domingo, 26 de julho de 2009

Casa, Rio de Janeiro
39.1 C, Apocalipse XII e sarcófagos apertados

Estou de volta ao Brasil. Cheguei na quarta de manhã, e em poucos dias peguei uma gripe sinistra (mas não suína, aparentemente). Passei de indisposto na 5a, para mal na 6a, pré-febril no sábado e febril no domingo (hoje). Espero que esta progressão pare logo...

Viajar é bom, mas eu estava com muita saudade da minha família. Um mês é tempo demais...

O meu último dia na França foi uma sequência de viagens de volta: De Pontorson de volta à Caen, de Caen de volta à Paris, da Gare Saint-Lazare de volta à casa da Jacqueline, da casa da Jacqueline de volta ao aeroporto, e de Paris de volta para o Rio. De forma bem pouco característica, fiz todas as conexões com tempo de sobra, e ainda consegui fazer um pouco de turismo de úttima hora. Em Pontorson andei de bicicleta pela cidade, e tomei um lauto café da manhã em um hotel mais arrumado*. Os Hill vieram buscar a bicicleta exatamente no horário combinado, e peguei meu trem para Caen.

Em Caen, visitei rapidamente o castelo ducal de Guilherme, o Conquistador. Na sua época, era um dos mais fortes castelos da Europa, e hoje guarda em seu interior um profusão de museus e cafés. O destaque não óbvio fica por conta da série de esculturas de animais fantásticos colocados em pilastras de madeira (dependendo do meu humor, posso compará-los ao 'Livro dos seres imaginários', do Borges, ou ao Monster's Manual, do AD&D).

Fui também na igreja de Saint-Pierre, construida entre os seculos XIII e XVI, e incorporando elementos de todos os períodos do gótico normando. Ela serviu de refúgio para o Caenenses quando os aliados trituraram a cidade tentando desalojar os alemães em 1944 (a torre, bastante famosa, foi destruida pela artilharia, e reconstruida décadas depois). Existem pequenos detalhes arquitetonicos interessantes em número grande demais para descrever (fotos aqui), mas eu gostaria de chamar a atenção para um vitral bastante recente (década de 1950), comemorando dois religiosos mortos no bombardeio 1944. Uma moça, carregando um cálice e um cruz, e cercada de estrelas e com a lua aos pés, é atacada por um criatura medonha de 7 cabeças. A situação parece desesperada, e a primeira vista o vitral parece sombrio e pessimista.

Mas no topo da imagem, aparece o número 12, e trombetas. O vitral se refere à Apocalipse XII, e a senhorita é a mãe do cristo renascido (representado pelo cálice), que passou 3 anos e meio no deserto perseguida pela criatura. O que está a ponto de acontecer logo em seguida é a chegada do Arcanjo Miguel (sobre quem aprendi um pouco em Mont Saint-Michel), que vai descer o sarrafo no tal bicho de sete cabeças. Longe de representar a desesperança, o vitral mostra que mesmo quando a situação parece desesperada a salvação pode estar a caminho. Ele se refere não só à profecia bíblica, mas também a ocupação nazista da França. Que durou pouco menos que 4 anos, e na época parecia que duraria para sempre. Mas em 6 de Junho de 1944, as trombetas soaram, e os aliados desembarcaram nas praias a poucos quilometros de Caen. O arcanjo havia chegado, finalmente**.

Não tive tempo de visitar o túmulo do Guilherme na Abbaye-aux-Hommes, mas sei que ele morreu na França, e e não só estava muito gordo na ocasião, mas também passou um bom tempo cozinhando entre a morte e o enterro. Durante a cerimonia, os bispos descobriram, consternados, que o defunto não cabia no seu sarcófago. Tentaram então fazer uma forcinha para ver se entrava no tranco, e como consequência o seu abdomem se rompeu e a capela foi tomada por fedor pestilento indescritível.


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* Le Montgomery, a antiga residência dos condes de Montgomery, para onde o último deles se retirou após matar o rei da França acidentalmente em um torneio. Ele se converteu ao protestantismo, fugiu do pais, voltou, comandou uma insurreição, foi capturado e executado. Recomendo em particular a geleia caseira.

** Interpretação alternativa: A besta do apocalipse atira shurukiens contra a mãe do cristo, mas esta desvia habilmente de todas, enquanto calmamente bebe seu chá no cálice sagrado. Enquanto as trombetas tocam sua musica-tema, ela diz: 'agora você vai experimentar a fúria da técnica xaolin do bastão com cruz!'

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terça-feira, 21 de julho de 2009

TER Basse Normandie, entre Pontorson e Avranches
Quando a maré encher


A dois anos os Hill, um casal de ingleses, resolveram se instalar na Bretanha, e viver de alugar bicicletas. É só ligar para eles de qualquer lugar da região, e em 40 minutos John e/ou Verônica chegam com sua bicicleta, capacete, colete reflexivo e kit para pneu furado. A devolução é feita da mesma forma. Acho que esta viagem se tornou perfeita para mim quando alugar uma bicicleta se tornou tão simples quanto pedir uma Pizza. Em inglês.

Resolvido o meu problema com o banco (graças ao skype e a velhinha do café), sai da penúria, arrumei um quarto em um hotel 'simples', e liguei para o John. Quarenta e cinco minutos depois, exatamente no horario combinado vejo da janela do meu quarto uma van dobrando a esquina, com uma bicicleta no capô e um casal de meia idade no interior (eu já falei que eles são ingleses? São praticamente um esteriotipo nacional ambulante. Chegaram exatamente no horario marcado, e me confiaram uma bicicleta em troca de pouco mais do que um aperto de mão). Parti imediatamente para Mont Saint-Michel.

Choveu a maior parte do percurso, mas de capa de chuva e ouvindo Handel em meu ipod, mal notei a agua cair. A distância entre Pontorson (=Pont Orson, a ponte que um certo Orson construiu para o pai do Guilherme o Conquistador para facilitar suas incursões na Bretanha) e Mont Saint Michel é de meros 9 km. Fui por uma série de estradas rurais paralelas à rodovia principal, passando por simpáticas (mas em alguns casos, decrépitas) casas e vila centenárias, e por um moinho a vento, estilo Don Quixote, ainda em funcionamento. Do topo da colina do moinho, o Mont Saint-Michel apareceu pela primeira vez, fantasmagórico e coberto por brumas, quase como uma visão. Durante a idade média, era relativamente comum que crianças abandonassem suas famílias e partissem em peregrinação expontânea até lá. Depois desta episódio, acho que as entendo um pouco melhor.

