologia do espaço, esta portanto só pode ser determinada experimentalmente. Pretendo mostrar inicialmente que, embora haja um grande variedade de topologias possíveis, no casos de um Universo pós-inflacionário, mais fovorecido atualmente por razões teóricas e observacionais, a forma local do Universo, i.e. os elementos da topologia que podem efetivamente ser detectados, são em quase todos os casos surpreendentemente mais restritos.

A consequencia mais direta de uma topologia não trivial para as sessões espacias do Universo é a existência de classes de geodésicas fechadas do tipo espaço; essencialmente há mais de uma maneira de se voltar ao mesmo lugar. Isto implica na existencia de imagens múltiplas de objetos cósmicos, a luz advinda dos quais pode ser então detectada de vinda de direções diferentes. Como a caracterização destas classes (o grupo de holonomia) é suficiente, para as 3-variedades de curvatura constante em questão, para caracterizar totalmente sua topologia, então a busca pela topologia cósmica é equivalente a procura por imagens múltiplas de objetos cósmicos. Vou apresentar o método atualmente mais promissor para efetuar esta busca de forma sistemática, os chamados círculos no céu, que procura por pares de círculos de anisotropias correlacionadas na radiação cósmica de fundo. Mostrarei como os resultados referentes a forma local do Universo e a caracterização dos grupos de holonomias das variedades planas podem ser usados para efetuar tal busca de forma mais eficiente, e como interpretar os seus resultados.

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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Casa, Rio de Janeiro
Cérebros novos e usados



Fui convidado para dar uma palestra sobre o Cérebro. Nenhum problema com o tema; sou físico, não biólogo, mas acho que tenho coisas relevantes para dizer sobre o assunto. Mas como falar sobre o cérebro para uma turma de crianças de 5 a 6 anos? Em menos de meia hora, devo acrecentar, pois este é o tempo máximo que plausivelmente eu conseguiria manter a atenção deles.

Foi o que fui descobrir hoje de manhã, na escola do Gabriel. No final das contas, eu não precisava me preocupar tanto; foi uma audiencia mais interessada e participativa que a de muitas plateias nominalmente adultas. Uma aluna queria saber porque as sensações tem que todas passar pela medula, outro sabia os nomes dos ossinhos do ouvido interno, e um terceiro queria que eu mostrasse no modelo de plástico que levei onde ficava a substância cinzenta... O Gabriel não parava quieto, e era um dos que mais perguntava e comentava, com uma misturo de orgulho filial e ansiedade para se comunicar que lhe é bem característica.


Hoje a noite cheguei em casa e me deparei com um cartão de agradecimento e um maço de papeis onde as crianças desenharam o que haviam entendido da palestra (a professora anota, embaixo, a descrição nas palavras dos autores). Nem menciono o chocolate que ganhei deles mais cedo. Uma palestra muito bem remunerada, eu diria.

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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Van do Senhor Volante, Rio de Janeiro
Road rage



Andar de van no Rio de Janeiro pode ser cansativo e demorado, mas raramente é entediante. Digo isto por experiência própria, já que estou dentro de uma as 19:20 da noite, em um engarrafamente que se estende para dentro da universidade. Ao que parece uma carreta virou na linha vermelha.

Existem somente duas saidas para carros do fundão, mas as maneiras de chegar até elas só são limitadas pela criatividade do motorista. O meu atual condutor resolveu passar em frente ao quartel dos bombeiros e avançar celerado pela contra-mão até a saida do Hospital Universitário, confiando na aplicação generosa de sua buzina para limpar o caminho a frente. Buzina que alias é dotada de um sintetizador de voz, e emite frases simpáticas como ´Sai da frente!´ e ´Ô coisa feia!´.

Saindo finalmente pelo portão, seguimos inicialmente rumo à Ilha do Governador, saltamos por cima do canteiro que divide as pistas, e estamos agora a caminho de ´Laranjeiras, prefeitura, Copacabana´, como afirma o sempre prestativo sintetizador de voz da van.

Como um exemplo do emprendedorismo informal local, as vans são tão variadas quanto os cariocas. Algumas são geridas como uma operação de guerra, se movendo taticamente para ficar logo a frente dos ônibus e pegar os pontos cheios; e se coordenando por Nextel para evitar blitzes e encontrar caminhos menos congestionados. Outras tem um clima mais relaxado, com motoristas loquazes seguindo uma rota que vai sendo negociada em tempo real com os passageiros. E existem aquelas que bem poderiam ser versões do Pecquod em quatro rodas, com um Ahab taciturno na direção imbuido de uma pressa monomaníaca (para chegar mais cedo no seu encontro fatídico com uma baleia branca, suponho), e que claramente toma a presença dos demais carros na pista como um insulto pessoal.