O Mont Saint-Michel é uma pequena formação rochosa na costa da Bretanha, sujeita a uma das maiores variações entre maré cheia e vazante em todo o mundo (12 metros no máximo, na lua cheia perto do equinócio). Todos os dias, portanto, ele alterna entre ser uma ilha cercada pelo mar, ou uma montanha cercada por baixios de lodo. Como o gradiente do terreno é muito pequeno, a maré pode avançar ou recuar rapidamente, da ordem de metros por segundo. Esta entidade geológica de natureza dúbia é dominada por uma abadia espetacular construida em seu topo, dedicada a São Miguel Arcanjo. Ela existe desde pelo menos o seculo VIII (o local era
anteriormente habitado por eremitas), e foi reconstruida na forma atual pelos primeiros duques
da Normandia (ex-vikings, a quem o rei da França doou a região para ser deixado em paz, e que em troca se converteram ao cristianismo). Uma pequena cidade medieval cresceu em volta da abadia, e muralhas imponentes foram adicionadas ao longo dos séculos subsequentes (e bem empregadas na guerra dos 100 anos, entre outras).


O monte tem uma história pitoresca, e um certo talento para agregar mitos de plausibilidades variadas. Foi utilizado como prisão a partir da revolução francesa até o seculo XIX, quando foi redescoberto pelos romanticos a procura de 'autenticidade'. Foi reformado e em parte reconstruido, e se tornou uma meca turística desde então. Parte desta autenticidade é obviamente manufaturada em beneficio dos turistas; mas por outro lado os responsáveis pelo monte não fazem mais do que retomar a antiga tradição do local como foco de peregrinações, incluindo a venda de quinquilharias superfaturadas (ícones religiosos fabricados em massa antigamente, chaveiros e imãs de geladeira provavelmente made in China atualmente) e a profusão de histórias pitorescas. De qualquer forma, nenhuma reforma alterou substancialmente a natureza do Mont Saint-Michel, que continua tão espetacular quanto era na idade média. Ele só não deve ser encarado como uma reliquia da idade média miraculosamente preservado em seu estado original, mas sim como um palimpseto desta e de todas as épocas subsequentes.

Não faz sentido ficar descrevendo o que é melhor visto em fotos. O que é infotografável é a velocidade com que a maré baixou (cheguei na maré cheia); em alguns minutos o que era uma espelho d'água calmo começa a baixar; ilhas se formam em seu meio e barrancos na sua margem. As ilhas vão crescendo até se interligarem*, e a água flui rapidamente pelo um estuário fractal que vai se formando. E o Mont Saint-Michel volta a ser montanha.

Durante o verão, a abadia fica aberta até 11 da noite, uma raridade aqui na França. Músicos se apresentam ao longo do caminho até o topo, que percorre todo tipo de nincho e reentrância que a arquitetura medieval poderia criar. Finalmente, o visitante emerge no pátio atrás da capela
virado para o lado do continente, com uma vista espetacular das muralhas e da cidade lá embaixo, enquanto o Sol se põe no mar.

A volta foi durante a noite, chovendo um pouco. Programa de índio para 99% da humanidade, mas eu gostei de andar por estradas rurais francesas desertas, com o Mont Saint-Michel ao fundo e o moinho iluminando o caminho à frente.


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*Uma transição de fase de segunda ordem em percolação! O momento em que existe invariância por escala é uma experiência quase religiosa ;^)

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segunda-feira, 20 de julho de 2009

L'Ete Cafe, Pontorson
Down and out in Pontorson and Mont Saint-Michel

Cheguei em Pontorson muito cedo hoje, com algumas ideias mas sem um programa fixo. Achei um hotel simpático, comprei o de sempre no Carrefour, tomei um café creme enquanto atualizava o blog, e me informei sobre horarios de onibus e aluguel de bicicleta. Mas só tinha um problema: Estou com 17 euros no bolso, e meus cartões continuam sem funcionar. Estou no momento sentado no café internet local (WiFi é muito parisiense, a coisa por aqui é ethernet!), de favor da velhinha monoglota que cuida do local, ligando furiosamente por skype para meu banco. Espero resolver a situação satisfatoriamente; senão, tenho o dinheiro exato para entrar na abadia em Mont Saint-Michel e pegar o RER da Gare du Nord para o aeroporto em Paris; tenho comida, casaco e capa de chuva, e estou me preparando para dormir em um matinho conveniente a meio caminho de Mont Saint Michel (planejava voltar andando de qualquer maneira).

Coincidentemente, enquanto vagava pela cidade a procura de um caixa eletronico que funcionasse (tentei todos), ao passar pela igreja local (ND de Pontorson), ouvi o som de um orgão tocado de forma solene. Entrei e me deparei com uma igreja normanda típica (embora esteja na Bretanha): Pesada, traços limpos (mas alguns arcos ogivais, não clássicos); escura com janelas muito luminosas; fria e com cheiro de pedra; e inspirando a sensação de contemplação e tranquilidade. Eu era a unica pessoa na igreja, pensei. Exceto pelo organista, que nem se deu o trabalho de me olhar enquanto eu andava pela igreja, e cada passo e clique meu parecia soar como um sino. O cara não era muito bom, mas a música soturna era extremamente apropriada ao meu estado de mendicante medieval munido de laptop. Depois de apreciar a musica e a situação por mais alguns minutos, sai e fiz meu piquenique sob a sombra do campanário.

UPDATE: Resolvi o problema. Adeus vida mendicante!

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Hotel Rennes, Caen
A vingança do rei Haroldo

Passei o dia de ontem pedalando pela baixa Normandia. Hoje embarco para Pontorson, a 10km de Mont Saint Michel, e acabo de descobrir que, pelo menos aqui, e hoje, nenhum de meus cartões de crédito funciona, nem como crédito nem em caixas eletrônicos. Vamos ver o que eu faço...

A chegada a Caen foi absurdamente civilizada. Peguei um mapa local, indicações de hoteis e as tabelas com horarios de trens já no saguão da gare; organizei o meu itinerário e comprei as passagens até Paris com um funcionario extremamente simpático, e atravessei a rua até um café com WiFi, para um pouco de cafeina e para subir o post anterior, bater um papo com a Naira por skype, e criar uma conta para a versão local do Velib. Me dirigi ao meu hotel, no mesmo quarteirão, onde consegui um quarto com o dono (monoglota, mas gente fina), tomei um banho, deixei a mochila, e sai, atravessande novamente a rua e retirando a minha bicicleta alugada para meu passeio até as praias do Dia D.

Caen é conhecida por essencialmente duas razões: A invasão normanda da Inglaterra em 1066 , e a invasão da Normandia a partir da Inglaterra em 6 de Junho de 1944. No primeiro caso, porque era a sede do ducado da Normandia; Guilherme o Conquistador está enterrado aqui e Bayeux com sua famosa tapeçaria estão a alguns quilometros de distância. No segundo, porque era um dos objetivos principais dos aliados, por ser um nodo de estradas de rodagem e de ferro e a chave para a marcha até Paris. Minha visita se concentrou nesta última, mas é impossível passar por esta região sem notar as inúmeras igrejas, abadias e fortificações remanecentes do período mais remoto.

Esta foi a primeira vez que fiz uso prático das minhas leituras de história militar. O meu mapa não era detalhado, mas eu sempre tinha uma ideia razoavelmente clara de onde estava através dos inúmeros memoriais às unidades e eventos do Dia D. A primeira parte do meu trajeto seguiu ao longo de um canal que liga Caen até o mar. Este canal (e o rio Orne, paralelo) protegia o flanco esquerdo dos aliados durante a invasão. A cerca de 10 km de Caen, uma ponte ligava as duas margens. Se os alemães controlassem a ponte, elementos de uma divisão blindada nazista (a 12a Panzer) poderiam cair sobre o flanco da invasão e desbaratá-la antes que uma cabeça de ponte fosse estabelecida. Era crucial que a ponte (rebatizada de ponte Pegasus em homenagem ao nome da operação) fosse tomada, e mantida até que chegassem os reforços.

Nas primeiras horas da madrugada do dia 6, uma unidade britânica em 6 planadores aterrisou (eufemisticamente falando; uma queda controlada seria um termo mais preciso) ao lado da ponte. Três dos planadores aterrisaram a poucos metros da ponte; a surpresa dos alemães foi total, e apesar das defesas preparadas a ponte foi tomada em menos de dois minutos. Ao longo de toda a noite, cerca de 100 homens liderados pelo major Howard repeliram contra-ataques alemães cada vez mais intensos. Com a manhã já avançando, exaustos, ouviram finalmente o inconfundível som de um gaita de foles: Os commandos do extremamente escocês coronel Lovat haviam chegado, marchando diretamente das praias, seguindo solenemente o gaiteiro pessoal do coronel.

Esta foi uma das 3 ocasiões onde a invasão correu o risco sério de ser derrotada. A tomada dos acessos à praia de Omaha foi outra (é onde começa o 'Resgate do soldado Ryan; a batalha final do filme foi inspirada pela ponte Pegasus, com a nacionalidade dos defensores transferida para o outrolado do Atlântico), e chego logo na terceira.

Uma cópia da ponte Pegasus ainda existe no local, com um pequeno memorial e museu ao lado.




Seguindo mais alguns quilometros ao longo do canal, cheguei finalmente ao mar, no extremo esquerdo da praia Sword. No dia D, esta praia foi invadida pelos britânicos. Assim como nas duas praias seguintes, Juno (canadenses) e Gold (britânicos novamente), as casas são construidas rentes à praia. Os alemães as usaram como pontos-forte, e muitas delas foram danificadas ou destruidas pela artilharia aliada. Atualmente, embora os balneáries locais estejam um tanto decadentes devido às passagens baratas da Easyjet, as casas (reconstruidas) em estilo normando permanecem extremamente charmosas, o que impede a região de se parecer com Brighton ou Guaraparí.

Devido aos ataques aéreos aliados, e ao engodo estratégico que convenceu os alemães que o esforço principal aliado seria em direção à Calais, só houve um contra-ataque significativo alemão. A 21a Panzer atacou em direção ao mar, e conseguiu separar os britânicos em Sword dos canadenses em Juno. Esta foi a terceira e última grande ameaça ao sucesso da invasã. Mas os desembarques aliados seguiam em ambos os flancos da 21a, e planadores traziam reforços para os paraquedistas britânicos em sua retaguarda. Sem apoio aéreo e sem a ajuda da 12a (graças ao Major Howard e cia.), os veteranos di Afrika Korps se retiraram. Foi a última vez que viram o canal da mancha.

Pedalando ao longo da praia, e passando pelos memoriais as diversas unidades que desembarcaram por lá 65 anos atrás, acho que adquiri pela primeira vez uma noção real da escala do Dia D. Entre sair e voltar a Caen, se passaram 5 horas, das quais devo ter pedalado por umas 3 horas (uns 45km no total). E mesmo assim, só cheguei até o extremo esquerdo da 2a praia (as bandeiras canadenses indicavam que eu havia chegado em Juno). Foram 5 praias no total, fora as areas de aterragem de paraquedistas e as falésias em Point du Hoe. Números por si só (10.000 aviões, 200.000 homens, 3000 navios, etc.) não conseguem transmitir a enormidade do empreendimento.

A partir do molhe em Langrunne sur Mer, virei para o continente, para seguir de volta à Caen. Foi ao longo desta estrada que os Canadenses avançaram, lutando por cada metro, para finalmente tomar a cidade em Outubro. O plano original era tomá-la no 1o dia; mas sabendo do perigo que sua queda representaria à sua posição em Paris, os alemães se aproveitaram da hesitação inicial aliada (em parte provocada pelo ataque da 21a), e reforçaram sua defesa com todas as unidades disponíveis. Foi só quando os americanos na flanco direito (enfrentando menos oposição) cortaram a peninsula de Cotentin e arremeteram para leste a partir de Avranches, ameaçãndo cercar um corpo inteiro do exército alemão, que estes últimos foram forçados a se retirar. Após sua vitória na batalha da Normandia, os aliados avançaram rapidamente, até Paris e além. Mas no final do ano, com dias mais curtos para apoio aéreo, e linhas de suprimento mais longas, o avanço perdeu fôlego, e os alemães se recuperaram. A perspectiva de uma derrota nazista ainda em 1944 se mostrou ilusória, e britânicos, canadenses e americanos (e russos, e poloneses, e franceses, e brasileiros, e mais meio mundo em armas) enfrentariam um inverno duro antes da vitória final em agosto de 1945.

Eu cheguei em Caen pouco antes da meia noite. Passei pelo castelo e algumas igejas e abadias iluminadas (é uma cidade pequena), e voltei para o hotel. Tenho ainda muito o que andar antes de voltar para o Brasil.

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domingo, 19 de julho de 2009

Gare Saint-Lazaire, Paris
A Bastilha cai todo ano


Além do Chuck Norris gaulês, tive um dia da Bastilha interessante aqui em Paris. Me encontrei com o Catão, Mariana, Sandro e Stella para um piquenique nos jardins do Museu Rodin. Como de costume, compramos quantidades monstruosas de comida, em volume e variedade. Enquanto os demais grupos se contentavam com o conteudo de uma ou duas tupperwares e uma baguete, iamos nos resfastelando com o piquenique do juizo final, com diversos tipos de queijos, embutidos, patês, pães, frutas e bebidas. Metade da comida depois, e após uma digestão prolongada deitados na grama, fomos ver as esculturas espalhadas pelo jardim (incluindo O 'Pensador' e o 'Portão do Inferno'); gostei em particular de 'Os burgueses de Calais', quatro figuras expressando ao mesmo tempo tristeza, resignação, desespero e raiva, enquanto caminham em direção ao acampamento dos consquistadores ingleses para entregar-lhes as chaves da cidade.