Não digo isto para dar a entender que os ônibus aqui são tranquilos e previsíveis. Os motoristas do 485 (Pça. General Osório - Fundão - Penha) dirigem como candidatos a peões de rodeio, são notoriamente criativos na escolha das rotas, e tem como lema o altivo brado ´ALGUÉM VAI FICAR NO CATUMBI?!´. Mas só em uma van carioca é possível encontrar um aviso que diz

"Se você sentir um rato ou barata subindo na sua perna, não entre em pânico. Ele está ai devido aos restos de comida que você deixou cair no chão"

PS: Cheguei em casa. A vantagem da demora no trânsito foi que consegui escrever quase o post todo sem distrações.

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Hotel Tivoli Oriente, Lisboa
Tauromaquia televisiva

Estou agora assistindo uma tourada portuguesa na televisão. Por mais carnivoro que eu seja, eu não gosto da ideia de torturar um animal até a morte como forma de entretenimento. Mas a tourada portuguesa parece ser um pouco diferente da espanhola. As roupas são menos espalhafatosas, e, evitando o crochê colante em cores berrantes dos espanhois, o toureiro luso se veste como um figurante manuelino em uma versão de ´O Conde de Monte-Cristo´. Ao entrar na arena, a cavalo e anunciado por um corneteiro, ele inicialmente declama algumas amabilidades para um rapariga vestida a carater cuja função exata me escapa, mas que parece ser mais que meramente decorativa. Ele então começa a picar o touro, ainda a cavalo, com bandeirolas coloridas dotadas de um espeto de metal na ponta. E, tenho que dizer, cavalo e cavaleiro são excepcionais. O cavalo anda de frente, de lado, de costas. Trota até o touro e sapateia em sua volta, até que este último, completamente confuso e com um número crecente de bandeirolas fincadas nas costas, parte em fútil perseguição. O toureiro controla as redeas com uma das mãos (a outra segura a bandeirola), enquanto vai produzindo ruidos um tanto guturais na garganta; não sei se para irritar o touro ou orientar o cavalo.

Depois que o touro foi suficientemente espetado, entrou na arena um grupo de homens com uniformes marrom-ocre. Inicialmente não entendi bem o que pretendiam. Eles se aproximavam do touro cuidadosamente, desarmados, mas rapidamente saltavam o alambrado se este demonstrava um pouco mais de entusiasmo. Aos poucos, manobraram o bovino até um extremo da arena, enquanto formavam uma fila indiana no lado diametralmente oposto. O primeiro homem da fila (e mais próximo do touro) sacou e vestiu então um gorro verde que deve ter ganhado em algum estágio na oficina do papai noel, e começou a gritar TOIROTOIRTOTOIROTOIRO. O toiro, vendo finalmente humanos sem instrumentos pontiagudos, capas ou meios de fuga equinos, resolve sem muita dificuldade brincar de boliche humano, e arremete na direção do grupo. O homem do gorro verde então salta *para cima do animal* e agarra os chifres , enquanto seus colegas se empilham a sua volta e um deles segura o rabo. O objetivo, parece, é imobilizar o touro usando somente a força humana e doses maciças de insensatez. Ao contrário dos toureiros, que são profissionais, estes grupos de agarra-bois são amadores. O primeiro que assisti precisou de quatro tentativas para imobilizar o bicho. A cada tentativa, o homem do gorro era jogado ao solo, e ia ficando mais estropiado e com a roupa mais amassada. Eventualmente, já sangrando profusmente, conseguiu de alguma forma se manter estatelado sobre a testa do touro por tempo suficiente para que seus colegas o imobilizassem. Por mais maluco que seja este passatempo, pelo menos o únicos que podem se machucar são aqueles que escolheram correr o risco, e não o pobre touro que não tem a menor ideia do que está acontecendo.

No final das contas, os touros foram picados, agarrados e imobilizados, mas não mortos (pelo menos não em frente às cameras; se viraram churrasco depois eu não posso dizer). Não sei se esta é uma peculiaridade de todas as touradas portuguesas, mas isto certamente tornou esta tourada que acabou mais facil de assistir que as açouguices dos espanhois.

PS: O último toureiro espetou duas bandeirolas simultneamente no touro, um com cada mão, enquanto controlava o cavalo com o joelhos. Impressionante.

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