Segui então para a Ille de la Cité, onde me encontrei com a Jacqueline e o Catão para assistir um concerto de música de câmara dentro da Sainte-Chapelle: Vivaldi, com um pouco de Pachebel e (acho) Paganini, tocados por um violinista francês renomado e competente orquestra. Eu não canso de falar aqui no blog sobre o quanto eu gosto da Sainte-Chapelle (embora suspeite que meus leitores se cansem de ouvir a respeito). Assistir um concerto deste calibre lá dentro enquanto o sol se põe é indescritível.

Findo o concerto, fomos andando calmamente ao longo do Sena, em direção à Torre Eiffel. Uma breve pausa para um café, e para reencontrar o resto do povo, e seguimos para o Champs de Mars, para assistir o show de fogos, em comemoração a queda da bastilha e ao aniversário da torre. Não foi o show mais grandioso que já vi, mas provavelmente foi o que melhor integrou os fogos, a iluminação (que fazia a torre dançar) e a trilha sonora. De forma um tanto bizarra, esta última incluiu a abertura de 1812. É verdade que a obra incorpora trechos da Marselleise, e que os franceses não têm exatamente uma enormidade de opções no quesito vitórias militares nos
últimos séculos dentre as quais escolher; mas mesmo assim acho estranho ouvir uma música que comemora uma derrota militar da França em uma comemoração de sua data nacional.

Terminamos a noite com um piquenique noturno com as sobras do anterior, sobre uma toalha que achamos abandonada no gramado, e algumas coca-colas compradas a preços só ligeiramente extorsivos. Ao contrário da maior parte das centenas de milhares dos meus co-celebrantes, evitei o metrô estilo últimos dias de Pompeia, e voltei de Velib para a casa da Mariana.

Os dias seguintes foram menos turísticos, já que eu passava a maior parte do tempo assistindo a palestras, ou pedalando de um lado ao outro da cidade em direção a um dos inúmeros institutos, escolas e auditórios onde ocorriam as sessões paralelas. Devo dizer que, mesmo descontando a dispersão geográfica, o MG12 foi meio decepcionante: sem foco, e com plenárias chocas e paralelas só ocasionalmente interessantes. Mesmo assim, cozinhei para a Mari, Sylvain e André*, e consegui ir em alguns museus, igrejas e no cemitério de Montparnasse. Fiquei ainda orgulhoso do meu francês tosco quando o sistema Velib não computou a devolução de uma das bicicletas, e tive que navegar o menu telefônico e explicar a situação para um atendente monoglota (cuja noção de explicar melhor uma frase não compreendida era repeti-la mais alto). Tenho certeza que o nosso diálogo vai algum dia ser encontrado no Youtube em alguma compilação das piores barbaridades já cometidas contra a lingua de Racine (a lá 'As Árvores somos nozes'), mas consegui desbloquear a minha conta e extornar a cobrança ndevida.

Ontem de noite fui com a Jacqueline em um restaurante Tibetano ao lado do Panteão. Provei chá com manteiga (de vaca, não iaque, infelizmente) e sal, a bebida nacional da terra do Dalai Lama. É bebivel, acho que com o hábito posso até gostar. Aprendi também que 'obrigado' é, ou soa como, 'Tû-tch-Tchê' em tibetano (e 'Mêsh-kér' em basco, como descobri alguns dias antes). Voltamos para casa a pé, em outra caminhada noturna.

Hoje fomos mais cedo a L'Orangeria (que tem este nome porque durante o 2o império era uxada para guardar laranjeiras durante o inverno). As ninféias do Monet são indescritíveis (e, francamente, infotografáveis, o que não impede a maior parte dos visitantes de tentar; se o propósito todo da visita é ver as pinturas ao vivo, para que tirar fotos?). Dois pintores que não conhecia, mas achei particularmente notáveis: Didier Paquinon, contemporâneo em exposição temporária, e Chaim Soutine.

Passamos em seguida pela igreja de Saint Madalleine, que tem um certo charme neoclássico apesar da forma um tanto pesada. Assistimos uma orquestra de jovens (ingleses, pelo sotaque), no que parecia mais uma aula do que um concerto. O maestro passava o som com as várias alas, enquanto reclamava e corrigia a postura, volume e sincronia de seus pupilos. Primeiro artes plásticas, depois música: Creio que a divina providência, por meio do sistema educacional britânico, quer elevar a minha cultura artística...

Estou agora na estação de Saint Lazare, último ponto do dia, onde vou pegar um trem para Caen. Pretendo visitar as praias do Dia-D e e Bayeoux de bicicleta, e ir amanhã depois do almoço para o Mont Saint-Michel. Volto para Paris na 3a, e de lá para o Brasil no mesmo dia.

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* Salada de pepino, tomate, fetá e azeitona com molho de iogurte; endívias recheadas de alho poró e cogumelos, e risoto de pera, presunto espanhol e cogumelo portobello.

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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Palais de l'Unesco, Paris
Eles são especiais

Uma conversa em franglês, na exibição do exército francês nos jardins do Invalides em comemoração ao 14 de julho:

EU: Porque o seu fuzil é diferente do fuzil dos outros soldados (ele tinha um HK416, os outros, o FAMAS tradicional)
Soldado Francês: Estamos em transição para o fuzil novo
Eu: O exército inteiro?
SF (fazendo pose): Não, só as forças especias
Eu: Então vc é das forças especiais... Você já esteve no Afeganistão?
SF: (se esforçando para parecer perigoso e misterioso) Eu não sei...
Em geral, quanto mais 'especial' um soldado afirma ser, menos especial ele realmente é. A maior parte das autonomeadas 'forças ['de operações', na terminologia americana] especiais' no mundo são na verdade formações de infantaria ligeira bem treinadas. Por outro lado, se um cara troncudo não dá muito papo e afirma ser o cozinheiro, ou o faxineiro da base, provavelmente faz parte de alguma unidade ultra-secreta e é extremamente perigoso.

O equivalente gálico do SAS ou da Força Delta é o 1er RPIMa, e eles de fato usam o HK416; mas não são a unica unidade francesa a fazer isto. As forças de ação direta nos EUA ou no Reino Unido tomam bastante cuidado em proteger a identidade de seus membros, e não são conhecidas por ficarem fazendo pose para turistas acidentais. Por outro lado, o 1er RPIMa tem uma banda (!), então talvez as coisas funcionem de forma diferente na França.

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Apessoinha Bed & Breakfast, Paris
Adieu London, hello Paris

Os dias foram movimentados em Londres, e continuei com o meu novo hobby de caminhadas noturnas. Na 5a me encontrei com a Rima, e fizemos um tour a pé pela parte chique (posh) da cidade: Sloane Square, Chelsea, Kensington, etc. Sob muitos aspectos, caminhadas são uma maneira muito mais interessante de reencontrar amigos do que refeições em restaurantes. A experiencia é muito mais memorável, não ficamos presos ao ritmo imposto pelo serviço do restaurante (pedido/comida/sobremesa/conta), e é possível haver pausas na conversasão sem desconforto (e, reciprocamente, não existe a nescessidade de preencher cada minuto de silêncio com palavras); pausas não-desconfortáveis são um sinal de entendimento real entre duas pessoas (só em relações superficiais a conversa nunca para), mas é preciso algum tempo até achar o ritmo certo se estas não se vêem a muito tempo. Depois da extremamente agradável caminhada, me despedi da Rima e fui andando ao longo do Tâmisa a partir da ponte Chelsea, passando por uma usina termoelétrica fora de funcionamento (muito feia, mas por alguma razão tombada), e por uma monstruosidade em forma de pirâmide asteca, em frente à ponte de Vauxhall. Passei pelo parlamento e adjacências (habilmente iluminados, o que produziu em mim certos impulsos homicidas em relação a carregadores de bagagem holandeses), e finalmente peguei o metro em Embankment (ligando a trajetória do passeio com a da noite anterior)

Sexta fui em um jantar Iraniano, cozinhada pela simpática irmã do Reza (o meu colaborador em Londres, professor no QMUL). Discutir a situação no Irã com pessoas que nasceram e viveram lá é bem diferente do que debater o assunto com outros nerds de plantão na internet. É mais informativo também.

Sábado almocei com o João Guilherme e a Dani, primos meus que estão na Inglaterra (os Mota são uma especie adaptável). No caminho para o restaurante (estritamente falando, no caminho oposto ao caminho para o metro, porque confundi a direção devido a insistencia do sol neste hemisfério de andar do lado errado do ceu), passei por uma pequena mas animada manifestação contra a Igreja da Cientologia, uma picaretagem inventada por um escritor de ficção científica mediocre. Simpáticos os manifestantes. Alias, qualquer grupoque consiga combinar o meu desprezo pela Cientologia com o meu apreço pelos quadrinhos do Alan Moore merece aplausos (pessoas com mascaras de Guy Fawkes em Londres! Da próxima vez que estiver em Nova York vou procurar pelo doutor Manhattan).

Comprei ainda uma nova câmera (uhu!), e cheguei no aeroporto com uma antecedencia incomum. Minha bagagem foi revistada em detalhes, e eu não pude não explicar para o guarda o funcionamento do sextante de navegação que comprei em uma feirinha de antiguidades em uma igreja (st. James) em Piccadilly.

Cheguei em Paris, vim para a casa da Mariana e do Sylvain, dormi, e tive um domingo relativamente light; me registrei no congresso, participei inadvertidamente de uma missa maronita, e comprei o meu almoço em uma mercearia grega, onde discuti brevemente Tucídides com o vendedor (originario da Tessália) em franglês (o assunto surgiu quando ele me perguntou se eu conhecia a Grécia, e eu respondi que sim, mas só através de livros, e mencionei o dito cujo como exemplo). Não entendi direito se ele me disse que na época da guerra do Paloponeso a Tessália era uma terra bárbara, ou se ele reclamou que o Tucídides fazia parecer injustamente que era este o caso. Em ambos os casos, uma conversa interessante. Passei também mais de duas horas na Sainte-Chapelle, que ainda considero uma das coisas mais bonitas criadas pelo ser humano (os vitrais...). Se tiver tempo, escrevo um post dedicado a respeito; mas as fotos já estão no flickr.

Hoje fiz minha apresentação (que foi muito bem), e cozinhei um jantar para a Mariana, o Sylvain e o André: Salada de pepino, tomate, azeitonas e queijo fetá, com molho de iogurte; endívias recheadas de alho poró e cogumelo, e risoto de presunto espanhol, pera e cogumelos (inventei hoje, ficou gostoso). Falei com o Gabriel e a Ceci por Skype, li alguns emails, visitei alguns blogs, bloguei, etc. Por algum estranho efeito relativístico são agora 4:40 da manhã. Talvez eu devesse ir dormir...

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sexta-feira, 10 de julho de 2009

France House - QMUL, Londres
Holandando

Paris é monumental, construida para impressionar com suas grandes panorâmicas, mas transparecendo um certo artificialismo. Tudo é muito grande, muito espetacular. É preciso resistir a tentação de correr em estado de frenesí fotográfico de um monumento até o outro, ou de uma ala de seus cavernosos museus para outra, em uma tentativa fútil de 'ver tudo'. Mesmo sendo mais auto-referente e menos aberta que Londres ou Nova York, Paris é mais capáz de inspirar nos visitantes a sensação de reverência ressentida que o provincial estereotipicamente sente em relação à metrópole. O efeito provavelmente é intencional; Londres, Nova York se tornaram com o tempo cidades imperiais; a Paris atual foi projetada como tal.

Amsterdam é uma cidade em escala humana, construida compacta e sensatamente em volta de três canais. Não tem obras monumentais, mas impressiona pelo conjunto. Amsterdam é conhecível em um dia. Foi o que eu fiz com a Ana Júlia. Uma passeio agradável e sem pressa com paradas não programadas quando necessário para comida, bebida, cafeina ou descanso. Passeio este que fomos esticando gradualmente, de uma voltinha durante a tarde até uma caminhada pela madrugada.

A nossa primeira parada exemplifica bem o que eu quero dizer. O museu dedicado ao Van Gogh é pequeno, agradável e direto ao ponto. Seguimos a evolução de seu estilo desde seus primóridios através de pinturas colocadas em ordem cronológica, bem contextualizadas na vida artística e familiar do pintor, e acompanhadas de alguns objetos de interesse e salpicadas de obras de contemporâneos e colegas. Não há um destaque em particular para as obras mais famosas, que chegam meio sorrateiras e são muito mais marcantes por isto (talvez devido a seu uso da textura, Van Gogh no final da vida é muito impressionante ao vivo). Uma ou duas horas depois de entrar, já estavamos na rua, satisfeitos, a procura de um lugar para um almoço tardio (indiano, no caso).

O mais interessante da cidade são os detalhes, arquitetonicos e de outros tipos. Não há muito espaço livre, e cada pedaço foi usado e reutilizado diversas vezes: Das casas estreitas tombadas em angulos insólitos até o baluarte das muralhas da cidade que já foi casa de lastro, prisão, centro de dissecção e hoje é um café. Os canais são parte fundamental da rede de transporte local, e também são moradia para um número considerável de habitantes de barcos.

O lendário distrito da luz vermelha, por outro lado, é uma decepção. Em qualquer outro lugar do mundo, passear na zona depois de meia noite assume ares de uma atividade um tanto sórdida, e possivelmente arriscada. Em Amsterdam, isto significa desviar de musicos de rua jamaicanos e evitar as massas compactas de velhinhos em excursão. Qualquer ilusão de interagir com o lado B da cidade de alguma forma significativa, ou de trocar palavras amigaveis com alguma prostituta em pausa para cafezinho é destroçada pela Disneylandia sexual com que nos deparamos, organizada com a habitual eficiência tranquila dos holandeses. As prostitutas ficam segregadas em suas vitrines profissionalmente iluminadas falando ao telefone e demonstrando a mesma combinação de atenção profissional e desinteresse pessoal em relação a seus clientes em potencial que uma caixa de supermecado tem em relação a suas compras

Devido à geografia de seu pais, os Holandeses se tornaram um povo comercial (assim como, por exemplo, os fenícios), voltado para fora; prático, apto a adotar costumes estrangeiros, e (dentro do razoável), bastante tolerante. Não se incomodam em absoluto em falar inglês (e falam muito bem, condutores de bonde inclusos). Não encontrei nenhuma manifestação daquele narcisismo das pequenas diferenças que parece caracterizar seus vizinhos maiores; porém também senti falta de alguma idiosicrasia nacional que os caracterizasse como holandeses, e não como cidadãos do mundo que residem na holanda. Tenho certeza que tais coisas existem, e se tornariam obvias para um viajante que passasse mais do que um dia na cidade. Mas eu não tinha tempo.

Fisicamente, tanto Amsterdam em particular quanto a Holanda como um todo são lugares inventados. A cidade começou com uma barragem no rio Amstel (Amstel-dam!), onde hoje é a praça Dam e o centro mais velho da cidade; o pais foi em grande parte reconquistado do mar através de extensas obras de bombeamento e drenagem. De fato, há muito pouca natureza 'selvagem' em evidência por onde andei. Os agradáveis parques, por exemplo, ficam em polderes nas redondezas da cidade. Os Holandeses vivem onde e como escolheram viver, e não simplesmente onde o destino os colocou. Talvez por isto se ressintam tanto de imposições externas que os obriguem a alterar este modo de vida. Seja a invasão nazista em 1940, ou o prospecto da mudança climática, ou o radicalismo islâmico.

Eu sei porém que moraria em Amsterdam sem problemas. É uma cidade acolhedora, pequena mas não provinciana. Onde todos andam de bicicleta. Ou barco. Eu certamente gostaria de voltar lá, para um passeio mais extenso. Não ví o museu dos grandes mestres, nem interagi com holandeses de forma significativa. Por outro lado, posso dizer que andei por toda a cidade. Antes de pegar o bonde de volta para casa, nos alojamos em puffs macios em um parque da cidade para descansar um pouco e rever as fotografias que eu tirei (impulsos homicidas tomam conta de mim quando escrevo estas palavras; imagino carregadores de bagagem holandeses sendo torturados boschianamente). Dentro do curto tempo que tinha, conheci bem a cidade fisicamente. Mas nem cheguei perto de assimilar a textura histórica associada aos pequenos detalhes, dos quais gostei muito mas entendi muito pouco.

São Miguel Arcanjo (?)...

E um dragão/demonio...

e um elefante?

Eu definitivamente preciso voltar em Amsterdam para entender esta cidade direito.

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

France House - QMUL, Londres
Vida noturna


Estou aqui em Londres já a dois dias, habitando um excelente alojamento dentro do Queen Mary College enquanto colaboro com o Reza (professor aqui) e o Marcelo em um paper. A minha camera foi roubada da mala que despachei em Amsterdam, então não tenho fotos daqui por enquanto. Eu tive um dia extraordinário em Amsterdam, com e graças a Ana Júlia, que me hospedou e serviu de guia.

Amsterdam merece um post separado, que não vou escrever agora porque são 5:43 da manhã e ainda não fui dormir. Não fui dormir porque só cheguei no alojamento meia hora atrás. Cheguei tão tarde (ou cedo) porque ontem saí daqui as 9:30 da noite e fui andando pela cidade. Segui pela Mile End Road, White Chapel, Brick Lane, e inúmeras ruelas e becos do East End com nomes inusitados. Passei pela estação ferroviaria de Liverpool Street (que em sua incarnação moderna data dos anos 60, mas que eu acho extremamente charmosa), a ponte do milenium, a ponte Blackfriars e o simpático pub arte deco com o mesmo nome logo em frente, Chancery Lane, Holborn e Oxford Street. Já era mais de 11 da noite, o sol tinha acabado de se por, e eu estava com fome. Continuei portanto até Leicester square, o único lugar onde achava que poderia encontrar algum restaurante aberto.

Após comer uma pizza mediana, o metro já havia encerrado as operações. Desci então até Trafalgar Square (Charing Cross no mapa), onde algum artista maluco organizou um maratona de 100 dias de ocupação initerrupta do quarto pedestal da praça, o único no momento desprovido de estátua. Milhares de voluntários estão se alternando, passando cada um 1 hora no topo fazendo o que lhe vier a cabeça. Sem metrô, e sem um onibus noturno direto, resolvi descansar um pouco e esperar o sol nascer de novo. Periodicamente os voluntários iam se sucedendo (por meio de uma plataforma extensível) no pedestal. Um deles leu um livro, outro cortou o próprio cabelo, e outro ainda protestou contra o fechamento de algum curso de línguas no King's College. Mas o mais interessante foi um prefessor de educação artística de segundo grau, que engravatado e com presença de espírito e de palco, deu uma aula de arte aos gritos, com ajuda de uma série de cópias de pinturas distribuidas por sua assistente. 'O que voces vêem' - ele perguntava. A aula terminou com uma discussão informal (ele ficou feliz em saber a respeito do Brughel que vi hoje na Sotehrby's (outra estória...)). Passei mais uma ou duas horas lendo na praça (muito apropriadamente para um caminhante solitário, um livro novo do Paul Theroux onde ele repete, 30 anos depois, sua viagem solitária de trem através da Europa e Asia), sendo periodicamente interrompido por um bêbado um tanto paranóico chamado Cameron, que inicialmente presumiu que eu fosse um muçulmano lendo o Corão (a barba...), e depois queria saber o que um grupo de barulhentos Italianos estava cantando ao lado.

Em hora nenhuma a praça ficou vazia; inicialmente bandos de turistas passavam apressados, como bandos de aves migratórias, tirando fotos e rindo alto (italianos e brasileiros eram sempre ouvidos antes de serem vistos). Aos poucos, grupos de mendigos foram se formando educadamente nos bancos da praça, preparando-se para dormir. Todos tinham seu equipamento mendigal customizado, e tratavam todo o processo com uma naturalidade desconcertante. Por último, vieram os jovens, pinguços e farreiros a procura de transporte para casa, vindos de incontaveis casas noturnas e festas particulares nas redondezas. Garotas de minissaia e maquiagem borrada, totalmente bebadas, chapinhavam nas fontes e gritavam palavrões. Seus companheiros masculinos urravam selvagemente e encarnavam o papel dos romanos no rapto das sabinas, carregando-as de um lado para o outro nos ombros. Alheios a tudo isso, os amadores no pedestal e suas inevitáveis claques de família e amigos prosseguiam na sua performace.

Com o ceu azul-escuro, peguei finalmente um onibus noturno até Liverpool Street. O McDonalds ao lado da estação dava a impressão de ser o único estabelecimento comercial aberto na cidade, e naquele momento me parecia um lugar extremamente acolhedor, com a perspectiva de um chocolate quente. Um chocolate e mais um ônibus depois, e após uma curta caminhada ao longo do canal, finalmente voltei, saudoso e com 7 horas de atraso, para a minha cama macia e meu chuveiro quente.

Update: O post, agora em português!

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domingo, 5 de julho de 2009

Varanda da casa da Ana Júlia, Amsterdam
Conversas aleatórias II


Eu quase perdi o onibus para Amsterdam. Normal. Tive um viagem um tanto surreal também. Igualmente normal. Mas acho que exagerei um pouco, no dois casos.

Estavamos no churrasco na casa dos pais do Sylvain, a 40km de Paris. O menu consistia em macarrão de pepino com molho curry (bom!), tabule, bolinhos de Gruyere e churrasco de peito de pato (muito bom!!). Mas começava a ficar tarde, e o meu onibus sairia de Paris as 11 da noite. O Sylvain, para seu eterno crédito cármico, decidiu então me levar para a estação de onde sairia o ônibus. Chegamos na Porte de Bagnolet as 10:52, sem saber onde exatamente era a garagem. A passagem especificava um check-in com 30min de antecedencia, com passagem impressa em mãos. Eu estava na vizinhança genérica do ônibus com 8 minutos de antecedencia e a passagem em um .pdf aberto na tela do meu laptop. Depois de alguma perguntas freneticas em frenglish aos locais, consegui finalmente descobrir onde era a tal Eurolines (dentro da estação de metro Gallieni), e fui correndo até o guichê. Cheguei as 10:58, e o guichê de 'Amsterdam' estava vazio. Pedi ajuda ao atendente no guichê ao lado, mas ele, sem levantar os olhos, me disse simplesmente para esperar alguem aparecer. Finalmente, um bigodudo apareceu e tranquilamente verificou minha passagem (na tela) e passaporte, e me indicou a direção do onibus. Cheguei lá esbaforido, junto com uma igualmente esbaforida moça com um sotaque que se revelou sul-africano. A Fathima trabalha de au pair em Rotherdam, e está no momento tentando evitar que sua mãe lhe encontre um jovem de boa família e índole para casar ('Você conhece o Xulambis Beltramis? . Os Beltramis são uma família respeitável. O Xulambis é boa pinta. Advogado. Ganha bem. Ele vem almoçar aqui com a gente hoje a noite....'.

A viagem foi tranquila, e enquanto perocorriamos os velhos campos de batalha da 1a guerra mundial eu ia praticando o kabuki de me entalar em uma posição diferente a cada 15 minutos para conseguir 5 de sono. O ônibus não tinha o elan e o senso de aventura de uma viagem da Cometa em estradas brasileiras, mas consegui não morrer de tédio. Já dentro da Holanda, fomos parados pela policia para controle de passaporte. Entreguei o meu, e este me foi devolvido após breve verificação. Mas o meu vizinho de banco, um sueco, estava sem passaporte. E sem documentos. E quase sem dinheiro. Ele havia sido roubado em Barcelona - disse aos policiais - enquanto dormia na praia. Havia colocado documentos, dinheiro e computador no fundo de seu saco de dormir. Acordou sem eles, com o fundo do saco e os bolsos abertos a faca. Ele havia prestado queixa na policia? Não! Estava tentando voltar para a Suecia de ônibus, sem se preocupar com tais tecnicalidaes. Os policiais não acreditaram muito na história, e o levaram para fora do ônibus para averiguação. Milagrosamente, 20 minutos depois, ele voltou (onde metade dos acordados parecia considerá-lo um meliante perigoso, a julgar pelos olhares); havia convencido os policiais de que a sua história era pelo menos plausível, e que a maneira mais eficiente de resolver a situação seria deixa-lo voltar para seu pais.

Depois disso, começamos a conversar. Contei da vez em que quase fui preso em Bruxelas ao cuidar de uma mala (dentro da qual havia uma caixa de metal impermeavel à raio-x), pertecente à uma esquecida velhinha argentina que simplesmente saiu do aeroporto e foi para casa. O Sebastian (o nome do elemento suspeito sueco, foto ao lado) vive de hip-hop e de fazer mágicas de baralho (ele é bom!). Ficamos conversando com a Fathima (que já levou um tiro de raspão e foi esfaqueada, trabalhando no sistema de justiça sul-africano), até ela descer em Rotherdam e nos em Amsterdam. Sebastian e eu pegamos o metrô em direção à estação central. Metro este em que todos os passageiros, a excessão de nos dois, estavam vestidos de branco. Obviamente existe uma explicação racional para isto (uma festa, aparentemente), mas por um momento pairou aquele clima de Além da Imaginação que seria o cliffhanger ideal se minha vida fosse uma série de televisão.

Chegando na estação central, me despedi do Sebastain (a procura de um café onde esperar o seu ônibus para Copenhagen), e fui procurar alguma informação sobre o bonde para a casa da Ana Júlia. Mal andei dois passos, e comecei a ouvir uma animada conversa em português. Um dos participantes, o Vanderly, prontamente se ofereceu para me levar até o ponto. Ele é de Belo Horizonte também, fez eletrônica no Cefet e passou o pão que o diabo amassou em Portugal antes de se arrumar em Amsterdam, onde é DJ e mora com um grupo de maranhenses.

Já no ponto, estavamos determinando o meu itenerário e conversando quando uma velhinha holandesa, sentada no banco, se oferece em excelente inglês para me ajudar. Ela me indicou a estação, bonde e horario corretos, e (obviamente) começamos a conversar. A Anka conheceu o marido inglês em um festival de Jazz em Amsterdam, e viveu em Londres por vários anos, só recentemente (com a morte do dito cujo) retornando à Holanda. Ela pegou o mesmo bonde que eu, e fui fazendo uma city tour guiado por ela até eu chegar no meu destino.

Os Holandeses são muito simpáticos, e falam excelente inglês. Mas pelo menos onde a Ana Júlia mora, eles usam uma noção generalisada do conceito de rua um tanto confusa, que inclui ramos laterais quase fractais e numeração semi-sequencial (um pouco como o departamente do física da UFMG). Mas depois de andar um pouco, consegui percolar até aqui, para dormir um pouco porque toda esta interação com pessoas randômicas é exaustiva. Hoje vou conhecer o que puder de Amsterdam, antes de embarcar amanhã de manhã para Londres. Vamos ver quem eu vou encontrar desta vez.

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sábado, 4 de julho de 2009

Chateaux Carrel, Magny-Les-Hameaux
Conversas Aleatórias

Estou em Magny-Les-Hameaux, a uns 40 km de Paris, na casa dos pais do Sylvain, o marido da Mari. No momento a carne está na churrasqueira e nos preparamos para comer um churrasco a francesa. Hoje alugamos um carro e fomos em Giverny, a cidade onde o a casa e o jardim onde Monet pintou algumas de suas principais obras. A casa é interessante, rechada de arte japonesa (da qual o Monet foi um dos primeiros apreciadores na Europa), com uma agradabilíssimo estúdio onde ele trabalhava. Mas sao os jardins que realmente impressionam. Não tenho nem tempo nem o temperamento de ficar tecendo alguma prosa púrpura descrevendo o perfume das azaleias ou a inefável paleta de cores das flores, ou alguma xaropadao do gênero. O lugar tem que ser visitado para ser apreciado, já que a experiência é olfativa tanto quanto visual. Mas as fotos ainda valem a pena... (no final do post)

Fechado o museu, viemos para a casa dos (extremeamento simpáticos!) pais do Sylvain, onde tive uma inesperada mas fascinante aula de 'Systema', um tipo de arte marcial russa que o irmão do Sylvain, Dominique estuda. Depois descrevo os detalhes que a comida está saindo...





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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Calçada em frente ao Gare Montparnase, Paris
Internet de guerrilha

Estou no momento sentado na calçada, na frente da Gare Montparnasse, filando um wifi. São 11:53 da noite... Hoje é aniversário da Ceci, mas eu não consigo falar com ela, o que me leva a apelar para este tipo de internet de guerrilha, já que na casa da Jacqueline não há wifi. De qualquer maneira, uma foto para não perder a viagem.

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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Palais de l'Unesco, Paris
Passeando em Paris, voltando no tempo e viajando na maionese

O sol se põe tarde no verão aqui em Paris, e se põe lentamente. Eram 8:30 da noite de segunda feira quando nos sentamos para comer na margem do rio Sena, e o sol se punha. Ele continuava se pondo quando terminamos, duas horas depois. Foi um agradavel piquenique, na companhia de um grupo de físicos (e uma matemática) brasileiros, ao longo de um entardecer de duas horas.


Após me despedir de todos, fui fazer pelo segundo dia consecutivo um passeio tardinoturno ao longo do Sena. É a hora em que Paris é mais bonita, e mais fotogênica. É também um horário em que não há nada aberto nesta roça além de restaurantes e casas noturnas, então passear acaba sendo não só o melhor, mas também o único programa.


As vezes o tempo passa devagar, e as vezes na recontagem ele passa ao contrário. Fomos para o convescote depois de sair do primeiro dia de palestras do 'Universo Invisivel'. O encontro está acontecendo no Palacio da Unesco, que é um tanto mais principesco que os locais típicos onde físicos se reunem (embora não seja nem de longe tão charmoso quanto o Observatorio de Paris). O prédio em si é uma obra em estilo modernista perfeitamente ordinaria que se parece como uma paródia de um prédio típico projetado em estilo modernista. Não sei se é overdose de Oscar Niemayer, e que me perdoem os fãs, mas poucas obras arquitetonicas me provocaram tanta indiferença quanto esta.

O interior do prédio, alcançado após passar pelo raio-x e negociar com o segurança em frenglish a custódia do meu canivete, é agradável e misericordialmente fresco (o clima por aqui está muito quente e sem vento). Me pareceu, porém, um tanto vazio; não há muita atividade aparente na sede mundial da Unesco, pelo menos nesta época do ano. As plenárias acontecem em um salão grandioso aparentemente dedicado a conferencias entre representantes dos paises-membros, com um mural celebrando a amizade entre os povos e outros sentimentos igualmente nobres, microfones para apartes dos diplomatas, assentos retraidos para assessores, e cabines vidradas para tradução simultânea (em inglês, francês, espanhol, russo, árabe e chinês, segundo as legendas). Fiquei tentado a rejeitar veementemente a moção apresentado pelo honorável representante da Tchecoslováquia, ou algo assim, mas me contive. As palestras têm sido na maior parte interessantes (em particular a do Padmanaban sobre relatividade geral vista do ponto de vista da termodinâmica); além disso, para mim é bom reestabelecer um contato mais próximo com a cosmologia de tempos em tempos, dado o meu corrente idílio neurocientífico.

Eu tive alguma dificuldade em acordar na segunda, porém, e perdi as palavras de abertura onde os organizadores se agradecem mutualmente pelo trabalho realizado, tecem loas aos patrocinadores do evento, e discorrem sobre como a nossa (uso o pronome no sentido mais lato) presença lhes causa um extase indescritivel. Ou algo assim. A razão do sono foi o meu passeio (mencionado acima) tardinoturno no domingo. Após pegar minhas credenciais no Observatório, e filar internet no meu ponto tradicional atrás da Notre Dame, fui pedalando ao longo da margem sul do Sena, passando pelo Louvre, pelo Invalides, dando um pulinho no Petit Palais para mais um pouco de WiFi, e uma esticada até a torre Eiffel, antes de tomar o rumo de casa por volta de meia noite.





O próprio domingo já havia começado um pouco tarde, graças ao passeio noturno de sábado, este a pé, que fiz o a Jacqueline (cf. o post anterior). Desta vez saimos de casa por volta de 11 da manhã, e fomos (de metrô) ao Museu do quai Branly, para ver (no último dia) uma retrospectiva sobre a história do Jazz, de 1917 até os dias de hoje. Uma exposição interessante, onde a música (emitida por pequenas caixas de som embutidas nas paredes) e alguns filmes estavam totalmente integrados aos items pictóricos. O museu em si também vale a pena: A coleção permanente é dedicada à arte da asia, africa e américas (i.e., a não-europa), e o prédio consegue combinar harmoniosamente formas geométricas flutuantes, telas vegetais e cercas vivas, e a vista da Torre Eiffel ao fundo.






Na prática, além de todo o seu mérito acadêmico, o 'Universo Invisível' também serve uma função fisiológica: Desde que cheguei aqui, passei a maior parte do meu tempo pedalando ou andando. É bom poder sentar e descansar as pernas por algumas horas de vez em quando.

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